Mostrar mensagens com a etiqueta cooperantes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta cooperantes. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, abril 13, 2015

Línguas de ensino

Há dias participei num debate no Facebook com uns colegas da área da linguística e ensino sobre o significado do Artigo 8.º da Lei de Bases da Educação (“Línguas do sistema educativo”), que diz que: ”As línguas de ensino do sistema educativo timorense são o tétum e o português.” Creio que é óbvio para quem saiba ler português que a intenção do legislador era dizer que as escolas do sistema de ensino timorense têm que ensinar os diversos conteúdos (matemática, ciências, etc) nas línguas oficiais, até porque a LBE foi aprovada em 2008 e na legislatura de 2007-2012 o Parlamento Nacional também aprovou a Resolução nº 20/2011. Mas, como houve uma colega que defendeu uma interpretação diferente, a de que a referência a “línguas de ensino” no artigo 8º significa que “no sistema educativo timorense o tétum e o português são disciplinas ou componentes curriculares“, fiz uma pesquisa rápida na Internet para ver com que significado é que a expressão “línguas de ensino” é usada pelos especialistas no ensino de língua segunda e língua estrangeira.
Eis alguns excertos de documentos que encontrei:

Da Professora Doutora Maria José Grosso:
"Os que são oriundos de países africanos e que têm o português como língua segunda, (acepção de língua de ensino com estatuto oficial, ensinada nas escolas e que participa também na socialização da criança e no seu desenvolvimento cognitivo); estudam português por razões académicas ou profissionais (ou os que em idade escolar estão inseridos no Sistema do Ensino em Portugal). http://mha.home.sapo.pt/imagens/t4.pdf

Ainda segundo Maria José Grosso (et al) no QuaREPE:
“Os conceitos de língua materna, língua estrangeira, língua segunda são conceitos polissémicos que não correspondem a uma definição linear. O conceito de Língua Materna apela ao de língua da socialização, que, por definição, transmite à criança a mundividência de uma determinada sociedade, cujo principal transmissor é geralmente a família. O conceito de Língua Estrangeira facilmente se define como a língua que não faz parte dessa socialização primária, estando subjacente uma série de princípios metodológicos. Na tradição da didáctica das línguas, o conceito de Língua Segunda ocorre frequentemente como a língua que, não sendo materna, é oficial (ou tem um estatuto especial) sendo também a língua de ensino e da socialização secundária. Há, no entanto, alguns autores que consideram que é Língua Segunda desde que os aprendentes estejam em imersão linguística, num contexto em contacto com os falantes nativos da língua que aprendem. Cf. Grosso (2005: 608).”

Diz-nos Marie Quinn num texto de 2008 (Choosing Languages for Teaching in Primary School Classrooms):
In relation to the Portuguese, this position has been further strengthened by the recent educational directive from the MEC. In this, Portuguese is identified to take precedence as the language of education, while Tetum, seen predominantly as an oral language, will serve as an auxiliary language together with mother tongues:

… dado que o Tétum ainda está em processo de desenvolvimento e sendo uma língua predominantemente oral, o Português terá preferência como língua de instrução ou ensino. O Tétum, particularmente, e as demais línguas maternas serão usadas como línguas auxiliares pedagógicas, quando necessário, particularmente nos primeiro anos.

given that Tetum is still in the process of development and being a predominantly oral language, Portuguese will have preference as a language of instruction or teaching language. Tetum, particularly, and the other maternal languages will be used as auxiliary pedagogical languages, when necessary, particularly in the first years.
MEC 2006“

 Do Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas:
"No exemplo sumário que se apresenta de seguida, que trata daquilo que pode ser pensado pelas opções ou variações de cenário, são delineados dois tipos de organização e de decisões curriculares para um determinado sistema escolar, de forma a incluir, como acima foi sugerido, duas línguas modernas para além da língua de instrução (convencionalmente, mas de forma errada, referida abaixo como língua nativa, uma vez que todos sabem que a língua do ensino, até na Europa, não é, frequentemente, a língua materna dos alunos): uma língua iniciada na escola primária (língua estrangeira 1, daqui por diante LE1), outra no nível secundário inferior (língua estrangeira 2, daqui por diante LE2) e ainda outra (LE3) como disciplina opcional, no ensino secundário de nível mais avançado." 

De Isabel Leiria:
Não se pense, contudo, que a unanimidade tem sido absoluta entre os africanos (do mesmo modo que não tem sido entre os portugueses), não quanto à opção do português como língua oficial, mas como primeira e única língua de ensino e de alfabetização. (...) Experiências de ensino bilingue têm sido ensaiadas, mas sem grande sucesso. Na Guiné-Bissau, por exemplo, no ano lectivo de 1977/78, com o apoio de Paulo Freire, foram criados Centros de Educação Popular Integrada (CEPI). Foi decidido utilizar "a língua comunitária, o crioulo, como língua de ensino para melhor facilitar a aprendizagem dos conteúdos e a inserção das crianças na escola." Os resultados não foram muito visíveis, porque nas zonas de implantação dos CEPI (manjaca, balanta e bijago) o crioulo não era língua veicular para estas populações, porque se continuava a fazer sentir a influência dos ensinamentos de Amílcar Cabral (a língua oficial é o português) e porque "a população tem uma atitude passiva e às vezes mesmo negativa quanto à introdução do crioulo" (Barreto 2005).”

No documento “Diversidade Linguística na Escola Portuguesa” do ILTEC:
“Por enquanto, em Portugal, todas as aprendizagens (para além das línguas estrangeiras) são feitas em língua portuguesa, mesmo que, através das equivalências, os alunos originários de outros países se possam integrar num qualquer ano do ensino básico sem dominarem, ou dominando mal, a língua de ensino que para eles é língua segunda.”

