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domingo, janeiro 05, 2014

Ainda o jogo do pau - Resposta a Frederico Martins





O meu texto partilhando algumas das minhas inquietações sobre os rumos atuais do jogo do pau motivou uma resposta interessante de Frederico Martins, à qual vou tentar responder aqui:


Olá João,

Não sou um erudito do jogo do pau nem da cultura portuguesa. Tenho feito um esforço de investigação, dentro dos limites do meu conhecimento, e partilho do desejo de ver o jogo do pau a ser estudado mais profundamente por alguém mais capaz. Darei as minhas opiniões como o meu ponto de vista, que não pretende ser uma verdade absoluta, mas sim a minha interpretação actual, que face à escassez de fontes, nunca posso afirmar com grandes certezas.

Não vejas isto como uma oposição aos teus argumentos, pois concordo pelo menos com a grande parte destes, e até apresento mais alguns pontos a favor, no entanto esta é a forma como vejo estas questões do ponto de vista de um praticante de Esgrima Lusitana e amante do Jogo do Pau.


Também não sou um erudito do jogo do pau ou da cultura portuguesa e, como tu, tenho mais perguntas do que respostas... E de resto uma abordagem científica não significa apresentar-se como detentor da verdade, mas sim como alguém que tem opiniões fundamentadas, que podem ser invalidadas por novos dados.


1- “Jogo” e “pau” //Acho o problema não só na palavra jogo mas também na palavra “pau” não desgosto da expressão, de forma alguma, mas vejo na população em geral o torcer do nariz à apresentação da mesma. E foi nesse sentido que se tentou aplicar o nome de Esgrima Lusitana.

Para suportar o nome de jogo do pau, poderia acrescentar que já vi em alguns textos antigos portugueses a expressão “mestre no jogo das armas” ou “jogar às armas” o que indica que na cultura portuguesa o “jogo” significava também treino militar.

Vários outros tratados de armas Italianos pelo menos também se referem a treino militar como “jogo”, como Achille Marozzo (1484-1553), Antonio Manciolino Séc. XVI, entre outros. Por exemplo, fazendo distinção entre “gioco stretto” e “gioco largo” referindo-se a diferentes distâncias. Estes tratados falam geralmente de vários tipos de armas e não de uma espada especifica.

Nessa altura não creio que fizesse confusão a ninguém. No entanto a esgrima olímpica não se chama jogo de espada, mas sim esgrima, e hoje em dia, na população em geral, jogo já não tem nenhuma conotação marcial e como já referi anteriormente, é mal interpretado por quem não conhece, por isso o mestre Nuno Russo está a tentar aplicar o nome de Esgrima Lusitana.

Este nome, não é no entanto uma invenção totalmente moderna. Já Zacharias d’Aça em 1883 se referia ao jogo do pau como a Esgrima Nacional, assim como António Caçador (1963) sub-titula o seu livro sobre jogo do pau. Creio que já dai advêm a necessidade de demonstrar que se trata de uma esgrima ou de uma actividade marcial(de combate) e não de um jogo, como tem sido vista a expressão mais recentemente.

Eu sinceramente preferia ver o nome Jogo do pau a ser utilizado, mas percebo e suporto a utilização de Esgrima Lusitana, que faz sentido no mundo em que vivemos e é mais rapidamente compreendido pelo publico em geral. Também podes ver o nome Esgrima Lusitana, como sendo a escola do mestre Nuno Russo, que inclui o varapau e o bastão e segue um programa técnico especifico.


Para te dizer a verdade até preferia que o problema dos “lusitanos esgrimistas” fosse com a palavra “jogo” e não com a palavra “pau”. Não tenho nada contra os esforços de utilização da técnica do jogo do pau nas modalidades de esgrima histórica reconstituída levados a cabo pelo mestre Luís Preto, mas o jogo do pau têm uma veneranda tradição e história por si mesmo, independente de hipotéticas origens em esgrimas de armas de corte, e não deve envergonhar-se de ser uma arte marcial de uso do pau para combate. Neste texto podem encontrar-se alguns dados interessantes sobre essa tradição: http://www.freewebs.com/pontuada/O_jogo_do_pau_em_Portugal.pdf.
Além das referências que mencionas também esta enciclopédia  http://www.freewebs.com/pontuada/Enciclopedia_1949-imprimir.pdf  (não sei qual, tirei as fotocópias de uma que havia na biblioteca da minha escola quando era puto – mas no texto diz-se que 1949 é a “actualidade”)  define o jogo do pau como “esgrima característica portuguesa”.  Parece-me que a designação de “esgrima portuguesa” ou “esgrima nacional” foi sendo associada ao jogo do pau em diversas fontes eruditas, normalmente escritas, mas o povo e os praticantes continuaram a usar normalmente a designação tradicional de “jogo do pau”. Dizes tu que “no entanto a esgrima olímpica não se chama jogo de espada, mas sim esgrima, e hoje em dia, na população em geral, jogo já não tem nenhuma conotação marcial”. Penso que os praticantes de jogo do pau não deviam ter a atitude de uma marca de refrigerantes que se preocupa com a escolha de um nome que permita uma maior penetração no mercado, se os mestres que nos ensinaram uma arte marcial, que receberam por sua vez de outros mestres, sempre lhe chamaram jogo do pau, porque é que temos de lhe mudar agora o nome? E se o problema é marketing porque é que não lhe chamam algo como “PSJ - Portuguese Staff Jitsu” ou “MMA com um Grande Cacete” – provavelmente iam atrair imensos malucos pagantes... E já agora, para ilustrar como a “população em geral” pode estar errada a propósito de conotações marciais, eis o que John Clements diz a propósito da esgrima olímpica: “Yet some say modern sport fencing (particularly foil fencing) is so far removed from its martial origins as to barely qualify as swormanship“ (em “Renaissance Swordmanship – The Illustrated Use of Rapiers and Cut-and-Thrust Swords”, p. 14)


2- Nunca vi preconceito em relação aos nomes das pancadas. A única pessoa que vi utilizar nomes diferentes foi o Luis Preto quanto ensina estrangeiros. Mas isso advêm da ideia dele de que ao ensinar-se qualquer actividade, se deve utilizar palavras que as pessoas compreendam. Assim, em inglês faz sentido utilizar nomes ingleses para as pancadas, apesar das outras artes marciais todas fazerem o contrário. Não discordo que isso seja mais eficaz na aprendizagem, no entanto gosto bastante da ideia de utilizar os nomes em Português por uma questão de manter uma ligação cultural à arte praticada. Quanto à utilização desses nomes “arcaicos” em português, em em vez de nomes mais compreensíveis, como “Obliqua” ou “ascendente”, não creio que seja necessário, pois não custa assim tanto a um português aprender um termo da própria língua, e em todas as aulas que tive sempre foram os termos utilizados.


Acho que isso tem a ver com a atitude de quem ensina e quem aprende, em relação ao que é ensinado. Nas escolas de MMA (artes marciais misturadas?) ensinam-se técnicas, competências motoras, formas de movimentar o corpo com objetivos ofensivos ou defensivos. Se um determinado pontapé veio da Tailândia ou um estrangulamento chegou do Brasil, depois de ter tido origem no Japão, isso pouco interessa aos envolvidos, a não ser como curiosidade. Porém na maior parte das artes marciais, sejam antigas ou reformulações mais recentes, os mestres são portadores de uma cultura que transmitem junto com as técnicas, e os alunos querem normalmente sentir algum tipo de comunhão com essa cultura. No dojo de judo temos a etiqueta japonesa e as ideias de Jigoro Kano sobre pedagogia, nos de aikido ou shorinji kempo temos um pacote cultural que inclui até muito de religião, nas rodas de capoeira do mundo inteiro gringos e malais de todas as cores e línguas cantam em português sobre o Senhor do Bonfim e Besouro Mangagá. Não sei o suficiente sobre os alunos de esgrima histórica aí pelas europas, posso acreditar que um grupo que se especialize em estudar, por exemplo, “La Verdadera Destreza” tenha algum apreço pela cultura espanhola (e pela história de Espanha da época), mas suponho que em geral os entusiastas da esgrima marcial antiga europeia não estejam interessados em aprender jogo do pau enquanto arte marcial portuguesa de combate com vara, nem lhes interesse a cultura portuguesa, e que só queiram do jogo do pau as técnicas que possam ser aplicáveis ao seu passatempo. Se este for o caso, a posição do mestre Luís Preto será semelhante à de um mestre de Muay Thai num ginásio de MMA, onde as pessoas só querem aprender os pontapés que ele traz e não teriam paciência para o “Wai khru ram muay”, por exemplo. Nesse contexto, faz todo o sentido que ele dê nomes ingleses às técnicas.


