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Segunda-feira, Julho 07, 2008

De bacalhoeiros e outros plebeus

Do conto “Charo A’Loura” (um dos meus preferidos do autor):

«Bem, pois neste filme, Capitães intrépidos, Spencer Tracy fazia de pescador na Terra Nova. (…) E aí entre Spencer Tracy, que no filme se chamava Manuel e era português. Pois bem, esse Manuel, pouco a pouco, vai fazendo o rapaz entrar na razão. Com poucas palavras fá-lo descobrir um mundo desconhecido. O verdadeiro sentido da coragem e do trabalho. Aqueles homens, rudes e sem estudos, reaparecem aos olhos do menino como heróis. Manuel era para ele uma espécie de Ulisses que pescava bacalhau (...)»

Manuel RIVAS – Alma, Maldita Alma. Lisboa, Dom Quixote, 2000, p. 59



Terça-feira, Maio 20, 2008

Raízes

"«Continuaj a armar-te em carapau de corrida e lebas uma trancada qui até andas de querena, qui é p’ra escarmentares!»
Mas
opois chegou o catano do belhote gafanhão e mandou-oj apertarem o bacalhau e fazerem as pazes que senão qui oj atiraba à iágua. "

Uma das poucas coisas boas neste exílio temporário na terra natal é a re-imersão nas minhas raízes dialectais…

Domingo, Abril 06, 2008

Manhã de Domingo



Sábado, Março 29, 2008

Cântico Negro

A Fátima Guterres e a Mónica Fonseca leram-me este poema (um dos meus preferidos) na festa de despedida que os alunos organizaram na faculdade lá na UNTL.





Cântico Negro
de José Régio (1901-1969)
dito por Maria Bethânia


"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!


[encontrado no já extinto Blog da Sabedoria Defunta]

Sexta-feira, Março 14, 2008

Ministry dos affairses extrangeiros

Há uns anos atrás publiquei no jornal timorense “Semanário” um texto em que falava sobre erros habituais na comunicação social na denominação em tétum dos ministérios do Estado timorense. Dava o exemplo do “*Ministériu Educasaun Cultura Juventude no Desporto”, em que a palavra “Ministériu” está escrita em tétum, “Cultura” em português e “*Educasaun” em língua nenhuma, porque em português seria “Educação” e em tétum “Edukasaun”.

Sendo o tétum uma das línguas oficiais de Timor-Leste deveria haver uma designação oficial das instituições do Estado também nesta língua. Tomemos agora como exemplo o “Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação”. Como designá-lo em tétum? Fui procurar nos meus arquivos designações deste ministério e/ou ministro.

STL,18-06-2003,p.6 – *Ministru Negosius Estrangeirus no Kooperasaun
STL,23-10-2003,p.6 – *Ministru dos Negosios Estranjeirus no Kooperasaun e, no mesmo texto, *Ministru Negosius Estranjeirus
STL,29-10-2003,p.1 – *Ministru Negosiu Estrangeiru no Kooperasaun
Jornal Nacional Diário,03-03-2006,p.7 – *Ministru dos Negocius Estranjeirus
Jornal Nacional Diário,22-03-2006,p.2 – *Ministru Negocius Estranjeirus no Koperasaun
Timor Post,11-05-2006,p.1 – *Ministru Negocios Estrangeiros no Cooperasaun

A versão bilingue do livro de António Veladas “Timór Terra Sentida” (Publ. Europa-América, 2001) chama-lhe “Ministériu Asuntu Li’ur nian”. Creio que este livro será leitura obrigatória nos estudos académicos que vierem a existir sobre a tradução em tétum, por ter sido uma das primeiras obras integralmente traduzidas para a língua, por ter usado já a ortografia oficial do INL e por a tradução ter estado a cargo de um dos mais importantes linguistas timorenses, o Professor Benjamim Corte-Real (curiosamente não há qualquer referência ao tradutor na ficha técnica). O tradutor que trabalha nestas circunstâncias é um pioneiro, um explorador que de catana na mão vai abrindo novos caminhos na selva virgem. Em idiomas com uma antiga tradição de tradução muito foi feito pelos que vieram antes, há que repetir apenas o procedimento, mas em línguas ágrafas, ou quase, ele vê-se na posição de ter que decidir qual a forma melhor para traduzir pela primeira vez uma dada expressão ou palavra. Nenhum tradutor de inglês, francês ou indonésio precisará de pensar duas vezes ao substituir “Ministério dos Negócios Estrangeiros” por “Ministry of Foreign Affairs” (1), “Ministère des Affaires Étrangères” ou “Departemen Luar Negeri”, mas o profissional consciente que trabalha com o tétum poderá ter que parar e reflectir antes de decidir qual será a melhor tradução possível. Na ausência de um nome oficial da instituição em tétum, os jornais timorenses frequentemente inventam, como já vimos. No "Lia Foun", um projecto bilingue pioneiro que existiu em 2005, houve uma decisão da redacção (tradutores incluídos) de manter os nomes oficiais em português dos ministérios mesmo nos textos em tétum, enquanto não houvesse decisão sobre as designações oficiais neste idioma, e também como forma de educar o público (afinal o português também é língua oficial do país e não merece ser mutilado como habitualmente é nos média de Timor-Leste).

Entretanto, enquanto pensava sobre estas questões, lembrei-me das brincadeiras que Umberto Eco faz com traduções e retroversões de textos clássicos no Babel Fish, no livro "Mouse or Rat – Translation as Negotiation" (Phoenix, 2004, p.10-18). Um dos textos que ele usa é constituído pelos sete primeiros versículos do Génesis de uma versão da Bíblia em inglês (a King James Bible), que ele depois traduz para diferentes línguas para mostrar alguns pontos sobre questões teóricas da tradução. Os resultados são, como seria de esperar, no mínimo estranhos. Então resolvi levar o Ministério dos Negócios Estrangeiros para o Babel Fish…

Traduzi primeiro “Ministério dos Negócios Estrangeiros” para inglês e obtive “*Ministry of the Foreign affairses”. Como não conhecia a palavra “*affairses” fui ao Google ver se havia quem conhecesse. 867 ocorrências, o que significa que há pelo menos este número de nabos na Internet. Uma delas é um comentário a uma notícia sobre Timor escrito por um autodenominado “Maubere” que andou a traduzir as suas opiniões para um monte de línguas, provavelmente no Babelfish também, e lá aparecem os “*affairses” rodeados de caracteres chineses (外国affairses的先生部长 葡萄牙语), o que mostra que o programa não reconhece as suas próprias criações lexicais. A seguir, pedi a tradução para português do “*Ministry of the Foreign affairses” e obtive “*Ministry dos affairses extrangeiros”. Comecei a achar que o Babel Fish tinha aprendido português nos jornais timorenses.

Lembrei-me então de ir lá com o “Ministério das Relações Exteriores” dos nossos irmãos brasileiros. Choque! O Babel Fish sabe o que é e apresentou de imediato a tradução para americano ver: “Department of state”. Fiz a retroversão e… “Departamento de estado”, que é como em português se chama o equivalente deste ministério nos EUA.

