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quarta-feira, dezembro 24, 2008

Resposta ao JPG

Ó homem, não se amofine, nem leia no meu texto coisas que eu não escrevi. Vamos a alguns factos para esclarecer o seu confuso e angustiado cérebro (que certamente terá um QI de 500 ou até para cima, não estou a pôr isso em causa).

1. O meu texto não é sobre o artigo de Pedro Rosa Mendes (um tipo porreiro, por sinal, além de escritor e jornalista que admiro). Certamente um malai inteligente como você poderia ter compreendido isso. Apenas citei uma frase do texto dele porque vinha a propósito para ilustrar um ponto. Reparou certamente que o exemplo que dei a seguir continua o raciocínio de Pedro Rosa Mendes expresso nessa frase, tal como o seu exemplo sobre os relógios de sol. A verdade é que não se fazem omeletes sem ovos, e o sistema de ensino timorense tem carências muito graves. Isto para além de outros factores, como por exemplo as deficiências ao nível da nutrição nas cruciais fases do desenvolvimento precoce que frequentemente deixam as crianças marcadas para toda a vida.

2. Você diz que:

Nem acho, como "malai", que espetar um ferro no coração de um animal seja um distinto sinal de civilização, de elevação cultural ou sequer de extraordinário "Q.I."

Pessoalmente não sou grande apreciador destas actividades que provocam sofrimento nos animais, embora tenha tido oportunidade ao longo da vida de participar na matança do porco em casa do meu avô aí em Portugal, segurando o animal enquanto lhe espetavam a faca. Os malais também matam animais, como certamente já terá tido ocasião de verificar. Suponho que você também não considera “um distinto sinal de civilização, de elevação cultural ou sequer de extraordinário Q.I.” espetar muitos ferros nas costas de um animal, como se faz na cultura do seu (nosso) país nas touradas, com presença e aplausos das elites culturais da nação, transmissão televisiva e muitos discursos sobre a celebração de uma tradição de séculos.

Sou eu que estou enganado ou haverá um certo tom de sobranceria nesse seu comentário? A civilização ocidental já terá ultrapassado essa fase primitiva de espetar ferros no coração dos búfalos, parece poder ler-se nas entrelinhas. Não se esqueça, por favor, em futuros comentários de comparar também o grau de civilização e de elevação cultural de um povo que alimenta o gado bovino (herbívoro) com carcaças industrialmente transformadas de animais mortos

[http://www.defra.gov.uk/animalh/bse/controls-eradication/causes.html].


3. E continua:

E quem diz matança do búfalo, diz sentido de orientação, diz destreza para a luta corpo-a-corpo ou diz memória genealógica.

Sendo professor terá certamente estudado diferentes teorias da pedagogia e da psicologia, e saberá portanto que há muito boa gente que considera os testes de QI obsoletos. Não me parece que seja preciso eu vir aqui “ensinar o Pai Nosso ao vigário”. Da mesma forma, também deveria saber que as competências da mente humana são plurais, e que é redutor querer pôr tudo no mesmo saco. Howard Gardner tem uma teoria famosa sobre isso. Se você der uma volta aí pelas feiras em Portugal vai certamente ter oportunidade de encontrar ciganos a vender roupa que são muito melhores no cálculo aritmético do que você com todo o seu QI, mesmo que possam não perceber os relógios de sol. Isso não lhes permitirá construir reactores nucleares ou descobrir a cura do cancro, mas permite-lhes fazer outras coisas necessárias ao seu trabalho.
Procurando um bocadinho só na Internet encontrei este excerto que poderá ser útil para o seu esclarecimento:

“As pessoas com altas capacidades ou com talentos excepcionais diferem dos outros indivíduos pelas potencialidades que apresentam e pelo elevado nível de execução e concretização de que são capazes nas suas áreas de interesse. Pode ser uma forma de inteligência que se apresenta bastante desenvolvida e estruturada (por exemplo: a lógica-matemática), uma alta habilidade (por exemplo: para a liderança) ou um talento artístico (por exemplo: a criação musical). Tradicionalmente chamam-se sobredotadas a estas pessoas mas o termo tende a ser substituído por "Indivíduo Portador de Alta Capacidade".” [http://www.academiadesobredotados.com/]

É-lhe assim tão difícil aceitar que grande parte dos timorenses possa ter capacidades mentais superiores às suas em certas áreas, como as da “inteligência visuo-espacial” e da “inteligência socio-interpessoal”?

domingo, dezembro 21, 2008

Os malais têm memória de passarinho

É sempre perigoso querer medir inteligências, à maneira daquela corrente da psicologia estadunidense obcecada com QIs. Lembro-me de quando andava na faculdade ter sido cobaia de colegas meus, estudantes de psicologia, que andavam a participar nos esforços dos professores deles para adaptar os testes de QI para a realidade portuguesa. O problema é que os testes desse género medem competências específicas, e um lavrador lá da minha terra pode ter um péssimo resultado neles mas ter por outro lado capacidades e conhecimentos, ligados ao seu labor de amanhar a terra para nela semear a vida, que os doutos psicólogos nem sabem que existem.

