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sexta-feira, maio 04, 2007

Quando for grande quero ser professor de inglês

Anúncio publicado hoje (4 de Maio 07) no jornal diário mais lido em Timor (o STL).


Ganham bem estes professores australianos (US$50000-60000 por um contrato de um ano). Alguns portugueses que costumam espernear muito com os ataques à língua portuguesa em Timor irão seguramente começar agora a criticar o comandante das FDTL, Taur Matan Ruak, por permitir esta concorrência desleal contra o idioma de Camões.
E talvez até façam “uma vaquinha”, ou subscrição pública, para aumentar o salário dos professores portugueses...

quinta-feira, agosto 17, 2006

Basá ema hotu ne’ebé kaer surik, sei mate ho surik

Mt, 26, 52
Jesus disse-lhe: «Mete a tua espada na bainha, pois todos quantos se servirem da espada morrerão à espada.»
Jezús dehan ba nia: “Hatama ó-nia surik ba nia fatin, basá ema hotu ne’ebé kaer surik, sei mate ho surik.”


Os dias vão-se sucedendo, e a violência faz agora parte da rotina. Regularmente vem ao telejornal da RTTL o director do Hospital Nacional Guido Valadares comunicar os números da semana: n crianças mortas por doenças nos campos de refugiados, n crianças internadas, n jovens que entraram nas urgências vítimas de catanadas, n feridos por pedras, n atingidos por flechas... Nos bairros todos os dias há confrontos - pedrada principalmente - entre grupos de adolescentes de lorosa’e e de loromonu, as forças internacionais – que parecem trabalhar agora em colaboração eficiente – aparecem depressa, os grupos dispersam, alguns dos vândalos são apanhados, e, na maioria, são libertados depois de identificados por serem ainda de menor idade. Há também outra modalidade que é um bandidozeco corajoso ir esconder-se perto de uma zona residencial de onde os oriundos da mesma metade do país que ele tenham sido escorraçados, e depois, à distância, com uma fisga, ir atirando pedras sobre as casas. Isto dura às vezes muito tempo, e dá cabo dos nervos de quem vive na área.
A violência de rua vem de ambos os lados. Houve o momento em que os peticionários ou os seus amigos apedrejaram e puseram fogo a carros ao pé do Palácio do Governo e a seguir queimaram casas de gente de lorosa’e em Tassitolo. Mais tarde, especialmente aquando da “caça” aos desordeiros da manifestação dos peticionários e por alturas do ataque das FDTL ao quartel da polícia, militares das FDTL entravam por bairros de maioria de loromonu aos tiros para o ar e a ameaçar os habitantes, e havia bandos de adolescentes de leste que aproveitavam a situação para espalharem o pânico, e queimarem e espancarem. Por essas alturas também havia alguns polícias de loromonu – vários deles com antecedentes de actividade em gangs no tempo indonésio e incorporados na PNTL para ver se assim os controlavam – que andavam a atacar gente de lorosa’e. Quando as FDTL voltaram para os quartéis e a polícia se entregou ou desapareceu de circulação os bandos de delinquentes do ocidente tornaram-se preponderantes nas ruas e, com excepção de alguns bairros maioritariamente habitados por gente de lorosa’e, a maior parte das pessoas de leste espalhadas por Díli teve que deixar o seu lar e ir para campos de refugiados ou para as terras dos antepassados. Hoje o ódio e a intolerância estão espalhadas no seio das comunidades como um cancro, que tudo corrói e faz apodrecer.
A propósito disto, vou contar-vos uma história. Um autocarro vinha de Manatuto com passageiros. Ao chegar a Díli encontrou uma barreira na estrada feita por jovens de loromonu que perguntaram ameaçadoramente se traziam algum “Irak”. As pessoas entreolharam-se receosas, e por fim um velhinho trémulo respondeu «Não, filho. Não nos façam mal que aqui somos todos “milisi” ».
Contaram-me a história como verdadeira, mas não sei se o é realmente. Porém, para quem não mora em Timor e não acompanhou o crescer do ódio nestes últimos meses, isto requer algumas explicações. Os soldados peticionários que acabaram por ser expulsos das FDTL consideravam-se vítimas de discriminação e diziam que por serem do ocidente (loromonu) lhes chamavam “milícias” ou “filhos de milícias”. É pena que tal questão tenha surgido, porque as FDTL deviam ser um dos garantes mais firmes da unidade nacional e da consciência patriótica. Além de que há que respeitar a memória de toda a gente de loromonu que morreu em massacres perpetrados pelas milícias, como em Liquiçá e em Suai, por exemplo. O sangue das vítimas da ocupação correu por todo o país. Por outro lado, nos cartazes das manifestações anti-Mari Alkatiri abundavam as mensagens racistas e de intolerância religiosa, demonizando o ex-Primeiro Ministro por a sua família ser proveniente do Iémen, e fazendo corresponder um nome árabe e religião muçulmana a ligações com a Al-Qaeda, Bin Laden e terroristas do Iraque. Uma interpretação simplória dos acontecimentos que prevalece entre muito povo do ocidente (loromonu) considera que as pessoas do leste (lorosa’e) são apoiantes de Mari Alkatiri (enquanto muitos deles próprios consideram os peticionários, e Alfredo Reinaldo e Rai-Loos como heróis), daí que lhes façam estender os epítetos que usam para o ex-Primeiro Ministro. Nalguns ataques feitos em Díli por jovens vândalos de ocidente a casas de famílias de leste, ouvi pessoalmente os delinquentes gritarem coisas como “komunista”, “Irak”, “terrorista”.
É caso para perguntar: para quando uma aposta séria na educação para a tolerância em todas as instituições de Timor ligadas ao ensino?