Tentei então em francês. Perfeito!

Ministério dos Negócios Estrangeiros>Ministère des Affaires Étrangères>Ministério dos Negócios Estrangeiros

Fui lá novamente com a designação brasileira, confesso que com uma esperançazinha de que o Babel Fish francês manifestasse por eles o mesmo desprezo que o seu congénere inglês mostrou por nós. Mas não, uma pequena discrepância apenas, normal nisto de máquinas de tradução burras.

Ministério das Relações Exteriores>Ministère des Relations Extérieures>Ministério das Relações Externas

Das duas uma, ou os franceses sabem mais de geografia e de relações internacionais do que os americanos ou então lembram-se de nós por causa das porteiras e mulheres-a-dias.

E a tradução para tétum, que é por onde tínhamos começado? Analisemos então os elementos do problema. Se optássemos, como tem feito a imprensa, por adaptar a designação portuguesa, haveria que ser coerente com a ortografia. Teríamos então “Ministériu Negósiu Estranjeiru no Kooperasaun nian” ou “Ministériu Negósiu Estranjeiru no Kooperasaun sira-nian”. Mas não fiquemos por aqui. Quais são os elementos que compõem o nome do ministério? “Cooperação” pode nalguns contextos ser traduzida por “serbisu lisuk”, mas aqui parece-me que “kooperasaun” não seria contestada por ninguém. “Estrangeiro” já é diferente, podemos falar em “tasi-balun”, “li’ur”, “rai-li’ur” (por oposição a “rai-laran”, “doméstico”, “interior”), “rain-seluk”,… O Dicionário de Tétum do INL usa o neologismo “makli’ur”, com recurso à morfologia tradicional do tétum téric, com o significado de “exterior” ou “externo”. Finalmente a palavra “negócio”, ou em tétum “negósiu”, que em Timor é usada mais no sentido económico, como sinónimo do termo indonésio “bisnis”, que ainda se ouve muito, e que pode no caso ser perfeitamente substituída por “asuntu”, como vimos acima. Daqui surgem várias designações alternativas possíveis, versões divergentes das formas portuguesas, como por exemplo:

Ministériu Asuntu Li’ur no Kooperasaun nian
Ministériu Asuntu Tasi-Balun no Kooperasaun nian
Ministériu Asuntu Rai-Li’ur no Kooperasaun nian
Ministériu Asuntu Makli’ur no Kooperasaun sira-nian
Ministériu Negósiu Makli’ur no Kooperasaun sira-nian

Como vê o meu caro leitor, a tarefa do tradutor é espinhosa, de partir pedra para abrir caminho, e seria de facto útil que o Estado aprovasse uma lista oficial com os nomes dos Ministérios e Secretarias de Estado em tétum. Mas não se pense que é preciso a toda a força encontrar denominações vernáculas que substituam os empréstimos lexicais do português. Numa aula em que discutíamos as opções dos puristas para o desenvolvimento do tétum, propus aos alunos que traduzissem sem usar palavras de origem portuguesa a seguinte frase, sabendo ser esta uma tarefa impossível:

A roda do meu carro tem um furo.

Várias vozes tentaram fazer a tradução em voz alta, evitando os termos “roda” e “karreta”. Então uma moça começou, pensando à medida que falava:
- “Ha’u-nia buat ne’e ne’ebé ema sa’e nia buat-kabuar iha kuak.
Quando terminou toda a sala explodiu numa gargalhada, e ela, compreendendo de repente a interpretação que estavam a fazer, ficou vermelha como um tomate. O que ela disse, numa tradução livre, foi algo como: “A minha coisa para cima da qual se pode subir (montar) tem uma coisa redonda que tem um buraco”. Às vezes é melhor usar os empréstimos lexicais mesmo…


(1) Ou “Ministry of External Affairs” ou “Ministry of External Relations”.

Quinta-feira, Março 06, 2008

Cursos de língua para objectivos específicos

Quando estava em Timor havia colegas malais que de vez em quando iam de férias para a Tailândia. Reapareciam magrinhos, cheios de olheiras, com um ar exausto e um sorriso de orelha a orelha. Inquiridos, abriam ainda mais o sorriso e diziam qualquer coisa sobre terem passado o tempo a ver monumentos.

Em Timor também há quem veja monumentos. Quando cheguei a Díli, em 28 de Abril de 2001, o Instituto Camões pôs-me com a colega que me acompanhava, e os que chegaram depois, a morar no Hotel Starlight, acabadinho de inaugurar. Mais tarde mudaram-nos para outro hotel, o que foi acertado porque uns tempos depois o Starlight mudou de ramo e passou a ser um bordel de prostitutas tailandesas. Uma noite estava a beber um copo num bar e acabei na conversa com o tipo que estava sentado no banco ao lado do meu, um malasiano de origem indiana que se riu quando declarei a minha nacionalidade e me perguntou porque não estava no Starlight com os meus compatriotas todos. Circulavam então por Díli entre a comunidade de expatriados anedotas sobre os magalas lusos que arranjavam namoradas entre as trabalhadoras do estabelecimento e armavam zaragata quando calhava terem licença das suas unidades no mesmo dia dois namorados da mesma moça.

Uma tarde, vinha eu de dar o meu passeiozinho de motorizada ao longo da praia até ao Cristo-Rei, deparei-me com um amigo meu, que tinha sido militar em Portugal antes de ter emigrado para a Austrália. Parei e ficámos na conversa. Ele também tinha encontrado ali na Areia Branca alguns camaradas da mesma tropa que estavam a fazer uma comissão nas Forças de Manutenção da Paz lá em Timor e juntei-me ao grupo. Cada um dos colegas dele estava acompanhado de uma rapariga tailandesa. Elas só tinham expediente à noite e portanto estavam de folga. Eram simpáticas as cachopas, e falavam pelos cotovelos num inglês meio estropiado que no início custava a perceber. Quando expliquei que era professor de português uma delas resolveu impressionar-me com os conhecimentos que tinha da língua, e desatou a dizer, numa sucessão muito rápida, uma enorme lista de termos e expressões que davam conta, no calão mais vernáculo que se possa imaginar, de todas as variantes possíveis de actos sexuais. Suponho que Camões, que tinha fama de entendido em lupanares e era um experimentado viajante dessas ásias por onde os portugueses ergueram o padrão pátrio, teria ficado orgulhoso das acções daqueles militares em prol da difusão da língua portuguesa. E ao ler as referências no Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas a cursos para desenvolvimento da competência parcial num dado idioma no que se refere a um domínio determinado e a tarefas específicas, não posso deixar de pensar que era exactamente disso que se tratava também ali.