Um texto recente do jornalista/escritor Pedro Rosa Mendes que deu muito que falar mencionava a existência de uma geração de timorenses que “chegou à idade adulta e ao mercado de trabalho sem muitas vezes conhecer conceitos como a lei da gravidade, o fuso horário ou as formas geométricas”. Sorri quando li isto no artigo, recordando os seis anos em que dei aulas na universidade em Timor e as muitas vezes em que expliquei nas aulas conceitos básicos, incluindo exercícios como “Se a estátua do Cristo-Rei fica a oito quilómetros daqui, isso significa uma distância de quantos metros?” ou “Se a altura da Maria é cento e cinquenta centímetros, quantos metros mede a Maria?” (os alunos que fizeram a escola primária no tempo colonial português – mesmo os que revelavam muitas dificuldades nas matérias leccionadas nas diversas cadeiras do curso – não tinham normalmente qualquer dificuldade em responder a isto, bem ao contrário de muitos jovens). Escrevi neste blogue em diversas ocasiões textos sobre a necessidade de preparar programas e currículos pensados a partir da realidade local, e não num qualquer gabinete distante por pessoas que sonham com um público-alvo que não existe. Mas não é disso que quero falar agora. O tema de que me ocupo aqui é a existência de algumas competências que os timorenses têm na sua esmagadora maioria e que deixam atónitos os malais que por cá andam. Uma delas é um refinadíssimo sentido de orientação. Todo o timorense sabe sempre para que lado está o mar e qual é a direcção para as montanhas. Daí que o seu sistema de coordenadas geográficas de uso quotidiano seja diferente do nosso. Enquanto o meu limitado cérebro só consegue computar direcções como ir em frente e virar à esquerda ou à direita, os timorenses dão habitualmente indicações como “sa’e” e “tun” (“subir” e “descer”). Isto é complicado de processar quando vou de motorizada com a minha mulher, seguindo as instruções dela para irmos a casa de alguma amiga, e todos os caminhos possíveis no cruzamento são completamente planos!...

Uma outra capacidade que os timorenses em geral têm extremamente desenvolvida é a memória para genealogias complexas, e para os rostos associados a elas. Vindo do ocidente onde, cada vez mais, família significa a família nuclear com poucas caras, fico com um nó no cérebro de cada vez que tento compreender todos os laços de parentesco da família alargada que algum familiar ou amigo me tenta pacientemente explicar. Uma das primeiras coisas que duas pessoas fazem aqui quando se encontram pela primeira vez é começar a explicar áreas geográficas de origem ou de ramificação das respectivas famílias, posicionando-se assim na complicada teia de parentescos e alianças que ocupa um papel central na forma como os timorenses se vêem no mundo. Tudo coisas demasiado complexas para malais, que têm memória de passarinho.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Malais

Em Timor sou um malai. Já era malai muito antes de vir para Timor, porque o convívio com a comunidade timorense tinha-me granjeado aí muitos amigos que me chamavam, naturalmente, malai, enquanto iam dizendo que eu já era meio timorense. É que se pode ser as duas coisas ao mesmo tempo. Conheço aqui um ancião português que veio para cá fazer a tropa como um moço na flor da idade e nunca mais de cá saiu, passou muito mais anos em Timor do que na terra natal, mas, como é natural, toda a gente lhe chama aqui o Malai Cruz. Tenho um amigo chamado Abílio Bessa que também veio para aqui jovem como militar e gostou tanto disto que acabou por casar com uma moça de Maubara e estabelecer-se por lá. Em 1975 foi um dos refugiados em Atambua evacuado para Portugal com a família, e foi morar no Porto. Durante muitos anos, antes de Timor se tornar moda e as pessoas fazerem cordões humanos vestidas de branco, havia pouca gente a mexer-se para que a situação mudasse, mas entre esses contava-se a CDPM, A Paz é Possível em Timor-Leste, o Prof. Barbedo de Magalhães e... a família Bessa. Quando a liberdade chegou a Timor, ele também veio para cá, tal como uma das filhas, e ambos construíram as suas casas no mesmo bairro de Díli. Questões de saúde e de família têm-no levado a dividir o tempo entre Timor e Portugal, e eu e a minha mulher acabámos por alugar a casa dele. No meu bairro toda a gente me conhece como o malai que alugou a casa do Avô Malai. “Avô” é aqui a forma de tratamento dos mais velhos, mesmo que não sejam da família. Se eu quiser perguntar o preço dos tomates no mercado a uma vendedora velhinha perguntarei “Avó, tomate ne’e folin hira?” (Avó, qual é o preço dos tomates?). A minha esposa é timorense, se tivermos filhos aqui eles serão “malae-oan”, filhos do malai.

Os malais, que são na generalidade umas criaturas muito cheias de manias estranhas, têm a obsessão do politicamente correcto (por exemplo, no mundo lá de onde vêm já não há “velhos”, agora há uns espectros trancafiados em lares e casas de repouso a que se chama “cidadãos da terceira idade”). Isso aplica-se inclusivamente a certos malais que chegam cheios de boas intenções a transbordar do peito e que se caracterizam pela atitude com que encaram os nativos “tão amorosos”: «Regozijai porque nós chegámos para vos salvar e trazemos a língua portuguesa, que é a panaceia universal que vai resolver todos os vossos problemas!» Alguns vem equipados para dar aulas sobre as obras de Gil Vicente e sobre “Os Lusíadas” e outras coisas que tais de que os timorenses precisam como de uma ida ao dentista sem anestesia. Há então uns malais que ficam muito escandalizados por serem chamados de malais, e que acham que isso é racismo e discriminação, e passam então a “ensinar” os nativos a não os chamarem assim. Os timorenses, inicialmente surpreendidos por os malais ficarem aborrecidos por serem chamados de malais, reagem com a benevolência que se deve ter com as crianças que ainda não sabem as regras de comportamento social (Sim, filho, o teu urso de peluche pode engolir o elefante do Mogli) e fazem-lhes a vontade, quando à sua frente. Alguns malais na terra deles já não chamam ciganos aos ciganos, mas mudaram-lhes o nome para “cidadãos de etnia cigana”; os timorenses acham que a língua serve para comunicar e não para complicar, por isso os chineses daqui não são chamados “cidadãos timorenses de etnia chinesa” mas sim “China-Timor” (Xina-Timór em tétum), o que permite distingui-los dos chineses recém-chegados, que não são de cá, e por isso são denominados de “China-Mandarim” ou “China” apenas. E já que falei em ciganos, lembremo-nos de que a palavra portuguesa “gajo” tem origem na língua antigamente falada por eles (o rom, ou romani, que ainda usam noutros países que não Portugal ou Espanha) e significava originalmente “alguém que não é cigano” (lembram-se do filme “Gadjo Dilo” – em tétum “malae bulak”?).

