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quarta-feira, abril 23, 2025

Como funciona a cabeça de um tradutor?



Como funciona a cabeça de um tradutor? (comprar a 2.ª edição em papel)

Intervenção preparada para um evento do Parlamento Nacional de Timor-Leste na Comemoração do Dia Mundial da Língua Portuguesa em 2024


 Fazer download da 1.ª edição em PDF.

quarta-feira, março 12, 2025

O Suave Milagre, de Eça de Queirós, em português e em três variedades de tétum

 https://publishnl.bookmundo.com/books/416587 

“O Suave Milagre”, de Eça de Queirós, no original em português e em tradução para três variedades diferentes de tétum.

Na tradução para tétum-praça, João Paulo Tavares Esperança trabalhou com Denávia Nerissa Correia dos Santos; na versão em tétum de Fatumea (Suai) teve a colaboração de Mariza Noronha Ximenes; e para traduzir para tétum de Welaluhu (Fatuberliu) contou com a cooperação de Bonifácia da Costa Magalhães.

Os textos estão dispostos em colunas, para mais fácil comparação. Inclui ainda um prefácio, de JP Esperança, sobre questões de tradução, política linguística e promoção da leitura em Timor-Leste.




segunda-feira, fevereiro 17, 2025

Uma tradução em tétum de Welaluhu de “L'Homme qui plantait des arbres"

 https://publishnl.bookmundo.com/books/412206

Uma tradução em tétum de Welaluhu do mundialmente famoso conto de Jean Giono “L'Homme qui plantait des arbres / O homem que plantava árvores”, que fala sobre a necessidade da reflorestação e sobre o poder de cada ser humano para o Bem.

A Welaluhu Tetum translation of the world-famous story by Jean Giono “L’Homme qui plantait des arbres / The man who planted trees”, which talks about the need for reforestation and the power of every human being for Good.




sexta-feira, abril 03, 2015

Saber ler é importante, e mais ainda quando se sabe ler numa língua em que há livros...

Quando parecia que as línguas oficiais consagradas na Constituição já não eram motivo de polémica, e que o aparelho do Estado estava mobilizado para a implementação de uma política linguística comum, o recente debate público sobre a introdução das línguas regionais como línguas de instrução no sistema educativo veio dar uma nova visibilidade a algumas vozes que rejeitam o português como língua oficial, com o argumento de que usar o português “é ser colonizado”. Um dos fóruns onde defendem essa posição é o Facebook. Um alucinado qualquer partilhou um “post” meu [https://www.facebook.com/jpesperanca.timor/posts/1039876492706556] num grupo timorense do Facebook chamando-me “fascista” e “colonialista” por causa do que digo sobre a língua de alta cultura.
Respondi-lhe com links para os livros traduzidos para tétum registados no Index Translationum da UNESCO, que são 3:


http://www.unesco.org/xtrans/bsresult.aspx?a=&stxt=&sl=... 

e os traduzidos para português registados na mesma lista, que são 80602:


http://www.unesco.org/xtrans/bsresult.aspx?a=&stxt=&sl=... 

Sei que ambas as listas estão incompletas, mas já dá para ter uma ideia do que eu queria dizer.  :-)

"Pedagogos" pobres de espírito

Há um discurso preocupante em certos círculos pedagógicos que se movem por cá, o de que é “ser colonizado” poder ler como estas crianças* leem e que os alunos das escolas rurais só podem ler meia dúzia de livrinhos “sobre a realidade da sua aldeia”. Como na aldeia não há astronautas, nem comboios, nem girafas e leões, nem pinguins, nem mulheres arqueólogas ou cirurgiãs, nem tantas outras coisas, os miúdos não podem ler sobre essas coisas. Esses “pedagogos” parecem querer impedir as crianças de sonhar… Cria-se assim um fosso entre as crianças educadas em escolas que os preparam para ser futuros cidadãos do seu país e cidadãos do mundo (mesmo que morem na aldeia), e as que são preparadas para terem horizontes curtos que não vão além do seu knua… 
Haver contextualização de materiais não significa fechar as janelas!




* que são os meus meninos.

sábado, março 21, 2015

Ainda a polémica das línguas maternas no sistema educativo timorense:



(1) - Deve haver poucos educadores de infância ou professores primários em Timor que não falem tétum (e suponho que seja procedimento padrão no Ministério da Educação não contratar professores que não saibam tétum).


(2) – As crianças, mesmo aquelas que não têm o tétum como uma das suas línguas maternas, tornam-se na maior parte das comunidades rapidamente bilingues assim que entram na escola, de forma natural, ao brincar e conviver no recreio com crianças provenientes de famílias com línguas maternas diversas. O tétum tornou-se língua franca de Timor de forma natural, como uma maneira prática de as comunidades se entenderem, mesmo antes de o tétum ser língua oficial e uma das línguas da escola. Qualquer fataluco ou baiqueno que venha morar para Díli vê os seus filhos (antes monolingues na língua regional) a falar tétum com os vizinhos poucos meses depois de chegarem, de forma natural, sem ser sequer preciso ensiná-los.


(3) – O tétum é em Timor-Leste a língua de unidade nacional, a língua em que toda a gente se pode entender, em que o povo (mesmo as crianças da escola primária) pode ver as notícias na televisão nacional. O português é a língua oficial que dá acesso à alta cultura, ciência, etc (não porque o tétum não pudesse ser língua de ciência, mas porque as condições sócio-económicas e demográficas não o permitem: o mercado leitor timorense é reduzido, os produtores de conhecimento e bens culturais de alta cultura em tétum são muito poucos).


(4) – Uma criança leitora é um professor de si mesmo. Desde que tenha aprendido a ler numa língua em que há livros.


(5) – Uma criança aprende mais facilmente línguas quando é pequenina.