Domingo, Março 02, 2008

Um brinde aos amigos

A vida tem altos e baixos. A felicidade às vezes surge em instantes fugazes, um bater de asas de borboleta e desaparece. Mas de vez em quando damos por nós a ficar surpreendidos por vê-la durar. Eu tive dois períodos na vida em que fui intensamente e consistentemente feliz. Um desde que em Timor comecei a namorar com a Fernanda, a minha esposa, e que ainda continua, renovando-se em cada amanhecer. Outro, na época em que morava na Residência Universitária Ribeiro Santos. Foram tempos de pobreza (ainda ontem ao folhear o Diccionario Teto-Português, de 1907, de Raphael das Dores, me lembrei do que me custou – não me recordo do preço em dinheiro, mas sim que, tendo-o encontrado num alfarrabista lisboeta, andei quase duas semanas a comer só uma refeição por dia para poder comprá-lo), mas também houve muito amor, amizade, solidariedade, e descoberta das coisas importantes da vida.
Os anos foram passando, eu morava do outro lado do mundo, e perdi o contacto com os amigos dessa época. Mas de vez em quando alguma coisa aparece que me faz recordar algum colega desse tempo. O vídeo que se segue, que encontrei no YouTube, fez-me lembrar da Clara. :-)




Se o de cima não funcionar tente este:



Segunda-feira, Dezembro 24, 2007

Texto antigo para copiar para outros blogues

Este é um texto originalmente publicado por duas amigas minhas - e ex-alunas - no jornal literário do Departamento de Língua Portuguesa da UNTL. Foi depois incluído por nós no nosso livro colectivo “O que é a lusofonia – Saida maka luzofonia”.


Lisensiatura kona-ba Lia-Portugés no Kultura Luzófona sira

Ita hotu hatene katak ita-nia nasaun iha lian ofisiál rua, tetun no portugés. Ne’e desizaun matenek husi ita-nia na’i-ulun sira, tanba hanesan ne’e timoroan sira ne’ebé seidauk hatene portugés mós bele komunika ho Estadu. Porezemplu, tia ida iha foho ne’ebé laeskola bele hakerek surat – ka husu ba ema ruma atu hakerek – uza de’it tetun no haruka ba Ministériu ida ka ba Tribunál kona-ba problema ruma ne’ebé nia hetan. Maibé ita mós hatene katak tetun sei tuir hela prosesu atu dezenvolve an, no lia-portugés maka nia belun istóriku no lia-portugés maka lian nasaun Timór Lorosa’e nian ne’ebé ita uza hodi hatene kultura aas. Ita seidauk bele lee ho tetun Mahabarata ka Odisseia ka testu sira husi Stephen Hawking ka António Damásio, Santu Agostiñu ka Karl Marx, Shakespeare ka Camões, José Saramago ka George Orwell. Ita seidauk bele uza tetun hodi koñese Literatura Boot husi mundu ne’e, ka hatene kona-ba siénsia foun oioin, no importante tebetebes ba intelektuál sira atu lee kona-ba buat hirak-ne’e hotu. Selae ita sei sai nasaun ida ke la iha matenek-na’in. No matenek-na’in sira de’it maka bele hatene porezemplu oinsá atu prodús eletrisidade, halo operasaun ba ema moras, ke’e mina-rai iha tasi-kidun, ka dezenvolve ita-nia ekonomia... Ita timoroan sei bele uza lia-portugés atu estuda kona-ba asuntu hirak-ne’e.
Tebes duni, ema barak seidauk hatene portugés moos. Tia husi foho ne’ebé ita temi tiha ona bele komprende fraze ida hanesan ne’e “Maria konta ke Domingu-Domingu, depoizde misa, avó bá merkadu halo kompras. Nia presiza kafé, repollu, pepinu, alfase, mostarda, agriaun, tomate, kouve, salsa, ervilla i senoura.” Maibé tia ida-ne’e la bele lee A última morte do Coronel Santiago, husi hakerek-na’in timoroan Luís Cardoso. Hanesan de’it tia mós bele ko’alia “bahasa pasaran” maibé nia la hatene lee Bumi Manusia, husi autór indonéziu Pramoedya Ananta Toer. Ema ne’ebé hakarak estuda atu hatene portugés moos iha oportunidade oioin. Labarik sira hotu oras-ne’e estuda ona iha eskola primária, profesór sira iha Dili no iha distritu tuir daudaun Baxarelatu atu aprende lian ida-ne’e, no foin-sa’e sira ne’ebé remata eskola sekundária no iha intensaun atu buka matenek bele mai estuda iha ami-nia Lisensiatura kona-ba Lia-Portugés no Kultura Luzófona sira.
Universidade Nacional de Timor Lorosa’e maka hala’o Lisensiatura ida-ne’e, iha Faculdade de Ciências da Educação, hahú tiha ona iha tinan akadémiku 2001/2002. Iha kursu ne’e ami estuda buat oioin interesante tebetebes: lia-portugés, literatura husi Portugál, Brazíl, rain oioin iha Áfrika no Timór Lorosa’e, kultura Timór nian no rain seluk nian, gramátika, linguístika, Istória Timór Lorosa’e nian no seluseluk tan. Ami-nia kursu mós fó atensaun maka’as ba lia-tetun, no ami tuir kadeira (ho lia-indonézia katak mata kuliah) hanesan Padronizasaun no Ortografia Tetun nian, no Gramátika Tetun nian. Bainhira ami-nia Lisensiatura hotu ami sei bele buka serbisu nu’udar profesór, durubasa, tradutór, sekretária, jornalista, ka funsionáriu iha fatin sira ne’ebé ezije ema atu hatene momoos lian ofisiál rua ita-nia nasaun nian. Ami-nia profesór barak mai husi Portugál no rain sira seluk ne’ebé mós iha lia-portugés nu’udar lian ofisiál, liuliu husi Instituto Camões. Ami mós hala’o atividade oioin hanesan jornál kona-ba literatura “Várzea de Letras”, teatru, tradusaun, nsst...
Joven timoroan, mai estuda ho ami!

Testu husi Icha Bossa ho Irta Araújo,
publika tiha iha
Várzea de Letras, Suplemento Literário mensal do jornal Semanário, nº 4 [5], Julho 2004