Também há uns malais burros que insistem em ouvir “malaio” em vez de “malai” (são normalmente os mesmos que pensam que o tecido tradicional “tais” tem um singular sem “s” e dizem preciosidades como “Olhe, sei lá, comprei hoje um tai divinal!”). Pelo menos actualmente, em Timor “malai” e “malaio” são duas palavras distintas com significados bem diferentes.

Mas afinal de onde vem esta palavra, “malai” na variedade de português que se fala em Timor e “malae” em tétum?

A. Mendes Corrêa no seu “Timor Português” (1944) diz que “por malai entendem os indígenas de Timor os estranhos, os Malaios de outras ilhas, os Chinas, os negros de África, os Árabes, os Portugueses metropolitanos, os Holandeses, os Europeus em geral. Eles próprios não se consideram Malaios, muito pelo contrário.»

Luís Thomaz num artigo de 1974, “Timor – Notas histórico-linguísticas”, pág. 231, defende que: “Por sua vez o nome que os malaios dão a si mesmos – melayu – tornou-se em Timor, sob a forma malae sinónimo de «estrangeiro, pessoa de fora de Timor» - recordação do tempo em que os malaios eram os únicos estrangeiros que apareciam nas costas da ilha. Osório de Castro nota que em Maluco o termo melayu é usado com o mesmo sentido.”

Mas há quem considere que a etimologia da palavra “malai” em Timor não tem nada a ver com “melayu”.

No seu artigo “East Timor and the Southwest Moluccas: Language, Time and Connections” (2000), Aone van Engelenhoven e John Hajek dizem-nos (pág. 121):

«A importante distinção entre os chamados ‘donos da terra’ e ‘donos dos barcos’ nas ilhas do Sudoeste das Molucas é não apenas crítica para as estruturas sociais na região, mas também um importante indicador histórico das relações com Timor no passado. Os ornusa ou clãs ‘donos da terra’ eram os verdadeiros senhores da terra, que já viviam nas ilhas antes da chegada dos ‘donos dos barcos’. Há textos históricos que revelam que a chegada dos donos dos barcos foi despoletada pela destruição da sua ‘Ilha Mãe’. Esta destruição é tradicionalmente explicada como o castigo supremo por uma luta fratricida que era proibida. Os nomes usados nestas histórias fornecem pistas importantes sobre ligações com Timor. Qualquer coisa que inclua malai como elemento reverte para Timor – o que se vê por exemplo em Sairmalai, o nome timorense do herói letinense Slerleti. ((32 A palavra malai, apesar das aparências, não tem nada a ver com Malay (ing.) [ou malaio (port.)], uma malformação europeia de melayu.)) O resultado é que todos os heróis, e consequentemente também os clãs que deles descendem, são considerados como sendo de origem timorense. O segmento Malai (lit. ‘Timor’) em muitos apelidos de família é altamente reverenciado devido à sua referência óbvia. Os exemplos incluem os apelidos Pelmalai ‘aliado timorense’ na ilha de Nila, e Maranmalai na ilha de Léti.

Reuniões recentes entre famílias keienses e do Sudoeste das Molucas na Holanda revelaram como ambos os lados tinham em comum narrativas semelhantes sobre a destruição de uma terra ou continente no ocidente (centrado na área de Timor-Luang). As histórias dos clãs falam sobre barcos que navegavam para o oriente a partir de
Lun-Let, o nome keiense para o continente que era Luang. Os mitos letinenses contam-nos sobre pessoas que navegavam para e de Timor, e sobre o estabelecimento de povoações de ‘donos de barcos’ na costa de Malakitna-Malaliawna, o irmão mais novo (com malai ‘Timor’ bastante evidente).

As ligações entre comunidades em Timor-Leste e no Sudoeste das Molucas mantiveram-se mais directamente até tempos relativamente recentes. Alianças formais tradicionais, por exemplo, foram mantidas entre os governantes tradicionais de Kísar e Baucau até perto de meados deste século, mas acabaram por ser quebradas pelos portugueses. Também é verdade que laços de comércio tradicional foram mantidos até mais recentemente ainda, particularmente com comerciantes que falavam tétum de Leti e de Luang que se sabia visitarem Timor-Leste.
» (A tradução do inglês é minha.)

Lendas na língua de Léti que mencionam esta ligação a Timor (Malai), e a sua análise antropológica e linguística, podem ser consultadas no livro de Aone van Engelenhoven “Leti, a language of Southwest Maluku” (2004), por exemplo nas págs 328, 329, 398.

Os dados destes autores relativos à antroponímia parecem ocorrer também entre os fatalucos da Ponta Leste de Timor, conheço uma moça de lá, de uma família “ratu“ (da nobreza), cujo nome tradicional (o do knua, não o dos documentos nem o “nome de estima” de casa) é Jar Malai. Na segunda parte do “Léxico Fataluco-Português” do Padre Alfonso Nacher, publicado na revista do Instituto Nacional de Linguística (2004), na pág. 122 pode ver-se que nesta língua a palavra “malai” pode significar “estrangeiro” mas também “liurai” (rei).