Portanto, está demonstrado que muitos importantes especialistas usam os termos “língua de ensino” e “língua de instrução” como sinónimos, com o significado de língua em que funciona o sistema educativo. E, de resto, não é apropriado para estudantes destas coisas usar malabarismos terminológicos para tentar convencer os outros das suas opiniões; a pedagogia e a linguística não são como na matemática, em que 2+2 são sempre 4, e basta ler autores como Skinner, Lado, Chomsky, Bley-Vroman, Krashen, Zobl, Schwartz, White, etc, para perceber que há distintas formas de definir os conceitos e muitas teorias diferentes sobre como funciona a aprendizagem da língua segunda (ou aquisição da língua segunda – nem sobre isto os especialistas se entendem).

A política linguística de um país é definida pelos representantes democraticamente eleitos do povo desse país, não por técnicos. O papel dos técnicos é implementar a decisão política. 

sábado, agosto 07, 2010

Livros à vontade do freguês


A primeira vez que entrei no Blurb foi para comprar um livro do Celso Oliveira. Gostei do conceito. Há várias empresas semelhantes na Internet, mas a Blurb é das que fornece um serviço mais simples, prático e barato. Eles disponibilizam software, a pessoa prepara o livro que quer, como quer, no seu próprio computador, e depois carrega o produto final no sítio deles. O livro ficará disponível para quem o quiser comprar, e cada vez que há uma encomenda eles imprimem um exemplar (ou mais, dependendo do que o comprador quer). Cada cópia sai mais cara do que o preço por unidade de um livro impresso numa gráfica, mas é muito útil para quem pretende publicar por exemplo uma monografia sobre marcadores incoativos no macu’a ou macuva (lovaia epulo), ou uma tradução d”Os Maias” para esta língua timorense. Como o número de falantes que resta não chega a meia dúzia, será muito mais adequado imprimir algumas cópias no Blurb do que procurar uma editora que publique uma edição com grande tiragem. A Blurb exige apenas que seja comprada pelo menos uma cópia de cada livro publicado através deles. A pessoa que publica o livro pode escolher deixar o livro à venda pelo preço cobrado pela Blurb ou acrescentar uma margem de lucro para si. Eis a minha primeira experiência, para testar a qualidade do serviço, com dois textos que tinha publicado na Internet há algum tempo sobre o ensino de português em Timor:

quinta-feira, julho 16, 2009

Após uma década de apoio à reintrodução da língua portuguesa em Timor

Isto são as fotografias das prateleiras de livros sobre línguas numa das principais livrarias da capital timorense. Temos:
- 1 Dicionário de inglês-indonésio
- 1 Dicionário de indonésio-inglês
- 1 Dicionário de sueco-indonésio
- 2 Dicionários distintos de alemão-indonésio,
- 1 Dicionário de indonésio-alemão
- 1 Dicionário de alemão-indonésio e indonésio-alemão
- 1 Dicionário de italiano-indonésio
- 1 Dicionário de tétum-indonésio e indonésio-tétum (publicado pela Gramedia – que é uma livraria/editora do tipo Fnac na Indonésia - de acordo com as normas oficiais em vigor para o tétum)
- 1 Dicionário de coreano-indonésio e indonésio-coreano
- 1 Dicionário de francês-indonésio e indonésio-francês
- 1 Dicionários de francês-indonésio,
- 1 Dicionário de indonésio-espanhol
- 1 Dicionário de espanhol-indonésio
- diversos dicionários indonésios de termos técnicos de biologia, química, física, medicina, economia, sociologia, política moderna, expressões idiomáticas, etc.

Não existem no mercado dicionários de indonésio-português, nem de português-indonésio, nem dicionários de português-tétum, nem dicionários de tétum(contemporâneo e oficial)-português. Após uma década de projectos de apoio à reintrodução da língua portuguesa em Timor, é impressão minha ou falta aqui alguma coisa?

segunda-feira, dezembro 31, 2007

Os nativistas

Senghor dizia que a emoção é negra como a razão é grega. Senghor às vezes tinha ideias parvas. Um negro africano que é educado num ambiente intelectualmente estimulante onde se promove o espírito científico, que tem acesso a uma boa escola, pode tornar-se um especialista em física quântica ou nanotecnologia, e um grego ou americano ou sueco educado numa aldeia onde o único intelectual é o feiticeiro local pode vir a ser um brilhante dançarino e um excelente declamador de poesia tradicional. Há uns anos atrás (antes do acelerado processo de modernização de Portugal nas últimas três décadas), a vida de um camponês português era o trabalho duro não-mecanizado no campo, com intervalos para dançar o vira e rezar aos santinhos para que a colheita das batatas fosse boa. Era esperado que a vida do filho dele fosse semelhante.

Os movimentos nativistas como a negritude, de que Senghor foi um expoente, tinham subjacente a ideia de que o contacto com a cultura dos colonizadores corrompia e que o verdadeiro nacionalista tinha que ir procurar uma suposta “pureza” cultural nativa, intocada e magnífica, vinda directamente das raízes da mãe-terra, ligada aos rituais ancestrais. Em Timor o nativismo revelou-se no mauberismo, que exaltava aqueles que, ao contrário dos “assimilados”, tinham supostamente conseguido não ser conspurcados pelo colonialismo. O mauberismo produziu pouco em termos literários, alguma coisa ao nível da chamada “poesia de combate” (má, na maior parte) e algumas cantigas políticas. Mostrou-se contudo muito produtivo como forma de propaganda política e mobilização, e nalguns sectores a sua influência continua até hoje.