(6) – As pré-escolas e escolas primárias timorenses podem ser facilmente lugares de imersão em tétum, já que todos os professores, e muitos dos alunos, falam esta língua. A questão depois seria planificar o ensino do português, logo desde a chegada à pré-escola, e dar aos professores que ainda não dominam este idioma as aulas planificadas que os ajudem no seu trabalho. Será que se justifica trazer as línguas regionais para a equação?

sábado, abril 13, 2013

A nova literatura de Timor-Leste começa a desabrochar



Durante muitos anos a literatura (não a oratura) de Timor-Leste era essencialmente em português. Desde há alguns anos têm começado a aparecer novas obras e autores que se exprimem em tétum. Quando eu era uma criança, uma professora de português que tive – provavelmente satisfeita pelo facto de já então eu ser um leitor voraz – escreveu num caderno meu a frase “Um país faz-se com homens e com livros.”, de Monteiro Lobato (mas que eu durante anos pensei que fosse de Mário Sacramento, um democrata ilhavense durante a longa noite do fascismo em Portugal). Foi uma frase que me impressionou muito, e que considero ainda hoje um dos meus motes. Timor-Leste é para mim a minha terra adoptiva e creio que ninguém pode negar que o século XX viu nascer neste país homens e mulheres de uma grandeza excepcional, mas em grande medida ainda faltam os livros. Há alguns, com destaque para as obras do Takas (Luís Cardoso), mas sendo escritos em português, que é uma das línguas dos timorenses mas que muitos ainda não dominam, têm uma penetração reduzida na sociedade. O aparecimento recente de uma literatura tetumófona permite-nos ter esperança de que as coisas mudem e que apareça em breve uma geração que lê. E ler em tétum não é nunca um obstáculo a que se venha a ler em português. Ler em tétum na infância pode despertar nos miúdos o bichinho dos livros, e quem fica assim cativado nunca mais vai deixar de querer ler, e quando acabarem de ler os livros em tétum (qualquer leitor pode ler num espaço de tempo relativamente curto TODOS os livros em tétum que existem, infelizmente), e continuarem com ânsia de conhecimento e de emoções, vão ler noutras línguas, começando evidentemente pela portuguesa.
Irei começar a falar aqui de livros com mais frequência, de livros de Timor, livros sobre Timor, e de livros em tétum – originais ou em tradução. Hoje vou começar com uma pequena novela publicada pela ONG Timor Aid em Novembro de 2012 intitulada “Inan ne’ebé iha bosok ualu” [A mãe que disse oito mentiras] do escritor timorense de 17 anos de idade Ariel Mota Alves. A obra obteve um terceiro lugar no concurso literário em tétum organizado anualmente pela Timor Aid e pela Fundação Alola, de que também já cheguei a ser membro do júri. Trata-se de um livrinho com uma história mais ou menos linear, de pendor moralista, mas bastante eficaz na transmissão da sua mensagem. As personagens principais são Bisoi e o seu filho Atoi, e a história gira em torno dos desafios que enfrentam ao longo das respectivas vidas. Mãe e filho são extremamente pobres, mas o sacrifício abnegado da mãe vai criando oportunidades onde elas não existiam para dar uma vida melhor ao seu menino. Este por seu lado vai aceitando e beneficiando com isso, e acrescentando o seu esforço ao da sua progenitora, mas terá que enfrentar também os seus próprios dilemas.
Um livro que, não obstante o enredo pueril, devia ser amplamente lido pelas crianças e jovens timorenses, como uma chamada de atenção para os fazer pensar no que os seus pais muitas vezes fazem por eles, e também como uma homenagem às mulheres deste país. Conheci muitas timorenses com a fibra desta Bisoi ao longo de mais de uma década em Timor. A literatura não tem que tentar mudar o mundo, mas pode tentar mudar o mundo. Esta obra, de um escritor tão jovem, tenta fazer o seu quinhão.


terça-feira, dezembro 25, 2007

PSHT Timor

Um torneio da Persaudaraan Setia Hati Terate (PSHT) em Díli, Timor-Leste, no GMT, em 22 de Outubro de 2005





segunda-feira, setembro 24, 2007

quinta-feira, setembro 20, 2007

sexta-feira, maio 04, 2007

A tradição já não é o que era...



Este post é motivado por um comentário de um leitor no post anterior.


Como era a tradição balinesa...



















Como era a tradição timorense....






A vergonha do corpo é uma tradição ocidental trazida para Timor e para Báli pelas estruturas dos poderes coloniais.
Mesmo entre os javaneses, maioritariamente muçulmanos, a disseminação do uso do jilbab é um fenómeno muito recente (pós queda do regime de Suharto), e um desvio em relação ao islamismo sincrético e moderado tradicionalmente aí praticado.

segunda-feira, abril 23, 2007

Isto é tudo uma questão de imagem

Báli vende uma imagem de paz e amor, harmonia e graciosidade que seduz milhares de turistas do mundo inteiro. Há na ilha uma cultura de bem receber que se manifesta por exemplo na limpeza e elegância simples que existe habitualmente mesmo nos warung mais modestos, e na forma como as pessoas são tolerantes com hábitos diferentes dos seus, o que permite que australianas aos montes circulem pelas ruas de Kuta em biquíni sem que ninguém lhes atire pedras.




Em Timor há ainda muito trabalho a fazer, quer na educação para a tolerância dentro das comunidades, quer ao nível do funcionamento das estruturas do Estado. O turista que se afoite a comprar um bilhete da Merpati para vir visitar “a mais jovem nação do mundo” será recebido no interior do Aeroporto Internacional Nicolau Lobato por este quarto de banho deprimente, entupido e com o autoclismo avariado. Será muito difícil manter um quarto de banho decente a funcionar?

