Mostrar mensagens com a etiqueta tétum. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta tétum. Mostrar todas as mensagens

sábado, agosto 01, 2026

Legendas em tétum no YouTube

 Estive a tentar compreender, com apoio do ChatGPT, porque é que o YouTube deixou de sincronizar o áudio em tétum de textos lidos, apesar de eu lhe fornecer o texto como antes.

O que o ChatGPT diz é isto:

«A SINCRONIZAÇÃO AUTOMÁTICA DE LEGENDAS EM TÉTUM NO YOUTUBE: OBSERVAÇÕES SOBRE A EVOLUÇÃO DE UMA FUNCIONALIDADE

A plataforma YouTube disponibilizou, durante vários anos, uma funcionalidade de sincronização automática de legendas (auto-sync) que permitia ao utilizador fornecer apenas a transcrição textual de um vídeo, ficando a plataforma responsável pelo alinhamento temporal entre o texto e o áudio. Embora esta funcionalidade tenha sido concebida para línguas suportadas pelo sistema de reconhecimento automático de fala da Google, a experiência de utilização documentada em diversos vídeos em língua tétum sugere que, durante um determinado período, o mecanismo de sincronização apresentava um comportamento significativamente mais flexível do que o descrito na documentação oficial.

O tétum, apesar de ser uma das duas línguas oficiais da República Democrática de Timor-Leste, nunca figurou entre as línguas disponíveis para identificação manual da língua do vídeo ou das legendas no YouTube. Consequentemente, os criadores de conteúdos em tétum eram obrigados a selecionar outra língua, geralmente o português, para poderem utilizar a funcionalidade de sincronização automática.

Apesar desta limitação, vários vídeos publicados em anos anteriores demonstram que a sincronização funcionava de forma satisfatória. Em diversos casos, foi suficiente colar o texto integral da narração em tétum na interface de sincronização automática para que o YouTube produzisse legendas corretamente temporizadas, sem necessidade de um ficheiro SRT pré-sincronizado. Este comportamento sugere que o algoritmo então utilizado não dependia exclusivamente da identificação prévia da língua falada, conseguindo alinhar um texto fornecido pelo utilizador com a sequência temporal do áudio mesmo quando a língua não fazia parte da lista oficialmente suportada.

Um exemplo particularmente elucidativo consiste num vídeo em que coexistem três conjuntos de legendas. Na versão identificada como "Português", o texto fornecido pelo utilizador encontra-se integralmente em tétum, tendo sido sincronizado automaticamente pelo YouTube com o áudio, igualmente em tétum. Na versão "Português (Portugal)", foi fornecida a tradução portuguesa do mesmo texto, sincronizada automaticamente com o mesmo áudio. Finalmente, a plataforma disponibilizou também legendas em inglês geradas automaticamente. Este comportamento indica que o sistema conseguia separar a sincronização temporal da tradução, utilizando o alinhamento obtido para produzir versões noutras línguas.





Numa fase posterior, porém, verificou-se uma alteração substancial do comportamento da plataforma. A sincronização automática deixou de funcionar, apesar de o procedimento seguido pelo utilizador permanecer essencialmente inalterado. Em vez de produzir legendas sincronizadas, o sistema passou simplesmente a aceitar o texto introduzido, sem proceder ao respetivo alinhamento temporal.

Existe ainda um caso intermédio particularmente revelador. Num determinado vídeo, o sistema parece ter identificado automaticamente o idioma como espanhol, embora a narração estivesse em tétum (variedade de Welaluhu). Após o utilizador fornecer a transcrição em tétum, a tradução automática disponibilizada pelo YouTube para indonésio apresentou um comportamento inesperado: algumas passagens correspondiam a traduções efetivas para indonésio, enquanto outras reproduziam literalmente segmentos do texto original em tétum. Em certos casos, ambas as situações coexistiam na mesma frase.