Díli, 12 de Agosto de 2006

domingo, maio 28, 2006

Se deixássemos de conseguir rir deixaríamos de ser humanos

Uma vez li um livro sobre o campo de Extermínio de Treblinka, escrito por um judeu. O campo de Treblinka era um campo construído pelos nazis na II Guerra Mundial, que funcionava como fábrica cujo objectivo era exterminar judeus. Faziam-no metodicamente, friamente, com eficiência (na II Guerra Mundial os nazis mataram cerca de seis milhões de judeus). No campo funcionava uma brigada de prisioneiros judeus cuja tarefa era transportar diariamente pilhas de cadáveres das câmaras de gás para os fornos crematórios, esses prisioneiros viviam em condições sub-humanas e sabiam que só estariam vivos enquanto tivessem forças para desempenhar a sua tarefa macabra. Fiquei impressionado por ler que nessas condições de vida terríveis eles contavam anedotas e brincavam sobre coisas como o peso dos cadáveres que transportavam. Depois compreendi, eles riam para continuarem humanos. Despojados de quase tudo, restavam-lhes como últimos resquícios de humanidade a esperança e o riso.
Vem isto a propósito de um incidente que me aconteceu hoje. Fui beber um café no Hotel Timor, ao lado do Bairro da Cooperação, e quando cheguei estava prestes a começar uma conferência de imprensa do Primeiro Ministro. Aproximei-me de uma amiga que comentou que o início da conferência de imprensa estava com algum atraso e eu respondi casualmente algo do género “O Primeiro Ministro ainda se deve estar a pôr bonito”. Foi um comentário completamente inocente, sem quaiquer segundas intenções, sem qualquer tom malicioso, mas uma senhora timorense que estava ali ao lado – sem dúvida perturbada pela tensão dos últimos dias – respondeu com um ar muito indignado qualquer coisa como “Não lhe admito que fale assim do Primeiro Ministro do meu país, eu também não falo assim do Primeiro Ministro do deu país”. É sabido o cuidado que o Primeiro Ministro português José Sócrates tem com a imagem (pagando até a assessores que aconselham sobre isso), pelo que um comentário desse género até lhe serviria como uma luva. Acabei por conseguir explicar à senhora que não tinha qualquer intenção de desrespeitá-la, nem desrespeitar Timor, nem desrespeitar os líderes do país, e ela aceitou as minhas desculpas por tê-la ofendido sem intenção.
Mas desse incidente sem importância pode compreender-se algo da situação actual do país, de como toda a gente anda uma pilha de nervos, da intolerância que grassa no ar, e também de como qualquer pequena faiscazinha pode despoletar situações graves. Há bandos de jovens armados com catanas, fisgas e paus, que andam de um lado para o outro, uns a deambular em busca de casas para roubar ou pessoas nascidas numa área geográfica diferente a quem bater, outros a patrulhar os seus bairros para se protegerem dos assaltantes. Não é preciso muito para que haja situações de violência. Os bandidos da cidade aproveitam para roubar o que podem. As tropas australianas já se vêem pela cidade, usando também blindados e helicópteros, mas não se fazem ainda patrulhas suficientes para sossegar completamente a população. Aguarda-se com