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segunda-feira, dezembro 03, 2007

O jogo do pau não veio da Índia, é autóctone

"There is strong evidence that its technique has most probably derived from a dance in India, which would have been imported and adapted after the Discoveries, a plausible reasoning since it was never practised in Galiza (the neighbouring region of North-West Spain, with close linguistic and cultural ties with Minho and Trás-os-Montes); "
A "dança" a que se refere o texto é uma arte marcial chamada Kalarippayat praticada em Kerala. Seguindo a ligação proposta pelo autor encontramos esta informação: "The 15th century travelogue of Duarte Barabosa, the Portuguese traveler shows that Kalarippayat was the integral part of the Kerala society between 13th and 16th centuries. It was a part of the education of the children, where daily training in a Kalari was considered as important as learning to read and write, thus forming an important element of the culture of the land Kerala and erstwhile southern parts of Karnataka then known as Tulunadu. During this period, it was a compulsary social custom to send all youngsters above the age of 7 to a kalari for training.
Kalarippayat is believed by many historians as one of the oldest traditions of martial training in the world. In Malayalam, the mother language of Kerala, India, Kalarippayat means repetitive training (payat) inside an arena (kalari).
"
Podemos ver o uso que este sistema tradicional de combate faz do pau num vídeo do youtube clicando aqui (a partir do minuto 6, mais ou menos). Ora, as opções técnicas no manuseamento do pau parecem ser bastante diferentes das do jogo do pau português. Em que se baseia a hipótese de o jogo do pau ter vindo da Índia? No facto de um viajante português do séc XVI ter descrito a prática aí de uma luta que usava paus? Se tivesse vindo da Índia teria sido difundido em Portugal a partir das regiões portuárias mais importantes do litoral, mas na realidade os seus centros principais foram durante muito tempo regiões rurais montanhosas do interior (Minho, Trás-os-Montes, Beira Interior...). Creio que só a partir do século XIX é que passou a ser habitual o seu ensino em Lisboa. E, ao contrário do que diz o autor do excerto acima transcrito, há registos da sua prática na Galiza. Conta-nos Ernesto Veiga de Oliveira em "Festividades Cíclicas em Portugal" (D. Quixote, 1984,p.320): "Na Galiza (onde o pau e o jogo do pau se conhecem em termos semelhantes aos que aqui vemos, parecendo mesmo terem ali sido levados por portugueses), o varapau, nas palavras de Lorenzo Fernandez, era «o companheiro dos moços rondadores, dos viandantes ao longo dos caminhos, dos pastores no alto dos montes; o seu ofício era múltiplo: no caminho era uma ajuda, ora a subir as encostas ora a descê-las, descansando-se nele o peso do corpo; quando um regato cortava a vereda, saltava-se por cima dele apoiando-se no varapau. o pastor no monte e o feirante na feira carregavam nele o seu peso, aliviando assim deste as pernas; também o pastor tangia com ele o gado, e, quando era preciso, afugentava o lobo, tanto em defesa própria como na do gado que lhe estava confiado»; e «só se largava de mão enquanto o moço conversava com a sua moça na lareira da casa desta; então o pau ficava à porta, para indicar aos outros que nada tinham que fazer ali».
O pau era de uso exclusivamente masculino; e na Galiza «o rapaz tinha-se por moço quando arranjava o seu varapau, e ia de ronda com os outros; era assim como ser armado cavaleiro»." Veiga de Oliveira cita um galego, Xaquín Lorenzo Fernandez, que escreveu um artigo sobre o assunto n"O Comércio do Porto", em 1959 - não tenho de momento esse artigo.
Estas referências ao jogo do pau entre os galegos remetem para o mesmo universo rural do Norte de Portugal. Não há nada que sustente a tese de uma origem indiana, de uma arte marcial trazida da Ásia por marinheiros. Parece-me que o problema é que há, às vezes, entre algumas pessoas do universo das artes tradicionais de combate uma mitificação exagerada, e uma procura de "legitimidade marcial" recorrendo ao oriente (como entre muitos praticantes de artes marciais chinesas se procura obcessivamente uma ligação com Shaolin). Problemas do que Hobsbawm e Ranger chamam a "invenção da tradição"...
A realidade é que o pau é uma arma muito simples, fácil de obter, e diferentes povos pelo mundo inteiro desenvolveram por isso sistemas de luta com varas de diversos tipos. Porque não inventar que o jogo do pau português veio do sul da Etiópia, onde os homens do povo Surma se dedicam ao sagine (ver filme clicando aqui), uma luta com paus bastante interessante. Ou da Sicília, na Itália, onde há o bastone siciliano.