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segunda-feira, outubro 24, 2011

Em que século queremos que esteja a mentalidade dos nossos filhos?

Têm estado na moda nos últimos anos uns programas de televisão em que gente do ocidente vai morar com os nativos de um lugar exótico qualquer, ainda pouco afectado pela civilização moderna, e aí se submete à vida quotidiana da tribo, comendo raras iguarias e mixórdias intragáveis, participando em competições de sistemas de combate tradicionais, fazendo trabalho manual no duro, indo buscar água suja para beber a um buraco distante qualquer cheio de micróbios… Programas como Tribal Wives, Last Man Standing, Last Woman Standing, e Tribe.



Comprei a série completa deste último em DVDs e temos assistido aos episódios em casa. A minha mulher acha muita graça às coisas em que o simpático apresentador britânico Bruce Parry se mete, e o tipo tem de facto talento para aquilo, quer pelo esforço que faz para imitar a vida dos anfitriões, quer pelo sentido de humor que mostra quando acaba por ser o bobo da festa pela sua evidente falta de jeito… Mas há dias estávamos a conversar sobre um aspecto que perturba um bocado: é que cá em Timor, apesar dos engarrafamentos de trânsito em Díli e de todo o esforço para desenvolver o país, quando a questão são os cuidados de saúde e a forma de lidar com doenças, as crenças e as atitudes da maior parte das pessoas não diferem muito das daquelas tribos nos cus de Judas da África ou da Amazónia. Muitos timorenses, mesmo citadinos com cursos superiores, rejeitam quase totalmente a medicina moderna, vacinas, ou hospitais, e recorrem antes a curandeiros tradicionais e feiticeiros. A minha mulher teve recentemente um acidente de motorizada e a radiografia revelou uma fissura num osso do pé, pelo que os médicos lhe colocaram gesso para imobilizar a área. Pois a maior parte dos seus conhecidos revela a maior surpresa por ela ter posto o gesso e passam o tempo a tentar convencê-la a ir a endireitas e milagreiros vários que, segundo dizem, resolveriam o problema em dois ou três dias. Até lhe falaram num que, quando lhe aparece um paciente com uma fractura num osso, começa por partir tudo o que resta do mesmo osso, para depois fazer um milagre qualquer e “curar” o pobre desgraçado…
Como será a educação das crianças em escolas onde os próprios professores acreditam piamente nestas coisas?

domingo, março 30, 2008

Tradição cruel

O vídeo mostra uma mulher acusada de ser bruxa na Índia e que por isso foi amarrada a uma árvore e espancada. Cortaram-lhe também bocados do cabelo. Em Timor coisas deste género também acontecem. Há tradições que têm que ser mudadas.




quarta-feira, janeiro 17, 2007

Tradição

As autoridades locais decidiram mandar pintar passadeiras em várias ruas do centro de Díli. O problema é que se esqueceram de fazer uma campanha de educação rodoviária na televisão e nos jornais para ensinar às pessoas para que servem as ditas. Se os peões descobrirem antes dos condutores a utilidade das passadeiras vai ser uma tragédia. E parece-me que a hecatombe vai começar pelos peões estrangeiros, que - pelo menos na maioria - já sabem qual é o objectivo de uma passadeira. Já estou a imaginar as próximas primeiras páginas do STL: “Durante o dia de hoje morreram mais cinco malais enquanto estavam a atravessar a estrada por cima daquelas riscas brancas que o Governo mandou pintar”.

As regras de trânsito aqui são calmamente ignoradas pela maior parte dos timorenses. No cruzamento de Colmera quem vem do supermercado Fitun Maubara encontra um sinal de STOP. São muito poucos os condutores que aí param, sendo habitual que parem antes os que vêm na estrada de sentido único que vem dos lados do BNU. Também no cruzamento do banco australiano ANZ é normal que os condutores que chegam vindos da rua da Escola Paulo VI prossigam a sua marcha na maior das despreocupações, desrespeitando o sinal de “aproximação de estrada com prioridade” que encontram no caminho. Aí param os que vem da direcção do “galódromo”, apesar de a lei dizer que têm prioridade. Num caso e noutro os sinais são completamente ignorados e o que funciona é a tradição.

Ainda a propósito de tradição, tenho falado com vários timorenses manifestando o meu horror pelo crime hediondo de há alguns dias em Maubara, onde três mulheres da mesma família foram queimadas, assassinadas por serem consideradas bruxas (buan). A maior parte das pessoas reage como se fosse uma coisa natural: “então, mas elas eram buan”. Houve uma pessoa que me disse com toda a calma que alguns populares já tinham tentado queimá-las antes, nos tempos da UNTAET, mas a CIVPOL tinha interferido, impedindo o normal desenrolar da acção do povo. Na ocasião alguém tinha chegado a decepar uma orelha a uma das bruxas mas quando os polícias da ONU iam levá-la para o hospital viram que a orelha já tinha nascido novamente, o que teria causado grande surpresa a esses malais. Depois de várias conversas deste género, encontrei alguém que se solidarizou com o meu horror. “Não era preciso tê-las queimado”, explicou, “bastava ter-lhes pregado um prego na testa”!

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Quando a ignorancia e a tradicao matam

EM MAUBARA
Vizinhos mataram três feiticeiras
Três mulheres foram mortas sábado em Maubara, 40 quilómetros a oeste de Díli, acusadas de feitiçaria pelos vizinhos, crime que está a ser investigado pela Polícia da ONU (UNPOL).Segundo a porta-voz da UNPOL, comissária Mónica Rodrigues, o crime está a ser averiguado por uma equipa de investigação criminal da ONU, não havendo ainda informações disponíveis sobre o móbil do crime.As autoridades policiais timorenses locais disseram que as três mulheres eram da mesma família, tinham 70, 50 e 25 anos, e que foram mortas e queimadas por populares que as acusaram de serem bruxas.A comissária Mónica Rodrigues acrescentou que também no fim-de-semana, na zona de Delta 4, no bairro de Comoro, na parte ocidental da capital timorense, um morador encontrou uma granada, tendo efectivos da GNR sido enviados para o local, confirmando tratar-se de um engenho explosivo de fragmentação, para uso militar, ainda intacto. A UNPOL está também a investigar a morte de um homem, cujo corpo apresentava várias marcas de ferimentos. O crime registou-se sábado na aldeia de Naigidal, distrito de Covalima, sudoeste de Díli.Segundo a UNPOL, na capital timorense continua a registar -se uma situação "relativamente calma, com alguns incidentes esporádicos, mas sem a intensidade das últimas semanas".
Jornal de Noticias
Terça-feira, 9 de Janeiro de 2007
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E triste o quao cruel pode ser a ignorancia! Choremos!...