3- Se o caso a favor da ligação do jogo do pau com a esgrima de armas antigas fosse apenas os nomes dos ataques, como referidos no livro do rei D. Duarte I (1391-1438), eu veria isso como uma mera curiosidade, e não como um argumento histórico de referência. Quase como um mito.

E foi assim que vi essa ligação durante muito tempo. No entanto, para uma análise mais séria da ligação creio que é essencial a análise de dois documentos “descobertos” mais recentemente. Falo do “Memorial Da Prattica do Montante” de D. Diogo Gomes de Figueiredo (1651) e “Do Arte de Esgrima” de Domingos Luis Godinho (1599). Quem é conhecedor de jogo do pau, sabe que no norte sempre se praticou o combate contra vários adversários, ainda hoje há grupos muito tradicionais a praticarem o jogo contra dois e o jogo do meio. Está prática bem documentada em vídeo e presente também no programa técnico do mestre Nuno Russo, está também descrita no mais antigo manual de jogo do pau que conheço, “A arte do Jogo do Pau” Joaquim António Ferreira (1886).

Estes textos podem ser analisados mais profundamente para uma melhor compreensão dos mesmos, no entanto deixo aqui a primeira linha de algumas das chamadas “regras” ou situações que estes 3 autores descrevem.

"Memorial Da Prattica do Montante" Mestre de Campo Diogo Gomes de Figueyredo (1651):

-“Regra para brigar com gente por detraz e por diante”

-"Serve esta regra para brigar em hũa rua larga com gente por detras o por diante”

"Do Arte de Esgrima" - Domingo Luis Godinho (1599)
Autor portugues mas o texto está em espanhol, traduzi aqui para simplificar.

- "sercado em plasa campo o calhe”

- ”sercado en calhe mea angosta de atras e adelante”

“A arte do Jogo do Pau” Joaquim António Ferreira (1886)

-“Quando eu seguir por uma estrada e me apareça um inimigo pela frente e outro pela retaguarda”

-"Quando me encontrar cercado de inimigos devo (…)"

São apenas dois exemplos de cada autor, mas cada um tem muitos mais exemplos, sendo que a grande parte das regras que ensinam são mesmo contra vários adversários em várias situações.

Cada manual, de diferentes mestres e de séculos diferente, apresenta soluções ligeiramente diferentes, o que creio ser natural. Pode-se até dizer que isto é o comum em todas as artes marciais e que não evidencia nenhuma ligação especial ao jogo do pau. No entanto, há que reparar, dos vários autores europeus de tratados de esgrima antiga com as mais variadas armas, e de várias nacionalidades, Alemães, Italianos, Ingleses, e de vários séculos, apesar de um ou outro mencionarem ocasionalmente o combate contra vários adversários, nenhum deles trata tão profundamente do assunto, como o Figueiredo, Godinho ou Ferreira tratam nos seus manuais. E isto é quase único na tradição portuguesa. Autores como George Silver (ca. 1560s–1620s) e Giacomo di Grassi(Séc. XVI) dedicam um ou outro paragrafo a combate contra vários adversários, enquanto que dos 3 autores portugueses, cada um tem pelo menos 10 regras especificas contra vários adversários. Dos autores antigos não só com o montante mas Godinho refere o mesmo com qualquer tipo de espada. Isto, sendo que não há muitos mais manuais de esgrima de autores portugueses deste tempo, é grande parto do que conhecemos da nossa esgrima.

Para quem conhecer o jogo do pau, deixo aqui uma regra de Godinho: http://jogodopau.tumblr.com/post/43481457974/cercado-numa-praca-campo-ou-rua

Esta descrição quase que se podia pôr lado a lado, e adaptar passo a passo ao jogo do pau, ainda hoje praticado por muitos grupos de jogo do pau e presente no programa técnico de Esgrima Lusitana. como diria o Carlos do Carmo, se isto não é jogo do pau, eu sou chinês(com a devida ressalva de que com certeza, gostava que existisse um estudo mais profundo do tema, do que aquele que eu consigo fazer).



Não conhecia estes autores portugueses, obrigado pelas referências. Entretanto encontrei a página da AGEA Editora (http://www.ageaeditora.com/), vou tentar adquirir algum do material publicado por eles.
Como eu disse no meu outro texto, acho que é possível uma ligação. Duvido é que seja uma ligação direta, como aquela em que o mestre Luís Preto acredita: “Jogo do Pau is Historical Fencing and Historical Fencing is Jogo do Pau” e <<Regarding Jogo do Pau as “Portuguese staff fencing” is not correct, since it actually is a medieval fencing skill, with either long sword or staffs, depending on the social conditioning factors that determine which weapons are at hand.>> (in “Combat in Outnumbered scenarios – The origin of historical fencing”). Eu acho que é errado declarar que “o jogo do pau não é esgrima de pau portuguesa porque é uma técnica medieval de esgrima com espadas ou paus”, o que estiver mais a jeito. Basta ir reler o texto que mencionei, ou perguntar ao mestre Nuno Russo (que foi o mestre de Luís Preto) o que lhe ensinaram os seus próprios mestres, para ver que o que o jogo do pau é. O jogo do pau é um sistema de combate tradicional (“arte marcial”) português com pau longo, contra um ou vários adversários; o jogo do pau pode ter sido influenciado na sua génese pela esgrima do montante adaptada pelos instrutores militares medievais para ensinar aos membros da plebe arrebanhados para servir como peões na infantaria dos senhores feudais uma forma mais eficaz de usarem os seus chuços. As tuas citações sobre o combate contra vários adversários, ou o facto de a vara ser normalmente agarrada numa das extremidades, podem ser argumentos que apoiam esta hipotética influência. Parece-me correta esta análise do mestre Luís Preto no seu blog:  Defensively, it is an art in which, regardless of the weapon being handled, the parries are executed with the part of the weapon that corresponds to the edge of a bladed weapon. As can be seen in the images below, the nuckles are always directed outwards and, thus, the parry being shown is intercepting the incoming strike with the same area of the defender's weapon, regardless of it being bladed or round.” (in http://jogodopau.blogspot.pt/2013/12/jogo-do-pau-stick-or-sword-art.html). Mas parece-me que cria confusão desnecessária a colocação de fotografias do uso da bengala neste texto, uma vez que, como dizes, o “bastão português” ou “bengala portuguesa” é uma modalidade desenvolvida pelo mestre Nuno Russo. Portanto não pode ser “a medieval fencing skill, with either long sword or staffs”. Aliás, o tamanho é mais próximo do da falcata lusitana do que do montante medieval... Por outro lado, poderia ser interessante ver a execução dos sarilhos do jogo do pau com uma espada longa, como um montante.
Parece-me também que uma coisa importante a ter em conta nestas análises é que a motricidade humana não é apenas biológica, mas também culturalmente marcada. As pessoas andam, dançam, sentam-se, gesticulam... e usam sistemas complexos de combate desarmado, ou com armas tradicionais, de formas diferentes em diferentes culturas e sociedades. Há muito em comum se compararmos os deslocamentos de um japonês com uma katana ou com um jo, como há muito em comum se observarmos os movimentos de um praticante de kalaripayattu com um pau ou com uma espada, é apenas natural que haja coisas semelhantes em artes marciais desenvolvidas no extremo ocidental da Europa, em que uma pode ter influenciado a outra, e que tenham ataques de uma “wide-motion, bashing, power-oriented striking art“ como acontece no jogo do pau e acontecia na esgrima de montante.


4- Lusitana refere-se neste caso de uma forma geral ao povo português, tal como “Os Lusiadas”, não se tenta limitar a um grupo de portugueses de um local especifico, mas de forma generalizada. Tal como Luso-Americano, refere-se a um Portugal e América e não a Entre Douro e Tejo e América.