Enfim, na falta de mais dados, a origem da palavra é uma questão ainda em aberto. O que é certo é que o termo não é visto pelos timorenses como pejorativo ou insultuoso, antes pelo contrário. E quando um timorense quer insultar um malai salientando essa sua condição de não-filho-da-terra, não lhe chama “malae!”, recorre antes a epítetos como “kolonialista!”, ou, de forma mais poética, pode optar por formas como “fahi-mutin” (porco branco).

domingo, agosto 06, 2006

Os cães ladram mas a caravana passa

Fui acusado num blog de ser neo-colonialista e adversário do poder popular por causa desta minha frase, aí citada: “Aqueles que não vêem uma única coisa positiva na experiência colonial deverão considerar a colonização de Timor Oriental pelos portugueses como exemplar, já que primou pela ausência e pela pouca interferência nas estruturas sociais e culturais timorenses.” No mesmo blog “acusavam-me” ainda de ser um teórico da formação de elites. Analisemos então estas “acusações”, num espírito construtivo para ajudar alguns espíritos mais confundidos a verem a luz.
Quando se debate o colonialismo aparecem frequentemente os zelotes convencidos de que são donos da verdade, fanáticos dispostos a passar por cima de todos os factos que dificultem a adequação das suas teorias e grelhas de análise. Há uns de um lado a defender o nacionalismo serôdio das potências coloniais e a sua missão civilizadora atribuída directamente por Deus e “o fardo do homem branco”, e há os que estão do outro lado e que defendem a pureza igualitária imaculada dos povos oprimidos e a sua cultura superior própria de um Éden onde não havia injustiça antes da chegada do pérfido europeu. Estes são os teóricos d”o remorso do homem branco”, como explica Pascal Bruckner.
Vejamos o que dizem sobre esta questão dois académicos prestigiados da área dos estudos timorenses, Geoffrey Stephen Hull, Ph.D, da University of Western Sydney, e Adérito José Guterres Correia, M.A., da Universidade Nacional Timor Lorosa’e e sub-director do Instituto Nacional de Linguística, num livro que ambos escreveram e que recomendo a todos os cooperantes que trabalham com seriedade em Timor ou por Timor:

“Nu'udar ita hatene, prosesu istóriku ida-ne'ebé ita bolu naran kolonializmu iha aspetu barak. Ema polítiku sira temi beibeik kona-ba aspetu aat ka negativu kolonializmu nian, n.e. nasaun ida hadau nasaun seluk, hanehan populasaun mahorik hodi susu rain ne'e nia bokur no rikusoin tomak. Maibé ema matenek sira rekoñese mós kolonializmu nia aspetu di'ak ka pozitivu oioin, liuliu troka kulturál. Kontaktu ho ema raiseluk sira fó mós ba ema rai-na'in sira leet atu aprende buat barak, la'ós de'it hadi'a sira-nia teknolojia, maibé mós leet atu haluan no haburas sira-nia matenek.
Liuhosi kolonializmu portugés iha Timór, hanesan kolonializmu olandés iha rai-Indonézia, ema mahorik sira iha Nusa-Lubun Malaiu tama ba kontaktu ho kultura rai-Europa nian no mós ho matenek internasionál. Lia-tetun no lia-malaiu simu hosi lia-portugés ka lia-olandés termu tékniku, abstratu no modernu rihun ba rihun. Tan ne'e, lia-malaiu no lia-tetun hetan sorte atubele fahe lisuk rikusoin intelektuál boot ne'ebé naklekar hosi rai-Europa ba mundu tomak.
” (página 95)

O livro chama-se “Kursu Gramátika Tetun – Ba Profesór, Tradutór, Jornalista no Estudante-Universidade Sira” e foi publicado em Díli, em 2005, pelo Instituto Nacional de Linguística (sairam duas edições, estou a citar a que tem prefácio do então Primeiro-Ministro, Dr. Mari Alkatiri).
Vou traduzir o excerto, para aqueles malais teóricos do poder popular que em Timor só falam com as elites e cujo contacto com o povo se limita a “Mana, kafé ida, mas tem que ser curto, escaldado e bem tirado!”.

“Como sabemos, o processo histórico a que chamamos colonialismo tem muitos aspectos. Os políticos mencionam muitas vezes os aspectos maus ou negativos do colonialismo, como a ocupação de uma nação por outra, e o espezinhamento dos seus habitantes para sugar todos os recursos e riquezas dessa terra. Mas as pessoas inteligentes também reconhecem aspectos bons ou positivos do colonialismo, principalmente ao nível das trocas culturais. Os contactos com gente de outras terras permitiram também às populações autóctones aprenderem muitas coisas, não apenas melhorando a sua tecnologia, mas dando-lhes também oportunidade de alargar os seus horizontes intelectuais e culturais.
Através do colonialismo português em Timor, bem como do colonialismo holandês na Indonésia, os habitantes do Arquipélago Malaio entraram em contacto com a cultura europeia e com a ciência internacional. A língua tétum e a língua malaia receberam do português e do holandês milhares de termos técnicos, abstractos e modernos. Por isso, o malaio e o tétum tiveram sorte em poderam partilhar riquezas intelectuais importantes que se espalharam da Europa para o mundo inteiro.
” [o sublinhado é meu].