Porém, nesta época de marketing new age, em que muita gente anda à procura de “autenticidade” e de “culturas e práticas medicinais milenares”, e outras coisas que tais, Portugal também exporta malais nativistas para Timor. São uma espécie engraçada, querem tudo típico, pitoresco, e “realmente tradicional”: as roupas, o artesanato, a música, a comida... (Indignam-se se alguém lhes sugere que comam nasi goreng, por ser indonésio, e exigem katupa, que crêem “verdadeiramente timorense” – sem saberem que a palavra katupa é ela própria um antigo empréstimo lexical do malaio). Os nativistas acham que o bom nativo é o nativo “genuíno”, gostam que os indígenas sejam autênticos e ficam chateados quando os autóctones não colaboram.

Se em Portugal as suas filhas adolescentes vão à missa com roupas mais casuais eles aplaudem os sinais de abertura e modernização da Igreja Católica portuguesa que já deixou de impôr códigos de vestuário arcaicos e criticam jocosamente os comentários reaccionários da avó que lá na aldeia natal protesta contra a “pouca-vergonha” das netas, mas se as moças timorenses fazem o mesmo, os nativistas imediatamente barafustam em coro com as velhas locais que falam da degradação e da falta de dignidade das novas gerações. E, claro, denunciam os efeitos nefastos da globalização contra as culturas nacionais e locais. Como eles é que sabem o que é melhor para o futuro de Timor, nem se lembram de perguntar às jovens quais são as impressões delas sobre o assunto. Também não querem ouvir falar de guitarras eléctricas e afins na terra do crocodilo. No entanto, estes nativistas cá em Portugal não obrigam os seus rebentos a restringir o seu gosto musical às recolhas de cantigas tradicionais feitas por Michel Giacometti, e não pensam que os seus filhos fiquem menos portugueses por ouvirem Pedro Abrunhosa, ou Silence 4, ou Sex Pistols, ou death metal.

Os nativistas quando estão cá são gente bem-pensante, cosmopolita q.b., e riem-se do país atrasado e parolo dos “tempos da outra senhora”. Por exemplo, durante a ditadura salazarista a Coca-Cola era proibida em Portugal. Uma das razões era a protecção da viticultura (“Beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses”, dizia-se então), mas no livrinho de Maria Filomena Mónica “Os Costumes em Portugal” (um dos “Cadernos do Público”) cita-se uma carta de Salazar a A. Makinsky, responsável da empresa para a Europa, que mostra uma outra razão: «Sei perfeitamente que o senhor nada tem a ver com vinhos, nem com sumos de fruta e é bem por outra razão que – apesar das excelentes relações que mantemos, o senhor e eu, e que datam da época em que representava a Fundação Rockefeller e não sonhava sequer em fazer parte da Coca-Cola – sempre me opus à sua aparição no mercado português. Trata-se daquilo a que eu poderia chamar a ‘nossa paisagem moral’. Portugal é um país conservador, paternalista e – Deus seja louvado – ‘atrasado’, termo que eu considero mais lisonjeiro do que pejorativo. O senhor arrisca-se a introduzir em Portugal aquilo que eu detesto acima de tudo, ou seja, o modernismo e a famosa ‘efficiency’. Estremeço perante a ideia dos vossos camiões a percorrer, a toda a velocidade, as ruas das nossas velhas cidades, acelerando, à medida que passam o ritmo dos nossos hábitos seculares.» Os nativistas, que não hesitam em rejeitar as opções de Salazar que mantiveram o país como uma espécie de terceiro mundo dentro da Europa, também não hesitam em imitar o raciocínio do velho ditador quando falam da terra dos outros.

quinta-feira, setembro 20, 2007

sexta-feira, maio 04, 2007

Quando for grande quero ser professor de inglês

Anúncio publicado hoje (4 de Maio 07) no jornal diário mais lido em Timor (o STL).


Ganham bem estes professores australianos (US$50000-60000 por um contrato de um ano). Alguns portugueses que costumam espernear muito com os ataques à língua portuguesa em Timor irão seguramente começar agora a criticar o comandante das FDTL, Taur Matan Ruak, por permitir esta concorrência desleal contra o idioma de Camões.
E talvez até façam “uma vaquinha”, ou subscrição pública, para aumentar o salário dos professores portugueses...

domingo, agosto 06, 2006

Os cães ladram mas a caravana passa

Fui acusado num blog de ser neo-colonialista e adversário do poder popular por causa desta minha frase, aí citada: “Aqueles que não vêem uma única coisa positiva na experiência colonial deverão considerar a colonização de Timor Oriental pelos portugueses como exemplar, já que primou pela ausência e pela pouca interferência nas estruturas sociais e culturais timorenses.” No mesmo blog “acusavam-me” ainda de ser um teórico da formação de elites. Analisemos então estas “acusações”, num espírito construtivo para ajudar alguns espíritos mais confundidos a verem a luz.
Quando se debate o colonialismo aparecem frequentemente os zelotes convencidos de que são donos da verdade, fanáticos dispostos a passar por cima de todos os factos que dificultem a adequação das suas teorias e grelhas de análise. Há uns de um lado a defender o nacionalismo serôdio das potências coloniais e a sua missão civilizadora atribuída directamente por Deus e “o fardo do homem branco”, e há os que estão do outro lado e que defendem a pureza igualitária imaculada dos povos oprimidos e a sua cultura superior própria de um Éden onde não havia injustiça antes da chegada do pérfido europeu. Estes são os teóricos d”o remorso do homem branco”, como explica Pascal Bruckner.
Vejamos o que dizem sobre esta questão dois académicos prestigiados da área dos estudos timorenses, Geoffrey Stephen Hull, Ph.D, da University of Western Sydney, e Adérito José Guterres Correia, M.A., da Universidade Nacional Timor Lorosa’e e sub-director do Instituto Nacional de Linguística, num livro que ambos escreveram e que recomendo a todos os cooperantes que trabalham com seriedade em Timor ou por Timor:

Nu'udar ita hatene, prosesu istóriku ida-ne'ebé ita bolu naran kolonializmu iha aspetu barak. Ema polítiku sira temi beibeik kona-ba aspetu aat ka negativu kolonializmu nian, n.e. nasaun ida hadau nasaun seluk, hanehan populasaun mahorik hodi susu rain ne'e nia bokur no rikusoin tomak. Maibé ema matenek sira rekoñese mós kolonializmu nia aspetu di'ak ka pozitivu oioin, liuliu troka kulturál. Kontaktu ho ema raiseluk sira fó mós ba ema rai-na'in sira leet atu aprende buat barak, la'ós de'it hadi'a sira-nia teknolojia, maibé mós leet atu haluan no haburas sira-nia matenek.
Liuhosi kolonializmu portugés iha Timór, hanesan kolonializmu olandés iha rai-Indonézia, ema mahorik sira iha Nusa-Lubun Malaiu tama ba kontaktu ho kultura rai-Europa nian no mós ho matenek internasionál. Lia-tetun no lia-malaiu simu hosi lia-portugés ka lia-olandés termu tékniku, abstratu no modernu rihun ba rihun. Tan ne'e, lia-malaiu no lia-tetun hetan sorte atubele fahe lisuk rikusoin intelektuál boot ne'ebé naklekar hosi rai-Europa ba mundu tomak.
” (página 95)

O livro chama-se “Kursu Gramátika Tetun – Ba Profesór, Tradutór, Jornalista no Estudante-Universidade Sira” e foi publicado em Díli, em 2005, pelo Instituto Nacional de Linguística (sairam duas edições, estou a citar a que tem prefácio do então Primeiro-Ministro, Dr. Mari Alkatiri).
Vou traduzir o excerto, para aqueles malais teóricos do poder popular que em Timor só falam com as elites e cujo contacto com o povo se limita a “Mana, kafé ida, mas tem que ser curto, escaldado e bem tirado!”.

Como sabemos, o processo histórico a que chamamos colonialismo tem muitos aspectos. Os políticos mencionam muitas vezes os aspectos maus ou negativos do colonialismo, como a ocupação de uma nação por outra, e o espezinhamento dos seus habitantes para sugar todos os recursos e riquezas dessa terra. Mas as pessoas inteligentes também reconhecem aspectos bons ou positivos do colonialismo, principalmente ao nível das trocas culturais. Os contactos com gente de outras terras permitiram também às populações autóctones aprenderem muitas coisas, não apenas melhorando a sua tecnologia, mas dando-lhes também oportunidade de alargar os seus horizontes intelectuais e culturais.
Através do colonialismo português em Timor, bem como do colonialismo holandês na Indonésia, os habitantes do Arquipélago Malaio entraram em contacto com a cultura europeia e com a ciência internacional. A língua tétum e a língua malaia receberam do português e do holandês milhares de termos técnicos, abstractos e modernos. Por isso, o malaio e o tétum tiveram sorte em poderam partilhar riquezas intelectuais importantes que se espalharam da Europa para o mundo inteiro.
” [o sublinhado é meu].