Prefiro “portuguesa” ou “lusa”, como em “equipa lusa”, por exemplo. Não gosto da designação de “lusitanos” para os portugueses por várias razões. Uma é que é uma designação errada, na época das invasões romanas os lusitanos coexistiam com outros povos nativos na Península Ibérica e a sua área incluía uma parte do que agora é Portugal mais ou menos entre o Douro e o Tejo e uma parte do que agora é a Espanha. Outra razão é que me faz lembrar idiotices do tempo da historiografia salazarista, como dias da raça e coisas assim. Carlos Consiglieri em “Os lusitanos e a historiografia” fala das “ideias ultra-românticas de historiadores que tentaram construir uma identidade nacional a partir dos Lusitanos”, mas Portugal é um país de mestiçagens várias, e a hipervalorização dos lusitanos faz-se à custa de desvalorizar as contribuições de outros povos que para cá vieram, incluindo os próprios romanos. Diz-nos também a “História de Portugal” coordenada por Rui Ramos: “Como os estudos genéticos revelaram recentemente, esta História deixou marcas na composição da população. Na Península Ibérica, os portugueses são aqueles em cujos genes mais vestígios se encontram de duas das mais importantes migrações para a Península desde o século I: os judeus sefarditas, chegados do Médio Oriente no início da era cristã, e os berberes muçulmanos, vindos do Norte de África no século VIII.” E esta miscigenação é ainda mais acentuada no sul do país. Uma terceira razão é que os espanhóis também têm invocado ao longo dos séculos o título de descendentes dos lusitanos. Mauricio Pastor Muñoz, no seu livro “Viriato” conta-nos sobre como a partir do século XVII se publicaram em Espanha livros com Viriato como protagonista. P.ex.: “Assim, A. González Bustos publica a sua comédia intitulada O Espanhol Viriato, onde enaltece a figura de Viriato.” Depois, já no séc. XX: “Pouco depois, Viriato, a quem o padre Mariana chama “libertador quase de Espanha”, passou a denominar-se “caudilho Viriato” e é comparado a Francisco Franco. Em todos os trabalhos que fazem referência a Viriato, principalmente nos manuais de História de Espanha, insiste-se na imagem de Viriato como “caudilho” de Espanha” (p. 263). E etc, etc. Mais recentemente a série de televisão espanhola “Hispania– La Leyenda” também faz equivaler as designações “lusitanos” e “espanhóis”.


5- Quase todas a técnicas de varapau europeias, Sejam italianas, francesas etc, utilizam o varapau de forma semelhante, isto é, em rotação completa, segurando numa das pontas. No entanto, práticamente só em Portugal se vê ainda a pratica de jogo do pau contra vários adversários. Não digo que seja tudo a mesma coisa, e creio que em Portugal, por alguma razão esta prática se preservou em excelente forma, mas não me surpreende existirem formas bastante similares por toda a Europa. O Garrote canário que vi e já experimentei com um mestre que nos visitou é substancialmente diferente do jogo do pau português.


O quarterstaff inglês não é propriamente segurado pela ponta. Nem o maide ceathrún irlandês, a acreditar em John W. Hurley (“Shillelagh – The Irish Fighting Stick”). Tenho o “TheMartial Arts of Renaissance Europe”, de Sydney Anglo, e logo na capa vê-se uma imagem antiga de lutadores europeus a agarrarem o pau pelo meio. Nem a vara do jogo do pau açoriano, de acordo com Luís Preto: “consists exclusively of single combat, using the stick primarily at short distance by holding the stick in the middle” (“Jogo do Pau – The Ancient Art and Modern Science of Portuguese Stick Fighting”, p. 17). Mas concordo que haja uma tendência europeia para pegar no pau pela ponta e bater em rotação.

6- O bastão português é de facto uma adaptação recente, e como é praticado hoje, é um aperfeiçoamento tomado a cabo pelo mestre Nuno Russo, o qual tem todo e quase exclusivo mérito por isso. As menções de utilização de bengala tradicionalmente são realmente muito esporádicas e não creio que nunca tenha sido uma pratica corrente. No entanto creio que a adaptação da técnica do varapau a bastões de um certo peso, é excelente e extremamente eficaz, refletindo todos os conceitos e princípios do varapau, inclusive o tal combate contra vários adversários, que é para mim, a melhor aplicação de armas para defesa pessoal que alguma vez vi.


Nada a dizer. O mérito deve ser reconhecido, e a modalidade de bastão criada pelo mestre Nuno Russo parece-me muito interessante como complemento ao jogo do pau tradicional.


Alonguei-me tanto que tive que dividir isto. São questões que requerem de facto discussão e agradeço o teu post por isso. Abraço.


Já agora, sabes se há alguns livros sobre esgrima histórica em Portugal? Não as reedições dos escritos na época em que ela ainda não era “histórica”, que mencionaste, mas alguma coisa escrita nos últimos anos?
Um abraço,

domingo, dezembro 01, 2013

Algumas questões de semântica em torno do jogo do pau




Nos últimos tempos um pequeno grupo de pessoas tem-se distinguido pelo seu trabalho notável de divulgação do jogo do pau. Por isso devem ser elogiados. Mas há algumas premissas nas suas campanhas que para mim devem ser debatidas, e não tomadas como verdade absoluta.


1.
Uma é a embirração que têm com o nome da modalidade que praticam. Gostam do jogo do pau, mas não gostam do nome por que tem sido designado de geração em geração. Por isso chamam-lhe “esgrima lusitana”. Parece que o problema deles é com a palavra “jogo”, talvez tenham receio de serem confundidos com jogadores de micado ou de ai-manulin (1). O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, publicado em 2001, tem entre as acepções da palavra “jogo”:  «manejo de uma arma. + de espada, de florete, de pau». E de resto “jogar”, ou os seus equivalentes, tem uma longa tradição em diversas artes marciais, quer do Ocidente quer do Oriente. A capoeira, antes de tornar nesta modalidade de alegria e harmonia, de paz e amor, que se espalhou por todos os cantos do mundo, foi um sistema de combate urbano usado em lutas que frequentemente acabavam em mortes, no qual se usavam também paus, catanas e navalhas (2), mas já nessa época os praticantes diziam que jogavam capoeira (3). Uma das regiões historicamente mais importantes no desenvolvimento de muitos estilos de pencak silat (4) foi a parte ocidental da ilha de Java, de cultura e língua sundanesa. Pois na região de Cianjur eles chamam, em sundanês, “maenpo” ao pencak silat, em que “maen” significa “jogar” (5). E, já agora, na Roma antiga as escolas de gladiadores, onde eram treinados alguns dos lutadores com mais destreza técnica para o combate até à morte do mundo antigo, eram chamados “ludus” (“ludi”, no plural) (6), palavra que também está na origem da palavra portuguesa “lúdico”…

2.
Li também que alguns consideram “enviesada” e “arrepiada” como palavras arcaicas. Isso faz-me lembrar as conversas que tinha com alguns lisboetas, quando estava na Faculdade, sobre os livros do Aquilino Ribeiro. A maioria só tinha lido, ou tentado ler, “O Malhadinhas”, e dizia que o escritor usava muitas palavras arcaicas. Eu por outro lado, moço de origens rurais, compreendia sem precisar de ir ao dicionário uma percentagem muito maior do léxico do autor. Voltando novamente ao Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia: “ao arrepio em direcção oposta à normal;enviesado/aque se deslocou obliquamente, na diagonal; que se moveu de esguelha, de viés”. No lugar de onde venho estes são vocábulos normais do português actual.

3.
Dizem alguns que o jogo do pau vem directamente da técnica medieval de esgrima do montante. Que essa possa ser a sua origem remota é plausível. Quem habitualmente desenvolvia sistemas tecnicamente complexos de combate eram as classes guerreiras, o que no caso português seria a nobreza dos cavaleiros. Noutros contextos culturais e históricos algo similar terá ocorrido com o arnis ou eskrima (uma arte marcial filipina, rebaptizada “kali” por alguns estadunidenses de origem filipina nos EUA), desenvolvido a partir do treino militar dado pelos padres guerreiros jesuítas espanhóis às milícias do povo nas Visaias para se defenderem das incursões dos piratas muçulmanos vindos de Mindanao (7). Mas em Portugal o povo não tinha montantes. O povo alimentava a família com o que cultivava nas terras em que vivia, mas que pertenciam aos senhores feudais ou ao clero, e os homens do povo tinham que aceitar ser incorporados na infantaria dos exércitos dos seus senhores em alturas de guerra. Na guerra medieval os peões constituíam a maior parte dos efectivos dos exércitos, mas eram pobremente armados. Usavam armas rudimentares, como chuços e alabardas de diversos tipos, que em muitos casos não diferiam provavelmente muito de um pau com choupa ou com uma foicinha na ponta. Portanto, se houver uma ligação antiga entre o jogo do pau e a técnica de armas das guerras medievais, o mais provável é que o seu antepassado não fosse a esgrima de montante propriamente dita, mas sim uma adaptação feita pelos instrutores para as armas da peonagem, uma espécie de “artes marciais para os pobres”. Eu nunca empunhei um montante real, mas suponho que tenha um peso bastante diferente do de um chuço ou um pau, o que imediatamente exige soluções técnicas distintas. No caso do pau, a adaptação da técnica teria que ir muito mais longe, já que a vara (sem choupa) é uma arma de impacto e o montante é uma arma de corte (apesar de o jogo do pau preservar como característica importante o facto de não se agarrar o pau do adversário ou o seu corpo – coisa perigosa com lâminas – ao contrário do que acontece actualmente com muitos estilos de eskrima/arnis, ou com o sistema reconstruído do “garrote” canário, e ter o cuidado de manter as mãos bem longe do alcance da arma do adversário, ao contrário de muitas das artes marciais com pau deste mundo).