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Textos antigos

Editoriais do Semanário

Em 2004, durante cerca de um mês e meio assumi em Díli as funções de Director provisório do jornal de língua portuguesa Semanário. O Director fundador, António Veladas, ia ausentar-se do país em férias e propôs-me esse desafio, que aceitei. Por razões que não vêm ao caso, ele acabou por se ver impedido de reassumir a tarefa no momento que havíamos inicialmente combinado, e ficou depois no seu lugar outra pessoa. Os pequenos textos que se seguem são os editoriais que escrevi durante esse período:

Quando o António Veladas me propôs que assumisse as funções de director do Semanário, durante as férias dele, hesitei. São muitos os meus afazeres e a última coisa de que preciso é de ainda mais trabalho. Mas acabei por aceitar, por uma questão de coerência com as posições que tenho defendido. Claro que teria sido muito mais fácil declinar o convite e ficar depois sentado numa esplanada a beber umas cervejas frescas e a dizer mal do trabalho de quem faz alguma coisa, como é hábito de muita gente da nossa praça. No entanto, é muito mais interessante pôr mãos à obra e tentar fazer algo que se veja.
O António teve ainda tempo de deixar preparada a maior parte deste jornal, antes de partir, de forma que a transição se torna mais suave. O jornal da próxima semana será a prova de fogo da equipa que cá ficou a labutar. A linha editorial do jornal irá naturalmente manter-se, com algumas pequenas alterações temporárias, nomeadamente no que se refere à ausência de colaboradores habituais, por motivo de férias. Teremos vários dossiês especiais sobre temas da actualidade nacional, e daremos também destaque à cultura.
O Semanário é um jornal timorense em língua portuguesa, vocacionado essencialmente para o público timorense, no qual trabalham timorenses e malais. Não é um jornal para expatriados. Cumpre uma função de suma importância, enquanto órgão de comunicação social em português, num panorama em que a maior parte dos jornais parece dar mais importância à língua dos indonésios do que às línguas oficiais de Timor-Leste, e em que a televisão nacional transmite programas infantis em língua inglesa.
Tentaremos também marcar uma diferença pela forma de relatar os acontecimentos, evitando o sensacionalismo fácil, que só serve para assustar a população. Como aconteceu no início da semana, quando uma manifestação na capital em que estava presente cerca de meia centena de pessoas se viu transformada nas palavras de alguns órgãos de comunicação social no dia seguinte num movimento de quinhentos ex-guerrilheiros.

Semanário [jornal em língua portuguesa publicado em Díli] nº 29, 24 de Julho de 2004


Muitas nações recém-independentes após terem sido colonizadas por outras potências tiveram que se defrontar com um dilema: o que fazer com os seus combatentes da liberdade? Nalguns casos, como por exemplo em países da África lusófona, a opção foi frequentemente dar-lhes lugares no aparelho de Estado, transformando bons comandantes guerrilheiros em maus ministros, secretários de Estado e directores-gerais. Timor-Leste parece ter aprendido alguma coisa com os erros dos outros, fugindo à tentação de premiar o mérito dos antigos comandantes e combatentes das Falintil com lugares nas estruturas do Governo, a não ser que os próprios demonstrem capacidades próprias para a função. Mas isto faz surgir um outro problema: como premiar então homens que abdicaram de tudo - da vida familiar, do aconchego de um lar e de um tecto sobre as suas cabeças, de uma vida de relativa segurança com salário ao fim do mês - para se dedicarem ao ideal da independência da pátria e da liberdade para o seu povo?
A entrada para as FDTL, já não um exército guerrilheiro de libertação, mas uma tropa moderna com outro tipo de objectivos, foi condicionada a um processo de selecção que deixou de fora alguns dos ex-combatentes do tempo da ocupação. Para esses, espera-se que o novo Estado saiba encontrar formas simbólicas, mas significativas, de lhes demonstrar que não foram esquecidos e que a Pátria tem consciência do que lhes deve. Não são tantos como às vezes se diz, e há comissões que estão a reunir os dados necessários para saber realmente quem são. Homens como Xanana Gusmão, Taur Matan Ruak ou Lu Olo conhecem-nos, andaram com eles no mato.
Há quem diga que a UIR [Unidade de Intervenção Rápida da Polícia] estava ansiosa para testar os equipamentos e que usou força excessiva para afastar os manifestantes do Palácio do Governo na semana passada, tendo em conta que eram poucos e estavam desarmados. É uma opinião discutível, o gás lacrimogéneo dá muito nas vistas mas é altamente eficaz para afastar as pessoas sem ser preciso usar violência.
O que não é discutível é a gravidade das acusações feitas à PNTL de tortura de detidos na sequência da manifestação. Sendo Timor-Leste um Estado de Direito, espera-se agora que, para além dos processos disciplinares na própria instituição, os alegados torturadores sejam julgados em tribunal para averiguar da verdade das acusações. Não é admissível que a PNTL possa usar os métodos de interrogatório que eram habituais por parte das forças de segurança indonésias, na época da ocupação.

