Quando era adolescente achava que a Kumiko (interpretada por Tamlyn Naomi Tomita, actriz de ascendência nipo-filipina, nascida em Okinawa) era a moça mais bonita do mundo.
Tinha adorado o filme Karate Kid (de John G. Avildsen, 1984, com Ralph Macchio e Pat Morita), e tinha gostado ainda mais do segundo, Karate Kid II (John G. Avildsen, 1986). Só havia um pormenor que me irritava, o facto de o argumento ser inconsistente. No primeiro filme o Mr. Miyagi embebedava-se uma vez, ao recordar a morte de sua esposa e filho no parto, por falta de assistência médica, enquanto esta estava internada no infame campo de concentração de Manzanar, um dos dez nos quais o governo americano aprisionou mais de 100.000 cidadãos de origem japonesa durante a II Guerra Mundial, pelo "crime" de terem nascido no Japão ou terem pais japoneses. Isto enquanto o Mr. Miyagi combatia na Europa, como americano, contra os alemães e ganhava uma medalha como herói de guerra. No segundo filme, Daniel acompanhava Mr. Miyagi a Okinawa, onde este, parecendo solteiríssimo, reencontrava a sua paixão da juventude, e todos os traços da existência da esposa falecida tinham sido apagados. Agora Miyagi afinal parecia que nunca tinha sido casado e ficara sempre à espera da namorada da adolescência... Mas apesar deste pormenor o filme encantava-me.
E entretanto, eu, adolescente ilhavense, aprendiz de judo, sonhava ir estudar artes marciais para o Japão e encontrar por lá uma Kumiko meiga e bonita para mim. Acabei por não ter ido ainda ao Japão, até agora, mas olhando para o que tenho feito na vida, parece-me que os meus sonhos de miúdo se têm vindo a concretizar, com as necessárias actualizações e adaptações que o rio da vida vai sugerindo...