Não chega dizer que há documentos antigos que provam que o jogo do pau tem a mesma técnica da esgrima do montante. Há que explicar de que forma é que o provam. E não será porque os cavaleiros também chamavam às técnicas “arrepiadas” e “enviesadas”… Em bojutsu também deve haver técnicas arrepiadas e enviesadas (com estas denominações em japonês, claro), mas evidentemente não se pode invocar nem a designação, nem a mera existência destes ângulos de ataque, para dizer que é essa a origem do jogo do pau. E a referência ao bojutsu faz-me recordar um vídeo a que assisti há muitos anos, mostrado pelo Mestre Nuno Russo no Ginásio Clube Português, em que ele trocava umas pauladas amigáveis com um nãoseiquantagésimo Dan de bojutsu, que se fartava de apanhar, coitado…

4.
E “lusitana” porquê? A região dos lusitanos era uma zona entre os rios Douro e o Tejo, e um pedaço da Espanha actual na mesma latitude, o que deixa de fora as regiões do Minho e Trás-os-Montes, tradicionalmente consideradas os mais importantes centros de irradiação do jogo do pau. Para além disso, ainda que provavelmente andassem também à paulada de vez em quando, não poderiam fazer jogo do pau se este vier da técnica da esgrima do montante medieval… A verdadeira “esgrima lusitana” seria provavelmente o manejo da falcata!

5.
Não sei o suficiente sobre o “jeux de baton” francês para poder ter uma opinião sobre se é igual, ou semelhante, tecnicamente ao jogo do pau português. Os estilos de juego del palo tradicionais das Canárias parecem-me ter diferenças técnicas importantes, pelo menos na forma que chegou aos nossos dias como resultado de uma prática contínua de geração em geração (não estou a incluir o “garrote”, que várias fontes dizem ser o que se chama uma prática reconstituída, como a esgrima histórica que se faz actualmente em vários países). Parecer-me-ia difícil argumentar que as técnicas do juego del palo canário sejam semelhantes às do manejo do montante de guerra.
Conheço referências ao jogo do pau nas zonas da raia galega, o que faz todo o sentido dada a porosidade da fronteira para os membros das comunidades rurais da zona e a continuidade linguística e cultural entre galegos e portugueses do Norte. Seria interessante saber se há descrições de sistemas tecnicamente semelhantes ao jogo do pau que tenham existido noutras regiões de Espanha. E, já agora, se tiverem existido, porque é que se extinguiram, ao contrário dos sistemas português continental, açoriano, e canário… Suponho que noutras zonas de Espanha há também populações rurais, conservadoras, que andavam de cajado na mão… e que tinham antepassados incorporados nos exércitos dos seus senhores na Idade Média.

6.
Nalguns textos invoca-se uma origem histórica para a modalidade de “bastão português” praticada nas escolas ligadas ao Mestre Nuno Russo. Diz-se que os varredores de feiras iam lutar de bengala para as feiras após a proibição das varas nos recintos das mesmas (?), ou que as populações urbanas andavam de bengala e teria havido uma adaptação do jogo do pau tradicional para o uso da bengala. Mais uma vez, uma destas ideias – a segunda – é plausível, mas ainda não a vi provada. A canne francesa está bem documentada historicamente (8), mas ainda não tive conhecimento de documentação, ou de uma tradição, que mostre que tenha havido um desenvolvimento semelhante em Portugal, ou uma continuidade de evolução técnica no passado entre o jogo do pau e a “bengala ou bastão português”. A História não se escreve com base em argumentação do tipo “não temos provas, mas achamos que devia ter existido e devia ter sido assim”. Dito isto, parece-me um desenvolvimento interessante esta técnica de “bastão português” que temos visto aparecer nas últimas duas décadas, que pode inclusivamente atrair pessoas pela sua mais fácil aplicação na autodefesa (hoje em dia já pouca gente anda de cajado…). Mas se é um desenvolvimento recente porque não assumi-lo e dar o devido crédito ao(s) Mestre(s) que o desenvolveu(veram)? Claro que os praticantes ficam sempre com a opção de procurar uma escola onde se faça apenas jogo do pau tradicional, com vara longa, mas quem gostar pode ir aprender este novo “bastão português” sabendo ao que vai…

Enfim, alguns pensarão que nada disto é importante, mas eu pessoalmente gostaria de ver aparecer mais investigação séria sobre o desenvolvimento do jogo do pau. Para quem se interessa por este assunto, termino recomendando a leitura regular do excelente blog de pesquisa sobre referências à arte marcial portuguesa ao longo dos tempos que se pode encontrar neste link http://jogodopau.tumblr.com/ .


(1)    Ai-manulin - jogo infantil timorense em que envolve o lançamento de um pauzinho.
(2)    A introdução da navalha como uma arma que se tornaria tradicional na capoeira deve-se aos fadistas e outros imigrantes portugueses no Brasil.
(3)    Ver, entre outros, Capoeira – The History of an Afro-Brazilian Martial Art, de Mathias Röhrig Assunção, um excelente livro sobre a história da capoeira, que deveria servir de inspiração a qualquer historiador de uma arte marcial.
(4)    Pencak silat (lê-se [pêntchak sílat]) – um nome genérico para artes marciais oriundas da Indonésia, Malásia, Brunei, Timor-Leste e partes do Sul das Filipinas.
(5)    Ver “Pencak Silat merentang waktu”, de O’ong Maryono, na pág. 196.
(6)    Ver p.ex. “The Gladiators”, de Fix Meijer, pág. 39.
(7)    Ver o interessante ensaio de Ned R. Nepangue e Celestino C. Macachor intitulado “Cebuano Eskrima – Beyond the Myth”.
(8)    Consultar, por exemplo, “Histoire de la savate, du chausson et de la boxe française (1797-1978)", de Jean-Grançois Loudcher, um livro sobre a história das artes marciais francesas metodologicamente sério na sua investigação.

quinta-feira, maio 27, 2010

Praticar Jogo do Pau em Lisboa

Quem se interessa pela arte marcial portuguesa conhecida por Jogo do Pau pode encontrar aqui informação sobre os treinos - à borla - no Ateneu. Os treinos são dados pelo Mestre Monteiro, que é um grande Mestre, um bom pedagogo, e uma excelente pessoa. Fiz lá no Ateneu as minhas primeiras aulas, no tempo em que o saudoso Mestre Pedro Ferreira ainda aí treinava regularmente aos Domingos de manhã, apesar de ter então oitenta e tal anos. Tive o privilégio de ser orientado algumas vezes por ele nos meus esforços desajeitados de principiante. Antes de falecer ele entregou a direcção da escola ao Mestre Monteiro, que ensina um jogo do pau da melhor qualidade, e sem qualquer violência gratuita, permitindo aos alunos uma progressão gradual a partir das bases do sistema. Recomendo.

domingo, abril 13, 2008

João Neto campeão europeu de judo

O português João Neto tornou-se hoje campeão europeu de judo.
Para quem não sabe o que é e de onde vem o judo, deixo aqui um vídeo sobre o assunto. É um documentário com um tom um bocado sensacionalista, mas dá para ficar com uma ideia…



quinta-feira, abril 10, 2008

Uma arte marcial das Filipinas: eskrima ou arnis

Um documentário já velhinho, mas ainda muito interessante...



domingo, março 16, 2008

Culturas mestiças, misticismos mestiços também

Em Timor existem diversos movimentos de natureza mais ou menos mística, como por exemplo a Sagrada Família e os Kolimau 2000, que normalmente incorporam elementos católicos com outros das tradições religiosas animistas locais. Tal fenómeno acontece também noutros lugares onde a história da ocupação colonial criou culturas nacionais que, como a de Timor-Leste, são mestiças.