Semanário [jornal em língua portuguesa publicado em Díli] nº 30, 31 de Julho de 2004


Regras no trânsito
Ontem à noite (sexta-feira, 6) fui mandado parar numa operação-stop da Polícia ao lado do Edifício ACAIT. Como circulava sem os documentos da motorizada, esta foi apreendida, e terei que pagar uma multa para a reaver. A minha motorizada é uma daquelas em “não-sei-quanta-gésima” mão, que foi sendo revendida de malai para malai ao longo dos últimos anos, e cujos documentos algum dos proprietários perdeu entretanto há muito tempo. Claro que me causa transtorno, mas encarei o percalço pelo lado positivo, isto parece significar que as regras de circulação na estrada estão a ser aplicadas e que Timor-Leste vai deixar de ser o “faroeste”, uma terra sem lei, no que se refere ao trânsito. No momento em que fui mandado parar havia já lá umas vinte motorizadas apreendidas aos seus condutores, e “ainda a noite era uma criança”. Resta mencionar, porque também deste tipo de pormenores se faz a imagem de um Estado, que os agentes da PNTL envolvidos na operação com os quais tive contacto mantiveram sempre uma postura de cortesia e profissionalismo.
Crianças mendigas
Durante séculos nos relatos de viajantes e missionários os timorenses foram descritos como um povo digno, altivo, que se recusava à mendicidade. Em 1999, os jornalistas aqui chegados para cobrir a chegada da Interfet ficaram assombrados com a total destruição da cidade. Num contexto em que faltavam quase todos os bens essenciais, os repórteres escreviam para os seus jornais e contavam nas suas rádios e televisões que os timorenses, apesar das dificuldades, não pediam esmola. Falavam com admiração sobre um povo orgulhoso. Cinco anos de presença dos “internacionais” mudaram radicalmente tudo isso, e agora basta passar em frente dos restaurantes onde os malais costumam comer para encontrar dúzias de crianças a mendigar dinheiro. Alguns dizem “Security, security”, como se meninos e meninas daquela idade pudessem proteger os carros ou motorizadas se alguém pretendesse roubá-los. O trabalho infantil é um mal, mas seguramente um mal menor do que a mendicidade infantil. Se uma criança tem que andar a vender isqueiros ou CDs para ajudar no orçamento familiar, pelo menos sempre vai aprendendo o valor do trabalho, e se tiver pais conscientes, será incentivada a aplicar-se nos estudos para poder ter uma vida melhor. As crianças de rua não assumem ainda as proporções de lugares como o Brasil ou Moçambique, mas é melhor que se faça alguma coisa ou estaremos a formar uma geração de pedintes. Se um destes pequenos mendigos conseguir que os malais que pensam estar a ser o bom samaritano lhe dêem por dia uns três dólares ganhará tanto como um funcionário público no fim do mês. Quem é que o convence depois a ir para a escola estudar para ter uma vida diferente?

Semanário [jornal em língua portuguesa publicado em Díli] nº 31, 7 de Agosto de 2004


A sétima edição do guia de viagens Lonely Planet sobre a Indonésia, publicada em Novembro de 2003, diz num texto assinado por um ignorante qualquer chamado Nick Ray (na página 33) que o Primeiro-Ministro Mari Alkatiri escolheu o português para língua oficial e que foi uma má escolha. O senhor que escreveu tal prosa passa por cima das decisões da Assembleia Constituinte democraticamente eleita em eleições organizadas pelas Nações Unidas, ignora as posições sempre oficialmente defendidas pelo CNRT, esquece as declarações de princípio dos partidos políticos deste 1975 até à independência, não tem em conta que o povo timorense elegeu os seus representantes sabendo de antemão que oficializar a língua portuguesa fazia parte do programa dos seus partidos.
Este tipo de declarações incorrectas é corrente em muitos meios de comunicação social, especialmente no mundo anglo-saxónico. Por outro lado, na minha terra costuma dizer-se “os cães ladram, mas a caravana passa”. Não creio que a opinião do senhor Nick Ray seja para levar a sério. Preocupa-me mais a atitude que persiste em certos jovens, que se queixam continuamente de que “o português é muito difícil”. Preocupo-me não pelo facto de eles não aprenderem português – há muitos outros que aprendem e quem fica a perder é quem fica parado – mas pelo que isso mostra da sua atitude perante a vida. Os argumentos deles deixam-me perplexo. Agora há quantidades enormes de livros e dicionários modernos distribuídos por todo o lado em Timor, incomensuravelmente mais do que alguma vez houve no tempo da administração colonial portuguesa. Há professores de nacionalidade portuguesa com cursos superiores de ensino de línguas espalhados pelo território, enquanto na época colonial não havia cá universidade, muitas das professoras do Liceu eram as esposas dos militares aqui colocados, muitas crianças aprendiam a ler e a escrever nas escolas primárias da “psico-social” onde o professor era muitas vezes um militar com a quarta classe que lá ia fazendo o que podia, mas não tinha preparação adequada para a função. Dizem que não falam português em casa; no tempo dos portugueses havia poucas famílias em que a língua de casa fosse a portuguesa. O maior escritor que Timor já produziu, Luís Cardoso, escreve com mestria em português, mas só aprendeu este idioma quando entrou para a escola, como as outras crianças com quem brincava. Conheço aqui muitos timorenses com o quinto ano antigo (equivalente à escola pré-secundária), ou mesmo com a quarta classe, que falam português fluente, apesar de quase não poderem exercitá-lo durante um quarto de século. Conheci um senhor, na época motorista no escritório da Comissão Europeia em Díli, que domina a língua portuguesa e que me contou que tinha aprendido no mato com a Fretilin, nos primeiros anos da ocupação, escrevendo na terra e nas cascas das árvores. Conheço pessoas, jovens e menos jovens, que aprenderam a falar português com correcção desde 1999 até agora. É que já passaram cinco anos. Muitos dos que ficam a protestar que a língua portuguesa é difícil sabem agora o mesmo que sabiam nessa altura. Isso deixa-me confuso: o que esses moços e moças querem dizer é que têm uma capacidade intelectual menor do que a da geração dos pais e avós deles? Ou simplesmente não lhes apetece fazer pela vida, e daqui por uns anos irão fazer manifestações quando os colegas mais diligentes arranjarem emprego e eles não?