Em relação ao outro assunto, a ideia de ter algumas escolas de qualidade para formar elites não é obviamente minha, é muito antiga. Penso que a educação devia chegar a todos, mas não construo castelos no ar, porque vivo no Timor real. Ainda anteontem em Liquiçá um professor do ensino pré-secundário (7º ao 9º ano) me dizia que não tinham professores suficientes na escola dele para ensinar em português (apesar de serem essas as instruções oficiais) e que os poucos que tinha havido eram de lorosa’e e tinham fugido para as suas regiões de origem com medo de ataques. De resto, a Dona “margarida” [a tal senhora que me fez as acusações], se morar agora em Díli, ou vier a morar, vai pôr os seus filhos na Escola Portuguesa (para elites) ou continuará adepta de uma educação igual para toda a gente e de maneira coerente matriculará as suas crianças numa escola como a 28 de Novembro? E dou o exemplo da Escola 28 de Novembro por duas razões: 1) tem um nome revolucionário; 2) os seus filhos poderão talvez, com sorte, vir a ter a oportunidade de ver as massas populares em acção, e participar até nos acontecimentos, já que essa escola tem no seu palmarés ter sido o ponto de partida dos motins infanto-juvenis de 4 de Dezembro de 2002. Agora sem ironia, não há nada que distinga especialmente esta escola, e os jovens delinquentes pirómanos poderiam ter surgido de outra qualquer, como mostra a última vaga de incêndios nestes meses recentes. Timor tem uma percentagem muitíssimo grande da população constituída por crianças e jovens, que na maioria vão para a escola sem outra perspectiva que não seja vir a conseguir um “padrinho” que arranje um lugar na função pública ou então um emprego como “segurança”, eufemismo local para indivíduos contratados para dormir em frente à porta dos malais e endinheirados. Quase não há sector privado, faltam cá ainda “capitalistas”, “burgueses” e outros “inimigos das classes populares” que possam finalmente dinamizar a economia e arranjar mercado de trabalho para esta malta toda, recrutando mão-de-obra usando como critério o mérito individual do candidato. Há demasiados jovens cuja única forma de sobressair perante os seus pares é “armarem-se em galo de combate”.
Existem por outro lado muitos malais internacionalistas que ganham muito, compram nos supermercados produtos importados (até a hortaliça que comem vem da Austrália), mandam a maior do dinheiro que ganham para as suas contas bancárias nos países de origem, e são paladinos do poder popular e do anti-neo-colonialismo!
O corpo docente das escolas timorenses tem pouca formação, há grande falta de livros, a maior parte das pessoas fala ou compreende pelo menos algum português mas não o suficiente para ler nessa língua, os hábitos de leitura são de resto quase inexistentes, em qualquer idioma... O aluno médio termina a escola secundária com uma deficiente preparação de base que não lhe permite frequentar as universidades portuguesas, por exemplo. Por isso é que me parece não apenas importante, mas crucial, para o futuro do país que surjam algumas escolas de qualidade superior para a formação dos quadros que irão tomar conta do país daqui por uns anos. Neste momento há demasiadas instituições e estruturas do Estado que dependem ainda do trabalho de assessores internacionais para funcionarem, se não tivermos algumas escolas de excelência estaremos pior daqui por vinte anos.
Para as pessoas que andam à procura de cartões partidários para decidir se uma ideia é válida ou não, permito-me invocar aqui uma personalidade que certamente não irão atacar. Conheci na Guiné-Bissau quadros guineenses que deviam a sua educação e o seu sucesso como intelectuais aos esforços de Amílcar Cabral, que, há mais de três décadas, andava às vezes pelas tabancas da Guiné a procurar crianças com melhores resultados escolares para pedir aos pais delas que o deixassem mandá-las para uma escola-piloto numa base do seu movimento na Guiné-Conacri, para serem formadas e poderem servir no futuro o seu país. Alguns desses quadros eram provenientes de famílias muito humildes de camponeses ou vaqueiros (os seus irmãos continuam ainda a viver nas tabancas dos antepassados) e nunca teriam podido explorar todo o seu potencial se não tivessem tido a oportunidade de entrar numa escola de qualidade.
Não vão ser as massas de camponeses analfabetos que irão tomar conta das universidades, dos ministérios, dos bancos, das empresas, das companhias de telecomunicações, electricidade, água... Também não vão poder ser muitos dos alunos que actualmente chegam ao ensino superior em Timor. Há que deixar de ter medo das palavras, o país precisa de elites, de indivíduos bem formados – por muito que isso seja difícil de perceber para uns quantos líricos teóricos do poder das massas populares que andam por aí. No romance “Mayombe”, do escritor angolano Pepetela, há um personagem, chamado Mundo Novo, que também defende esse tipo de ideias. Diz ele:

“(...) Como se fosse possível fazer-se uma Revolução só com homens interesseiros, egoístas! Eu não sou egoísta, o marxismo-leninismo mostrou-me que o homem como indivíduo não é nada, só as massas constroem a história. Se fosse egoísta, agora estaria na Europa, como tantos outros, trabalhando e ganhando bem. Porque vim lutar? Porque sou desinteressado. Os operários e os camponeses são desinteressados, são a vanguarda do povo, vanguarda pura, que não transporta com ela o pecado original da burguesia de que os intelectuais só muito dificilmente se podem libertar. Eu libertei-me, graças ao marxismo.(...)”.

Na época os “intelectuais revolucionários desinteressados” tinham que abdicar dos empregos bem pagos na Europa, felizmente agora para os “malais desinteressados adeptos do poder das massas” existem ajudas de custo, e bar do Hotel Timor, e salários milionários na ONU ou na cooperação bilateral, e viagens a Auckland, Hong Kong, Bali, etc... Eu ganho mais do que a maior parte dos timorenses (e menos do que a grande maioria dos malais), mas não sou hipócrita. Enfim, na sequência das reflexões e debates no livro há um outro personagem, Sem Medo, que mais à frente diz:

“(...) É que, nos nossos países, tudo repousa num núcleo restrito, porque há falta de quadros, por vezes num só homem. Como contestar no interior dum grupo restrito? Porque é demagogia dizer que o proletariado tomará o poder. Quem toma o poder é um pequeno grupo de homens, na melhor das hipóteses, representando o proletariado ou querendo representá-lo. A mentira começa quando se diz que o proletariado tomou o poder. Para fazer parte da equipa dirigente, é preciso ter uma razoável formação política e cultural. O operário que a isso acede passou muitos anos ou na organização ou estudando. Deixa de ser proletário, é um intelectual. Mas nós todos temos medo de chamar as coisas pelos seus nomes e, sobretudo, esse nome de intelectual. Tu, Comissário, és um camponês? Porque o teu pai foi camponês, tu és camponês? Estudaste um pouco, leste muito, há anos que fazes um trabalho político, és um camponês? Não, és um intelectual. Negá-lo é demagogia, é populismo. (...) Mas começa-se a mentir ao povo, o qual bem vê que não controla nada o Partido nem o Estado e é o princípio da desconfiança, à qual se sucederá a desmobilização. (...) Como todos os do teu grupo, pensas que se não pode dizer a verdade ao povo, senão ele desmobiliza-se.(...)”