Este fenómeno sugere que o sistema utilizava simultaneamente duas fontes distintas de informação: por um lado, uma transcrição automática produzida pelo reconhecimento de fala; por outro, o texto fornecido pelo utilizador. Quando o algoritmo conseguia estabelecer correspondência entre ambos, utilizava o texto disponibilizado; quando essa correspondência falhava, recorria aparentemente à sua própria transcrição automática. A mistura de segmentos provenientes destas duas fontes acabava por refletir-se na tradução automática subsequente.

Naturalmente, esta interpretação permanece hipotética, uma vez que a Google nunca publicou informação técnica detalhada sobre os algoritmos utilizados pelo YouTube para sincronização automática de legendas. Contudo, os comportamentos observados são compatíveis com a existência de um mecanismo híbrido de alinhamento (forced alignment), semelhante aos sistemas atualmente utilizados em aplicações de legendagem e linguística computacional. Estes sistemas recebem simultaneamente um ficheiro áudio e uma transcrição textual, determinando automaticamente os instantes em que cada segmento do texto é pronunciado. O facto de o YouTube conseguir sincronizar textos em tétum, apesar de esta língua não constar da lista oficial de idiomas suportados, sugere que o algoritmo então utilizado não dependia exclusivamente de modelos específicos de reconhecimento para cada língua, podendo funcionar sobretudo com base na correspondência temporal entre o áudio e a transcrição fornecida.

Uma hipótese plausível é que, durante a evolução da infraestrutura de inteligência artificial da Google, este mecanismo tenha sido substituído por um sistema mais dependente da identificação prévia da língua falada. Se o algoritmo atual exigir que o idioma pertença ao conjunto de línguas suportadas pelo reconhecimento automático de fala, a ausência do tétum dessa lista poderá impedir o início do processo de sincronização, mesmo quando o utilizador fornece uma transcrição integral perfeitamente correta. Paradoxalmente, a modernização tecnológica poderá ter conduzido, neste caso específico, à perda de uma funcionalidade anteriormente disponível para uma língua minoritária.

Do ponto de vista da política linguística digital, este caso ilustra um problema frequente enfrentado pelas línguas com poucos recursos computacionais. Embora o tétum seja língua oficial de um Estado soberano e disponha atualmente de suporte em serviços como o Google Translate, continua ausente de várias funcionalidades do ecossistema Google, incluindo a seleção manual da língua em determinados serviços do YouTube. Esta ausência obriga os utilizadores a recorrerem a identificações linguísticas incorretas, distorcendo simultaneamente os metadados dos vídeos e reduzindo as possibilidades de desenvolvimento futuro de modelos específicos para a língua.

Os exemplos aqui descritos sugerem que seria desejável distinguir claramente duas funcionalidades independentes: a identificação manual da língua por parte do utilizador e o conjunto de tecnologias automáticas disponíveis para essa língua. Mesmo que o reconhecimento automático de fala ou a geração automática de legendas continuassem indisponíveis para o tétum, a simples possibilidade de identificar corretamente os vídeos como estando nesta língua constituiria um importante contributo para a preservação de metadados linguísticos rigorosos e para o desenvolvimento futuro de ferramentas computacionais dirigidas às línguas minoritárias.»


sexta-feira, fevereiro 28, 2025

"O Principezinho" na variedade de tétum falada em Welaluhu (Fatuberliu)

https://publishnl.bookmundo.com/books/415835

Hardcover

“Le Petit Prince”

A new translation, now in the Tetum dialect spoken in:

Uma nova tradução, agora na variedade de tétum falada em:

Tradução foun, agora iha variedade tetun be ema ko’alia iha:

WELALUHU (FATUBERLIU, TIMOR-LESTE)





segunda-feira, fevereiro 17, 2025

Tradução d"The Gift of the Magi" em tétum de Fatumea (Suai)



“The Gift of the Magi”, de O. Henry
Uma nova tradução, agora na variedade de tétum falada em: 
 A new translation, now in the Tetum dialect spoken in: 
 Tradução foun, agora iha variedade tetun ne’ebé ema dale iha:

FATUMEA (SUAI, TIMOR-LESTE)