Licenciatura em Língua Portuguesa e Culturas Lusófonas

Todos sabemos que a nossa nação tem duas línguas oficiais, o tétum e o português. Isto foi uma decisão inteligente dos nossos líderes, porque desta forma os timorenses que ainda não sabem português também podem comunicar com o Estado. Por exemplo, uma tia não-escolarizada na montanha pode escrever uma carta – ou pedir a alguém que lha escreva – usando apenas o tétum e enviá-la para um Ministério ou para o Tribunal sobre um problema qualquer que ela tenha. Mas nós também sabemos que o tétum ainda está num processo de desenvolvimento, e que o português é que é o seu aliado histórico e a língua portuguesa é que é a língua da nação leste-timorense que usamos para ter acesso à alta cultura. Ainda não podemos ler em tétum o Mahabarata ou a Odisseia ou os textos de Stephen Hawking ou António Damásio, Santo Agostinho ou Karl Marx, Shakespeare ou Camões, José Saramago ou George Orwell. Ainda não podemos usar o tétum para conhecer a Grande Literatura mundial, ou para saber sobre as ciências modernas, e é muito importante que os intelectuais leiam sobre tudo isto. Se não seremos uma nação sem intelectuais e sem especialistas. E só estes é que podem saber por exemplo como se produz electricidade, se fazem operações cirúrgicas, se extrai petróleo do fundo do mar, ou se desenvolve a nossa economia... Nós timorenses poderemos através da língua portuguesa estudar sobre estes assuntos.
Claro que é verdade que muita gente ainda não domina o português. A tia da montanha que já mencionámos pode compreender uma frase como esta “Maria konta ke Domingu-Domingu, depoizde misa, avó bá merkadu halo kompras. Nia presiza kafé, repollu, pepinu, alfase, mostarda, agriaun, tomate, kouve, salsa, ervilla i senoura” (A Maria conta que aos Domingos, depois da missa, a avó vai ao mercado fazer compras. Ela precisa de café, repolho, pepino, alface, mostarda, agrião, tomate, couve, salsa, ervilha e cenoura). Mas esta tia não pode ler A última morte do Coronel Santiago, do escritor timorense Luís Cardoso. Da mesma forma, a tia também pode falar “bahasa pasaran” (língua malaia “do mercado”), porém não é capaz de ler Bumi Manusia, do autor indonésio Pramoedya Ananta Toer. Quem quer estudar para saber português correctamente tem muitas oportunidades. Todas as crianças actualmente o aprendem na escola primária, os professores em Díli e nos distritos seguem actualmente um Bacharelato para aprenderem este idioma, e os jovens que terminaram a escola secundária e têm intenção de aprofundar os seus conhecimentos podem vir estudar connosco na nossa Licenciatura em Língua Portuguesa e Culturas Lusófonas.
Esta Licenciatura foi criada na Universidade Nacional de Timor Lorosa’e, na Faculdade de Ciências da Educação, no ano académico de 2001/2002. Neste curso estudamos muitas coisas interessantes: língua portuguesa, literatura de Portugal, Brasil, países africanos lusófonos e Timor-Leste, cultura timorense e de outras nações da lusofonia, gramática, linguística e história de Timor-Leste, entre outras coisas. O nosso curso também dá uma grande atenção ao tétum, e temos cadeiras como Padronização e Ortografia do Tétum, e Gramática do Tétum. No final da Licenciatura poderemos procurar trabalho como professores, intérpretes, tradutores, secretárias, jornalistas, ou funcionários em locais que exijam o domínio das duas línguas oficiais da nossa nação. Muitos dos nossos professores vêm de Portugal ou de outros países lusófonos, principalmente do Instituto Camões. Levamos também a cabo diversas actividades como o jornal literário “Várzea de Letras”, teatro, traduções, etc...
Jovem timorense, vem estudar connosco!

A versão original em tétum, de Icha Bossa e Irta Araújo, foi publicada no
Várzea de Letras, Suplemento Literário mensal do jornal Semanário, nº 4 [5], Julho 2004

Quinta-feira, Dezembro 13, 2007

Irá a tradução passar a ser um negócio da China?

Num fórum de debate de tradutores na Internet encontrei há dias as inquietações de alguns profissionais que temem que haja empresas a começar a fazer outsourcing de traduções português-inglês-português para a China, onde o preço por palavra é muito mais baixo do que no Ocidente. É verdade que há muitos chineses a aprender a língua portuguesa, nomeadamente para irem investir e obter matérias-primas nos PALOP, mas vendo um exemplo de uma tradução made in China – ler abaixo – eu diria que não há por enquanto razão para preocupação. Nenhuma empresa minimamente consciente da importância da sua imagem no mercado vai entregar trabalho a tradutores que produzam preciosidades como esta.
(clicar na imagem para ler)


Quinta-feira, Setembro 20, 2007

Ensinar português em Timor II

Ensinar português em Timor II - ler aqui.


Os livros em indonésio sobre política de países lusófonos que são mencionados no texto acima são estes:











Quinta-feira, Julho 12, 2007

Ensinar português em Timor

Ensinar português em Timor

Sexta-feira, Maio 04, 2007

Quando for grande quero ser professor de inglês

Anúncio publicado hoje (4 de Maio 07) no jornal diário mais lido em Timor (o STL).


Ganham bem estes professores australianos (US$50000-60000 por um contrato de um ano). Alguns portugueses que costumam espernear muito com os ataques à língua portuguesa em Timor irão seguramente começar agora a criticar o comandante das FDTL, Taur Matan Ruak, por permitir esta concorrência desleal contra o idioma de Camões.
E talvez até façam “uma vaquinha”, ou subscrição pública, para aumentar o salário dos professores portugueses...

Quarta-feira, Fevereiro 07, 2007

Textos antigos

Editoriais do Semanário

Em 2004, durante cerca de um mês e meio assumi em Díli as funções de Director provisório do jornal de língua portuguesa Semanário. O Director fundador, António Veladas, ia ausentar-se do país em férias e propôs-me esse desafio, que aceitei. Por razões que não vêm ao caso, ele acabou por se ver impedido de reassumir a tarefa no momento que havíamos inicialmente combinado, e ficou depois no seu lugar outra pessoa. Os pequenos textos que se seguem são os editoriais que escrevi durante esse período:

Quando o António Veladas me propôs que assumisse as funções de director do Semanário, durante as férias dele, hesitei. São muitos os meus afazeres e a última coisa de que preciso é de ainda mais trabalho. Mas acabei por aceitar, por uma questão de coerência com as posições que tenho defendido. Claro que teria sido muito mais fácil declinar o convite e ficar depois sentado numa esplanada a beber umas cervejas frescas e a dizer mal do trabalho de quem faz alguma coisa, como é hábito de muita gente da nossa praça. No entanto, é muito mais interessante pôr mãos à obra e tentar fazer algo que se veja.
O António teve ainda tempo de deixar preparada a maior parte deste jornal, antes de partir, de forma que a transição se torna mais suave. O jornal da próxima semana será a prova de fogo da equipa que cá ficou a labutar. A linha editorial do jornal irá naturalmente manter-se, com algumas pequenas alterações temporárias, nomeadamente no que se refere à ausência de colaboradores habituais, por motivo de férias. Teremos vários dossiês especiais sobre temas da actualidade nacional, e daremos também destaque à cultura.
O Semanário é um jornal timorense em língua portuguesa, vocacionado essencialmente para o público timorense, no qual trabalham timorenses e malais. Não é um jornal para expatriados. Cumpre uma função de suma importância, enquanto órgão de comunicação social em português, num panorama em que a maior parte dos jornais parece dar mais importância à língua dos indonésios do que às línguas oficiais de Timor-Leste, e em que a televisão nacional transmite programas infantis em língua inglesa.
Tentaremos também marcar uma diferença pela forma de relatar os acontecimentos, evitando o sensacionalismo fácil, que só serve para assustar a população. Como aconteceu no início da semana, quando uma manifestação na capital em que estava presente cerca de meia centena de pessoas se viu transformada nas palavras de alguns órgãos de comunicação social no dia seguinte num movimento de quinhentos ex-guerrilheiros.