No fotoblogue My Sarisari Store, um dos meus favoritos sobre as Filipinas, encontrei uma colecção muito interessante de fotografias de grupos místicos locais, incluindo Rizalistas, que transformaram o escritor e intelectual nacionalista José Rizal, fuzilado pelos espanhóis, numa figura sagrada. Uns consideram-no um santo, outros um profeta, alguns ainda uma reencarnação de Jesus Cristo. As fotografias mostram lugares onde a população diz ter havido aparições de Cristo, anting-antings (amuletos), peregrinos, curandeiros… Os timorenses reconhecerão conceitos que, tal como na sua terra, unem a raiz austronésica com o superestrato de uma língua neo-latina ibérica, como "inang miserecordia".

Nas Filipinas existe também em certos meios o costume de inserir pequenos objectos no corpo (“sona ai-moruk”, em tétum) para ficar mais forte ou invulnerável, como fazem em Timor grupos como os Sete-Sete. O malikmata de que fala o senhor no vídeo abaixo parece ser semelhante ao poder de matan-helik dos timorenses.



P.S. - Não tendo nada a ver já com misticismos, deixo aqui um link para um slideshow sobre cocos nas Filipinas. A minha mulher ao vê-lo disse imediatamente: - Mas isto parece Timor!

P.P.S. - Futu-manu (luta de galos) nas Filipinas. O galódromo de Bidau ainda não é tão sofisticado como o deles, que até tem bancada em anfiteatro, mas também é jeitoso.

E mais um P.S. - Se o vídeo de cima não funcionar tente esta versão:



terça-feira, dezembro 25, 2007

PSHT na Indonésia

PSHT Timor

Um torneio da Persaudaraan Setia Hati Terate (PSHT) em Díli, Timor-Leste, no GMT, em 22 de Outubro de 2005





segunda-feira, dezembro 03, 2007

Lembrar os sonhos da adolescência

Quando era adolescente achava que a Kumiko (interpretada por Tamlyn Naomi Tomita, actriz de ascendência nipo-filipina, nascida em Okinawa) era a moça mais bonita do mundo.





Tinha adorado o filme Karate Kid (de John G. Avildsen, 1984, com Ralph Macchio e Pat Morita), e tinha gostado ainda mais do segundo, Karate Kid II (John G. Avildsen, 1986). Só havia um pormenor que me irritava, o facto de o argumento ser inconsistente. No primeiro filme o Mr. Miyagi embebedava-se uma vez, ao recordar a morte de sua esposa e filho no parto, por falta de assistência médica, enquanto esta estava internada no infame campo de concentração de Manzanar, um dos dez nos quais o governo americano aprisionou mais de 100.000 cidadãos de origem japonesa durante a II Guerra Mundial, pelo "crime" de terem nascido no Japão ou terem pais japoneses. Isto enquanto o Mr. Miyagi combatia na Europa, como americano, contra os alemães e ganhava uma medalha como herói de guerra. No segundo filme, Daniel acompanhava Mr. Miyagi a Okinawa, onde este, parecendo solteiríssimo, reencontrava a sua paixão da juventude, e todos os traços da existência da esposa falecida tinham sido apagados. Agora Miyagi afinal parecia que nunca tinha sido casado e ficara sempre à espera da namorada da adolescência... Mas apesar deste pormenor o filme encantava-me.
E entretanto, eu, adolescente ilhavense, aprendiz de judo, sonhava ir estudar artes marciais para o Japão e encontrar por lá uma Kumiko meiga e bonita para mim. Acabei por não ter ido ainda ao Japão, até agora, mas olhando para o que tenho feito na vida, parece-me que os meus sonhos de miúdo se têm vindo a concretizar, com as necessárias actualizações e adaptações que o rio da vida vai sugerindo...

O jogo do pau não veio da Índia, é autóctone

"There is strong evidence that its technique has most probably derived from a dance in India, which would have been imported and adapted after the Discoveries, a plausible reasoning since it was never practised in Galiza (the neighbouring region of North-West Spain, with close linguistic and cultural ties with Minho and Trás-os-Montes); "
A "dança" a que se refere o texto é uma arte marcial chamada Kalarippayat praticada em Kerala. Seguindo a ligação proposta pelo autor encontramos esta informação: "The 15th century travelogue of Duarte Barabosa, the Portuguese traveler shows that Kalarippayat was the integral part of the Kerala society between 13th and 16th centuries. It was a part of the education of the children, where daily training in a Kalari was considered as important as learning to read and write, thus forming an important element of the culture of the land Kerala and erstwhile southern parts of Karnataka then known as Tulunadu. During this period, it was a compulsary social custom to send all youngsters above the age of 7 to a kalari for training.
Kalarippayat is believed by many historians as one of the oldest traditions of martial training in the world. In Malayalam, the mother language of Kerala, India, Kalarippayat means repetitive training (payat) inside an arena (kalari).
"
Podemos ver o uso que este sistema tradicional de combate faz do pau num vídeo do youtube clicando aqui (a partir do minuto 6, mais ou menos). Ora, as opções técnicas no manuseamento do pau parecem ser bastante diferentes das do jogo do pau português. Em que se baseia a hipótese de o jogo do pau ter vindo da Índia? No facto de um viajante português do séc XVI ter descrito a prática aí de uma luta que usava paus? Se tivesse vindo da Índia teria sido difundido em Portugal a partir das regiões portuárias mais importantes do litoral, mas na realidade os seus centros principais foram durante muito tempo regiões rurais montanhosas do interior (Minho, Trás-os-Montes, Beira Interior...). Creio que só a partir do século XIX é que passou a ser habitual o seu ensino em Lisboa. E, ao contrário do que diz o autor do excerto acima transcrito, há registos da sua prática na Galiza. Conta-nos Ernesto Veiga de Oliveira em "Festividades Cíclicas em Portugal" (D. Quixote, 1984,p.320): "Na Galiza (onde o pau e o jogo do pau se conhecem em termos semelhantes aos que aqui vemos, parecendo mesmo terem ali sido levados por portugueses), o varapau, nas palavras de Lorenzo Fernandez, era «o companheiro dos moços rondadores, dos viandantes ao longo dos caminhos, dos pastores no alto dos montes; o seu ofício era múltiplo: no caminho era uma ajuda, ora a subir as encostas ora a descê-las, descansando-se nele o peso do corpo; quando um regato cortava a vereda, saltava-se por cima dele apoiando-se no varapau. o pastor no monte e o feirante na feira carregavam nele o seu peso, aliviando assim deste as pernas; também o pastor tangia com ele o gado, e, quando era preciso, afugentava o lobo, tanto em defesa própria como na do gado que lhe estava confiado»; e «só se largava de mão enquanto o moço conversava com a sua moça na lareira da casa desta; então o pau ficava à porta, para indicar aos outros que nada tinham que fazer ali».
O pau era de uso exclusivamente masculino; e na Galiza «o rapaz tinha-se por moço quando arranjava o seu varapau, e ia de ronda com os outros; era assim como ser armado cavaleiro»." Veiga de Oliveira cita um galego, Xaquín Lorenzo Fernandez, que escreveu um artigo sobre o assunto n"O Comércio do Porto", em 1959 - não tenho de momento esse artigo.
Estas referências ao jogo do pau entre os galegos remetem para o mesmo universo rural do Norte de Portugal. Não há nada que sustente a tese de uma origem indiana, de uma arte marcial trazida da Ásia por marinheiros. Parece-me que o problema é que há, às vezes, entre algumas pessoas do universo das artes tradicionais de combate uma mitificação exagerada, e uma procura de "legitimidade marcial" recorrendo ao oriente (como entre muitos praticantes de artes marciais chinesas se procura obcessivamente uma ligação com Shaolin). Problemas do que Hobsbawm e Ranger chamam a "invenção da tradição"...
A realidade é que o pau é uma arma muito simples, fácil de obter, e diferentes povos pelo mundo inteiro desenvolveram por isso sistemas de luta com varas de diversos tipos. Porque não inventar que o jogo do pau português veio do sul da Etiópia, onde os homens do povo Surma se dedicam ao sagine (ver filme clicando aqui), uma luta com paus bastante interessante. Ou da Sicília, na Itália, onde há o bastone siciliano.

domingo, novembro 11, 2007

Uma arte marcial portuguesa

O jogo do pau é um antigo sistema tradicional de combate português. Neste vídeo pode ver algumas das suas técnicas básicas, executadas primeiro lentamente em direcção ao alvo e depois com velocidade e defendidas pelo oponente.




