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sexta-feira, abril 03, 2015

Saber ler é importante, e mais ainda quando se sabe ler numa língua em que há livros...

Quando parecia que as línguas oficiais consagradas na Constituição já não eram motivo de polémica, e que o aparelho do Estado estava mobilizado para a implementação de uma política linguística comum, o recente debate público sobre a introdução das línguas regionais como línguas de instrução no sistema educativo veio dar uma nova visibilidade a algumas vozes que rejeitam o português como língua oficial, com o argumento de que usar o português “é ser colonizado”. Um dos fóruns onde defendem essa posição é o Facebook. Um alucinado qualquer partilhou um “post” meu [https://www.facebook.com/jpesperanca.timor/posts/1039876492706556] num grupo timorense do Facebook chamando-me “fascista” e “colonialista” por causa do que digo sobre a língua de alta cultura.
Respondi-lhe com links para os livros traduzidos para tétum registados no Index Translationum da UNESCO, que são 3:


http://www.unesco.org/xtrans/bsresult.aspx?a=&stxt=&sl=... 

e os traduzidos para português registados na mesma lista, que são 80602:


http://www.unesco.org/xtrans/bsresult.aspx?a=&stxt=&sl=... 

Sei que ambas as listas estão incompletas, mas já dá para ter uma ideia do que eu queria dizer.  :-)

"Pedagogos" pobres de espírito

Há um discurso preocupante em certos círculos pedagógicos que se movem por cá, o de que é “ser colonizado” poder ler como estas crianças* leem e que os alunos das escolas rurais só podem ler meia dúzia de livrinhos “sobre a realidade da sua aldeia”. Como na aldeia não há astronautas, nem comboios, nem girafas e leões, nem pinguins, nem mulheres arqueólogas ou cirurgiãs, nem tantas outras coisas, os miúdos não podem ler sobre essas coisas. Esses “pedagogos” parecem querer impedir as crianças de sonhar… Cria-se assim um fosso entre as crianças educadas em escolas que os preparam para ser futuros cidadãos do seu país e cidadãos do mundo (mesmo que morem na aldeia), e as que são preparadas para terem horizontes curtos que não vão além do seu knua… 
Haver contextualização de materiais não significa fechar as janelas!




* que são os meus meninos.

segunda-feira, outubro 24, 2011

Em que século queremos que esteja a mentalidade dos nossos filhos?

Têm estado na moda nos últimos anos uns programas de televisão em que gente do ocidente vai morar com os nativos de um lugar exótico qualquer, ainda pouco afectado pela civilização moderna, e aí se submete à vida quotidiana da tribo, comendo raras iguarias e mixórdias intragáveis, participando em competições de sistemas de combate tradicionais, fazendo trabalho manual no duro, indo buscar água suja para beber a um buraco distante qualquer cheio de micróbios… Programas como Tribal Wives, Last Man Standing, Last Woman Standing, e Tribe.



Comprei a série completa deste último em DVDs e temos assistido aos episódios em casa. A minha mulher acha muita graça às coisas em que o simpático apresentador britânico Bruce Parry se mete, e o tipo tem de facto talento para aquilo, quer pelo esforço que faz para imitar a vida dos anfitriões, quer pelo sentido de humor que mostra quando acaba por ser o bobo da festa pela sua evidente falta de jeito… Mas há dias estávamos a conversar sobre um aspecto que perturba um bocado: é que cá em Timor, apesar dos engarrafamentos de trânsito em Díli e de todo o esforço para desenvolver o país, quando a questão são os cuidados de saúde e a forma de lidar com doenças, as crenças e as atitudes da maior parte das pessoas não diferem muito das daquelas tribos nos cus de Judas da África ou da Amazónia. Muitos timorenses, mesmo citadinos com cursos superiores, rejeitam quase totalmente a medicina moderna, vacinas, ou hospitais, e recorrem antes a curandeiros tradicionais e feiticeiros. A minha mulher teve recentemente um acidente de motorizada e a radiografia revelou uma fissura num osso do pé, pelo que os médicos lhe colocaram gesso para imobilizar a área. Pois a maior parte dos seus conhecidos revela a maior surpresa por ela ter posto o gesso e passam o tempo a tentar convencê-la a ir a endireitas e milagreiros vários que, segundo dizem, resolveriam o problema em dois ou três dias. Até lhe falaram num que, quando lhe aparece um paciente com uma fractura num osso, começa por partir tudo o que resta do mesmo osso, para depois fazer um milagre qualquer e “curar” o pobre desgraçado…
Como será a educação das crianças em escolas onde os próprios professores acreditam piamente nestas coisas?

quinta-feira, julho 22, 2010

A tradução d”O Principezinho” para tétum – andando devagarinho em direcção a uma fonte?