Semanário [jornal em língua portuguesa publicado em Díli] nº 29, 24 de Julho de 2004


Muitas nações recém-independentes após terem sido colonizadas por outras potências tiveram que se defrontar com um dilema: o que fazer com os seus combatentes da liberdade? Nalguns casos, como por exemplo em países da África lusófona, a opção foi frequentemente dar-lhes lugares no aparelho de Estado, transformando bons comandantes guerrilheiros em maus ministros, secretários de Estado e directores-gerais. Timor-Leste parece ter aprendido alguma coisa com os erros dos outros, fugindo à tentação de premiar o mérito dos antigos comandantes e combatentes das Falintil com lugares nas estruturas do Governo, a não ser que os próprios demonstrem capacidades próprias para a função. Mas isto faz surgir um outro problema: como premiar então homens que abdicaram de tudo - da vida familiar, do aconchego de um lar e de um tecto sobre as suas cabeças, de uma vida de relativa segurança com salário ao fim do mês - para se dedicarem ao ideal da independência da pátria e da liberdade para o seu povo?
A entrada para as FDTL, já não um exército guerrilheiro de libertação, mas uma tropa moderna com outro tipo de objectivos, foi condicionada a um processo de selecção que deixou de fora alguns dos ex-combatentes do tempo da ocupação. Para esses, espera-se que o novo Estado saiba encontrar formas simbólicas, mas significativas, de lhes demonstrar que não foram esquecidos e que a Pátria tem consciência do que lhes deve. Não são tantos como às vezes se diz, e há comissões que estão a reunir os dados necessários para saber realmente quem são. Homens como Xanana Gusmão, Taur Matan Ruak ou Lu Olo conhecem-nos, andaram com eles no mato.
Há quem diga que a UIR [Unidade de Intervenção Rápida da Polícia] estava ansiosa para testar os equipamentos e que usou força excessiva para afastar os manifestantes do Palácio do Governo na semana passada, tendo em conta que eram poucos e estavam desarmados. É uma opinião discutível, o gás lacrimogéneo dá muito nas vistas mas é altamente eficaz para afastar as pessoas sem ser preciso usar violência.
O que não é discutível é a gravidade das acusações feitas à PNTL de tortura de detidos na sequência da manifestação. Sendo Timor-Leste um Estado de Direito, espera-se agora que, para além dos processos disciplinares na própria instituição, os alegados torturadores sejam julgados em tribunal para averiguar da verdade das acusações. Não é admissível que a PNTL possa usar os métodos de interrogatório que eram habituais por parte das forças de segurança indonésias, na época da ocupação.

Semanário [jornal em língua portuguesa publicado em Díli] nº 30, 31 de Julho de 2004


Regras no trânsito
Ontem à noite (sexta-feira, 6) fui mandado parar numa operação-stop da Polícia ao lado do Edifício ACAIT. Como circulava sem os documentos da motorizada, esta foi apreendida, e terei que pagar uma multa para a reaver. A minha motorizada é uma daquelas em “não-sei-quanta-gésima” mão, que foi sendo revendida de malai para malai ao longo dos últimos anos, e cujos documentos algum dos proprietários perdeu entretanto há muito tempo. Claro que me causa transtorno, mas encarei o percalço pelo lado positivo, isto parece significar que as regras de circulação na estrada estão a ser aplicadas e que Timor-Leste vai deixar de ser o “faroeste”, uma terra sem lei, no que se refere ao trânsito. No momento em que fui mandado parar havia já lá umas vinte motorizadas apreendidas aos seus condutores, e “ainda a noite era uma criança”. Resta mencionar, porque também deste tipo de pormenores se faz a imagem de um Estado, que os agentes da PNTL envolvidos na operação com os quais tive contacto mantiveram sempre uma postura de cortesia e profissionalismo.
Crianças mendigas
Durante séculos nos relatos de viajantes e missionários os timorenses foram descritos como um povo digno, altivo, que se recusava à mendicidade. Em 1999, os jornalistas aqui chegados para cobrir a chegada da Interfet ficaram assombrados com a total destruição da cidade. Num contexto em que faltavam quase todos os bens essenciais, os repórteres escreviam para os seus jornais e contavam nas suas rádios e televisões que os timorenses, apesar das dificuldades, não pediam esmola. Falavam com admiração sobre um povo orgulhoso. Cinco anos de presença dos “internacionais” mudaram radicalmente tudo isso, e agora basta passar em frente dos restaurantes onde os malais costumam comer para encontrar dúzias de crianças a mendigar dinheiro. Alguns dizem “Security, security”, como se meninos e meninas daquela idade pudessem proteger os carros ou motorizadas se alguém pretendesse roubá-los. O trabalho infantil é um mal, mas seguramente um mal menor do que a mendicidade infantil. Se uma criança tem que andar a vender isqueiros ou CDs para ajudar no orçamento familiar, pelo menos sempre vai aprendendo o valor do trabalho, e se tiver pais conscientes, será incentivada a aplicar-se nos estudos para poder ter uma vida melhor. As crianças de rua não assumem ainda as proporções de lugares como o Brasil ou Moçambique, mas é melhor que se faça alguma coisa ou estaremos a formar uma geração de pedintes. Se um destes pequenos mendigos conseguir que os malais que pensam estar a ser o bom samaritano lhe dêem por dia uns três dólares ganhará tanto como um funcionário público no fim do mês. Quem é que o convence depois a ir para a escola estudar para ter uma vida diferente?

Semanário [jornal em língua portuguesa publicado em Díli] nº 31, 7 de Agosto de 2004


A sétima edição do guia de viagens Lonely Planet sobre a Indonésia, publicada em Novembro de 2003, diz num texto assinado por um ignorante qualquer chamado Nick Ray (na página 33) que o Primeiro-Ministro Mari Alkatiri escolheu o português para língua oficial e que foi uma má escolha. O senhor que escreveu tal prosa passa por cima das decisões da Assembleia Constituinte democraticamente eleita em eleições organizadas pelas Nações Unidas, ignora as posições sempre oficialmente defendidas pelo CNRT, esquece as declarações de princípio dos partidos políticos deste 1975 até à independência, não tem em conta que o povo timorense elegeu os seus representantes sabendo de antemão que oficializar a língua portuguesa fazia parte do programa dos seus partidos.
Este tipo de declarações incorrectas é corrente em muitos meios de comunicação social, especialmente no mundo anglo-saxónico. Por outro lado, na minha terra costuma dizer-se “os cães ladram, mas a caravana passa”. Não creio que a opinião do senhor Nick Ray seja para levar a sério. Preocupa-me mais a atitude que persiste em certos jovens, que se queixam continuamente de que “o português é muito difícil”. Preocupo-me não pelo facto de eles não aprenderem português – há muitos outros que aprendem e quem fica a perder é quem fica parado – mas pelo que isso mostra da sua atitude perante a vida. Os argumentos deles deixam-me perplexo. Agora há quantidades enormes de livros e dicionários modernos distribuídos por todo o lado em Timor, incomensuravelmente mais do que alguma vez houve no tempo da administração colonial portuguesa. Há professores de nacionalidade portuguesa com cursos superiores de ensino de línguas espalhados pelo território, enquanto na época colonial não havia cá universidade, muitas das professoras do Liceu eram as esposas dos militares aqui colocados, muitas crianças aprendiam a ler e a escrever nas escolas primárias da “psico-social” onde o professor era muitas vezes um militar com a quarta classe que lá ia fazendo o que podia, mas não tinha preparação adequada para a função. Dizem que não falam português em casa; no tempo dos portugueses havia poucas famílias em que a língua de casa fosse a portuguesa. O maior escritor que Timor já produziu, Luís Cardoso, escreve com mestria em português, mas só aprendeu este idioma quando entrou para a escola, como as outras crianças com quem brincava. Conheço aqui muitos timorenses com o quinto ano antigo (equivalente à escola pré-secundária), ou mesmo com a quarta classe, que falam português fluente, apesar de quase não poderem exercitá-lo durante um quarto de século. Conheci um senhor, na época motorista no escritório da Comissão Europeia em Díli, que domina a língua portuguesa e que me contou que tinha aprendido no mato com a Fretilin, nos primeiros anos da ocupação, escrevendo na terra e nas cascas das árvores. Conheço pessoas, jovens e menos jovens, que aprenderam a falar português com correcção desde 1999 até agora. É que já passaram cinco anos. Muitos dos que ficam a protestar que a língua portuguesa é difícil sabem agora o mesmo que sabiam nessa altura. Isso deixa-me confuso: o que esses moços e moças querem dizer é que têm uma capacidade intelectual menor do que a da geração dos pais e avós deles? Ou simplesmente não lhes apetece fazer pela vida, e daqui por uns anos irão fazer manifestações quando os colegas mais diligentes arranjarem emprego e eles não?