Semanário [jornal em língua portuguesa publicado em Díli] nº 32, 14 de Agosto de 2004


Há uma Igreja em Lisboa onde vi uma vez um cartaz colado à entrada que dizia “Deus chama-o mas não através de telemóvel. Por favor desligue o seu ao entrar na Igreja.” Já repararam como o telemóvel passou a ser dono e senhor da vida de muita gente? Eterno intruso, sempre a desconcentrar-nos do trabalho, a acabar com o nosso sossego, a meter-se com a nossa privacidade... Sim, claro que é muito útil, mas deve ser um servo e nunca um senhor. Hoje em dia há pessoas que nunca desligam o seu, vão para reuniões que não devem ser interrompidas de telemóvel ligado, vão para as aulas de telemóvel ligado, até para os exames... E os colegas que sofram enquanto a maldita maquineta toca em acordes agudos uma cantiga qualquer que esteja na moda. E muito poucos utilizadores parecem ter descoberto já que os aparelhos endiabrados têm um comando para os pôr no silêncio de forma a não perturbar ninguém. Depois há aqueles, talvez deva dizer principalmente aquelas, que têm coragem de ficar a namorar pelo telemóvel no lugar de trabalho enquanto o cliente espera à sua frente para ser atendido. E já tentaram manter uma conversa decente com um(a) jovem moderno(a) de aparelho na mão a jogar “Snake” sem parar ou a mandar e receber mensagens “sms” ininterruptamente? Não é coisa para dar cabo dos nervos de um cidadão pacato e pouco dado a emoções fortes?
Acho que está a chegar a altura de eu ir viver para algum lugar como Hatu Builiku. Parece que os telemóveis lá ainda não funcionam...

Semanário [jornal em língua portuguesa publicado em Díli] nº 33, 21 de Agosto de 2004



A Ministra Ana Pessoa está de parabéns por ser a única pessoa que fala regularmente em língua portuguesa na TVTL, para além de alguns discursos de Xanana Gusmão por vezes também neste idioma. Com efeito, não se compreende muito bem porque não há mais presença da língua portuguesa na televisão nacional, sendo esta uma das línguas oficiais do país, a única que está com carácter definitivo já no sistema de ensino (a língua dos indonésios só continua a ser língua veicular nas escolas como medida provisória, e os currículos do tétum ainda estão a ser desenvolvidos) e sendo o idioma em que o Parlamento produz a legislação nacional. Como os responsáveis da televisão parecem achar que falar ou escrever português é pecado, colocam também todas as legendas numa algaraviada macarrónica que pretende passar por tétum, e acaba por nem ser tétum nem português, mutilando inclusivamente com o maior despudor o nome oficial das instituições do Estado, como Ministérios ou Secretarias de Estado (cuja designação é habitualmente em língua portuguesa). Sendo a televisão nacional um serviço público talvez fosse útil se ajudasse os cidadãos a conhecerem o nome correcto das instituições nacionais, em vez de “desajudar”.
Tem sido mencionada por vezes por alguns responsáveis timorenses a possibilidade de se solicitar que a RTP internacional passe a ser reemitida aqui como um segundo canal de televisão disponível vinte e quatro horas por dia, como acontece com a RTP África nos países africanos lusófonos. Isso seria algo de bastante útil, aprender as línguas oficiais do Estado é não apenas um dever patriótico mas também um direito de cidadania, e ter programação disponível em português na televisão é uma ajuda importante para quem está a aprender a língua.
Outra medida bastante produtiva seria pedir à RTP a cedência de programas infantis de qualidade como a Rua Sésamo, para emitir na TVTL em horas adequadas para as crianças poderem ver. Actualmente vejo por vezes programas para as crianças em inglês na televisão, e não duvido que seja muito giro e útil aprender essa língua, mas não creio que seja a prioridade mais urgente para as meninas e meninos que andam a esforçar-se na escola para dominar o português.

Semanário [jornal em língua portuguesa publicado em Díli] nº 34, 28 de Agosto de 2004


Com este número chega ao fim a minha curta passagem pelo Semanário como Director. Foi um desafio interessante, mas chegou a altura de voltar à normalidade. E a normalidade para mim não é dirigir um jornal, não sou jornalista, nem tive nunca pretensões de sê-lo. Sou professor, o que talvez tenha influenciado os assuntos tratados pelo Semanário durante este mês e meio, e os textos escolhidos. É-me naturalmente mais fácil falar do que conheço... Sou professor, e estou cheio de trabalho na Universidade, o que levou a que o meu trabalho voluntário me “tenha saído do corpo”, custou-me pelo menos duas “directas” (noites sem dormir) por semana a trabalhar. Mas não tenho nada que me pôr com lamúrias porque só aceitei porque quis. Continuo de resto a manter a mesma posição de princípio: é muito importante existir um jornal de língua portuguesa em Timor-Leste. O Semanário conseguiu ao longo da sua existência uma posição de relevo na sociedade timorense. A compra de um milhar de exemplares todas as semanas pela Cooperação Portuguesa é garantia de que conseguimos fazer chegar o jornal também aos distritos, já que esses mil jornais são depois distribuídos através dos professores portugueses e dos superintendentes da educação a professores timorenses por todo o país. Mas há muito por fazer ainda, principalmente no que se refere a recursos humanos. É um trabalho monstruoso se concentrado em poucas mãos, os jornalistas não dominam o português e escrevem em tétum ou indonésio, os textos passam depois para tradutores, e finalmente voltam a ser revistos... pelo Director. Se o Director tem outras coisas para fazer tudo isto se torna mais complicado, como o leitor pode verificar neste número. Os jornalistas estão a estudar português, e terão que o dominar, talvez numa fase posterior o jornal possa recrutar mais, ou receber estagiários de cursos que funcionem em língua portuguesa na universidade, mas para agora daria jeito ter alguns voluntários que fizessem tarefas como a revisão de textos em língua portuguesa. E termino como comecei: é melhor pôr mãos à obra do que ficar sentado a dizer mal de quem faz alguma coisa, é melhor acender uma vela do que maldizer a escuridão.
P.S. – Já depois de ter escrito este editorial, o António telefonou-me a dizer que tem uma costela partida e vai chegar cerca de uma semana mais tarde do que o previsto. Isso significa que o meu caríssimo leitor vai ter que me aturar aqui mais uma semana. Só mais uma.