Em relação ao outro assunto, a ideia de ter algumas escolas de qualidade para formar elites não é obviamente minha, é muito antiga. Penso que a educação devia chegar a todos, mas não construo castelos no ar, porque vivo no Timor real. Ainda anteontem em Liquiçá um professor do ensino pré-secundário (7º ao 9º ano) me dizia que não tinham professores suficientes na escola dele para ensinar em português (apesar de serem essas as instruções oficiais) e que os poucos que tinha havido eram de lorosa’e e tinham fugido para as suas regiões de origem com medo de ataques. De resto, a Dona “margarida” [a tal senhora que me fez as acusações], se morar agora em Díli, ou vier a morar, vai pôr os seus filhos na Escola Portuguesa (para elites) ou continuará adepta de uma educação igual para toda a gente e de maneira coerente matriculará as suas crianças numa escola como a 28 de Novembro? E dou o exemplo da Escola 28 de Novembro por duas razões: 1) tem um nome revolucionário; 2) os seus filhos poderão talvez, com sorte, vir a ter a oportunidade de ver as massas populares em acção, e participar até nos acontecimentos, já que essa escola tem no seu palmarés ter sido o ponto de partida dos motins infanto-juvenis de 4 de Dezembro de 2002. Agora sem ironia, não há nada que distinga especialmente esta escola, e os jovens delinquentes pirómanos poderiam ter surgido de outra qualquer, como mostra a última vaga de incêndios nestes meses recentes. Timor tem uma percentagem muitíssimo grande da população constituída por crianças e jovens, que na maioria vão para a escola sem outra perspectiva que não seja vir a conseguir um “padrinho” que arranje um lugar na função pública ou então um emprego como “segurança”, eufemismo local para indivíduos contratados para dormir em frente à porta dos malais e endinheirados. Quase não há sector privado, faltam cá ainda “capitalistas”, “burgueses” e outros “inimigos das classes populares” que possam finalmente dinamizar a economia e arranjar mercado de trabalho para esta malta toda, recrutando mão-de-obra usando como critério o mérito individual do candidato. Há demasiados jovens cuja única forma de sobressair perante os seus pares é “armarem-se em galo de combate”.
Existem por outro lado muitos malais internacionalistas que ganham muito, compram nos supermercados produtos importados (até a hortaliça que comem vem da Austrália), mandam a maior do dinheiro que ganham para as suas contas bancárias nos países de origem, e são paladinos do poder popular e do anti-neo-colonialismo!
O corpo docente das escolas timorenses tem pouca formação, há grande falta de livros, a maior parte das pessoas fala ou compreende pelo menos algum português mas não o suficiente para ler nessa língua, os hábitos de leitura são de resto quase inexistentes, em qualquer idioma... O aluno médio termina a escola secundária com uma deficiente preparação de base que não lhe permite frequentar as universidades portuguesas, por exemplo. Por isso é que me parece não apenas importante, mas crucial, para o futuro do país que surjam algumas escolas de qualidade superior para a formação dos quadros que irão tomar conta do país daqui por uns anos. Neste momento há demasiadas instituições e estruturas do Estado que dependem ainda do trabalho de assessores internacionais para funcionarem, se não tivermos algumas escolas de excelência estaremos pior daqui por vinte anos.
Para as pessoas que andam à procura de cartões partidários para decidir se uma ideia é válida ou não, permito-me invocar aqui uma personalidade que certamente não irão atacar. Conheci na Guiné-Bissau quadros guineenses que deviam a sua educação e o seu sucesso como intelectuais aos esforços de Amílcar Cabral, que, há mais de três décadas, andava às vezes pelas tabancas da Guiné a procurar crianças com melhores resultados escolares para pedir aos pais delas que o deixassem mandá-las para uma escola-piloto numa base do seu movimento na Guiné-Conacri, para serem formadas e poderem servir no futuro o seu país. Alguns desses quadros eram provenientes de famílias muito humildes de camponeses ou vaqueiros (os seus irmãos continuam ainda a viver nas tabancas dos antepassados) e nunca teriam podido explorar todo o seu potencial se não tivessem tido a oportunidade de entrar numa escola de qualidade.
Não vão ser as massas de camponeses analfabetos que irão tomar conta das universidades, dos ministérios, dos bancos, das empresas, das companhias de telecomunicações, electricidade, água... Também não vão poder ser muitos dos alunos que actualmente chegam ao ensino superior em Timor. Há que deixar de ter medo das palavras, o país precisa de elites, de indivíduos bem formados – por muito que isso seja difícil de perceber para uns quantos líricos teóricos do poder das massas populares que andam por aí. No romance “Mayombe”, do escritor angolano Pepetela, há um personagem, chamado Mundo Novo, que também defende esse tipo de ideias. Diz ele:

“(...) Como se fosse possível fazer-se uma Revolução só com homens interesseiros, egoístas! Eu não sou egoísta, o marxismo-leninismo mostrou-me que o homem como indivíduo não é nada, só as massas constroem a história. Se fosse egoísta, agora estaria na Europa, como tantos outros, trabalhando e ganhando bem. Porque vim lutar? Porque sou desinteressado. Os operários e os camponeses são desinteressados, são a vanguarda do povo, vanguarda pura, que não transporta com ela o pecado original da burguesia de que os intelectuais só muito dificilmente se podem libertar. Eu libertei-me, graças ao marxismo.(...)”.