Semanário [jornal em língua portuguesa publicado em Díli] nº 32, 14 de Agosto de 2004


Há uma Igreja em Lisboa onde vi uma vez um cartaz colado à entrada que dizia “Deus chama-o mas não através de telemóvel. Por favor desligue o seu ao entrar na Igreja.” Já repararam como o telemóvel passou a ser dono e senhor da vida de muita gente? Eterno intruso, sempre a desconcentrar-nos do trabalho, a acabar com o nosso sossego, a meter-se com a nossa privacidade... Sim, claro que é muito útil, mas deve ser um servo e nunca um senhor. Hoje em dia há pessoas que nunca desligam o seu, vão para reuniões que não devem ser interrompidas de telemóvel ligado, vão para as aulas de telemóvel ligado, até para os exames... E os colegas que sofram enquanto a maldita maquineta toca em acordes agudos uma cantiga qualquer que esteja na moda. E muito poucos utilizadores parecem ter descoberto já que os aparelhos endiabrados têm um comando para os pôr no silêncio de forma a não perturbar ninguém. Depois há aqueles, talvez deva dizer principalmente aquelas, que têm coragem de ficar a namorar pelo telemóvel no lugar de trabalho enquanto o cliente espera à sua frente para ser atendido. E já tentaram manter uma conversa decente com um(a) jovem moderno(a) de aparelho na mão a jogar “Snake” sem parar ou a mandar e receber mensagens “sms” ininterruptamente? Não é coisa para dar cabo dos nervos de um cidadão pacato e pouco dado a emoções fortes?
Acho que está a chegar a altura de eu ir viver para algum lugar como Hatu Builiku. Parece que os telemóveis lá ainda não funcionam...

Semanário [jornal em língua portuguesa publicado em Díli] nº 33, 21 de Agosto de 2004



A Ministra Ana Pessoa está de parabéns por ser a única pessoa que fala regularmente em língua portuguesa na TVTL, para além de alguns discursos de Xanana Gusmão por vezes também neste idioma. Com efeito, não se compreende muito bem porque não há mais presença da língua portuguesa na televisão nacional, sendo esta uma das línguas oficiais do país, a única que está com carácter definitivo já no sistema de ensino (a língua dos indonésios só continua a ser língua veicular nas escolas como medida provisória, e os currículos do tétum ainda estão a ser desenvolvidos) e sendo o idioma em que o Parlamento produz a legislação nacional. Como os responsáveis da televisão parecem achar que falar ou escrever português é pecado, colocam também todas as legendas numa algaraviada macarrónica que pretende passar por tétum, e acaba por nem ser tétum nem português, mutilando inclusivamente com o maior despudor o nome oficial das instituições do Estado, como Ministérios ou Secretarias de Estado (cuja designação é habitualmente em língua portuguesa). Sendo a televisão nacional um serviço público talvez fosse útil se ajudasse os cidadãos a conhecerem o nome correcto das instituições nacionais, em vez de “desajudar”.
Tem sido mencionada por vezes por alguns responsáveis timorenses a possibilidade de se solicitar que a RTP internacional passe a ser reemitida aqui como um segundo canal de televisão disponível vinte e quatro horas por dia, como acontece com a RTP África nos países africanos lusófonos. Isso seria algo de bastante útil, aprender as línguas oficiais do Estado é não apenas um dever patriótico mas também um direito de cidadania, e ter programação disponível em português na televisão é uma ajuda importante para quem está a aprender a língua.
Outra medida bastante produtiva seria pedir à RTP a cedência de programas infantis de qualidade como a Rua Sésamo, para emitir na TVTL em horas adequadas para as crianças poderem ver. Actualmente vejo por vezes programas para as crianças em inglês na televisão, e não duvido que seja muito giro e útil aprender essa língua, mas não creio que seja a prioridade mais urgente para as meninas e meninos que andam a esforçar-se na escola para dominar o português.

Semanário [jornal em língua portuguesa publicado em Díli] nº 34, 28 de Agosto de 2004


Com este número chega ao fim a minha curta passagem pelo Semanário como Director. Foi um desafio interessante, mas chegou a altura de voltar à normalidade. E a normalidade para mim não é dirigir um jornal, não sou jornalista, nem tive nunca pretensões de sê-lo. Sou professor, o que talvez tenha influenciado os assuntos tratados pelo Semanário durante este mês e meio, e os textos escolhidos. É-me naturalmente mais fácil falar do que conheço... Sou professor, e estou cheio de trabalho na Universidade, o que levou a que o meu trabalho voluntário me “tenha saído do corpo”, custou-me pelo menos duas “directas” (noites sem dormir) por semana a trabalhar. Mas não tenho nada que me pôr com lamúrias porque só aceitei porque quis. Continuo de resto a manter a mesma posição de princípio: é muito importante existir um jornal de língua portuguesa em Timor-Leste. O Semanário conseguiu ao longo da sua existência uma posição de relevo na sociedade timorense. A compra de um milhar de exemplares todas as semanas pela Cooperação Portuguesa é garantia de que conseguimos fazer chegar o jornal também aos distritos, já que esses mil jornais são depois distribuídos através dos professores portugueses e dos superintendentes da educação a professores timorenses por todo o país. Mas há muito por fazer ainda, principalmente no que se refere a recursos humanos. É um trabalho monstruoso se concentrado em poucas mãos, os jornalistas não dominam o português e escrevem em tétum ou indonésio, os textos passam depois para tradutores, e finalmente voltam a ser revistos... pelo Director. Se o Director tem outras coisas para fazer tudo isto se torna mais complicado, como o leitor pode verificar neste número. Os jornalistas estão a estudar português, e terão que o dominar, talvez numa fase posterior o jornal possa recrutar mais, ou receber estagiários de cursos que funcionem em língua portuguesa na universidade, mas para agora daria jeito ter alguns voluntários que fizessem tarefas como a revisão de textos em língua portuguesa. E termino como comecei: é melhor pôr mãos à obra do que ficar sentado a dizer mal de quem faz alguma coisa, é melhor acender uma vela do que maldizer a escuridão.
P.S.Já depois de ter escrito este editorial, o António telefonou-me a dizer que tem uma costela partida e vai chegar cerca de uma semana mais tarde do que o previsto. Isso significa que o meu caríssimo leitor vai ter que me aturar aqui mais uma semana. Só mais uma.

