Um blog em português - e de vez em quando em tétum e em tocodede - sobre os devaneios de um professor e tradutor ilhavense a morar em Timor. Sobre temas timorenses e do Oriente em geral, e sobre outras coisas de vez em quando...
sábado, abril 13, 2013
A nova literatura de Timor-Leste começa a desabrochar
quinta-feira, julho 22, 2010
A tradução d”O Principezinho” para tétum – andando devagarinho em direcção a uma fonte?
«Moi, (…), si j’avais cinquante-trois minutes à dépenser, je marcherais tout doucement vers une fontaine…» - diz-nos O Principezinho. Todos temos de vez em quando a sorte de fazer viagens em que a caminhada é tão interessante como o destino. Para mim, a tradução de “Le Petit Prince” para tétum foi uma dessas viagens. Tive a ideia de traduzir este livro logo à chegada a Timor, em 2001. Parecia-me uma tragédia mais na vida dos timorenses que não houvesse livros para ler nas suas línguas, e que melhor maneira de começar a resolver esse problema do que com a bela história de Saint-Exupéry? Comecei então a tradução com a Triana Corte-Real de Oliveira, uma jovem timorense que tinha interrompido os estudos de medicina na Indonésia devido aos acontecimentos de 1999. Entretanto falei com o Rui Correia, Presidente de uma ONGD de que eu era membro há anos, a SUL-Associação de Cooperação para o Desenvolvimento, sobre a possibilidade desta ONGD publicar a tradução em tétum. A reacção dele foi de entusiasmo imediato, “O Principezinho” também tinha tocado a sua vida, como a de tantos nós, e começou imediatamente a procurar apoios. Conseguiu resposta positiva de algumas câmaras municipais em Portugal e da Fundação Mário Soares. Entretanto eu lembrei-me da possibilidade de a SUL procurar estabelecer uma parceria para uma edição conjunta com a Timor Aid, uma ONG timorense que era pioneira na publicação de livros em tétum e que já tinha sua própria rede de distribuição, e, feitos os contactos, a Timor Aid concordou. O Rui Correia contactou a Gallimard, que detém os direitos de autor, e conseguiu obter a autorização para a publicação. O processo sofreu um contratempo com a partida para Yogyakarta, para continuar os estudos para médica, da minha co-tradutora. Os trabalhos ficaram parados durante um tempo, e foram depois retomados com uma nova colega de trabalho, a Emília Almeida de Araújo, que está actualmente a terminar um bacharelato em Informática na Universidade Nacional de Timor Lorosa’e. Foi com ela que consegui terminar a tradução. Durante o labor de tradutores, quer na primeira fase quer na segunda, usámos constantemente o texto original em francês, mas sempre comparando com as soluções de tradução de três versões diferentes publicadas por editoras portuguesas, e às vezes com uma tradução em inglês também. No entanto, mesmo após concluída a tradução, contratempos diversos levaram a que o processo tenha demorado ainda algum tempo a chegar ao seu termo. Devo agradecer também os esforços e perseverança durante anos da Rosália Madeira Soares da Timor Aid. Foi uma caminhada longa, mas valeu a pena. O Liurai-Oan Ki’ik chegou finalmente a Timor-Leste e agora anda por aí. Pode ser que um dia destes o seu caminho se cruze com o do amável leitor…
sábado, setembro 05, 2009
Pré-requisitos peculiares no acesso ao ensino superior em Timor
Incluem:
(…)
10 - Uma declaração do pai/mãe atestando que o candidato não é casado, quer para candidatos masculinos quer femininos, visada pelo padre da paróquia/chefe muçulmano/protestante (para candidatos com a escola secundária);
11 - Uma declaração da candidata atestando que concorda em não engravidar enquanto frequenta o curso de Farmácia, Enfermagem, Parteira, ou Oftalmologia no ICS;
12 – Para candidatos masculinos, tanto com a escola secundária (ciências naturais), como com a escola técnica de enfermagem e staff, uma declaração atestando que não irá engravidar nenhuma mulher, qualquer que seja, enquanto frequenta o curso de Farmácia ou Enfermagem no ICS;
13 – Uma declaração atestando que aceita ser colocado/a para trabalhar em qualquer local de Timor-Leste, de acordo com a decisão que seja tomada pelo Ministério da Saúde;
17 – Uma declaração atestando que aceita devolver o dinheiro gasto [pelo Estado?] com os seus estudos se ao concluir o curso não aceitar ser colocado no local decidido pelas autoridades competentes ou se sair do curso sem terminar os anos previstos no currículo;
18 – Todos os documentos devem ser entregues dentro de uma pasta de cor vermelha para os rapazes e de cor amarela para as raparigas;
C – Regras a seguir aquando da entrega de candidaturas ou pedido de informação:
(…)
32 – Para rapazes, vestir de maneira asseada, e usar calças compridas e sapatos; para raparigas, vestir de maneira asseada, usar sapatos, e é proibido usar mini-saia;
33 – Proibido estar em posse de armas brancas quando se faz o registo no Instituto de Ciências da Saúde de Timor-Leste ou [na delegação] no enclave de Oecússi.