Tradução d"O Principezinho" em tétum de Fatumea (Suai) - 3.ª edição



Hardcover (3ed)
“Le Petit Prince”
Uma nova tradução, agora na variedade de tétum falada em: 
 A new translation, now in the Tetum dialect spoken in: 
 Tradução foun, agora iha variedade tetun ne’ebé ema dale iha:

FATUMEA (SUAI, TIMOR-LESTE)




 

quarta-feira, dezembro 18, 2024

Nova tradução do "Le Petit Prince"

 Conhece alguém de Suai? Neste Natal ofereça-lhe este livro:

Do you know anyone from Suai? This Christmas, give them this book:
Ita-Boot conhece ema ruma hussi Suai? Iha Natal ida-ne'e, fó livro ne'e ba nia:
Hardcover
“Le Petit Prince”
Tradução foun, agora iha variedade tetun ne’ebé ema dale iha:
Uma nova tradução, agora na variedade de tétum falada em:
A new translation, now in the Tetum dialect spoken in:
FATUMEA (SUAI, TIMOR-LESTE)

quinta-feira, maio 07, 2015

Um comentário sobre a variedade timorense da língua portuguesa

Acabo de ler um texto que falava sobre as possibilidades de desenvolvimento de uma norma própria para a variedade timorense da língua de Luís Cardoso, Jorge Amado e Saramago. Acho que, mesmo nos PALOP, a afirmação de uma norma própria não é tão pacífica como às vezes se pensa... Parece-me que Moçambique é onde foram dados mais passos nessa direção. Há recetividade em relação à incorporação de itens lexicais específicos de cada um dos países, mas muito mais reticências em relação a outros aspetos. Aqui alguns dos traços da variedade timorense do português que eu observava quando cheguei, em 2001, mantém-se. Por exemplo, construções do tipo "Escreve ainda" (transferência do "Hakerek lai") são quase omnipresentes nas várias gerações de falantes, incluindo as crianças, e parece-me que estão cá para ficar. Uma frase como "Deixa ele comer ainda" já me parece menos estável, porque pode ser simplesmente uma realização própria de interlíngua substituída por "Deixa-o comer ainda" quando o falante tiver um domínio melhor da língua. No léxico, palavras como "liurai" estão perfeitamente incorporadas na variedade local do português, mas vejo que há vocábulos do português como "néli" que foram usados - em português - por muitas gerações de timorenses, e que parecem de utilização menos comum pela mocidade; creio que a razão é que os inputs são diversos, e muitos deles vêm de falantes de outras variedades do português (não a variedade timorense). Os bordões linguísticos são uma área particularmente gira. Se prestarem atenção às cachopas e garotos timorenses a falar português vão ouvir coisas como "Foi ele sá!" ou "É este tó!"

terça-feira, abril 21, 2015

O tétum não é um crioulo de base lexical portuguesa

Volta e meia surge um texto de algum estudante das coisas das línguas em Timor a dizer que o tétum é um crioulo de base lexical portuguesa, o que é tão correto como dizer que o inglês é, na verdade, um crioulo de base lexical francesa.



Este livro (“Ordered Profusion – Studies in Dictionaries and the English Lexicon”), por exemplo, diz que no “Shorter Oxford English Dictionary” 28,30% das palavras têm origem no francês antigo, incluindo o anglo-francês, ou no francês; 28,24% são de proveniência latina; e apenas 25% do vocabulário é de origem germânica (juntando aqui também o inglês antigo, o inglês médio, o nórdico antigo e o holandês.