Na época os “intelectuais revolucionários desinteressados” tinham que abdicar dos empregos bem pagos na Europa, felizmente agora para os “malais desinteressados adeptos do poder das massas” existem ajudas de custo, e bar do Hotel Timor, e salários milionários na ONU ou na cooperação bilateral, e viagens a Auckland, Hong Kong, Bali, etc... Eu ganho mais do que a maior parte dos timorenses (e menos do que a grande maioria dos malais), mas não sou hipócrita. Enfim, na sequência das reflexões e debates no livro há um outro personagem, Sem Medo, que mais à frente diz:

“(...) É que, nos nossos países, tudo repousa num núcleo restrito, porque há falta de quadros, por vezes num só homem. Como contestar no interior dum grupo restrito? Porque é demagogia dizer que o proletariado tomará o poder. Quem toma o poder é um pequeno grupo de homens, na melhor das hipóteses, representando o proletariado ou querendo representá-lo. A mentira começa quando se diz que o proletariado tomou o poder. Para fazer parte da equipa dirigente, é preciso ter uma razoável formação política e cultural. O operário que a isso acede passou muitos anos ou na organização ou estudando. Deixa de ser proletário, é um intelectual. Mas nós todos temos medo de chamar as coisas pelos seus nomes e, sobretudo, esse nome de intelectual. Tu, Comissário, és um camponês? Porque o teu pai foi camponês, tu és camponês? Estudaste um pouco, leste muito, há anos que fazes um trabalho político, és um camponês? Não, és um intelectual. Negá-lo é demagogia, é populismo. (...) Mas começa-se a mentir ao povo, o qual bem vê que não controla nada o Partido nem o Estado e é o princípio da desconfiança, à qual se sucederá a desmobilização. (...) Como todos os do teu grupo, pensas que se não pode dizer a verdade ao povo, senão ele desmobiliza-se.(...)”

Sou da opinião que – enquanto o português não é dominado por muitos alunos – o romance de Pepetela “A geração da utopia” devia ser traduzido para tétum e tornado leitura obrigatória nas escolas todas do país.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Resistência e identidade

Texto de Daniel Tércio, publicado no jornal português "Expresso" (Caderno "Actual"), Edição 1732, de 07.01.2006
A CULTURA DA INDEPENDÊNCIA