Se estiver interessado/a em praticar ou apenas experimentar pode dirigir-se ao Ateneu Comercial Português, na Rua das Portas de Santo Antão, em Lisboa, ao lado do Coliseu (Metro: Restauradores ou Rossio). No Ateneu o jogo do pau é praticado há mais de um século, e esta foi também a escola do grande Mestre Ferreira, hoje sob orientação do seu sucessor Mestre Monteiro.

Pode ir praticar lá que será benvindo/a. E ainda por cima é barato!

quinta-feira, novembro 09, 2006

Blogosfera, conspirações e artes marciais

A crise, a blogosfera e a liberdade de expressão

Há um blog que se destacou especialmente durante o período mais agudo da crise recente em Timor, pelo número de visitas e porque, não obstante a sua não escondida parcialidade (anti-Austrália, anti-Xanana, anti-Ramos Horta, anti-Igreja timorense), teve um papel muito importante nos dias de caos nas ruas, há alguns meses atrás, quando a capital vivia a ferro e fogo. Era ao “Timor-Online” que recorríamos para saber que supermercado tinha a porta entreaberta para vender produtos essenciais quando todo o comércio estava fechado a sete chaves, era neste blog que líamos a cobertura mais actualizada do que ia acontecendo (também cheguei a participar umas quantas vezes com pequenas informações do que ia vendo por aí: “evitem a área tal porque está neste momento sob ataque”, “no sítio tal estão uns tipos com armas”, “os australianos já chegaram e andam a passear os tanques e a posar para a fotografia em frente ao Hotel Timor”). Depois, à medida que a situação foi acalmando e se começou a caminhar para a normalidade, o blog perdeu essa dimensão que era o seu aspecto mais interessante, mas continuo a espreitar de vez em quando o que lá se diz, principalmente porque, apesar das opiniões facciosas das pessoas que o fazem, os comentários são um interessante espaço de debate onde podemos ler as outras opiniões sobre o que por cá se vai passando.

Há dias dizia-se lá que tinha havido ameaças de morte contra os promotores do blog, o que é preocupante. Podemos não concordar com as opiniões da pessoa que se esconde no anonimato do pseudónimo Malai Azul, mas a liberdade de expressão é um direito inatacável. Quando eu tive um período de alguma actividade num grupo da Amnistia Internacional em Lisboa, no tempo do saudoso José Manuel Cabral – um valoroso amigo que nos deixou demasiado cedo – a A.I. vendia umas camisolas de manga curta com uma frase de Voltaire: “Posso não concordar com o que estás a dizer, mas defenderei até à morte o teu direito de o dizeres”. Seria muito bom se fossem feitos uns milhares de camisolas dessas para distribuir cá em Timor.

As artes marciais têm culpa da crise?

Apareceu há pouco tempo na imprensa a notícia de um relatório encomendado pelos australianos, onde se falava de possíveis ligações de grupos de artes marciais a partidos políticos aqui em Timor, e sobre o papel desses grupos na instabilidade no país. Não li o relatório, pelo que não posso pronunciar-me sobre o seu mérito, mas algumas notícias tinham um tom alarmista, muito distante da realidade, e por vezes traziam uma lista de organizações e respectiva suposta filiação. Parte das organizações da tal lista não têm nada a ver com artes marciais nem com grupos de jovens. A CPD-RDTL, por exemplo, é uma estrutura dissidente da Fretilin com grupos organizados por todo o país, entre a população rural principalmente, que se tem destacado pela rejeição da actual Constituição (defendiam – não sei se continuam a fazê-lo – que só a Constituição da Fretilin de 1975, de partido único, marxista-leninista, era válida). Também rejeitavam a transformação das Falintil em FDTL, e o Governo liderado por Mari Alkatiri, e várias outras coisas do actual Estado leste-timorense – diziam por vezes nos jornais que tudo isto era criação dos malais da ONU. Tinham uma postura pública bastante visível na época da UNTAET e nos primeiros tempos da independência, mas ultimamente não se tem ouvido falar tanto deles.

Os malais lunáticos que todos os dias aparecem com uma nova teoria da conspiração, onde aumenta o número e variedade dos conspiradores, ficaram eufóricos e vieram logo para os seus blogs e para as mesas do bar do Hotel Timor explicar a quem os quisesse ouvir como as escolas de artes marciais junto com os partidos da oposição estavam por detrás da onda de violência e ajustes de contas que tem assolado Timor. Ignoraram sistematicamente (não colocando negrito, não mencionando nos títulos – que eram do género “O que a Comissão de Inquérito da ONU escondeu”) a parte das notícias que referia que: «uma das conclusões chave do relatório é que centenas de pequenos grupos de jovens estão "a tentar, de maneiras diferentes mas positivas, engajarem-se e unificarem as suas comunidades " ».

Insistiam numa suposta ligação da PSHT – Persaudaraan Setia Hati Terate (Irmandade do Coração Leal da Flor-de-Lótus) aos dois principais partidos da oposição. Não mencionavam a ligação oficial e assumida publicamente do KORKA (Kmanek Oan Rai Klaran) à Fretilin. Quando o KORKA aderiu à Fretilin Xanana Gusmão e outros manifestaram publicamente a sua apreensão, perguntando se era intenção deste partido passar a dispôr de uma milícia privada. Tinham presente o exemplo da Indonésia onde Prabowo Subianto tinha tentado usar algumas organizações de pencak silat como uma extensão do partido do Governo, GOLKAR. Prabowo promoveu mesmo o estabecimento de uma nova organização, os Satria Muda Indonesia (Jovens Cavaleiros da Indonésia), que tinha uma relação de total promiscuidade com os Kopassus, e que foi activamente implantada por ele também aqui em Timor. Também a PSHT foi promovida por elementos dos Kopassus aqui em Timor-Leste, provavelmente por ser considerada mais um elemento de “indonesificação” da juventude local, mas contrariamente à SMI a PSHT tinha uma história quase centenária e tradições espirituais bastante mais profundas do que os partidarizados Satria Muda Indonesia. Provavelmente é por isso que, como nota Ian Douglas Wilson em The Politics of Inner Power: The Practice of Pencak Silat in West Jawa, a PSHT continua normalmente a sua actividade no novo país independente (como noutros: França, Holanda, Rússia, etc...) enquanto a SMI desapareceu com a saída dos indonésios (e parece que muitos SMI estiveram activos nas milícias em 1999). Perante as críticas por a Fretilin ter acolhido uma organização de artes marciais no partido, Mari Alkatiri disse que era sua intenção disciplinar a actividade dos jovens do Korka. A entrada para o partido no poder parece não ter provocado grandes alterações nas actividades públicas do Korka, continuaram a aparecer ocasionalmente pequenos episódios de porrada entre membros dessa organização e de outras – como é habitual em Timor – mas eu pessoalmente não tenho conhecimento de situações em que o Korka tenha agido como uma milícia ou aparecido enquanto estrutura nos conflitos dos últimos meses.

As organizações de artes marciais, enquanto estruturas organizadas a nível nacional, não tiveram um papel relevante no aparecimento e desenvolvimento da crise, nem na violência que esta trouxe. A violência de rua é baseada primordialmente na discriminação recente entre gente de lorosa’e e de loromonu, e os episódios de feridos ou mortos entre estilos de artes marciais não são uma coisa nova causada pela crise, mas sim a continuação de inimizades antigas que encontram na presente tensão social (e clima de impunidade) um espaço adequado para a sua actualização. As organizações de artes marciais não estão implantadas no território por zonas geográficas ou grupos etno-linguísticos. A PSHT, por exemplo, tem grupos de treino espalhados e implantados por todos os distritos de Timor-Leste (olhe à sua volta, procure grafítis que digam “SH” ou “Terate” ou com o desenho de um coração com raios à volta), e não está de maneira nenhuma partidarizada (fazem parte da organização pessoas de todos os quadrantes políticos e sociais timorenses, da Fretilin, da oposição e apartidários). A ideia de que a PSHT enquanto organização pudesse ter alguma coisa a ver com a promoção do divisionismo geográfico em Timor é completamente ridícula, os “irmãos” que dela fazem parte acreditam que devem ser solidários entre si e que sofrerão uma retaliação sobrenatural (do tipo ficar gravemente doente, p.ex.) se fizerem mal a outro “irmão” (saudara), independentemente do lugar do país (ou do mundo) onde ele nasceu.