O tétum não é um crioulo de base lexical portuguesa; podemos considerar que o tétum-praça é um crioulo cuja base lexical é o tétum-téric, o português surge só como um superestrato posterior. A zona de Díli era originalmente de língua mambai. É possível que muitos dos cerca de 1200 indivíduos (dos quais 15 eram brancos) que para cá vieram aquando da transferência da capital de Lifau para aqui falassem um crioulo de base lexical portuguesa semelhante ao crioulo de Malaca (ainda conhecido por alguns habitantes do antigo bairro de Bidau na década de 50 do séc. XX), mas não falavam tétum (língua pouco relevante na parte ocidental da ilha). O afluxo de gentes de vários lugares à capital provavelmente levou a que o tétum, que na parte oriental da ilha já funcionava como língua franca entre os vários reinos, se tornasse a língua de Díli. As línguas francas tornam-se muitas vezes o idioma da população do centro urbano mais importante da sua região; veja-se os casos do malaio Betawi que se tornou a língua de Batávia (atual Jacarta), o crioulo malaio em Cupão e o crioulo guineense em Bissau. O uso do tétum como língua segunda por uma grande quantidade de falantes de outros idiomas, com destaque para os mambais, levou a que passasse por um processo de simplificação, a que podemos chamar crioulização, mas continuando a ser de origem tétum boa parte do léxico básico deste tétum-praça. Numa primeira fase absorveu também muitos termos do malaio, língua franca do comércio entre ilhas, depois passou por um processo de relexificação parcial com vocabulário do português (daí que o tétum-praça atual – e não obstante algumas propostas puristas recentes – inclua grande percentagem de léxico de origem portuguesa, não apenas para os registos mais elevados e os domínios mais técnicos, mas também para coisas do dia a dia como a fauna e flora locais, as saudações entre as pessoas e os termos de parentesco). Mas continua a ser suficiente comparar uma lista de Swadesh para o tétum-praça e para um crioulo de base lexical portuguesa para ver as diferenças…


Outra coisa que se lê de vez em quando é que o tétum-praça se chamaria assim por ser a língua do mercado. Devem pensar que estão da praça do peixe de alguma vila piscatória portuguesa… A praça de armas era onde residia o governador e a sua guarnição, era o centro urbano. O tétum-praça era portanto o tétum da cidade (por modesta que fosse a cidade).

segunda-feira, abril 13, 2015

Línguas de ensino

Há dias participei num debate no Facebook com uns colegas da área da linguística e ensino sobre o significado do Artigo 8.º da Lei de Bases da Educação (“Línguas do sistema educativo”), que diz que: ”As línguas de ensino do sistema educativo timorense são o tétum e o português.” Creio que é óbvio para quem saiba ler português que a intenção do legislador era dizer que as escolas do sistema de ensino timorense têm que ensinar os diversos conteúdos (matemática, ciências, etc) nas línguas oficiais, até porque a LBE foi aprovada em 2008 e na legislatura de 2007-2012 o Parlamento Nacional também aprovou a Resolução nº 20/2011. Mas, como houve uma colega que defendeu uma interpretação diferente, a de que a referência a “línguas de ensino” no artigo 8º significa que “no sistema educativo timorense o tétum e o português são disciplinas ou componentes curriculares“, fiz uma pesquisa rápida na Internet para ver com que significado é que a expressão “línguas de ensino” é usada pelos especialistas no ensino de língua segunda e língua estrangeira.
Eis alguns excertos de documentos que encontrei:

Da Professora Doutora Maria José Grosso:
"Os que são oriundos de países africanos e que têm o português como língua segunda, (acepção de língua de ensino com estatuto oficial, ensinada nas escolas e que participa também na socialização da criança e no seu desenvolvimento cognitivo); estudam português por razões académicas ou profissionais (ou os que em idade escolar estão inseridos no Sistema do Ensino em Portugal). http://mha.home.sapo.pt/imagens/t4.pdf

Ainda segundo Maria José Grosso (et al) no QuaREPE:
“Os conceitos de língua materna, língua estrangeira, língua segunda são conceitos polissémicos que não correspondem a uma definição linear. O conceito de Língua Materna apela ao de língua da socialização, que, por definição, transmite à criança a mundividência de uma determinada sociedade, cujo principal transmissor é geralmente a família. O conceito de Língua Estrangeira facilmente se define como a língua que não faz parte dessa socialização primária, estando subjacente uma série de princípios metodológicos. Na tradição da didáctica das línguas, o conceito de Língua Segunda ocorre frequentemente como a língua que, não sendo materna, é oficial (ou tem um estatuto especial) sendo também a língua de ensino e da socialização secundária. Há, no entanto, alguns autores que consideram que é Língua Segunda desde que os aprendentes estejam em imersão linguística, num contexto em contacto com os falantes nativos da língua que aprendem. Cf. Grosso (2005: 608).”