«Moi, (…), si j’avais cinquante-trois minutes à dépenser, je marcherais tout doucement vers une fontaine…» - diz-nos O Principezinho. Todos temos de vez em quando a sorte de fazer viagens em que a caminhada é tão interessante como o destino. Para mim, a tradução de “Le Petit Prince” para tétum foi uma dessas viagens. Tive a ideia de traduzir este livro logo à chegada a Timor, em 2001. Parecia-me uma tragédia mais na vida dos timorenses que não houvesse livros para ler nas suas línguas, e que melhor maneira de começar a resolver esse problema do que com a bela história de Saint-Exupéry? Comecei então a tradução com a Triana Corte-Real de Oliveira, uma jovem timorense que tinha interrompido os estudos de medicina na Indonésia devido aos acontecimentos de 1999. Entretanto falei com o Rui Correia, Presidente de uma ONGD de que eu era membro há anos, a SUL-Associação de Cooperação para o Desenvolvimento, sobre a possibilidade desta ONGD publicar a tradução em tétum. A reacção dele foi de entusiasmo imediato, “O Principezinho” também tinha tocado a sua vida, como a de tantos nós, e começou imediatamente a procurar apoios. Conseguiu resposta positiva de algumas câmaras municipais em Portugal e da Fundação Mário Soares. Entretanto eu lembrei-me da possibilidade de a SUL procurar estabelecer uma parceria para uma edição conjunta com a Timor Aid, uma ONG timorense que era pioneira na publicação de livros em tétum e que já tinha sua própria rede de distribuição, e, feitos os contactos, a Timor Aid concordou. O Rui Correia contactou a Gallimard, que detém os direitos de autor, e conseguiu obter a autorização para a publicação. O processo sofreu um contratempo com a partida para Yogyakarta, para continuar os estudos para médica, da minha co-tradutora. Os trabalhos ficaram parados durante um tempo, e foram depois retomados com uma nova colega de trabalho, a Emília Almeida de Araújo, que está actualmente a terminar um bacharelato em Informática na Universidade Nacional de Timor Lorosa’e. Foi com ela que consegui terminar a tradução. Durante o labor de tradutores, quer na primeira fase quer na segunda, usámos constantemente o texto original em francês, mas sempre comparando com as soluções de tradução de três versões diferentes publicadas por editoras portuguesas, e às vezes com uma tradução em inglês também. No entanto, mesmo após concluída a tradução, contratempos diversos levaram a que o processo tenha demorado ainda algum tempo a chegar ao seu termo. Devo agradecer também os esforços e perseverança durante anos da Rosália Madeira Soares da Timor Aid. Foi uma caminhada longa, mas valeu a pena. O Liurai-Oan Ki’ik chegou finalmente a Timor-Leste e agora anda por aí. Pode ser que um dia destes o seu caminho se cruze com o do amável leitor…

quarta-feira, junho 30, 2010

O Principezinho, agora em tétum

A minha sobrinha a ler "Liurai-Oan Ki'ik", a edição em tétum d"O Principezinho" recém publicada pela SUL e Timor Aid.

terça-feira, setembro 02, 2008

E bom estar de regresso

Dois dos meus sobrinhos aqui em Timor

quinta-feira, abril 03, 2008

Os putos




Uma bola de pano, num charco
Um sorriso traquina, um chuto
Na ladeira a correr, um arco
O céu no olhar, dum puto.

Uma fisga que atira a esperança
Um pardal de calções, astuto
E a força de ser criança
Contra a força dum chui, que é bruto.

Parecem bandos de pardais à solta
Os putos, os putos
São como índios, capitães da malta
Os putos, os putos
Mas quando a tarde cai
Vai-se a revolta
Sentam-se ao colo do pai
É a ternura que volta
E ouvem-no a falar do homem novo
São os putos deste povo
A aprenderem a ser homens.

As caricas brilhando na mão
A vontade que salta ao eixo
Um puto que diz que não
Se a porrada vier não deixo

Um berlinde abafado na escola
Um pião na algibeira sem cor
Um puto que pede esmola
Porque a fome lhe abafa a dor.

Ary dos Santos



[encontrei o poema nos Poemas do Mundo, e o bonito fado interpretado por Carlos do Carmo no Imeem (só dá para ouvir uma parte, terá que fazer login para ter acesso à canção inteira)]


segunda-feira, julho 30, 2007

Saudades


Em Díli as crianças brincam nas ruas enquanto cai a chuva quente da monção. Aqui em Portugal a chuva é fria e mais triste...