Semanário [jornal em língua portuguesa publicado em Díli] nº 35, 4 de Setembro de 2004


Pirataria
Na Indonésia é difícil encontrar à venda filmes e CDs de música originais, em Timor-Leste é quase impossível. Quase tudo o que existe no mercado local é contrafeito, falsificado, ou seja, produtos-”piratas”. Isso é uma situação que ninguém tem interesse em mudar, se quisermos falar com franqueza, a não ser os artistas timorenses, que saem prejudicados, mas estes não constituem um grupo de pressão significativo. A realidade é que a situação actual é a única que permite que um cidadão leste-timorense (ou indonésio, já que os CDs piratas que se encontram em Timor têm aí origem) tenha poder de compra para adquirir filmes recentes ou CDs de música. Um CD áudio original que em Portugal custa para cima de quinze dólares obtém-se aqui em versão pirata por um dólar, um DVD que lá tem um preço que pode ultrapassar os trinta dólares encontra-se em Timor-Leste por menos de três dólares. Neste contexto é com muita satisfação que vemos como o mercado timorense está inundado de CDs e VCDs piratas de música dita portuguesa (deveria antes chamar-se música lusófona, porque a maior parte dela é em língua portuguesa, sim, mas oriunda de países como o Brasil, Angola, Cabo Verde...). Os empresários que se dedicam a ir fazer cópias contrafeitas à Indonésia não trabalham por projectos políticos ou sonhos ou ideais nacionalistas, eles investem na reprodução de milhares de cópias dessas músicas porque sabem que existe procura por parte dos consumidores timorenses. Isso revela como aspectos culturais e gostos musicais do mundo da lusofonia fazem parte integrante da actualidade nacional, e nunca deixaram de fazer, apesar de todos os esforços da Indonésia para suprimir esse importante traço da identidade de Timor-Leste.
Baby sitting
Em Timor quando um casal que tem filhos pequenos resolve ir jantar fora, ou dar um passeio romântico a ver a lua e as estrelas na praia, as crianças ficam com os irmãos mais velhos, ou com os avós, ou com os tios, ou com a crioula, ou com uma ama (ou nalguns casos, o marido prefere deixar a esposa em casa a tomar conta dos filhos e vai jogar às cartas com os amigos, ou para os copos, ou tentar engatar as moças que trabalham nos bares). Em países como a Austrália, EUA, e em Portugal nas grandes cidades, onde a família alargada foi substituída pela família nuclear de pai, mãe e um ou dois filhos apenas, a solução costuma ser arranjar uma jovem, habitualmente estudante, que fica umas horas a tocar conta dos meninos. Esse trabalho chama-se baby sitting. Foi isso que estive a fazer com o Semanário, mas agora chegou o momento de entregar a criança ao pai.
Agradeço a quem fez a gentileza de ir lendo o que aqui fui escrevinhando, e agora que me retiro prometo continuar a entregar uns textos de vez em quando ao Director, como contributo para este projecto que me parece de muito mérito.

Semanário [jornal em língua portuguesa publicado em Díli] nº 36, 11 de Setembro de 2004

Quarta-feira, Janeiro 11, 2006

Resistência e identidade

Texto de Daniel Tércio, publicado no jornal português "Expresso" (Caderno "Actual"), Edição 1732, de 07.01.2006
A CULTURA DA INDEPENDÊNCIA