Sou da opinião que – enquanto o português não é dominado por muitos alunos – o romance de Pepetela “A geração da utopia” devia ser traduzido para tétum e tornado leitura obrigatória nas escolas todas do país.

segunda-feira, junho 05, 2006

Chegou a GNR

A GNR ja esta em Timor, o comercio comeca a ter confianca para voltar a funcionar (o City Cafe ja voltou a actividade, p.ex.), passei ha bocadinho nos correios de motorizada e tinham ja a porta aberta, os colegas que trabalham como consultores no Parlamento ja voltaram ao trabalho... Os alunos perguntam-nos quando recomecam as aulas... Isto esta a voltar a funcionar...

quinta-feira, junho 01, 2006

A ajudar a medica da Cooperacao Portuguesa - hoje

Professores portugueses da FUP e do ME a ajudar a medica da Cooperacao Portuguesa a dar desparasitantes de administracao oral a criancas refugiadas:









Professores portugueses em Dili hoje - 2





Professores portugueses em Dili hoje

Em varios lugares onde a populacao se tem concentrado procurando refugio a tendencia agora esta a ser passar la a noite (onde se sentem seguros) e durante o dia voltar para as suas casas, ir levantar sacos de arroz onde estes estao a ser distribuidos, ou fazer pela vida pescando e vendendo o peixe na rua, fazendo venda ambulante de tangerinas, etc...
Assim durante o dia o numero de refugiados diminui, mas ha quem fique mesmo assim, alguns porque ja nao tem casa, nem nada...
As fotografias abaixo mostram professores portugueses da Fundacao das Universidades Portuguesas e do Ministerio da Educacao a distribuirem comida, agua e chupa-chupas a criancas refugiadas (na Igreja Evangelica, na Igreja de Motael, no jardim do Banco Mundial) e a fazerem actividades recreativas com esses meninos e meninas:





A assistencia humanitaria da ONU esta de ferias em Darwin?

Hoje de manha o Nuno Matias, da FUP, tres colegas do ME, a Marta, a Ana e a Susana, e eu, andamos a distribuir pao, agua e chupa-chupas as criancas em lugares onde ha populacao refugiada aqui em Dili. Ha outros grupos de cooperantes portugueses a fazer o mesmo, e outros que com grande profissionalismo mantem o funcionamento de instituicoes cruciais neste momento, como a Alfandega (para entrada de produtos tao necessarios).

Enquanto isto, nao se percebe muito bem onde estao os aparelhos de assistencia humanitaria do Programa Alimentar Mundial, do ACNUR, da UNICEF... Estao todos de ferias em Darwin?

quarta-feira, maio 31, 2006

SNESup errou

Lisboa, 30 Mai (Lusa) - O Sindicato Nacional do Ensino Superior (SNESup) pediu hoje ao Governo que alerte os professores portugueses em Timor-Leste para o "perigo que correm", defendendo que os docentes "não têm a percepção exacta do risco" de permanecer no país.

Sou professor do Ensino Superior em Dili e nao passei procuracao ao Sindicato Nacional do Ensino Superior para - la em Lisboa! - decidir se eu tenho ou nao percepcao exacta do risco que corro. Estou consciente de que ha riscos em pernanecer, mas nao me lembro de o SNESup fazer comunicados destes aquando dos motins recentes na Franca ou durante as decadas que durou a guerra civil angolana, por exemplo, em que havia uma situacao de guerra real - coisa bem diferente do que esta a acontecer em Dili neste momento. A Cooperacao Portuguesa tem ajudado os docentes que partiram nos ultimos dias (por os seus contratos terem terminado ou por terem decidido partir por vontade propria) fornecendo transporte seguro ate ao aeroporto e tratando de questoes relativas a antecipacao de datas dos bilhetes. Ninguem esta ca contra a sua vontade, mas por opcao propria, porque acreditamos no que estamos a fazer.

segunda-feira, maio 29, 2006

Dias de orgulho

Critiquei algumas vezes no passado a atitude de muitos portugueses em Timor, nomeadamente por nao se esforcarem minimamente por aprender tetum. Pois hoje posso dizer com sinceridade que sinto um grande orgulho por ser portugues em Timor e testemunhar aqui a serenidade com que a comunidade portuguesa tem encarado a situacao tensa dos ultimos dias, e a forma como tem manifestado a sua solidariedade com o povo timorense recusando-se a abandonar o pais, para poder retomar o trabalho o mais brevemente possivel.
Um obrigado especial ao Victor e ao Joao, coordenadores do projecto no qual trabalho, porque tem gerido a situacao com grande profissionalismo.
Um obrigado especial para o meu pai tambem, por me terem acordado a telefonar la de Portugal quando aqui eram seis da manha a perguntar: Entao esses medrosos vao fugir? Tu nao vais fugir, pois nao?!?
Um obrigado mais especial ainda para a minha noiva, que comigo decidiu ontem a noite (quando se perspectivava uma evacuacao) que ficariamos, porque ha um amanha. E vai ser um dia de sol.

FUGA

Em 1975 os portugueses fugiram e abandonaram os timorenses a sua sorte...
Em 1999 a Unamet fugiu e abandonou os timorenses a sua sorte...
Em 2006 os portugueses vao fugir na proxima terca-feira...

Eu fico.

sábado, janeiro 07, 2006

chuva

Díli, 7 de Janeiro de 2006

Chove na casa onde eu moro. Isto pode parecer pouco significativo, há outras casas em Timor nas quais chove, porém essas casas não custaram o balúrdio que esta custou à Cooperação Portuguesa. E não vale a pena procurar justificações sem pés nem cabeça, invocando a falta de profissionalismo dos trabalhadores timorenses. É verdade que os padrões de qualidade da mão-de-obra local ainda deixam muito a desejar, mas na casa onde vivi antes durante três anos e meio nunca choveu, e também foi (re)construída por uma instituição portuguesa. Muitos amigos meus timorenses moram em casas onde não chove, apesar de algumas serem construções muito modestas.
É triste quando os responsáveis se acomodam e se limitam a procurar desculpas para a mediocridade em vez de procurarem soluções...

