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sábado, março 29, 2008

Cântico Negro

A Fátima Guterres e a Mónica Fonseca leram-me este poema (um dos meus preferidos) na festa de despedida que os alunos organizaram na faculdade lá na UNTL.





Cântico Negro
de José Régio (1901-1969)
dito por Maria Bethânia


"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!


[encontrado no já extinto Blog da Sabedoria Defunta]

segunda-feira, julho 24, 2006

Timor-Leste - violência em Díli não travou boda

Timor-Leste - violência em Díli não travou boda

CORREIO DA MANHÃ
2006-07-23 - 00:00:00
Timor-Leste - violência em Díli não travou boda
Amor foi mais forte que medo da guerra

O título de García Márquez, ‘O Amor nos Tempos de Cólera’ – que este jovem professor de 33 anos toma de empréstimo – caracteriza bem a boda de um jovem casal, ele português, natural de Ílhavo, e ela timorense, de Liquiçá, no passado dia 10 de Junho.
Enquanto em Portugal se comemorava o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, João Paulo Esperança e Fernanda selavam o seu amor numa pequena Igreja em Liquiçá, uma cidade na costa norte de Timor-Leste. É mesmo caso para dizer que o amor vence todos os ódios e disputas. O clima de tensão não foi impeditivo para o casal manter os planos de casamento. Mesmo com padrinhos de última hora, sem convites impressos, sem banda de música e com a ausência de muitos convidados, a cerimónia decorreu dentro da normalidade possível. “O comércio em Díli estava fechado e as pessoas confinadas às suas casas ou a campos de deslocados, enquanto grupos armados andavam aos tiros em Díli”, recorda.“Para mim é a data em que celebrei a minha união com Fernanda, a mulher maravilhosa que encheu de felicidade a minha vida”, confessa João Paulo Esperança, num pequeno texto, no seu blogue, onde ao longo de vários meses deu conta da sua estadia na Terra do Crocodilo. A crise político-militar que abalou Timor alterou por completo os planos do casamento, que apenas se concretizou devido à persistência dos noivos, que não se intimidaram pelo poder das armas e de notícias avassaladoras de ódio e morte que rondavam as suas vidas. Os padrinhos iniciais eram dois timorenses crescidos no exílio, na Austrália e Portugal, mas que perante a revolta, fugiram para o estrangeiro, como fizeram muitos dos timorenses com passaportes de Portugal ou da Austrália. Os tios da noiva foram os padrinhos alternativos. A cerimónia contou apenas com uma ínfima parte dos convidados, e para contornar a ausência de um convite, o casal optou por formalizá-lo via sms. Tradicionalmente as cerimónias religiosas de casamento realizam-se à tarde e são precedidas de um banquete mas, com medo da noite, os noivos optaram por uma missa seguida de um almoço para família e amigos próximos. Um mês depois do enlace, João e Fernanda enfrentam o futuro “de olhos postos no horizonte, no sol que se vislumbra lá ao longe, para lá das nuvens escuras que ainda persistem no céu azul de Timor”. E como o apelido Esperança também significa preserverança e confiança, é com esse sentimento que os dois jovens enfrentam o futuro.
SOLTAS
PROFESSOR
João Paulo Esperança é professor e está há cinco anos a leccionar em Timor. É docente na Universidade Nacional de Timor Lorosae, actualmente, no âmbito de um programa de cooperação da FUP - Fundação das Universidades Portuguesas. Aos 33 anos dá aulas de Linguística. Foi em Timor que conheceu Fernanda, o amor da sua vida.
PAIS ANSIOSOS
A residir em Ílhavo, terra que viu nascer e crescer João Paulo há 33 anos, João Esperança e a esposa contam os dias que faltam para reencontrar o filho, e finalmente, conhecer a nora. “Apenas falei com ela ao telefone e tem uma voz muito meiga”, refere. “Queremos muito conhecer a mulher que está a fazer o meu filho feliz”, diz.
RISCOS
João Paulo optou por ficar em Timor-Leste, apesar da conturbada situação que o País enfrentou, mas não pensou duas vezes em permanecer junto da noiva, amigos e alunos. “Estava consciente dos riscos”, afirma. Nos primeiros dias de confronto aceso, João Paulo Esperança chegou a dar aulas ao som de tiros.

Iolanda Vilar, Lamego

quarta-feira, maio 24, 2006

A primeira vez

Acabo de dar um teste à meia-dúzia de alunos que apareceram, enquanto numa colina ali próxima o ruído do tiroteio em rajadas soava como milho quando se fazem falocas.
Há sempre uma primeira vez para tudo…

Ha’u foin fó teste ida ba alunu balu de’it ne’ebé mosu, enkuantu iha laletek ida ne’ebé besik tiru-rajada tarutu hanesan batar sona.
Sempre iha dala uluk ba buat hotu-hotu…