Língua e identidade cultural em Timor-Leste

O viajante que se detiver na frente da baía de Díli pode disfrutar de uma paisagem magnífica: na direcção do mar, Ataúro, a ilha que interrrompe o horizonte; na direcção oposta, o Palácio do Governo, branco e regular, com o seu jardim fechado ao público, onde existe um pequeno monumento de homenagem ao Infante Dom Henrique (uma espécie de réplica tímida do Padrão dos Descobrimentos em Lisboa).
Hoje, se se sentar alguns minutos sobre o murete da baía, o viajante terá certamente a companhia de um timorense que se aproximará com um sorriso, ensaiando algumas palavras em português. A maior parte das vezes, o timorense esperará que seja o estrangeiro (o “malai”) a falar. Para o “malai”, habituado a evitar os silêncios e os vazios, isto nem sempre será confortável.
Aqui, em Timor Lorosa’e, a língua flui de uma outra maneira, porventura com uma outra lógica, mesmo entre os mais velhos, entre aqueles que a aprenderam antes de 1974 no banco das escolas do regime colonial português. Com efeito, ainda que adoptada como uma das línguas oficiais do novo Estado (o mais jovem país do século XXI), a língua portuguesa continua a ser uma língua estrangeira. Sendo a língua do “outro”, o português é a fala de um outro especial, não do australiano ou do javanês, mas sim de alguém que veio do lado de lá do mundo e a quem muitos timorenses responsabilizam por um certo abandono precipitado em 75. Mas esta língua do “outro”, que é a nossa, tem surpreendentes semelhanças lexicais com o tétum, a primeira língua oficial, falada por 80% da população da jovem República Democrática de Timor-Leste.
O ambiente linguístico - indispensável para traçar o quadro da cultura timorense - afigura-se pois complexo. A respectiva complexidade aumenta quando se sabe que neste território, com cerca de 15000 km2, coexistem pelo menos dezasseis línguas diferentes. O tétum é uma delas, dividindo-se esta em tétum praça (que funciona como língua franca) e tétum téric (mais falado na montanha); além do tétum, fala-se também, por exemplo, o macassai (em Baucau), o mambai (na região montanhosa do centro), o fataluco (na ponta leste da ilha) e o baiqueno (no enclave de Oecussi). Quanto à língua indonésia, imposta brutalmente durante um quarto de século, ela perdura coloquialmente entre uma boa parte da juventude, atraída por uma cultura pop de origem javaneza, e contaminando lexicalmente o tétum praça. Ao mesmo tempo, as empresas com origem australiana aqui instaladas exigem o domínio do inglês ao timorense em busca de trabalho. Resta dizer que a noção de emprego (e por extensão, a noção económica de taxa de desemprego) não se aplica facilmente à situação de Timor. É possível que o trabalho, enquanto processo sistemático de transformação do mundo e de organização social, indispensável para obter regularmente um salário individual, seja um conceito ainda relativamente estranho na cultura timorense; mais de metade da população deste jovem país tem menos de 15 anos de idade, o que certamente ajuda a compreender a relação do timorense com o trabalho sistemático. Um outro aspecto importante para estabelecer o quadro cultural tem a ver com a omnipresença da natureza, uma natureza longe do estado domesticado dos países ocidentais, base de um fundo animista muito forte, que a Igreja Católica não conseguiu anular, não obstante o papel fundamental que tem tido na organização e na fixação dos valores morais da sociedade.
Para a jovem República de Timor-Leste, a escolha do português e do tétum como línguas oficiais constitui certamente uma opção política, um manifesto de independência face aos dois gigantescos Estados vizinhos – opção oficialmente consignada, mas porventura ainda sem um desfecho claro a médio e a longo prazo. Para Portugal e para o conjunto de países de língua oficial portuguesa, a opção é honrosa, porventura interessante no teatro da geopolítica – na medida em que fixa a presença do português no sudeste asiático - mas também inevitavelmente dispendiosa.
O esforço, tanto dos países da CPLP, incluindo Portugal, quanto do jovem Estado timorense, passa por fazer deslocar a língua portuguesa de uma língua do “outro”, do “malai”, para uma língua nossa. Como fazê-lo?
Os governantes que discursaram em frente ao Palácio do Governo, por ocasião da comemoração da Independência nacional, no dia 28 de Novembro, falaram em português para uma população mais interessada nos desfiles das forças militares e das “majoretes” do que propriamente no conteúdo dos discursos.
Ao mesmo tempo, um acontecimento como a Feira do Livro português, organizado pela Embaixada Portuguesa e pelo Centro Cultural Camões, com o apoio logístico de estudantes voluntários da Universidade Nacional de Timor Lorosa’e, constituiu um verdadeiro êxito. Se a colaboração das editoras portuguesas poderia e deveria ter sido mais ampliada, se os autores timorenses como Luís Cardoso e Fernando Sylvan deveriam ter as respectivas obras presentes (o que inexplicavelmente não aconteceu), os preços acessíveis das obras e a preferência concedida aos autóctones na compra dos livros possibilitaram uma interessante proximidade; proximidade que de algum modo se desenrolou também com o programa de visitas a escolas e de conferências proferidas pelos autores lusófonos convidados.
Um dos momentos altos da Feira do Livro aconteceu com o lançamento da obra do historiador José Mattoso (residente em Timor desde o ano 2000), “A Dignidade. Konis Santana e a Resistência timorense”. A obra, publicada pelo Círculo de Leitores em colaboração com a Fundação Mário Soares, constitui, a par com a abertura do Museu da Resistência, uma contribuição decisiva para a História recente do jovem país. Uma das questões mais interessantes, de resto colocada na sessão de lançamento do livro, tanto pelo autor, quanto pelo Presidente Xanana Gusmão, diz respeito à consciência da identidade nacional e ao modo como esta ganhou corpo durante a ocupação indonésia. Com efeito, é possível que a ocupação indonésia tenha jogado a favor da unificação dos antigos reinos (que passaram de uma rivalidade agressiva para a unidade contra o inimigo comum javanês); em consequência, as diferenças linguísticas tornaram-se secundárias e uma nova consciência de pátria emergiu, uma consciência apoiada num forte sentido de civilidade e de dignidade.
A questão linguística continua, porém, uma questão em aberto, que está longe de se resolver com eventos como a Feira do Livro português. Nesta matéria, pelas rotinas que proporcionam, é fundamental o papel que as Bibliotecas e as salas de leitura podem ter no mapa cultural de Timor e no processo de disseminação do português. A Biblioteca do Centro Cultural português, a Biblioteca do Instituto Camões, ou a Sala de Leitura Xanana Gusmão, instaladas em Díli, são diariamente frequentadas por dezenas de jovens que lêem sobretudo a imprensa portuguesa, por vezes com um mês de atraso; fora de Díli, surgem iniciativas verdadeiramente heróicas, como a pequena biblioteca de Manatuto, criada pelo professor Carlos Reis com o apoio das autoridades locais. Para além das bibliotecas, existem em Díli associações culturais e desportivas, que funcionam também como veículo do português. Assim acontece com o Centro Juvenil Padre António Vieira, sediado no bairro Taibesse, actualmente dirigido pela timorense Rosalina Dias.
Além disto está em curso uma importante investigação linguística sobre o tétum e sobre as respectivas relações com o português; 27000 termos constam do prontuário de língua tétum, sendo uma parte substancial de base lexical portuguesa. O Instituto Nacional de Linguística, dirigido pelo Reitor da UNTL, Benjamim de Araújo e Corte-Real, desenvolve a sua acção neste domínio. A instituição, que conta com o apoio oficial do Governo timorense, tem, entre outras, a vantagem de promover o trabalho de equipa, congregando esforços de investigadores como o australiano Geofrey Hull, uma autoridade internacionalmente reconhecida na padronização e fixação escrita da língua autóctone. Neste momento, prepara-se a edição de um dicionário monolingue e acaba de sair uma gramática de tétum escrita em tétum.
Uma outra organização, com o estatuto de ONG, a “Timor Aid”, dirigida por Maria do Céu Lopes, tem tido o papel pioneiro de editar obras em tétum, que faz distribuir pelas escolas dos Distritos. Na verdade, um dos problemas mais complexos passa pela circulação dos bens culturais; com efeito, além da escassez de materiais escritos, avolumam-se dificuldades efectivas e físicas nos indispensáveis meios de comunicação. A produção de conteúdos, em português e em tétum, deverá ser adaptada às condições efectivas no terreno: rede telefónica parcelar, internet incipiente e genericamente com uma baixa largura de banda e más (ou péssimas) estradas. Obras bilingues como “O que é a Lusofonia. Gente, culturas, terras”, preparada por um conjunto de jovens portugueses e timorenses e recentemente editada pelo Instituto Camões, constituem iniciativas meritórias que podem e devem estimular o aparecimento de outras publicações. Neste âmbito, é fundamental por exemplo que a presença da cooperação portuguesa amplie o seu conhecimento das línguas autóctones. João Paulo Esperança, docente no Departamento de Língua Portuguesa da UNTL, especialista em linguística do tétum, colaborador na imprensa local, ou Selma Silva, professora na Escola portuguesa e autora do programa “ondas Lusófonas” na Rádio e Televisão de Timor-Leste, são bons exemplos de um domínio partilhado de ambas as línguas. Já a edição de um periódico como o “Semanário”, publicado em Díli, necessita urgentemente de uma revisão cuidadosa de textos.
Sem dúvida que a identidade cultural de Timor-Leste passa em grande medida por uma independência linguística na região do sudeste asiático, o que explica a opção do português e do tétum como línguas oficiais deste jovem país. Ao mesmo tempo, a cultura da independência, forjada durante os anos da resistência, terá finalmente que respeitar as singularidades de um território surpreendentemente diverso. A cultura timorense é pois, de forma mais nítida do que em outros lugares, um processo, uma missão, um esforço que decorre entre o estado de “Babel” do território e a consciência de identidade nacional.

Daniel Tércio