Semanário [jornal em língua portuguesa publicado em Díli] nº 35, 4 de Setembro de 2004


Pirataria
Na Indonésia é difícil encontrar à venda filmes e CDs de música originais, em Timor-Leste é quase impossível. Quase tudo o que existe no mercado local é contrafeito, falsificado, ou seja, produtos-”piratas”. Isso é uma situação que ninguém tem interesse em mudar, se quisermos falar com franqueza, a não ser os artistas timorenses, que saem prejudicados, mas estes não constituem um grupo de pressão significativo. A realidade é que a situação actual é a única que permite que um cidadão leste-timorense (ou indonésio, já que os CDs piratas que se encontram em Timor têm aí origem) tenha poder de compra para adquirir filmes recentes ou CDs de música. Um CD áudio original que em Portugal custa para cima de quinze dólares obtém-se aqui em versão pirata por um dólar, um DVD que lá tem um preço que pode ultrapassar os trinta dólares encontra-se em Timor-Leste por menos de três dólares. Neste contexto é com muita satisfação que vemos como o mercado timorense está inundado de CDs e VCDs piratas de música dita portuguesa (deveria antes chamar-se música lusófona, porque a maior parte dela é em língua portuguesa, sim, mas oriunda de países como o Brasil, Angola, Cabo Verde...). Os empresários que se dedicam a ir fazer cópias contrafeitas à Indonésia não trabalham por projectos políticos ou sonhos ou ideais nacionalistas, eles investem na reprodução de milhares de cópias dessas músicas porque sabem que existe procura por parte dos consumidores timorenses. Isso revela como aspectos culturais e gostos musicais do mundo da lusofonia fazem parte integrante da actualidade nacional, e nunca deixaram de fazer, apesar de todos os esforços da Indonésia para suprimir esse importante traço da identidade de Timor-Leste.
Baby sitting
Em Timor quando um casal que tem filhos pequenos resolve ir jantar fora, ou dar um passeio romântico a ver a lua e as estrelas na praia, as crianças ficam com os irmãos mais velhos, ou com os avós, ou com os tios, ou com a crioula, ou com uma ama (ou nalguns casos, o marido prefere deixar a esposa em casa a tomar conta dos filhos e vai jogar às cartas com os amigos, ou para os copos, ou tentar engatar as moças que trabalham nos bares). Em países como a Austrália, EUA, e em Portugal nas grandes cidades, onde a família alargada foi substituída pela família nuclear de pai, mãe e um ou dois filhos apenas, a solução costuma ser arranjar uma jovem, habitualmente estudante, que fica umas horas a tocar conta dos meninos. Esse trabalho chama-se baby sitting. Foi isso que estive a fazer com o Semanário, mas agora chegou o momento de entregar a criança ao pai.
Agradeço a quem fez a gentileza de ir lendo o que aqui fui escrevinhando, e agora que me retiro prometo continuar a entregar uns textos de vez em quando ao Director, como contributo para este projecto que me parece de muito mérito.

Semanário [jornal em língua portuguesa publicado em Díli] nº 36, 11 de Setembro de 2004

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Tradição

As autoridades locais decidiram mandar pintar passadeiras em várias ruas do centro de Díli. O problema é que se esqueceram de fazer uma campanha de educação rodoviária na televisão e nos jornais para ensinar às pessoas para que servem as ditas. Se os peões descobrirem antes dos condutores a utilidade das passadeiras vai ser uma tragédia. E parece-me que a hecatombe vai começar pelos peões estrangeiros, que - pelo menos na maioria - já sabem qual é o objectivo de uma passadeira. Já estou a imaginar as próximas primeiras páginas do STL: “Durante o dia de hoje morreram mais cinco malais enquanto estavam a atravessar a estrada por cima daquelas riscas brancas que o Governo mandou pintar”.

As regras de trânsito aqui são calmamente ignoradas pela maior parte dos timorenses. No cruzamento de Colmera quem vem do supermercado Fitun Maubara encontra um sinal de STOP. São muito poucos os condutores que aí param, sendo habitual que parem antes os que vêm na estrada de sentido único que vem dos lados do BNU. Também no cruzamento do banco australiano ANZ é normal que os condutores que chegam vindos da rua da Escola Paulo VI prossigam a sua marcha na maior das despreocupações, desrespeitando o sinal de “aproximação de estrada com prioridade” que encontram no caminho. Aí param os que vem da direcção do “galódromo”, apesar de a lei dizer que têm prioridade. Num caso e noutro os sinais são completamente ignorados e o que funciona é a tradição.

Ainda a propósito de tradição, tenho falado com vários timorenses manifestando o meu horror pelo crime hediondo de há alguns dias em Maubara, onde três mulheres da mesma família foram queimadas, assassinadas por serem consideradas bruxas (buan). A maior parte das pessoas reage como se fosse uma coisa natural: “então, mas elas eram buan”. Houve uma pessoa que me disse com toda a calma que alguns populares já tinham tentado queimá-las antes, nos tempos da UNTAET, mas a CIVPOL tinha interferido, impedindo o normal desenrolar da acção do povo. Na ocasião alguém tinha chegado a decepar uma orelha a uma das bruxas mas quando os polícias da ONU iam levá-la para o hospital viram que a orelha já tinha nascido novamente, o que teria causado grande surpresa a esses malais. Depois de várias conversas deste género, encontrei alguém que se solidarizou com o meu horror. “Não era preciso tê-las queimado”, explicou, “bastava ter-lhes pregado um prego na testa”!