Diz-nos Marie Quinn num texto de 2008 (Choosing Languages for Teaching in Primary School Classrooms):
“In relation to the Portuguese, this position has been further strengthened by the recent educational directive from the MEC. In this, Portuguese is identified to take precedence as the language of education, while Tetum, seen predominantly as an oral language, will serve as an auxiliary language together with mother tongues:

… dado que o Tétum ainda está em processo de desenvolvimento e sendo uma língua predominantemente oral, o Português terá preferência como língua de instrução ou ensino. O Tétum, particularmente, e as demais línguas maternas serão usadas como línguas auxiliares pedagógicas, quando necessário, particularmente nos primeiro anos.

… given that Tetum is still in the process of development and being a predominantly oral language, Portuguese will have preference as a language of instruction or teaching language. Tetum, particularly, and the other maternal languages will be used as auxiliary pedagogical languages, when necessary, particularly in the first years.
MEC 2006“

 Do Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas:
"No exemplo sumário que se apresenta de seguida, que trata daquilo que pode ser pensado pelas opções ou variações de cenário, são delineados dois tipos de organização e de decisões curriculares para um determinado sistema escolar, de forma a incluir, como acima foi sugerido, duas línguas modernas para além da língua de instrução (convencionalmente, mas de forma errada, referida abaixo como língua nativa, uma vez que todos sabem que a língua do ensino, até na Europa, não é, frequentemente, a língua materna dos alunos): uma língua iniciada na escola primária (língua estrangeira 1, daqui por diante LE1), outra no nível secundário inferior (língua estrangeira 2, daqui por diante LE2) e ainda outra (LE3) como disciplina opcional, no ensino secundário de nível mais avançado." 

De Isabel Leiria:
“Não se pense, contudo, que a unanimidade tem sido absoluta entre os africanos (do mesmo modo que não tem sido entre os portugueses), não quanto à opção do português como língua oficial, mas como primeira e única língua de ensino e de alfabetização. (...) Experiências de ensino bilingue têm sido ensaiadas, mas sem grande sucesso. Na Guiné-Bissau, por exemplo, no ano lectivo de 1977/78, com o apoio de Paulo Freire, foram criados Centros de Educação Popular Integrada (CEPI). Foi decidido utilizar "a língua comunitária, o crioulo, como língua de ensino para melhor facilitar a aprendizagem dos conteúdos e a inserção das crianças na escola." Os resultados não foram muito visíveis, porque nas zonas de implantação dos CEPI (manjaca, balanta e bijago) o crioulo não era língua veicular para estas populações, porque se continuava a fazer sentir a influência dos ensinamentos de Amílcar Cabral (a língua oficial é o português) e porque "a população tem uma atitude passiva e às vezes mesmo negativa quanto à introdução do crioulo" (Barreto 2005).”

No documento “Diversidade Linguística na Escola Portuguesa” do ILTEC:
“Por enquanto, em Portugal, todas as aprendizagens (para além das línguas estrangeiras) são feitas em língua portuguesa, mesmo que, através das equivalências, os alunos originários de outros países se possam integrar num qualquer ano do ensino básico sem dominarem, ou dominando mal, a língua de ensino que para eles é língua segunda.”

Portanto, está demonstrado que muitos importantes especialistas usam os termos “língua de ensino” e “língua de instrução” como sinónimos, com o significado de língua em que funciona o sistema educativo. E, de resto, não é apropriado para estudantes destas coisas usar malabarismos terminológicos para tentar convencer os outros das suas opiniões; a pedagogia e a linguística não são como na matemática, em que 2+2 são sempre 4, e basta ler autores como Skinner, Lado, Chomsky, Bley-Vroman, Krashen, Zobl, Schwartz, White, etc, para perceber que há distintas formas de definir os conceitos e muitas teorias diferentes sobre como funciona a aprendizagem da língua segunda (ou aquisição da língua segunda – nem sobre isto os especialistas se entendem).

