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domingo, agosto 06, 2006

Os cães ladram mas a caravana passa

Fui acusado num blog de ser neo-colonialista e adversário do poder popular por causa desta minha frase, aí citada: “Aqueles que não vêem uma única coisa positiva na experiência colonial deverão considerar a colonização de Timor Oriental pelos portugueses como exemplar, já que primou pela ausência e pela pouca interferência nas estruturas sociais e culturais timorenses.” No mesmo blog “acusavam-me” ainda de ser um teórico da formação de elites. Analisemos então estas “acusações”, num espírito construtivo para ajudar alguns espíritos mais confundidos a verem a luz.
Quando se debate o colonialismo aparecem frequentemente os zelotes convencidos de que são donos da verdade, fanáticos dispostos a passar por cima de todos os factos que dificultem a adequação das suas teorias e grelhas de análise. Há uns de um lado a defender o nacionalismo serôdio das potências coloniais e a sua missão civilizadora atribuída directamente por Deus e “o fardo do homem branco”, e há os que estão do outro lado e que defendem a pureza igualitária imaculada dos povos oprimidos e a sua cultura superior própria de um Éden onde não havia injustiça antes da chegada do pérfido europeu. Estes são os teóricos d”o remorso do homem branco”, como explica Pascal Bruckner.
Vejamos o que dizem sobre esta questão dois académicos prestigiados da área dos estudos timorenses, Geoffrey Stephen Hull, Ph.D, da University of Western Sydney, e Adérito José Guterres Correia, M.A., da Universidade Nacional Timor Lorosa’e e sub-director do Instituto Nacional de Linguística, num livro que ambos escreveram e que recomendo a todos os cooperantes que trabalham com seriedade em Timor ou por Timor:

Nu'udar ita hatene, prosesu istóriku ida-ne'ebé ita bolu naran kolonializmu iha aspetu barak. Ema polítiku sira temi beibeik kona-ba aspetu aat ka negativu kolonializmu nian, n.e. nasaun ida hadau nasaun seluk, hanehan populasaun mahorik hodi susu rain ne'e nia bokur no rikusoin tomak. Maibé ema matenek sira rekoñese mós kolonializmu nia aspetu di'ak ka pozitivu oioin, liuliu troka kulturál. Kontaktu ho ema raiseluk sira fó mós ba ema rai-na'in sira leet atu aprende buat barak, la'ós de'it hadi'a sira-nia teknolojia, maibé mós leet atu haluan no haburas sira-nia matenek.
Liuhosi kolonializmu portugés iha Timór, hanesan kolonializmu olandés iha rai-Indonézia, ema mahorik sira iha Nusa-Lubun Malaiu tama ba kontaktu ho kultura rai-Europa nian no mós ho matenek internasionál. Lia-tetun no lia-malaiu simu hosi lia-portugés ka lia-olandés termu tékniku, abstratu no modernu rihun ba rihun. Tan ne'e, lia-malaiu no lia-tetun hetan sorte atubele fahe lisuk rikusoin intelektuál boot ne'ebé naklekar hosi rai-Europa ba mundu tomak.
” (página 95)

O livro chama-se “Kursu Gramátika Tetun – Ba Profesór, Tradutór, Jornalista no Estudante-Universidade Sira” e foi publicado em Díli, em 2005, pelo Instituto Nacional de Linguística (sairam duas edições, estou a citar a que tem prefácio do então Primeiro-Ministro, Dr. Mari Alkatiri).
Vou traduzir o excerto, para aqueles malais teóricos do poder popular que em Timor só falam com as elites e cujo contacto com o povo se limita a “Mana, kafé ida, mas tem que ser curto, escaldado e bem tirado!”.

Como sabemos, o processo histórico a que chamamos colonialismo tem muitos aspectos. Os políticos mencionam muitas vezes os aspectos maus ou negativos do colonialismo, como a ocupação de uma nação por outra, e o espezinhamento dos seus habitantes para sugar todos os recursos e riquezas dessa terra. Mas as pessoas inteligentes também reconhecem aspectos bons ou positivos do colonialismo, principalmente ao nível das trocas culturais. Os contactos com gente de outras terras permitiram também às populações autóctones aprenderem muitas coisas, não apenas melhorando a sua tecnologia, mas dando-lhes também oportunidade de alargar os seus horizontes intelectuais e culturais.
Através do colonialismo português em Timor, bem como do colonialismo holandês na Indonésia, os habitantes do Arquipélago Malaio entraram em contacto com a cultura europeia e com a ciência internacional. A língua tétum e a língua malaia receberam do português e do holandês milhares de termos técnicos, abstractos e modernos. Por isso, o malaio e o tétum tiveram sorte em poderam partilhar riquezas intelectuais importantes que se espalharam da Europa para o mundo inteiro.
” [o sublinhado é meu].