Tavez a única organização de artes marciais que pudesse ser caracterizada como tendo um pendor mais regional fosse precisamente o Korka, embora também aí haja membros das várias zonas do país, porque a referência a “Rai Klaran” remete para as montanhas da região central de Timor-Leste, em volta do Tata Mai Lau, e porque se diz que o estilo nasceu em Ainaro. Mas não me consta que tenha havido durante o seu desenvolvimento nenhuma espécie de discriminação dos candidatos a praticantes (o FCP em Portugal é um clube do Norte mas há portistas e jogadores do Porto que são do Sul...). São outras as razões porque aparecem insígnias das organizações de artes marciais nas situações de violência. Estes sistemas tradicionais de combate têm as suas escolas espalhadas pelos bairros, em pátios, quintais e clareiras; quando a discriminação entre gente de leste e de oeste ficou ao rubro, os que eram o grupo em minoria no bairro onde moravam fugiram ou foram expulsos, de forma que muitos bairros ficaram só com o grupo maioritário. Nos confrontos frequentes que houve nos últimos meses os grupos de prática de artes marciais que treinam em cada bairro colocaram-se naturalmente na linha da frente da “protecção do bairro”, daí que apareçam os seus símbolos e os seus membros nas cenas de pancadaria. E quando há algum ferido ou morto o “espírito de corpo” torna-se ainda mais forte no grupo. Há dias as imagens no telejornal da RTTL do funeral de um membro dos Kera Sakti (a quem os familiares enlutados diziam que tinha sido decepada a cabeça depois de ter desaparecido a caminho da universidade em que se ia inscrever) mostravam muitos jovens a acompanhar a cerimónia vestidos com o uniforme deste estilo de kung fu. Há uns meses, também no telejornal local, numa reportagem sobre armamento apreendido pelas forças internacionais via-se na coronha de uma das armas o desenho das insígnias da PSHT. Antes que os malucos azuis comecem a disparatar a gritar “conspiração!” é bom esclarecer que há muitos “irmãos” praticantes de Setia Hati quer na PNTL quer nas FDTL, e que houve vários lugares em Díli em que, quando em 25 de Maio a tropa atacou o quartel da PNTL, os polícias que aí estavam de serviço despiram a farda e abandonaram as armas que tinham, para poderam fugir incógnitos. Seria absurdo querer tirar ilações sobre “conspirações” a partir de um desenho feito por um miúdo qualquer. No excelente documentário de Carmela Baranowska, "Scenes from an occupation", sobre o período de violência das milícias antes do referendo de 1999, também há um jovem activista do CNRT com uma camisola de membro da PSHT. A Mocidade Portuguesa, uma organização controlada ideologicamente pelo Estado Novo de Salazar, ensinava judo em Timor, porém seria estúpido dizer que o judo e o Kodokan são salazaristas; o Presidente russo Vladimir Putin é um judoca conhecido, seria incorrecto considerar que isso é a mesma coisa que dizer que o Judo está partidarizado na Rússia.

Em Portugal no tempo em que o jogo do pau era popular como as artes marciais aqui agora

Como sempre que se fala em violência em Timor aparecem uns quantos malais iluminados a sentir-se superiores por virem de países onde “nunca há porrada e toda a gente vive numa harmonia social perfeita” (antes fosse!), é bom lembrar pelo menos como eram as coisas há uns tempos nessas terras. Na Austrália havia caça organizada ao aborígene. Em Portugal era assim há umas décadas:

Podemos dizer o mesmo – mas com mais certeza – das manifestações de violência que, por volta dos anos 20 e 30, acompanhavam geralmente as romarias e, mais concretamente, delas faziam parte ritual.
Não nos referimos só às disputas entre jovens que podem ter origem em rivalidades amorosas, sobretudo quando os rivais pertencem a grupos territoriais diferentes (717), nem às frequentes brigas provocadas pelo vinho (718). Eram outrora comuns e hoje não são raras (719). Referimo-nos, sim, a verdadeiras guerras entre aldeias, que explodiam, quase sistematicamente, no decurso das romarias e suficientemente recentes para que os velhos se lembrem de nelas terem participado e os mais jovens de a elas terem assistido. Se os velhos que entrevistámos são pouco loquazes relativamente aos aspectos sexuais da festa no tempo da sua juventude, os seus testemunhos são, pelo contrário, constantes e explícitos e as emoções ainda bastante vivas no que diz respeito a estas batalhas, permitindo-nos assim considerá-las como parte integrante da romaria. O pároco de Baçal relata fielmente alguns exemplos do fim do século XIX e princípios do século XX: alguns duraram um dia e uma noite, outros saldaram-se por mortos e dezenas de feridos (720). O pároco de Foz Côa mostra a inserção ritual e o desenrolar esperado e estereotipado destas batalhas na romaria da sua paróquia, até uma época mais recente. A naturalidade com que refere a continuação jovial do arraial, imediatamente após a separação dos adversários pela polícia e o transporte dos feridos (ou eventualmente dos mortos), mostra bem o carácter inelutável e sistemático desta fase da peregrinação (721). De alguma forma também este sangue fazia parte da festa.
(...)
As descrições detalhadas que recolhemos directamente dos actores de outrora centram-se na rivalidade entre aldeias (722). Antigas discórdias por vezes não resolvidas: «Discutiremos isso na romaria», velhos ressentimentos herdados de outra geração e que determinam uma agressividade latente, solidariedade entre os jovens «que começaram», ou então, muito simplesmente, recusa de aceitar uma humilhação ou uma injúria imediata... todos estes motivos podem conjugar-se – e ligar-se em torno de uma fatalidade própria da romaria – num fundo de hostilidade e de alianças tradicionais de que já não se sabe a origem. (...) Uma oração de joelhos, depois, agitando ameaçadoramente os cajados, um grito: «Viva Tinalhas!» (...) E era então que frequentemente estalava a briga. Entre homens. A pau e pedra. (...) Extremavam-se os campos, sempre os mesmos: Salgueiros e Póvoa de um lado, Juncal, Freixial e Tinalhas do outro (724).
(...)
Os antigos combatentes estão de acordo acerca dos factores desta evolução que puseram termo às guerras de aldeias: a escola, a Guarda Nacional [Republicana], os sermões do pároco «quando ele é bom...». “ in Pierre Sanchis – Arraial: Festa de um Povo – as romarias portuguesas. Lisboa, Publicações D. Quixote, 1992, 2ªed, p. 175-177

Ou ainda:
Ernesto Veiga de Oliveira - Festividades Cíclicas em Portugal. Lisboa, Publicações D. Quixote, 1984, pp.323-324 (Citado em O jogo-do-pau como representação de estatuto e hierarquia nas sociedades tradicionais): “E era o «varrer» da feira ou do terreiro, refregas épicas, verdadeiras lutas campais, de paus que cruzavam no ar, no furor das pancadas, num jogo largo de feira ou «varrimento» (...), entre nuvens de pó, no meio da gritaria das mulheres que fugiam em todas as direcções”.

O assunto também foi tratado por autores de ficção que retratavam nos seus romances a sociedade daquele tempo. Transcrevem-se de seguida alguns excertos de Terras do Demo [ Aquilino RIBEIRO - Terras do Demo. Lisboa, Círculo de Leitores, 1983] :

“(...) -Eh, rapaziada da Seitosa - disse ele -, então que febre vos fazem as vacas?
-Ainda aí apareces, filho de sete curtas!? - increpou o Zé Narciso. - Vais pagar o descaramento...
E à mão tente despediu-lhe o lodo à nuca. O Brás aparou a pancada no ombro e respondeu-lhe com uma chuçada valente do sombreiro à arca do peito.
O outro pulou e, trás, trás, só deixou de bater pela cabeça, pelos braços, pelo corpo todo, quando o viu estrumado por terra, a roncar.
O Espadagão vinha com uma enxada para lhe britar a cabeça, mas o Cláudio vendeiro deitou-lhe o gadanho e o golpe foi quebrar-se nas costelas:
- Conho, em homem no chão não se dá! (...) [pág. 134]

Passavam maltas, de varapau a estreloiçar contra varapau, varrendo nas arrecuas do batuque o terreiro coalhado de gentiaga: Viva Lamosa! (...) [pág. 136]