Um outro aspecto peculiar do sistema de ensino timorense é que qualquer moça que engravide enquanto frequenta a escola secundária, seja em escolas privadas seja no ensino público, é imediatamente expulsa da escola.
quarta-feira, dezembro 24, 2008
Resposta ao JPG
1. O meu texto não é sobre o artigo de Pedro Rosa Mendes (um tipo porreiro, por sinal, além de escritor e jornalista que admiro). Certamente um malai inteligente como você poderia ter compreendido isso. Apenas citei uma frase do texto dele porque vinha a propósito para ilustrar um ponto. Reparou certamente que o exemplo que dei a seguir continua o raciocínio de Pedro Rosa Mendes expresso nessa frase, tal como o seu exemplo sobre os relógios de sol. A verdade é que não se fazem omeletes sem ovos, e o sistema de ensino timorense tem carências muito graves. Isto para além de outros factores, como por exemplo as deficiências ao nível da nutrição nas cruciais fases do desenvolvimento precoce que frequentemente deixam as crianças marcadas para toda a vida.
2. Você diz que:
Nem acho, como "malai", que espetar um ferro no coração de um animal seja um distinto sinal de civilização, de elevação cultural ou sequer de extraordinário "Q.I."
Pessoalmente não sou grande apreciador destas actividades que provocam sofrimento nos animais, embora tenha tido oportunidade ao longo da vida de participar na matança do porco em casa do meu avô aí em Portugal, segurando o animal enquanto lhe espetavam a faca. Os malais também matam animais, como certamente já terá tido ocasião de verificar. Suponho que você também não considera “um distinto sinal de civilização, de elevação cultural ou sequer de extraordinário Q.I.” espetar muitos ferros nas costas de um animal, como se faz na cultura do seu (nosso) país nas touradas, com presença e aplausos das elites culturais da nação, transmissão televisiva e muitos discursos sobre a celebração de uma tradição de séculos.
Sou eu que estou enganado ou haverá um certo tom de sobranceria nesse seu comentário? A civilização ocidental já terá ultrapassado essa fase primitiva de espetar ferros no coração dos búfalos, parece poder ler-se nas entrelinhas. Não se esqueça, por favor, em futuros comentários de comparar também o grau de civilização e de elevação cultural de um povo que alimenta o gado bovino (herbívoro) com carcaças industrialmente transformadas de animais mortos
[http://www.defra.gov.uk/animalh/bse/controls-eradication/causes.html].
3. E continua:
E quem diz matança do búfalo, diz sentido de orientação, diz destreza para a luta corpo-a-corpo ou diz memória genealógica.
Sendo professor terá certamente estudado diferentes teorias da pedagogia e da psicologia, e saberá portanto que há muito boa gente que considera os testes de QI obsoletos. Não me parece que seja preciso eu vir aqui “ensinar o Pai Nosso ao vigário”. Da mesma forma, também deveria saber que as competências da mente humana são plurais, e que é redutor querer pôr tudo no mesmo saco. Howard Gardner tem uma teoria famosa sobre isso. Se você der uma volta aí pelas feiras em Portugal vai certamente ter oportunidade de encontrar ciganos a vender roupa que são muito melhores no cálculo aritmético do que você com todo o seu QI, mesmo que possam não perceber os relógios de sol. Isso não lhes permitirá construir reactores nucleares ou descobrir a cura do cancro, mas permite-lhes fazer outras coisas necessárias ao seu trabalho.