A política linguística de um país é definida pelos representantes democraticamente eleitos do povo desse país, não por técnicos. O papel dos técnicos é implementar a decisão política. 

sexta-feira, abril 03, 2015

Saber ler é importante, e mais ainda quando se sabe ler numa língua em que há livros...

Quando parecia que as línguas oficiais consagradas na Constituição já não eram motivo de polémica, e que o aparelho do Estado estava mobilizado para a implementação de uma política linguística comum, o recente debate público sobre a introdução das línguas regionais como línguas de instrução no sistema educativo veio dar uma nova visibilidade a algumas vozes que rejeitam o português como língua oficial, com o argumento de que usar o português “é ser colonizado”. Um dos fóruns onde defendem essa posição é o Facebook. Um alucinado qualquer partilhou um “post” meu [https://www.facebook.com/jpesperanca.timor/posts/1039876492706556] num grupo timorense do Facebook chamando-me “fascista” e “colonialista” por causa do que digo sobre a língua de alta cultura.
Respondi-lhe com links para os livros traduzidos para tétum registados no Index Translationum da UNESCO, que são 3:


http://www.unesco.org/xtrans/bsresult.aspx?a=&stxt=&sl=... 

e os traduzidos para português registados na mesma lista, que são 80602:


http://www.unesco.org/xtrans/bsresult.aspx?a=&stxt=&sl=... 

Sei que ambas as listas estão incompletas, mas já dá para ter uma ideia do que eu queria dizer.  :-)

sábado, março 21, 2015

Ainda a polémica das línguas maternas no sistema educativo timorense:



(1) - Deve haver poucos educadores de infância ou professores primários em Timor que não falem tétum (e suponho que seja procedimento padrão no Ministério da Educação não contratar professores que não saibam tétum).


(2) – As crianças, mesmo aquelas que não têm o tétum como uma das suas línguas maternas, tornam-se na maior parte das comunidades rapidamente bilingues assim que entram na escola, de forma natural, ao brincar e conviver no recreio com crianças provenientes de famílias com línguas maternas diversas. O tétum tornou-se língua franca de Timor de forma natural, como uma maneira prática de as comunidades se entenderem, mesmo antes de o tétum ser língua oficial e uma das línguas da escola. Qualquer fataluco ou baiqueno que venha morar para Díli vê os seus filhos (antes monolingues na língua regional) a falar tétum com os vizinhos poucos meses depois de chegarem, de forma natural, sem ser sequer preciso ensiná-los.


(3) – O tétum é em Timor-Leste a língua de unidade nacional, a língua em que toda a gente se pode entender, em que o povo (mesmo as crianças da escola primária) pode ver as notícias na televisão nacional. O português é a língua oficial que dá acesso à alta cultura, ciência, etc (não porque o tétum não pudesse ser língua de ciência, mas porque as condições sócio-económicas e demográficas não o permitem: o mercado leitor timorense é reduzido, os produtores de conhecimento e bens culturais de alta cultura em tétum são muito poucos).


(4) – Uma criança leitora é um professor de si mesmo. Desde que tenha aprendido a ler numa língua em que há livros.


(5) – Uma criança aprende mais facilmente línguas quando é pequenina.