Em relação ao outro assunto, a ideia de ter algumas escolas de qualidade para formar elites não é obviamente minha, é muito antiga. Penso que a educação devia chegar a todos, mas não construo castelos no ar, porque vivo no Timor real. Ainda anteontem em Liquiçá um professor do ensino pré-secundário (7º ao 9º ano) me dizia que não tinham professores suficientes na escola dele para ensinar em português (apesar de serem essas as instruções oficiais) e que os poucos que tinha havido eram de lorosa’e e tinham fugido para as suas regiões de origem com medo de ataques. De resto, a Dona “margarida” [a tal senhora que me fez as acusações], se morar agora em Díli, ou vier a morar, vai pôr os seus filhos na Escola Portuguesa (para elites) ou continuará adepta de uma educação igual para toda a gente e de maneira coerente matriculará as suas crianças numa escola como a 28 de Novembro? E dou o exemplo da Escola 28 de Novembro por duas razões: 1) tem um nome revolucionário; 2) os seus filhos poderão talvez, com sorte, vir a ter a oportunidade de ver as massas populares em acção, e participar até nos acontecimentos, já que essa escola tem no seu palmarés ter sido o ponto de partida dos motins infanto-juvenis de 4 de Dezembro de 2002. Agora sem ironia, não há nada que distinga especialmente esta escola, e os jovens delinquentes pirómanos poderiam ter surgido de outra qualquer, como mostra a última vaga de incêndios nestes meses recentes. Timor tem uma percentagem muitíssimo grande da população constituída por crianças e jovens, que na maioria vão para a escola sem outra perspectiva que não seja vir a conseguir um “padrinho” que arranje um lugar na função pública ou então um emprego como “segurança”, eufemismo local para indivíduos contratados para dormir em frente à porta dos malais e endinheirados. Quase não há sector privado, faltam cá ainda “capitalistas”, “burgueses” e outros “inimigos das classes populares” que possam finalmente dinamizar a economia e arranjar mercado de trabalho para esta malta toda, recrutando mão-de-obra usando como critério o mérito individual do candidato. Há demasiados jovens cuja única forma de sobressair perante os seus pares é “armarem-se em galo de combate”.
Existem por outro lado muitos malais internacionalistas que ganham muito, compram nos supermercados produtos importados (até a hortaliça que comem vem da Austrália), mandam a maior do dinheiro que ganham para as suas contas bancárias nos países de origem, e são paladinos do poder popular e do anti-neo-colonialismo!
O corpo docente das escolas timorenses tem pouca formação, há grande falta de livros, a maior parte das pessoas fala ou compreende pelo menos algum português mas não o suficiente para ler nessa língua, os hábitos de leitura são de resto quase inexistentes, em qualquer idioma... O aluno médio termina a escola secundária com uma deficiente preparação de base que não lhe permite frequentar as universidades portuguesas, por exemplo. Por isso é que me parece não apenas importante, mas crucial, para o futuro do país que surjam algumas escolas de qualidade superior para a formação dos quadros que irão tomar conta do país daqui por uns anos. Neste momento há demasiadas instituições e estruturas do Estado que dependem ainda do trabalho de assessores internacionais para funcionarem, se não tivermos algumas escolas de excelência estaremos pior daqui por vinte anos.
Para as pessoas que andam à procura de cartões partidários para decidir se uma ideia é válida ou não, permito-me invocar aqui uma personalidade que certamente não irão atacar. Conheci na Guiné-Bissau quadros guineenses que deviam a sua educação e o seu sucesso como intelectuais aos esforços de Amílcar Cabral, que, há mais de três décadas, andava às vezes pelas tabancas da Guiné a procurar crianças com melhores resultados escolares para pedir aos pais delas que o deixassem mandá-las para uma escola-piloto numa base do seu movimento na Guiné-Conacri, para serem formadas e poderem servir no futuro o seu país. Alguns desses quadros eram provenientes de famílias muito humildes de camponeses ou vaqueiros (os seus irmãos continuam ainda a viver nas tabancas dos antepassados) e nunca teriam podido explorar todo o seu potencial se não tivessem tido a oportunidade de entrar numa escola de qualidade.
Não vão ser as massas de camponeses analfabetos que irão tomar conta das universidades, dos ministérios, dos bancos, das empresas, das companhias de telecomunicações, electricidade, água... Também não vão poder ser muitos dos alunos que actualmente chegam ao ensino superior em Timor. Há que deixar de ter medo das palavras, o país precisa de elites, de indivíduos bem formados – por muito que isso seja difícil de perceber para uns quantos líricos teóricos do poder das massas populares que andam por aí. No romance “Mayombe”, do escritor angolano Pepetela, há um personagem, chamado Mundo Novo, que também defende esse tipo de ideias. Diz ele:

“(...) Como se fosse possível fazer-se uma Revolução só com homens interesseiros, egoístas! Eu não sou egoísta, o marxismo-leninismo mostrou-me que o homem como indivíduo não é nada, só as massas constroem a história. Se fosse egoísta, agora estaria na Europa, como tantos outros, trabalhando e ganhando bem. Porque vim lutar? Porque sou desinteressado. Os operários e os camponeses são desinteressados, são a vanguarda do povo, vanguarda pura, que não transporta com ela o pecado original da burguesia de que os intelectuais só muito dificilmente se podem libertar. Eu libertei-me, graças ao marxismo.(...)”.

Na época os “intelectuais revolucionários desinteressados” tinham que abdicar dos empregos bem pagos na Europa, felizmente agora para os “malais desinteressados adeptos do poder das massas” existem ajudas de custo, e bar do Hotel Timor, e salários milionários na ONU ou na cooperação bilateral, e viagens a Auckland, Hong Kong, Bali, etc... Eu ganho mais do que a maior parte dos timorenses (e menos do que a grande maioria dos malais), mas não sou hipócrita. Enfim, na sequência das reflexões e debates no livro há um outro personagem, Sem Medo, que mais à frente diz:

“(...) É que, nos nossos países, tudo repousa num núcleo restrito, porque há falta de quadros, por vezes num só homem. Como contestar no interior dum grupo restrito? Porque é demagogia dizer que o proletariado tomará o poder. Quem toma o poder é um pequeno grupo de homens, na melhor das hipóteses, representando o proletariado ou querendo representá-lo. A mentira começa quando se diz que o proletariado tomou o poder. Para fazer parte da equipa dirigente, é preciso ter uma razoável formação política e cultural. O operário que a isso acede passou muitos anos ou na organização ou estudando. Deixa de ser proletário, é um intelectual. Mas nós todos temos medo de chamar as coisas pelos seus nomes e, sobretudo, esse nome de intelectual. Tu, Comissário, és um camponês? Porque o teu pai foi camponês, tu és camponês? Estudaste um pouco, leste muito, há anos que fazes um trabalho político, és um camponês? Não, és um intelectual. Negá-lo é demagogia, é populismo. (...) Mas começa-se a mentir ao povo, o qual bem vê que não controla nada o Partido nem o Estado e é o princípio da desconfiança, à qual se sucederá a desmobilização. (...) Como todos os do teu grupo, pensas que se não pode dizer a verdade ao povo, senão ele desmobiliza-se.(...)”

Sou da opinião que – enquanto o português não é dominado por muitos alunos – o romance de Pepetela “A geração da utopia” devia ser traduzido para tétum e tornado leitura obrigatória nas escolas todas do país.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Resistência e identidade

Texto de Daniel Tércio, publicado no jornal português "Expresso" (Caderno "Actual"), Edição 1732, de 07.01.2006
A CULTURA DA INDEPENDÊNCIA