Procurando um bocadinho só na Internet encontrei este excerto que poderá ser útil para o seu esclarecimento:
“As pessoas com altas capacidades ou com talentos excepcionais diferem dos outros indivíduos pelas potencialidades que apresentam e pelo elevado nível de execução e concretização de que são capazes nas suas áreas de interesse. Pode ser uma forma de inteligência que se apresenta bastante desenvolvida e estruturada (por exemplo: a lógica-matemática), uma alta habilidade (por exemplo: para a liderança) ou um talento artístico (por exemplo: a criação musical). Tradicionalmente chamam-se sobredotadas a estas pessoas mas o termo tende a ser substituído por "Indivíduo Portador de Alta Capacidade".” [http://www.academiadesobredotados.com/]
É-lhe assim tão difícil aceitar que grande parte dos timorenses possa ter capacidades mentais superiores às suas em certas áreas, como as da “inteligência visuo-espacial” e da “inteligência socio-interpessoal”?
segunda-feira, julho 07, 2008
Burmese Days - 1934
George ORWELL – Burmese Days. London, Penguin Books, 2002, pág. 154 [1ªed. 1934]
Nos dias de hoje isto ainda seria verdade? Ou as linhas de separação traçadas pelos poderosos passam agora por outras fronteiras que não a etnia?
Caetano Veloso canta no “Haiti”:
“Ou quase brancos quase pretos de tão pobres…”
E o doutor Daniel da Barca, no belo romance do galego Manuel Rivas “O Lapis do Carpinteiro”, explica-nos:
«O único bo que teñen as fronteiras son os pasos clandestinos. É tremendo o que pode facer unha liña imaxinaria trazada un día no leito por un rei chocho ou debuxada na mesa por poderosos como quen xoga un poker. (…) Pero, por sorte, esta fronteira irá esvaéndose no seu propio absurdo. As fronteiras de verdade son aquelas que manteñen aos pobres apartados do pastel.» [sublinhado meu]
Manuel RIVAS – O lapis do carpinteiro, 6ªed. Vigo (Galiza), Xerais, 1998, p. 12-13
De bacalhoeiros e outros plebeus
«Bem, pois neste filme, Capitães intrépidos, Spencer Tracy fazia de pescador na Terra Nova. (…) E aí entre Spencer Tracy, que no filme se chamava Manuel e era português. Pois bem, esse Manuel, pouco a pouco, vai fazendo o rapaz entrar na razão. Com poucas palavras fá-lo descobrir um mundo desconhecido. O verdadeiro sentido da coragem e do trabalho. Aqueles homens, rudes e sem estudos, reaparecem aos olhos do menino como heróis. Manuel era para ele uma espécie de Ulisses que pescava bacalhau (...)»
Manuel RIVAS – Alma, Maldita Alma. Lisboa, Dom Quixote, 2000, p. 59
quinta-feira, abril 03, 2008
Os putos
Uma fisga que atira a esperança
Parecem bandos de pardais à solta
As caricas brilhando na mão
Um berlinde abafado na escola
Ary dos Santos
segunda-feira, março 31, 2008
domingo, março 30, 2008
Acabemos com a violência contra as mulheres

sexta-feira, março 28, 2008
O Islão como uma religião de paz
quinta-feira, novembro 01, 2007
quarta-feira, setembro 12, 2007
quinta-feira, agosto 17, 2006
Basá ema hotu ne’ebé kaer surik, sei mate ho surik
Jesus disse-lhe: «Mete a tua espada na bainha, pois todos quantos se servirem da espada morrerão à espada.»
Jezús dehan ba nia: “Hatama ó-nia surik ba nia fatin, basá ema hotu ne’ebé kaer surik, sei mate ho surik.”