Língua e identidade cultural em Timor-Leste

O viajante que se detiver na frente da baía de Díli pode disfrutar de uma paisagem magnífica: na direcção do mar, Ataúro, a ilha que interrrompe o horizonte; na direcção oposta, o Palácio do Governo, branco e regular, com o seu jardim fechado ao público, onde existe um pequeno monumento de homenagem ao Infante Dom Henrique (uma espécie de réplica tímida do Padrão dos Descobrimentos em Lisboa).
Hoje, se se sentar alguns minutos sobre o murete da baía, o viajante terá certamente a companhia de um timorense que se aproximará com um sorriso, ensaiando algumas palavras em português. A maior parte das vezes, o timorense esperará que seja o estrangeiro (o “malai”) a falar. Para o “malai”, habituado a evitar os silêncios e os vazios, isto nem sempre será confortável.
Aqui, em Timor Lorosa’e, a língua flui de uma outra maneira, porventura com uma outra lógica, mesmo entre os mais velhos, entre aqueles que a aprenderam antes de 1974 no banco das escolas do regime colonial português. Com efeito, ainda que adoptada como uma das línguas oficiais do novo Estado (o mais jovem país do século XXI), a língua portuguesa continua a ser uma língua estrangeira. Sendo a língua do “outro”, o português é a fala de um outro especial, não do australiano ou do javanês, mas sim de alguém que veio do lado de lá do mundo e a quem muitos timorenses responsabilizam por um certo abandono precipitado em 75. Mas esta língua do “outro”, que é a nossa, tem surpreendentes semelhanças lexicais com o tétum, a primeira língua oficial, falada por 80% da população da jovem República Democrática de Timor-Leste.
O ambiente linguístico - indispensável para traçar o quadro da cultura timorense - afigura-se pois complexo. A respectiva complexidade aumenta quando se sabe que neste território, com cerca de 15000 km2, coexistem pelo menos dezasseis línguas diferentes. O tétum é uma delas, dividindo-se esta em tétum praça (que funciona como língua franca) e tétum téric (mais falado na montanha); além do tétum, fala-se também, por exemplo, o macassai (em Baucau), o mambai (na região montanhosa do centro), o fataluco (na ponta leste da ilha) e o baiqueno (no enclave de Oecussi). Quanto à língua indonésia, imposta brutalmente durante um quarto de século, ela perdura coloquialmente entre uma boa parte da juventude, atraída por uma cultura pop de origem javaneza, e contaminando lexicalmente o tétum praça. Ao mesmo tempo, as empresas com origem australiana aqui instaladas exigem o domínio do inglês ao timorense em busca de trabalho. Resta dizer que a noção de emprego (e por extensão, a noção económica de taxa de desemprego) não se aplica facilmente à situação de Timor. É possível que o trabalho, enquanto processo sistemático de transformação do mundo e de organização social, indispensável para obter regularmente um salário individual, seja um conceito ainda relativamente estranho na cultura timorense; mais de metade da população deste jovem país tem menos de 15 anos de idade, o que certamente ajuda a compreender a relação do timorense com o trabalho sistemático. Um outro aspecto importante para estabelecer o quadro cultural tem a ver com a omnipresença da natureza, uma natureza longe do estado domesticado dos países ocidentais, base de um fundo animista muito forte, que a Igreja Católica não conseguiu anular, não obstante o papel fundamental que tem tido na organização e na fixação dos valores morais da sociedade.
Para a jovem República de Timor-Leste, a escolha do português e do tétum como línguas oficiais constitui certamente uma opção política, um manifesto de independência face aos dois gigantescos Estados vizinhos – opção oficialmente consignada, mas porventura ainda sem um desfecho claro a médio e a longo prazo. Para Portugal e para o conjunto de países de língua oficial portuguesa, a opção é honrosa, porventura interessante no teatro da geopolítica – na medida em que fixa a presença do português no sudeste asiático - mas também inevitavelmente dispendiosa.
O esforço, tanto dos países da CPLP, incluindo Portugal, quanto do jovem Estado timorense, passa por fazer deslocar a língua portuguesa de uma língua do “outro”, do “malai”, para uma língua nossa. Como fazê-lo?
Os governantes que discursaram em frente ao Palácio do Governo, por ocasião da comemoração da Independência nacional, no dia 28 de Novembro, falaram em português para uma população mais interessada nos desfiles das forças militares e das “majoretes” do que propriamente no conteúdo dos discursos.
Ao mesmo tempo, um acontecimento como a Feira do Livro português, organizado pela Embaixada Portuguesa e pelo Centro Cultural Camões, com o apoio logístico de estudantes voluntários da Universidade Nacional de Timor Lorosa’e, constituiu um verdadeiro êxito. Se a colaboração das editoras portuguesas poderia e deveria ter sido mais ampliada, se os autores timorenses como Luís Cardoso e Fernando Sylvan deveriam ter as respectivas obras presentes (o que inexplicavelmente não aconteceu), os preços acessíveis das obras e a preferência concedida aos autóctones na compra dos livros possibilitaram uma interessante proximidade; proximidade que de algum modo se desenrolou também com o programa de visitas a escolas e de conferências proferidas pelos autores lusófonos convidados.
Um dos momentos altos da Feira do Livro aconteceu com o lançamento da obra do historiador José Mattoso (residente em Timor desde o ano 2000), “A Dignidade. Konis Santana e a Resistência timorense”. A obra, publicada pelo Círculo de Leitores em colaboração com a Fundação Mário Soares, constitui, a par com a abertura do Museu da Resistência, uma contribuição decisiva para a História recente do jovem país. Uma das questões mais interessantes, de resto colocada na sessão de lançamento do livro, tanto pelo autor, quanto pelo Presidente Xanana Gusmão, diz respeito à consciência da identidade nacional e ao modo como esta ganhou corpo durante a ocupação indonésia. Com efeito, é possível que a ocupação indonésia tenha jogado a favor da unificação dos antigos reinos (que passaram de uma rivalidade agressiva para a unidade contra o inimigo comum javanês); em consequência, as diferenças linguísticas tornaram-se secundárias e uma nova consciência de pátria emergiu, uma consciência apoiada num forte sentido de civilidade e de dignidade.
A questão linguística continua, porém, uma questão em aberto, que está longe de se resolver com eventos como a Feira do Livro português. Nesta matéria, pelas rotinas que proporcionam, é fundamental o papel que as Bibliotecas e as salas de leitura podem ter no mapa cultural de Timor e no processo de disseminação do português. A Biblioteca do Centro Cultural português, a Biblioteca do Instituto Camões, ou a Sala de Leitura Xanana Gusmão, instaladas em Díli, são diariamente frequentadas por dezenas de jovens que lêem sobretudo a imprensa portuguesa, por vezes com um mês de atraso; fora de Díli, surgem iniciativas verdadeiramente heróicas, como a pequena biblioteca de Manatuto, criada pelo professor Carlos Reis com o apoio das autoridades locais. Para além das bibliotecas, existem em Díli associações culturais e desportivas, que funcionam também como veículo do português. Assim acontece com o Centro Juvenil Padre António Vieira, sediado no bairro Taibesse, actualmente dirigido pela timorense Rosalina Dias.
Além disto está em curso uma importante investigação linguística sobre o tétum e sobre as respectivas relações com o português; 27000 termos constam do prontuário de língua tétum, sendo uma parte substancial de base lexical portuguesa. O Instituto Nacional de Linguística, dirigido pelo Reitor da UNTL, Benjamim de Araújo e Corte-Real, desenvolve a sua acção neste domínio. A instituição, que conta com o apoio oficial do Governo timorense, tem, entre outras, a vantagem de promover o trabalho de equipa, congregando esforços de investigadores como o australiano Geofrey Hull, uma autoridade internacionalmente reconhecida na padronização e fixação escrita da língua autóctone. Neste momento, prepara-se a edição de um dicionário monolingue e acaba de sair uma gramática de tétum escrita em tétum.
Uma outra organização, com o estatuto de ONG, a “Timor Aid”, dirigida por Maria do Céu Lopes, tem tido o papel pioneiro de editar obras em tétum, que faz distribuir pelas escolas dos Distritos. Na verdade, um dos problemas mais complexos passa pela circulação dos bens culturais; com efeito, além da escassez de materiais escritos, avolumam-se dificuldades efectivas e físicas nos indispensáveis meios de comunicação. A produção de conteúdos, em português e em tétum, deverá ser adaptada às condições efectivas no terreno: rede telefónica parcelar, internet incipiente e genericamente com uma baixa largura de banda e más (ou péssimas) estradas. Obras bilingues como “O que é a Lusofonia. Gente, culturas, terras”, preparada por um conjunto de jovens portugueses e timorenses e recentemente editada pelo Instituto Camões, constituem iniciativas meritórias que podem e devem estimular o aparecimento de outras publicações. Neste âmbito, é fundamental por exemplo que a presença da cooperação portuguesa amplie o seu conhecimento das línguas autóctones. João Paulo Esperança, docente no Departamento de Língua Portuguesa da UNTL, especialista em linguística do tétum, colaborador na imprensa local, ou Selma Silva, professora na Escola portuguesa e autora do programa “ondas Lusófonas” na Rádio e Televisão de Timor-Leste, são bons exemplos de um domínio partilhado de ambas as línguas. Já a edição de um periódico como o “Semanário”, publicado em Díli, necessita urgentemente de uma revisão cuidadosa de textos.
Sem dúvida que a identidade cultural de Timor-Leste passa em grande medida por uma independência linguística na região do sudeste asiático, o que explica a opção do português e do tétum como línguas oficiais deste jovem país. Ao mesmo tempo, a cultura da independência, forjada durante os anos da resistência, terá finalmente que respeitar as singularidades de um território surpreendentemente diverso. A cultura timorense é pois, de forma mais nítida do que em outros lugares, um processo, uma missão, um esforço que decorre entre o estado de “Babel” do território e a consciência de identidade nacional.