Língua e identidade cultural em Timor-Leste

O viajante que se detiver na frente da baía de Díli pode disfrutar de uma paisagem magnífica: na direcção do mar, Ataúro, a ilha que interrrompe o horizonte; na direcção oposta, o Palácio do Governo, branco e regular, com o seu jardim fechado ao público, onde existe um pequeno monumento de homenagem ao Infante Dom Henrique (uma espécie de réplica tímida do Padrão dos Descobrimentos em Lisboa).
Hoje, se se sentar alguns minutos sobre o murete da baía, o viajante terá certamente a companhia de um timorense que se aproximará com um sorriso, ensaiando algumas palavras em português. A maior parte das vezes, o timorense esperará que seja o estrangeiro (o “malai”) a falar. Para o “malai”, habituado a evitar os silêncios e os vazios, isto nem sempre será confortável.
Aqui, em Timor Lorosa’e, a língua flui de uma outra maneira, porventura com uma outra lógica, mesmo entre os mais velhos, entre aqueles que a aprenderam antes de 1974 no banco das escolas do regime colonial português. Com efeito, ainda que adoptada como uma das línguas oficiais do novo Estado (o mais jovem país do século XXI), a língua portuguesa continua a ser uma língua estrangeira. Sendo a língua do “outro”, o português é a fala de um outro especial, não do australiano ou do javanês, mas sim de alguém que veio do lado de lá do mundo e a quem muitos timorenses responsabilizam por um certo abandono precipitado em 75. Mas esta língua do “outro”, que é a nossa, tem surpreendentes semelhanças lexicais com o tétum, a primeira língua oficial, falada por 80% da população da jovem República Democrática de Timor-Leste.
O ambiente linguístico - indispensável para traçar o quadro da cultura timorense - afigura-se pois complexo. A respectiva complexidade aumenta quando se sabe que neste território, com cerca de 15000 km2, coexistem pelo menos dezasseis línguas diferentes. O tétum é uma delas, dividindo-se esta em tétum praça (que funciona como língua franca) e tétum téric (mais falado na montanha); além do tétum, fala-se também, por exemplo, o macassai (em Baucau), o mambai (na região montanhosa do centro), o fataluco (na ponta leste da ilha) e o baiqueno (no enclave de Oecussi). Quanto à língua indonésia, imposta brutalmente durante um quarto de século, ela perdura coloquialmente entre uma boa parte da juventude, atraída por uma cultura pop de origem javaneza, e contaminando lexicalmente o tétum praça. Ao mesmo tempo, as empresas com origem australiana aqui instaladas exigem o domínio do inglês ao timorense em busca de trabalho. Resta dizer que a noção de emprego (e por extensão, a noção económica de taxa de desemprego) não se aplica facilmente à situação de Timor. É possível que o trabalho, enquanto processo sistemático de transformação do mundo e de organização social, indispensável para obter regularmente um salário individual, seja um conceito ainda relativamente estranho na cultura timorense; mais de metade da população deste jovem país tem menos de 15 anos de idade, o que certamente ajuda a compreender a relação do timorense com o trabalho sistemático. Um outro aspecto importante para estabelecer o quadro cultural tem a ver com a omnipresença da natureza, uma natureza longe do estado domesticado dos países ocidentais, base de um fundo animista muito forte, que a Igreja Católica não conseguiu anular, não obstante o papel fundamental que tem tido na organização e na fixação dos valores morais da sociedade.
Para a jovem República de Timor-Leste, a escolha do português e do tétum como línguas oficiais constitui certamente uma opção política, um manifesto de independência face aos dois gigantescos Estados vizinhos – opção oficialmente consignada, mas porventura ainda sem um desfecho claro a médio e a longo prazo. Para Portugal e para o conjunto de países de língua oficial portuguesa, a opção é honrosa, porventura interessante no teatro da geopolítica – na medida em que fixa a presença do português no sudeste asiático - mas também inevitavelmente dispendiosa.
O esforço, tanto dos países da CPLP, incluindo Portugal, quanto do jovem Estado timorense, passa por fazer deslocar a língua portuguesa de uma língua do “outro”, do “malai”, para uma língua nossa. Como fazê-lo?
Os governantes que discursaram em frente ao Palácio do Governo, por ocasião da comemoração da Independência nacional, no dia 28 de Novembro, falaram em português para uma população mais interessada nos desfiles das forças militares e das “majoretes” do que propriamente no conteúdo dos discursos.
Ao mesmo tempo, um acontecimento como a Feira do Livro português, organizado pela Embaixada Portuguesa e pelo Centro Cultural Camões, com o apoio logístico de estudantes voluntários da Universidade Nacional de Timor Lorosa’e, constituiu um verdadeiro êxito. Se a colaboração das editoras portuguesas poderia e deveria ter sido mais ampliada, se os autores timorenses como Luís Cardoso e Fernando Sylvan deveriam ter as respectivas obras presentes (o que inexplicavelmente não aconteceu), os preços acessíveis das obras e a preferência concedida aos autóctones na compra dos livros possibilitaram uma interessante proximidade; proximidade que de algum modo se desenrolou também com o programa de visitas a escolas e de conferências proferidas pelos autores lusófonos convidados.