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Quando a ignorancia e a tradicao matam

EM MAUBARA
Vizinhos mataram três feiticeiras
Três mulheres foram mortas sábado em Maubara, 40 quilómetros a oeste de Díli, acusadas de feitiçaria pelos vizinhos, crime que está a ser investigado pela Polícia da ONU (UNPOL).Segundo a porta-voz da UNPOL, comissária Mónica Rodrigues, o crime está a ser averiguado por uma equipa de investigação criminal da ONU, não havendo ainda informações disponíveis sobre o móbil do crime.As autoridades policiais timorenses locais disseram que as três mulheres eram da mesma família, tinham 70, 50 e 25 anos, e que foram mortas e queimadas por populares que as acusaram de serem bruxas.A comissária Mónica Rodrigues acrescentou que também no fim-de-semana, na zona de Delta 4, no bairro de Comoro, na parte ocidental da capital timorense, um morador encontrou uma granada, tendo efectivos da GNR sido enviados para o local, confirmando tratar-se de um engenho explosivo de fragmentação, para uso militar, ainda intacto. A UNPOL está também a investigar a morte de um homem, cujo corpo apresentava várias marcas de ferimentos. O crime registou-se sábado na aldeia de Naigidal, distrito de Covalima, sudoeste de Díli.Segundo a UNPOL, na capital timorense continua a registar -se uma situação "relativamente calma, com alguns incidentes esporádicos, mas sem a intensidade das últimas semanas".
Jornal de Noticias
Terça-feira, 9 de Janeiro de 2007
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E triste o quao cruel pode ser a ignorancia! Choremos!...

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Malais

Em Timor sou um malai. Já era malai muito antes de vir para Timor, porque o convívio com a comunidade timorense tinha-me granjeado aí muitos amigos que me chamavam, naturalmente, malai, enquanto iam dizendo que eu já era meio timorense. É que se pode ser as duas coisas ao mesmo tempo. Conheço aqui um ancião português que veio para cá fazer a tropa como um moço na flor da idade e nunca mais de cá saiu, passou muito mais anos em Timor do que na terra natal, mas, como é natural, toda a gente lhe chama aqui o Malai Cruz. Tenho um amigo chamado Abílio Bessa que também veio para aqui jovem como militar e gostou tanto disto que acabou por casar com uma moça de Maubara e estabelecer-se por lá. Em 1975 foi um dos refugiados em Atambua evacuado para Portugal com a família, e foi morar no Porto. Durante muitos anos, antes de Timor se tornar moda e as pessoas fazerem cordões humanos vestidas de branco, havia pouca gente a mexer-se para que a situação mudasse, mas entre esses contava-se a CDPM, A Paz é Possível em Timor-Leste, o Prof. Barbedo de Magalhães e... a família Bessa. Quando a liberdade chegou a Timor, ele também veio para cá, tal como uma das filhas, e ambos construíram as suas casas no mesmo bairro de Díli. Questões de saúde e de família têm-no levado a dividir o tempo entre Timor e Portugal, e eu e a minha mulher acabámos por alugar a casa dele. No meu bairro toda a gente me conhece como o malai que alugou a casa do Avô Malai. “Avô” é aqui a forma de tratamento dos mais velhos, mesmo que não sejam da família. Se eu quiser perguntar o preço dos tomates no mercado a uma vendedora velhinha perguntarei “Avó, tomate ne’e folin hira?” (Avó, qual é o preço dos tomates?). A minha esposa é timorense, se tivermos filhos aqui eles serão “malae-oan”, filhos do malai.

Os malais, que são na generalidade umas criaturas muito cheias de manias estranhas, têm a obsessão do politicamente correcto (por exemplo, no mundo lá de onde vêm já não há “velhos”, agora há uns espectros trancafiados em lares e casas de repouso a que se chama “cidadãos da terceira idade”). Isso aplica-se inclusivamente a certos malais que chegam cheios de boas intenções a transbordar do peito e que se caracterizam pela atitude com que encaram os nativos “tão amorosos”: «Regozijai porque nós chegámos para vos salvar e trazemos a língua portuguesa, que é a panaceia universal que vai resolver todos os vossos problemas!» Alguns vem equipados para dar aulas sobre as obras de Gil Vicente e sobre “Os Lusíadas” e outras coisas que tais de que os timorenses precisam como de uma ida ao dentista sem anestesia. Há então uns malais que ficam muito escandalizados por serem chamados de malais, e que acham que isso é racismo e discriminação, e passam então a “ensinar” os nativos a não os chamarem assim. Os timorenses, inicialmente surpreendidos por os malais ficarem aborrecidos por serem chamados de malais, reagem com a benevolência que se deve ter com as crianças que ainda não sabem as regras de comportamento social (Sim, filho, o teu urso de peluche pode engolir o elefante do Mogli) e fazem-lhes a vontade, quando à sua frente. Alguns malais na terra deles já não chamam ciganos aos ciganos, mas mudaram-lhes o nome para “cidadãos de etnia cigana”; os timorenses acham que a língua serve para comunicar e não para complicar, por isso os chineses daqui não são chamados “cidadãos timorenses de etnia chinesa” mas sim “China-Timor” (Xina-Timór em tétum), o que permite distingui-los dos chineses recém-chegados, que não são de cá, e por isso são denominados de “China-Mandarim” ou “China” apenas. E já que falei em ciganos, lembremo-nos de que a palavra portuguesa “gajo” tem origem na língua antigamente falada por eles (o rom, ou romani, que ainda usam noutros países que não Portugal ou Espanha) e significava originalmente “alguém que não é cigano” (lembram-se do filme “Gadjo Dilo” – em tétum “malae bulak”?).