Ontem o meu computador portátil esteve quase a dar o berro. Sobreaquecimento. Os quartos destas casas são cubículos quentes mais apropriados para pôr prisioneiros em regime de isolamento do que para albergar professores de quem se espera produtividade no trabalho, e os aparelhos de ar condicionado estão quase todos avariados. Comprei uma ventoinha grande e ontem estive com ela nas mãos apontada para o computador para o arrefecer.
Tirando este tipo de pormenores de logística, continuo muito feliz com o meu trabalho. E não me esqueço que a instituição ao serviço da qual me encontro me contratou quando as forças das trevas lideradas pela Dona Do Lápis Azul Da Censura se erguiam para me tramar. Alguns poderosos não gostam dos pequenos que dizem a verdade...
Enfim, como cantava o cantor de intervenção português Zeca Afonso:

Quando a corja topa da janela
O que faz falta
Quando o pão que comes sabe a merda
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
Quando nunca a noite foi dormida
O que faz falta
Quando a raiva nunca foi vencida
O que faz falta
O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é acordar a malta
O que faz falta
Quando nunca a infância teve infância
O que faz falta
Quando sabes que vai haver dança
O que faz falta
O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta
Quando um cão te morde a canela
O que faz falta
Quando a esquina há sempre uma cabeça
O que faz falta
O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta
Quando um homem dorme na valeta
O que faz falta
Quando dizem que isto é tudo treta
O que faz falta
O que faz falta é agitar a malta
O que faz falta
O que faz falta é libertar a malta
O que faz falta
Se o patrão não vai com duas loas
O que faz falta
Se o fascista conspira na sombra
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é dar poder a malta
O que faz falta


Dili, 7 Janeiru 2006

Udan tama iha uma-laran iha uma ne'ebé ha'u hela bá. Ne'e bele haree hanesan buat ida ladún importante, iha uma seluk tan iha Timór ne'ebé udan tama iha laran, maibé uma hirak-ne'e la kusta folin karun paramate hanesan folin ne'ebé Kooperasaun Portugeza selu ba uma ne'e. No lalika buka esplikasaun la hun la dikin, hodi temi serbisu-na'in timoroan sira-nia profisionalizmu ne'ebé la iha. Tebes katak kualidade maun-de-obra iha-ne'e seidauk di'ak, maibé iha uma ne'ebé uluk ha'u hela bá durante tinan tolu ho balun nunka udan iha uma-laran, no uma ne'e mós instituisaun portugeza ida maka harii (fila fali). Ha'u-nia belun timoroan barak hela iha uma ne'ebé udan la tama iha laran, maski uma sira-ne'e balu kiak de'it.
Ne'e buat triste bainhira makaer sira tuur iha sira-nia kadeira no la hanoin problema sira-ne'e no buka de'it justifikasaun ba hahalok ladi'ak ka beik envezde buka solusaun...

Horisehik ha'u-nia komputadór portatil besik atu sai aat tiha. Manas demais. Kuartu sira iha uma sira-ne'e hanesan kaixa ki'ikoan ne'ebé di'ak liu atu hatama ema-dadur iha rejime mesamesak (izolamentu) duké atu sai hela-fatin ba profesór sira-ne'ebé tuir loloos tenke bele serbisu ho di'ak, no mákina ár-kondisionadu kuaze hotu iha-ne'e aat tiha. Ha'u sosa tiha ona ventuiña boot ida no horisehik ha'u kaer nia iha liman fila ba komputadór hodi halo nia malirin fali.
Selae ba pormenór lojístika nian hanesan ne'e, ha'u kontinua haksolok tebes ho ha'u-nia serbisu. No ha'u la haluha katak instituisaun ne'ebé ha'u serbisu daudaun ba sira kontrata ha'u bainhira kbiit nakukun nian, ne'ebé Señora Sensura-Na'in maka ukun, hamriik hodi halo aat mai ha'u. Ema-Boot balu la gosta ema-ki'ik ne'ebé ko'alia lia-loos...
Enfín, hanesan kantadór-intervensaun portugés Zeca Afonso uluk hananu:

[kantiga ne'e kanta ho lia-portugés – ha'u só tradús nia liafuan ne'e ba tetun ba timoroan sira hotu atu bele komprende]

Bainhira ema aat sira haree husi janela
Saida maka presiza
Bainhira paun ne'ebé ó han nia gostu hanesan teen
Saida maka presiza
Saida maka presiza maka aviza ema sira
Saida maka presiza
Saida maka presiza maka aviza ema sira
Saida maka presiza
Bainhira nunka bele toba-dukur iha rai-kalan
Saida maka presiza
Bainhira nunka bele halakon sentimentu hirus
Saida maka presiza
Saida maka presiza maka fó-neon ba ema sira
Saida maka presiza
Saida maka presiza maka hadeer ema sira
Saida maka presiza
Bainhira labarik nunka bele moris hanesan labarik
Saida maka presiza
Bainhira ó hatene katak buat ruma atu akontese
Saida maka presiza
Saida maka presiza maka fó-neon ba ema sira
Saida maka presiza
Saida maka presiza maka dudu ema sira
Saida maka presiza
Bainhira asu ida tata ó-nia ain
Saida maka presiza
Bainhira iha dalan-sikun sempre iha ulun-fatuk ida hafuhu
Saida maka presiza
Saida maka presiza maka fó-neon ba ema sira
Saida maka presiza
Saida maka presiza maka dudu ema sira
Saida maka presiza
Bainhira mane ida toba iha valeta-kuak
Saida maka presiza
Bainhira sira dehan katak buat sira-ne'e hotu ko'alia leet de'it
Saida maka presiza
Saida maka presiza maka book ema sira-nia hanoin
Saida maka presiza
Saida maka presiza maka liberta ema sira
Saida maka presiza
Se patraun la muda an ho liafuan-hahi'i ida ka rua
Saida maka presiza
Se faxista halo konspirasaun subar iha mahon
Saida maka presiza
Saida maka presiza maka aviza ema sira
Saida maka presiza
Saida maka presiza maka fó kbiit ba ema sira
Saida maka presiza