Os dias vão-se sucedendo, e a violência faz agora parte da rotina. Regularmente vem ao telejornal da RTTL o director do Hospital Nacional Guido Valadares comunicar os números da semana: n crianças mortas por doenças nos campos de refugiados, n crianças internadas, n jovens que entraram nas urgências vítimas de catanadas, n feridos por pedras, n atingidos por flechas... Nos bairros todos os dias há confrontos - pedrada principalmente - entre grupos de adolescentes de lorosa’e e de loromonu, as forças internacionais – que parecem trabalhar agora em colaboração eficiente – aparecem depressa, os grupos dispersam, alguns dos vândalos são apanhados, e, na maioria, são libertados depois de identificados por serem ainda de menor idade. Há também outra modalidade que é um bandidozeco corajoso ir esconder-se perto de uma zona residencial de onde os oriundos da mesma metade do país que ele tenham sido escorraçados, e depois, à distância, com uma fisga, ir atirando pedras sobre as casas. Isto dura às vezes muito tempo, e dá cabo dos nervos de quem vive na área.
A violência de rua vem de ambos os lados. Houve o momento em que os peticionários ou os seus amigos apedrejaram e puseram fogo a carros ao pé do Palácio do Governo e a seguir queimaram casas de gente de lorosa’e em Tassitolo. Mais tarde, especialmente aquando da “caça” aos desordeiros da manifestação dos peticionários e por alturas do ataque das FDTL ao quartel da polícia, militares das FDTL entravam por bairros de maioria de loromonu aos tiros para o ar e a ameaçar os habitantes, e havia bandos de adolescentes de leste que aproveitavam a situação para espalharem o pânico, e queimarem e espancarem. Por essas alturas também havia alguns polícias de loromonu – vários deles com antecedentes de actividade em gangs no tempo indonésio e incorporados na PNTL para ver se assim os controlavam – que andavam a atacar gente de lorosa’e. Quando as FDTL voltaram para os quartéis e a polícia se entregou ou desapareceu de circulação os bandos de delinquentes do ocidente tornaram-se preponderantes nas ruas e, com excepção de alguns bairros maioritariamente habitados por gente de lorosa’e, a maior parte das pessoas de leste espalhadas por Díli teve que deixar o seu lar e ir para campos de refugiados ou para as terras dos antepassados. Hoje o ódio e a intolerância estão espalhadas no seio das comunidades como um cancro, que tudo corrói e faz apodrecer.
A propósito disto, vou contar-vos uma história. Um autocarro vinha de Manatuto com passageiros. Ao chegar a Díli encontrou uma barreira na estrada feita por jovens de loromonu que perguntaram ameaçadoramente se traziam algum “Irak”. As pessoas entreolharam-se receosas, e por fim um velhinho trémulo respondeu «Não, filho. Não nos façam mal que aqui somos todos “milisi” ».
Contaram-me a história como verdadeira, mas não sei se o é realmente. Porém, para quem não mora em Timor e não acompanhou o crescer do ódio nestes últimos meses, isto requer algumas explicações. Os soldados peticionários que acabaram por ser expulsos das FDTL consideravam-se vítimas de discriminação e diziam que por serem do ocidente (loromonu) lhes chamavam “milícias” ou “filhos de milícias”. É pena que tal questão tenha surgido, porque as FDTL deviam ser um dos garantes mais firmes da unidade nacional e da consciência patriótica. Além de que há que respeitar a memória de toda a gente de loromonu que morreu em massacres perpetrados pelas milícias, como em Liquiçá e em Suai, por exemplo. O sangue das vítimas da ocupação correu por todo o país. Por outro lado, nos cartazes das manifestações anti-Mari Alkatiri abundavam as mensagens racistas e de intolerância religiosa, demonizando o ex-Primeiro Ministro por a sua família ser proveniente do Iémen, e fazendo corresponder um nome árabe e religião muçulmana a ligações com a Al-Qaeda, Bin Laden e terroristas do Iraque. Uma interpretação simplória dos acontecimentos que prevalece entre muito povo do ocidente (loromonu) considera que as pessoas do leste (lorosa’e) são apoiantes de Mari Alkatiri (enquanto muitos deles próprios consideram os peticionários, e Alfredo Reinaldo e Rai-Loos como heróis), daí que lhes façam estender os epítetos que usam para o ex-Primeiro Ministro. Nalguns ataques feitos em Díli por jovens vândalos de ocidente a casas de famílias de leste, ouvi pessoalmente os delinquentes gritarem coisas como “komunista”, “Irak”, “terrorista”.
É caso para perguntar: para quando uma aposta séria na educação para a tolerância em todas as instituições de Timor ligadas ao ensino?
Díli, 12 de Agosto de 2006