Também há uns malais burros que insistem em ouvir “malaio” em vez de “malai” (são normalmente os mesmos que pensam que o tecido tradicional “tais” tem um singular sem “s” e dizem preciosidades como “Olhe, sei lá, comprei hoje um tai divinal!”). Pelo menos actualmente, em Timor “malai” e “malaio” são duas palavras distintas com significados bem diferentes.

Mas afinal de onde vem esta palavra, “malai” na variedade de português que se fala em Timor e “malae” em tétum?

A. Mendes Corrêa no seu “Timor Português” (1944) diz que “por malai entendem os indígenas de Timor os estranhos, os Malaios de outras ilhas, os Chinas, os negros de África, os Árabes, os Portugueses metropolitanos, os Holandeses, os Europeus em geral. Eles próprios não se consideram Malaios, muito pelo contrário.»

Luís Thomaz num artigo de 1974, “Timor – Notas histórico-linguísticas”, pág. 231, defende que: “Por sua vez o nome que os malaios dão a si mesmos – melayu – tornou-se em Timor, sob a forma malae sinónimo de «estrangeiro, pessoa de fora de Timor» - recordação do tempo em que os malaios eram os únicos estrangeiros que apareciam nas costas da ilha. Osório de Castro nota que em Maluco o termo melayu é usado com o mesmo sentido.”

Mas há quem considere que a etimologia da palavra “malai” em Timor não tem nada a ver com “melayu”.

No seu artigo “East Timor and the Southwest Moluccas: Language, Time and Connections” (2000), Aone van Engelenhoven e John Hajek dizem-nos (pág. 121):

«A importante distinção entre os chamados ‘donos da terra’ e ‘donos dos barcos’ nas ilhas do Sudoeste das Molucas é não apenas crítica para as estruturas sociais na região, mas também um importante indicador histórico das relações com Timor no passado. Os ornusa ou clãs ‘donos da terra’ eram os verdadeiros senhores da terra, que já viviam nas ilhas antes da chegada dos ‘donos dos barcos’. Há textos históricos que revelam que a chegada dos donos dos barcos foi despoletada pela destruição da sua ‘Ilha Mãe’. Esta destruição é tradicionalmente explicada como o castigo supremo por uma luta fratricida que era proibida. Os nomes usados nestas histórias fornecem pistas importantes sobre ligações com Timor. Qualquer coisa que inclua malai como elemento reverte para Timor – o que se vê por exemplo em Sairmalai, o nome timorense do herói letinense Slerleti. ((32 A palavra malai, apesar das aparências, não tem nada a ver com Malay (ing.) [ou malaio (port.)], uma malformação europeia de melayu.)) O resultado é que todos os heróis, e consequentemente também os clãs que deles descendem, são considerados como sendo de origem timorense. O segmento Malai (lit. ‘Timor’) em muitos apelidos de família é altamente reverenciado devido à sua referência óbvia. Os exemplos incluem os apelidos Pelmalai ‘aliado timorense’ na ilha de Nila, e Maranmalai na ilha de Léti.

Reuniões recentes entre famílias keienses e do Sudoeste das Molucas na Holanda revelaram como ambos os lados tinham em comum narrativas semelhantes sobre a destruição de uma terra ou continente no ocidente (centrado na área de Timor-Luang). As histórias dos clãs falam sobre barcos que navegavam para o oriente a partir de
Lun-Let, o nome keiense para o continente que era Luang. Os mitos letinenses contam-nos sobre pessoas que navegavam para e de Timor, e sobre o estabelecimento de povoações de ‘donos de barcos’ na costa de Malakitna-Malaliawna, o irmão mais novo (com malai ‘Timor’ bastante evidente).

As ligações entre comunidades em Timor-Leste e no Sudoeste das Molucas mantiveram-se mais directamente até tempos relativamente recentes. Alianças formais tradicionais, por exemplo, foram mantidas entre os governantes tradicionais de Kísar e Baucau até perto de meados deste século, mas acabaram por ser quebradas pelos portugueses. Também é verdade que laços de comércio tradicional foram mantidos até mais recentemente ainda, particularmente com comerciantes que falavam tétum de Leti e de Luang que se sabia visitarem Timor-Leste.
» (A tradução do inglês é minha.)

Lendas na língua de Léti que mencionam esta ligação a Timor (Malai), e a sua análise antropológica e linguística, podem ser consultadas no livro de Aone van Engelenhoven “Leti, a language of Southwest Maluku” (2004), por exemplo nas págs 328, 329, 398.

Os dados destes autores relativos à antroponímia parecem ocorrer também entre os fatalucos da Ponta Leste de Timor, conheço uma moça de lá, de uma família “ratu“ (da nobreza), cujo nome tradicional (o do knua, não o dos documentos nem o “nome de estima” de casa) é Jar Malai. Na segunda parte do “Léxico Fataluco-Português” do Padre Alfonso Nacher, publicado na revista do Instituto Nacional de Linguística (2004), na pág. 122 pode ver-se que nesta língua a palavra “malai” pode significar “estrangeiro” mas também “liurai” (rei).

Enfim, na falta de mais dados, a origem da palavra é uma questão ainda em aberto. O que é certo é que o termo não é visto pelos timorenses como pejorativo ou insultuoso, antes pelo contrário. E quando um timorense quer insultar um malai salientando essa sua condição de não-filho-da-terra, não lhe chama “malae!”, recorre antes a epítetos como “kolonialista!”, ou, de forma mais poética, pode optar por formas como “fahi-mutin” (porco branco).