sexta-feira, janeiro 06, 2006

tocodede

Díli, 6 de Janeiro de 2006

Saiu ontem – com bastante atraso – o último “Semanário”, que traz como suplemento o “Várzea de Letras” no qual aparece a tradução para tocodede do meu artigo sobre literatura de Timor. Eu e a Anoi é que traduzimos o texto, com ajuda da Cesaltina. Que eu saiba é o primeiro texto publicado em tocodede na história desta língua.
Alguns malais, normalmente portugueses, dizem que eu sou maluco por gastar tempo e energia para procurar dominar uma língua como o tocodede. Dizem eles que nem o tétum vale a pena aprender, porque não serve para nada no mundo lá fora. Alguns desses estão por aqui – supostamente para trabalhar em cooperação com os timorenses – há muitos anos.
Muitos desses malais vão sair de Timor um dia sem nunca terem tido um amigo timorense. Deve ser triste ser assim.
Muitos desses malais só falam com os timorenses que lhes limpam a casa, com as empregadas de mesa nos restaurantes, com os formandos a quem dão aulas... Por isso passam a maior parte do tempo a falar sozinhos, ou ouvem timorenses em conversas da treta que lhes dizem aquilo que eles querem ouvir, que é como os portugueses são boas pessoas e como estão ansiosos por aprender a língua portuguesa. Na verdade a opinião generalizada entre os timorenses é que os portugueses que por cá andam são uns pedantes. É com tristeza que eu constato a surpresa dos taxistas e das pessoas comuns na rua ou no mercado quando, depois de um bocado de conversa (em tétum), eu digo que venho de Portugal – como falo fluentemente tétum pensavam que eu era australiano, ou quando muito brasileiro!
A postura desses portugueses é apoiada pela existência de malais importantes sentados em gabinetes em Lisboa que tomam decisões como a de usar o “Auto da Barca do Inferno” de Gil Vicente como um texto de estudo num curso de português L2/LE, cujos aprendentes têm grande dificuldade em compreender e interpretar textos em língua portuguesa contemporânea.
E adiante... Eu cá vou andando “com a cabeça entre as orelhas”, e estou a aprender tocodede. Digamos que é mais um passo adiante, agora em direcção ao mundo das montanhas.
JP Esperança


Dili, 6 Janeiru 2006

Horisehik foin sai – tarde liu ona – “Semanário” ikus, ne'ebé inklui “Várzea de Letras” nu'udar suplementu no iha tradusaun ba tokodede husi ha'u-nia artigu kona-ba literatura kona-ba Timór. Ha'u ho Anoi maka tradús testu ne'e, ho ajuda husi Cesaltina. Tuir buat ne'ebé ha'u hatene ne'e testu dahuluk ne'ebé publika iha dalen tokodede iha Istória lian ida-ne'e nian.
Malai balu, baibain portugés sira, dehan katak ha'u bulak tanba ha'u gasta tempu ho enerjia hodi buka ko'alia moos lian ida hanesan tokodede. Sira hateten katak tetun rasik mós la di'ak atu aprende, tanba la serve ba buat ida iha mundu iha li'ur. Balu husi malai sira-ne'e hela iha-ne'e – parese katak sira-nia knaar atu serbisu lisuk ho timoroan sira – tinan barak tiha ona.
Barak husi malai sira-ne'e sei sai husi Timór loron ida no sira nunka iha belun timoroan ida. Ha'u hanoin katak ne'e buat triste bainhira ema hanesan ne'e.
Barak husi malai sira-ne'e só ko'alia ho timoroan ne'ebé hamoos sira-nia uma-laran, ho empregada-meza iha restaurante, ho alunu sira ne'ebé sira hanorin... Tanba ne'e sira pasa sira-nia tempu barakliu ko'alia mesamesak, ka rona timoroan dehan leet de'it buat ne'ebé malai sira hakarak rona, katak ema-portugés sira laran-di'ak no katak sira ansi loos atu aprende dalen portugés. Tebes maka timoroan sira barakliu hanoin katak malai portugés sira ne'ebé hela iha-ne'e halo an de'it. Ha'u sente laran-kraik bainhira ha'u haree taksista ka ema baibain iha lurón ka iha basar hakfodak loos bainhira, liutiha ami ko'alia uitoan (ho lian tetun), ha'u hateten katak ha'u mai husi Portugál – tanba ha'u ko'alia tetun moos sira hanoin katak ha'u ema-Austrália, ka pelumenus ema-Brazíl!
Buat ida ne'ebé haberan malai portugés sira-nia jeitu ne'e maka iha malai boot sira ne'ebé tuur iha gabinete iha Lizboa no foti desizaun hanesan uza “Auto da Barca do Inferno” [pesa-teatru hakerek ho lia-portugés tinan atus barak liubá nian] husi Gil Vicente nu'udar testu atu estuda iha kursu lia-portugés nu'udar lian daruak ka lian rai-li'ur nian, ne'ebé alunu sira iha kursu ne'e susar tebetebes atu komprende no interpreta testu ne'ebé uza lian portugés agora daudaun nian.
Maibé mai ita la'o ba oin... Ha'u ne'e kontinua la'o daudaun ho “ha'u-nia kakutak iha tilun sira-nia klaran”, no ha'u aprende hela tokodede. Ita bele dehan katak ne'e hakat ida tan ba oin, agora iha diresaun ba mundu foho nian.
JP Esperança