Daniel Tércio

sexta-feira, janeiro 06, 2006

tocodede

Díli, 6 de Janeiro de 2006

Saiu ontem – com bastante atraso – o último “Semanário”, que traz como suplemento o “Várzea de Letras” no qual aparece a tradução para tocodede do meu artigo sobre literatura de Timor. Eu e a Anoi é que traduzimos o texto, com ajuda da Cesaltina. Que eu saiba é o primeiro texto publicado em tocodede na história desta língua.
Alguns malais, normalmente portugueses, dizem que eu sou maluco por gastar tempo e energia para procurar dominar uma língua como o tocodede. Dizem eles que nem o tétum vale a pena aprender, porque não serve para nada no mundo lá fora. Alguns desses estão por aqui – supostamente para trabalhar em cooperação com os timorenses – há muitos anos.
Muitos desses malais vão sair de Timor um dia sem nunca terem tido um amigo timorense. Deve ser triste ser assim.
Muitos desses malais só falam com os timorenses que lhes limpam a casa, com as empregadas de mesa nos restaurantes, com os formandos a quem dão aulas... Por isso passam a maior parte do tempo a falar sozinhos, ou ouvem timorenses em conversas da treta que lhes dizem aquilo que eles querem ouvir, que é como os portugueses são boas pessoas e como estão ansiosos por aprender a língua portuguesa. Na verdade a opinião generalizada entre os timorenses é que os portugueses que por cá andam são uns pedantes. É com tristeza que eu constato a surpresa dos taxistas e das pessoas comuns na rua ou no mercado quando, depois de um bocado de conversa (em tétum), eu digo que venho de Portugal – como falo fluentemente tétum pensavam que eu era australiano, ou quando muito brasileiro!
A postura desses portugueses é apoiada pela existência de malais importantes sentados em gabinetes em Lisboa que tomam decisões como a de usar o “Auto da Barca do Inferno” de Gil Vicente como um texto de estudo num curso de português L2/LE, cujos aprendentes têm grande dificuldade em compreender e interpretar textos em língua portuguesa contemporânea.
E adiante... Eu cá vou andando “com a cabeça entre as orelhas”, e estou a aprender tocodede. Digamos que é mais um passo adiante, agora em direcção ao mundo das montanhas.
JP Esperança


Dili, 6 Janeiru 2006

Horisehik foin sai – tarde liu ona – “Semanário” ikus, ne'ebé inklui “Várzea de Letras” nu'udar suplementu no iha tradusaun ba tokodede husi ha'u-nia artigu kona-ba literatura kona-ba Timór. Ha'u ho Anoi maka tradús testu ne'e, ho ajuda husi Cesaltina. Tuir buat ne'ebé ha'u hatene ne'e testu dahuluk ne'ebé publika iha dalen tokodede iha Istória lian ida-ne'e nian.
Malai balu, baibain portugés sira, dehan katak ha'u bulak tanba ha'u gasta tempu ho enerjia hodi buka ko'alia moos lian ida hanesan tokodede. Sira hateten katak tetun rasik mós la di'ak atu aprende, tanba la serve ba buat ida iha mundu iha li'ur. Balu husi malai sira-ne'e hela iha-ne'e – parese katak sira-nia knaar atu serbisu lisuk ho timoroan sira – tinan barak tiha ona.
Barak husi malai sira-ne'e sei sai husi Timór loron ida no sira nunka iha belun timoroan ida. Ha'u hanoin katak ne'e buat triste bainhira ema hanesan ne'e.
Barak husi malai sira-ne'e só ko'alia ho timoroan ne'ebé hamoos sira-nia uma-laran, ho empregada-meza iha restaurante, ho alunu sira ne'ebé sira hanorin... Tanba ne'e sira pasa sira-nia tempu barakliu ko'alia mesamesak, ka rona timoroan dehan leet de'it buat ne'ebé malai sira hakarak rona, katak ema-portugés sira laran-di'ak no katak sira ansi loos atu aprende dalen portugés. Tebes maka timoroan sira barakliu hanoin katak malai portugés sira ne'ebé hela iha-ne'e halo an de'it. Ha'u sente laran-kraik bainhira ha'u haree taksista ka ema baibain iha lurón ka iha basar hakfodak loos bainhira, liutiha ami ko'alia uitoan (ho lian tetun), ha'u hateten katak ha'u mai husi Portugál – tanba ha'u ko'alia tetun moos sira hanoin katak ha'u ema-Austrália, ka pelumenus ema-Brazíl!
Buat ida ne'ebé haberan malai portugés sira-nia jeitu ne'e maka iha malai boot sira ne'ebé tuur iha gabinete iha Lizboa no foti desizaun hanesan uza “Auto da Barca do Inferno” [pesa-teatru hakerek ho lia-portugés tinan atus barak liubá nian] husi Gil Vicente nu'udar testu atu estuda iha kursu lia-portugés nu'udar lian daruak ka lian rai-li'ur nian, ne'ebé alunu sira iha kursu ne'e susar tebetebes atu komprende no interpreta testu ne'ebé uza lian portugés agora daudaun nian.
Maibé mai ita la'o ba oin... Ha'u ne'e kontinua la'o daudaun ho “ha'u-nia kakutak iha tilun sira-nia klaran”, no ha'u aprende hela tokodede. Ita bele dehan katak ne'e hakat ida tan ba oin, agora iha diresaun ba mundu foho nian.
JP Esperança