Um dos momentos altos da Feira do Livro aconteceu com o lançamento da obra do historiador José Mattoso (residente em Timor desde o ano 2000), “A Dignidade. Konis Santana e a Resistência timorense”. A obra, publicada pelo Círculo de Leitores em colaboração com a Fundação Mário Soares, constitui, a par com a abertura do Museu da Resistência, uma contribuição decisiva para a História recente do jovem país. Uma das questões mais interessantes, de resto colocada na sessão de lançamento do livro, tanto pelo autor, quanto pelo Presidente Xanana Gusmão, diz respeito à consciência da identidade nacional e ao modo como esta ganhou corpo durante a ocupação indonésia. Com efeito, é possível que a ocupação indonésia tenha jogado a favor da unificação dos antigos reinos (que passaram de uma rivalidade agressiva para a unidade contra o inimigo comum javanês); em consequência, as diferenças linguísticas tornaram-se secundárias e uma nova consciência de pátria emergiu, uma consciência apoiada num forte sentido de civilidade e de dignidade.
A questão linguística continua, porém, uma questão em aberto, que está longe de se resolver com eventos como a Feira do Livro português. Nesta matéria, pelas rotinas que proporcionam, é fundamental o papel que as Bibliotecas e as salas de leitura podem ter no mapa cultural de Timor e no processo de disseminação do português. A Biblioteca do Centro Cultural português, a Biblioteca do Instituto Camões, ou a Sala de Leitura Xanana Gusmão, instaladas em Díli, são diariamente frequentadas por dezenas de jovens que lêem sobretudo a imprensa portuguesa, por vezes com um mês de atraso; fora de Díli, surgem iniciativas verdadeiramente heróicas, como a pequena biblioteca de Manatuto, criada pelo professor Carlos Reis com o apoio das autoridades locais. Para além das bibliotecas, existem em Díli associações culturais e desportivas, que funcionam também como veículo do português. Assim acontece com o Centro Juvenil Padre António Vieira, sediado no bairro Taibesse, actualmente dirigido pela timorense Rosalina Dias.
Além disto está em curso uma importante investigação linguística sobre o tétum e sobre as respectivas relações com o português; 27000 termos constam do prontuário de língua tétum, sendo uma parte substancial de base lexical portuguesa. O Instituto Nacional de Linguística, dirigido pelo Reitor da UNTL, Benjamim de Araújo e Corte-Real, desenvolve a sua acção neste domínio. A instituição, que conta com o apoio oficial do Governo timorense, tem, entre outras, a vantagem de promover o trabalho de equipa, congregando esforços de investigadores como o australiano Geofrey Hull, uma autoridade internacionalmente reconhecida na padronização e fixação escrita da língua autóctone. Neste momento, prepara-se a edição de um dicionário monolingue e acaba de sair uma gramática de tétum escrita em tétum.
Uma outra organização, com o estatuto de ONG, a “Timor Aid”, dirigida por Maria do Céu Lopes, tem tido o papel pioneiro de editar obras em tétum, que faz distribuir pelas escolas dos Distritos. Na verdade, um dos problemas mais complexos passa pela circulação dos bens culturais; com efeito, além da escassez de materiais escritos, avolumam-se dificuldades efectivas e físicas nos indispensáveis meios de comunicação. A produção de conteúdos, em português e em tétum, deverá ser adaptada às condições efectivas no terreno: rede telefónica parcelar, internet incipiente e genericamente com uma baixa largura de banda e más (ou péssimas) estradas. Obras bilingues como “O que é a Lusofonia. Gente, culturas, terras”, preparada por um conjunto de jovens portugueses e timorenses e recentemente editada pelo Instituto Camões, constituem iniciativas meritórias que podem e devem estimular o aparecimento de outras publicações. Neste âmbito, é fundamental por exemplo que a presença da cooperação portuguesa amplie o seu conhecimento das línguas autóctones. João Paulo Esperança, docente no Departamento de Língua Portuguesa da UNTL, especialista em linguística do tétum, colaborador na imprensa local, ou Selma Silva, professora na Escola portuguesa e autora do programa “ondas Lusófonas” na Rádio e Televisão de Timor-Leste, são bons exemplos de um domínio partilhado de ambas as línguas. Já a edição de um periódico como o “Semanário”, publicado em Díli, necessita urgentemente de uma revisão cuidadosa de textos.
Sem dúvida que a identidade cultural de Timor-Leste passa em grande medida por uma independência linguística na região do sudeste asiático, o que explica a opção do português e do tétum como línguas oficiais deste jovem país. Ao mesmo tempo, a cultura da independência, forjada durante os anos da resistência, terá finalmente que respeitar as singularidades de um território surpreendentemente diverso. A cultura timorense é pois, de forma mais nítida do que em outros lugares, um processo, uma missão, um esforço que decorre entre o estado de “Babel” do território e a consciência de identidade nacional.

Daniel Tércio