Entre eles nem ficava chão para cair um alfinete. E por entre estes e as vareiras, as maltas e ranchos cavalavam. Lá rompia Granjal de lodo no ar, tau-tau, viva a rusga! (...)
Aí disparava um cavaleiro, todo farófia, chapéu de aba larga, pau de choupa entalado debaixo da perna:
- Olá, gentes, abram passagem!
Bem arreada besta, crinas rentes, franjas na retranca, rifadora por de mais. O ar dele era rebentio, com a pinta de rico, e o poviléu apartava-se à banda. Mas lá desembocava outra malta:
- Viva Tabosa!
- Viva!
- Viva até que morra!
E arremetia por ali dentro, aos safanões, ó cetrás, em borborinhos de poeira, num zafarrancho de mil demónios. (...) [pág. 241]

- Foge! Foge! - exclamou a Zabana para Glorinhas diante dum roldão de caceteiros em enovelada correria.
Eram as maltas do Granjal e da Vila da Ponte que se acometiam, naquela sua inveterada rixa de povos fronteiriços e forçudos. Emborcando tarimbas do negócio e trilhando os dorminhões, acossado pelo estreloiçar dos paus, o poviléu varreu às bandas.
Glorinhas e a Zabana meteram para a porta do santuário, em que uma onda medrosa se atropelava. A espaldas delas, retiniam pragas, gemidos e gritos de aqui-d’el-rei. Mas acudia a tropa e os desordeiros tresmalhavam a pés de cavalo. Curioso, o povo refluía sobre o lugar da refrega, que durara o tempo dum credo. Escabujava no chão homem ferido, se não morto, e vozes de mulher gemiam, testemunhando a justiça do céu e da terra. (...) [pág. 257]

Se nas primeiras décadas do séc. XX houvesse malucos azuis e um blog “Portugal-Online” ser-nos-ia naturalmente aí explicado que a cacetada da velha que havia nas aldeias portuguesas existia precisamente por causa de uma conspiração organizada pelos espanhóis, pelo Presidente Bernardino Machado, pelos monárquicos e pela Nossa Senhora de Fátima.

Defensores do bairro

Disseram-me (não sei se é verdade, porque não fui verificar pessoalmente) que no Bairro de Bemôri os velhos continuam a jogar às cartas com os vizinhos como antigamente sem se preocuparem com a origem geográfica de cada um, e que os jovens da área sempre estiveram unidos para defender o bairro no tempo em que ainda havia o caos nas ruas. Talvez seja por isso que o lugar tem a reputação de ser um dos mais calmos de Díli. Muitos dos bairros mais problemáticos são precisamente aqueles de onde parte da população foi escorraçada por ter nascido noutra metade do país. Muitos dos jovens apanhados em zaragatas pelas forças internacionais desculpam-se dizendo que estavam só a defender o bairro. Eu sou céptico em relação aos jovens que se juntam dizendo que estão a defender-se de ataques exteriores se no bairro a que eles pertencem as casas tiverem as paredes cheias de grafítis racistas e xenófobos. Porque esses comentários são escritos precisamente pelos jovens do bairro. Há inclusivamente uma pressão intensa sobre os jovens sossegados que não se querem meter em conflitos para virem também para a rua andar à porrada, em vez de chamarem a polícia e ficarem quietos em casa – os rufias e arruaceiros de cada bairro são nessas situações promovidos de repente à categoria de heróis vigilantes. Os polícias e militares internacionais têm endurecido o tom de voz nos apelos à população, explicando que qualquer pessoa apanhada num cenário de conflito na posse de flechas de Amboíno (rama-Ambon), lanças e, claro, armas de fogo, será imediatamente presa – como explicava em tétum na RTTL o simpático militar australiano porta-voz da tropa do país dele, com certeza ninguém pensa ir caçar nas ruas da capital. É que se a catana é aqui uma ferramenta multi-usos que existe em todas as casas as flechas de Amboino são armas perversas de destruição que não têm outra utilidade que não seja fazer mal às pessoas.

Até há cerca de uma semana quase todos os dias havia pedrada entre dois grupos de jovens, na estrada para Comoro, um de cada lado da via, na zona perto do mercado. Quando os rapazes estavam mais entusiasmados tínhamos que esperar um bocado ali parados ou ir por um caminho alternativo, quando eles estavam mais bem dispostos e as pedradas eram só para para não perder a prática, eles paravam de atirar pedras uns aos outros e faziam-nos sinal para passarmos. Há um ou dois meses, em dois seguidos, tive oportunidade de assistir de um edifício alto a confrontos na zona de Caicôli, envolvendo muitas dezenas de jovens – assim que alguém começava a bater num ferro a dar o alarme via-se os miúdos (e miúdas!) a correr das casas e quintais para a estrada apanhando pedras, paus, canos de ferro, etc, e depois avançavam e recuavam enfrentando o outro grupo, no meio de gritos e risadas. Alguns e algumas não teriam mais de doze anos. Um que levou uma pedrada numa perna foi gozado pelos colegas que estavam ao lado dele. Fez-me lembrar das “guerras de torrões de areia” que fazia às vezes com os meus amigos quando era criança. Nem sempre os confrontos são assim, alguns são bastante mais graves.

Em Timor-Leste há uma cultura de impunidade, está espalhada na sociedade a ideia de que os que cometem crimes não terão de responder por eles num tribunal. Isso é desde logo uma herança do tempo da ocupação indonésia, e também da facilidade com que os organizadores da violência de 1999 escaparam à justiça devido à necessidade de o novo Estado manter boas relações com a Indonésia. A Igreja Católica foi inexcedível no apoio aos deslocados da crise desde o primeiro momento e está a ter actualmente um papel extremamente positivo nos esforços de pacificação das comunidades, mas na altura da manifestação da Igreja contra o Governo em 2005 – quando muitos manifestantes se fartaram de usar slogans e cartazes com mensagens racistas e de intolerância religiosa – perdeu uma boa oportunidade de lançar uma campanha de educação para a tolerância a nível nacional. Quando numa noite nessa altura dois portugueses e um polícia foram sequestrados na residência do Bispo de Díli e espancados, o Padre Maubere apareceu na televisão a dizer que era normal que os jovens tivessem tido tal atitude porque estavam nervosos por as suas reivindicações não serem ouvidas. Que eu saiba não houve ninguém julgado e condenado por rapto e tortura na sequência desse caso. Em 4 de Dezembro de 2002 houve confrontos graves e muita destruição na cidade de Díli, os culpados também nunca foram julgados e condenados. Há quem faça apelos à violência nos jornais sem qualquer consequência.

Apesar de tudo a situação tem vindo a melhorar francamente, já há esquadras permanentes da polícia da ONU em alguns lugares de Díli, os polícias já andam por aí a fazer patrulhas a pé e acompanhados de agentes da PNTL... Há diariamente na RTTL um espaço de antena para a UNPOL e os militares australianos onde se comenta a lista de casos de polícia do dia (que têm vindo a diminuir), para que a população seja informada com objectividade sobre as ocorrências relativas a problemas de segurança, em vez de ouvir os boatos que por cá correm (e o tom alarmista de certos blogues que dizem que “Eles andem aí!!”). Continua no entanto a existir um clima de medo e de suspeição mútua no seio das comunidades. Algumas acções de criminosos xenófobos durante o último mês, como entrar numa microlete com uma faca à procura de gente de leste, ou esperar no caminho de ida para uma escola e mandar as crianças nascidas no oriente voltarem para casa, reforçaram esses receios. Em Díli não é preciso fazer uma coisa dessas muitas vezes, basta um único incidente para que no dia seguinte toda a gente fale disso e vá “acrescentando um ponto”. Também já há menos deslocados nos campos, mas muitos dos que aí estão continuam com medo não do “lobo mau” mas dos próprios vizinhos.

Nas ruelas interiores dos bairros continua a haver grupos de moços que se sentam em convívio à noite, às vezes com um jerrican de vinho de palma ou aguardente para animar os espíritos. Já antes se fazia, e tocava-se viola e cantavam-se umas cantigas; agora contam-se histórias de valentia - real ou de fanfarronice - contra “os outros”, a UNPOL em geral, a GNR... Não acredito que os australianos estejam cá só pelos lindos olhos dos timorenses, naturalmente têm a sua própria agenda. Mas o que não ajuda nada para a resolução da situação é fomentar os receios do povo com histórias sobre “bichos-papões”, como faz o “Timor-Online”, em vez de apelar a que as comunidades deixem de seguir as maçãs podres que existem no seu seio, e a que tomem a paz nas suas próprias mãos. É preciso dizer que o António, ou Manuel, ou Zé, que andem com uma catana a ameaçar pessoas são criminosos, no lugar de dizer que são sempre outros os maus.