ansiedade a chegada dos GNR, mais vocacionados para dispensar e deter bandos de malfeitores e ladrões como os que actuam pela cidade neste momento. Muita da população está refugiada em sítios como o aeroporto, recintos junto de Embaixadas, o porto, lugares da Igreja...Eu vou-me casar dentro de dias com uma moça timorense, aguardo o evoluir da situação para saber se vou fazer uma festa que dure toda a noite como é tradição em Timor ou se vou casar semi-clandestinamente com disparos como música de fundo. Já aluguei uma casa para morar com a minha mulher depois do casamento, e já me mudei para lá e levei para lá quase todos os meus pertences há umas duas semanas, mas nas últimas duas noites voltei a vir dormir ao meu quarto no Bairro da Cooperação por causa da insegurança em Díli. Agora a rotina diária inclui comprar cartões de telemóvel para telefonar a perguntar se ainda não me queimaram a casa, e para saber se os muitos amigos espalhados pela cidade, nas suas casas ou refugiados em diversos sítios (protegidos pelos australianos ou pertencentes à Igreja), estão todos bem.
Na quinta-feira antes de rebentar o tiroteio entre as FDTL e a PNTL no centro da cidade, estive na Faculdade às oito da manhã porque tinha uma aula combinada com os meus alunos. Estava lá uma dúzia deles, moços e moças. Não dei matéria, estivemos a conversar sobre a situação. Alguns tinham dormido na montanha devido aos ataques aos seus bairros e tinham vindo de longe, a pé, para as aulas, porque ter aulas ajudava a ter uma sensação de normalidade, de que ainda não estava tudo perdido. Conversámos amenamente em tétum, alguns contavam anedotas sobre as aventuras e desventuras que lhes tinham acontecido a fugir das milícias em 1999, outros gozavam com o seu próprio medo em situações perigosas que lhes tinham acontecido nos últimos dias. Mostravam um sentido de humor saudável, ao contrário da senhora do hotel. Ríamos e havia nisso um efeito de catarse, e tínhamos esperança.
Hoje de manhã, às 8 horas, tinha um exame marcado com eles. A Faculdade é aqui perto, fui lá para pôr um papel afixado na porta a dizer que o exame fica adiado para quando a situação estiver mais calma, escrevi no papel que talvez na próxima semana. Temia que houvesse alunos a aparecer para o exame e não me sentia bem por lhes gorar as expectativas sem sequer uma palavra. Havia de facto um estudante à minha espera. Enquanto conversávamos apareceu um grupo de uns vinte rapazes, todos com catanas (um trazia duas!), fisgas e paus, falando macassai entre si, alguns não teriam mais de 15 ou 16 anos. Tinham o ar de procurar casas para roubar ou incendiar, ou gente a quem bater. Não nos incomodaram, mas o moço ficou assustado. Ele é de uma região do ocidente. Acabou por me pedir que o levasse a casa, em Bebono, na minha motorizada. Fi-lo, era por causa do meu exame que ele ali estava, tinha-se arriscado corajosamente para vir fazer a prova, se lhe acontecesse alguma coisa no regresso eu ficaria com isso na consciência. No percurso pela marginal vi mesmo à minha frente dois rufias com facas a derrubarem um indivíduo de uma motorizada e a roubá-la.
Tenho ficado aqui pelo Bairro da Cooperação e Hotel Timor depois disso, se cada um de nós decidisse andar a passear por aí pela cidade isso daria um monte de trabalho extra aos senhores que andam a zelar pela nossa segurança, que têm coisas mais importantes para fazer do que servir de babysitters a “Indiana Jones de fim-de-semana” como nós. E isto leva-me de volta ao tema do humor. Todos nós fazemos figuras ridículas de vez em quando, nos últimos dias talvez com maior frequência do que o habitual. Não ter informação credível que nos permita compreender correctamente quem são “os maus” e quem são “os bons”, ou o porquê de haver timorenses activamente empenhados em destruir o país e a liberdade que foi conquistada com tanto sofrimento, leva-nos a procurar avidamente cada nova informaçãozinha e por vezes a ser inadvertidamente porta-vozes dos boatos mais mirabolantes, ou de uma das quinhentas teorias da conspiração que tentam encontrar algum sentido em tudo isto.
Independentemente de todas estas considerações parece-me que há duas coisas em que este país deveria investir: educação para a tolerância e sentido de humor. E ambas estão ligadas. Não é que não exista sentido de humor, os meus alunos que gozavam com o seu próprio medo têm-no bem apurado, mas faz falta aqui um programa televisivo como o “Contra Informação” da televisão portuguesa, no qual se usam bonecos que são caricaturas dos líderes de Portugal e onde estes são gozados pelas suas atitudes, decisões e tiques. Um líder político democrático, de qualquer país, tem muito a ganhar se o seu povo compreender que um dirigente político não tem natureza divina e portanto “pode invocar-se o nome dele em vão”. Este é um dos tijolos base da democracia. Isto promove a tolerância também. E Timor-Leste é ainda um país muito intolerante. Vivo aqui há cinco anos, e há cinco anos que ouço diariamente nos táxis, nas ruas, nas lojas, timorenses que criticam o facto de um país católico ter um Primeiro Ministro muçulmano. Aproveito sempre para dar um sermão sobre a tolerância (os meus alunos já ouviram esse sermão milhentas vezes), religiosa e não-religiosa, digo-lhes que os cidadãos devem esforçar-se por avaliar o desempenho dos seus líderes políticos pelas decisões que estes tomam, pelas políticas que seguem, e nunca pela religião que têm ou não têm. Muitos timorenses ficavam espantadíssimos por me ouvirem dizer que Presidentes da República portugueses como Mário Soares e Jorge Sampaio não eram católicos.
Mas os meus alunos sabem rir de si mesmos e isso deixa-me feliz. Amo esta terra e caminho de olhos postos no futuro, procurando também saber rir de mim mesmo, e rir da vida, que às vezes “é madrasta”. E mantenho a esperança.

Díli, 27 de Maio de 2006, 20.00h

quarta-feira, maio 24, 2006

A primeira vez

Acabo de dar um teste à meia-dúzia de alunos que apareceram, enquanto numa colina ali próxima o ruído do tiroteio em rajadas soava como milho quando se fazem falocas.
Há sempre uma primeira vez para tudo…

Ha’u foin fó teste ida ba alunu balu de’it ne’ebé mosu, enkuantu iha laletek ida ne’ebé besik tiru-rajada tarutu hanesan batar sona.
Sempre iha dala uluk ba buat hotu-hotu…