(6) – As pré-escolas e escolas primárias timorenses podem ser facilmente lugares de imersão em tétum, já que todos os professores, e muitos dos alunos, falam esta língua. A questão depois seria planificar o ensino do português, logo desde a chegada à pré-escola, e dar aos professores que ainda não dominam este idioma as aulas planificadas que os ajudem no seu trabalho. Será que se justifica trazer as línguas regionais para a equação?

quinta-feira, maio 02, 2013

Pequenas histórias muito simples para crianças muito pequenas



Nos últimos anos tem aparecido em Timor-Leste uma profusão de materiais básicos escritos em tétum e em várias outras línguas locais, sob a forma de cartilhas ou pequenas histórias muito simples para crianças muito pequenas. A escassez de materiais para crianças maiores deve-se provavelmente ao facto de estes serem mais difíceis de criar. Sejamos sinceros, qualquer pessoa pode tirar meia dúzia de fotografias, ou fazer alguns desenhos, e colocar-lhe umas legendas por baixo, em tétum ou noutra língua, e fica uma cartilha feita. Claro que há uma grande diferença entre uma dessas cartilhas e um manual escolar para a fase de alfabetização concebido com critérios pedagogicamente adequados. Da mesma forma têm aparecido vários livrinhos com histórias simples, normalmente algumas frases acompanhadas por desenhos, que podem ser lidos a crianças até aos 4-5 anos pelos pais ou irmãos mais velhos, e podem ser lidos pelas próprias crianças por volta dos seis anos de idade. São úteis e estão a preencher uma lacuna que existe em Timor-Leste, mas deveriam ser acompanhados de materiais mais ambiciosos para outras faixas etárias.
Um exemplo deste tipo de histórias é o livrinho *“Avoo Leto - Tau foer ba foer fatin”, em que um avô ensina ao neto a importância de não atirar lixo para o chão (o que é um hábito extremamente generalizado em Timor-Leste). Um livro de intenção pedagógica, que cumpre o que se propõe, com uns desenhos bonitos, mas que infelizmente não pode ser distribuído nas escolas devido à quantidade de erros ortográficos que tem.


sábado, abril 13, 2013

A nova literatura de Timor-Leste começa a desabrochar



Durante muitos anos a literatura (não a oratura) de Timor-Leste era essencialmente em português. Desde há alguns anos têm começado a aparecer novas obras e autores que se exprimem em tétum. Quando eu era uma criança, uma professora de português que tive – provavelmente satisfeita pelo facto de já então eu ser um leitor voraz – escreveu num caderno meu a frase “Um país faz-se com homens e com livros.”, de Monteiro Lobato (mas que eu durante anos pensei que fosse de Mário Sacramento, um democrata ilhavense durante a longa noite do fascismo em Portugal). Foi uma frase que me impressionou muito, e que considero ainda hoje um dos meus motes. Timor-Leste é para mim a minha terra adoptiva e creio que ninguém pode negar que o século XX viu nascer neste país homens e mulheres de uma grandeza excepcional, mas em grande medida ainda faltam os livros. Há alguns, com destaque para as obras do Takas (Luís Cardoso), mas sendo escritos em português, que é uma das línguas dos timorenses mas que muitos ainda não dominam, têm uma penetração reduzida na sociedade. O aparecimento recente de uma literatura tetumófona permite-nos ter esperança de que as coisas mudem e que apareça em breve uma geração que lê. E ler em tétum não é nunca um obstáculo a que se venha a ler em português. Ler em tétum na infância pode despertar nos miúdos o bichinho dos livros, e quem fica assim cativado nunca mais vai deixar de querer ler, e quando acabarem de ler os livros em tétum (qualquer leitor pode ler num espaço de tempo relativamente curto TODOS os livros em tétum que existem, infelizmente), e continuarem com ânsia de conhecimento e de emoções, vão ler noutras línguas, começando evidentemente pela portuguesa.
Irei começar a falar aqui de livros com mais frequência, de livros de Timor, livros sobre Timor, e de livros em tétum – originais ou em tradução. Hoje vou começar com uma pequena novela publicada pela ONG Timor Aid em Novembro de 2012 intitulada “Inan ne’ebé iha bosok ualu” [A mãe que disse oito mentiras] do escritor timorense de 17 anos de idade Ariel Mota Alves. A obra obteve um terceiro lugar no concurso literário em tétum organizado anualmente pela Timor Aid e pela Fundação Alola, de que também já cheguei a ser membro do júri. Trata-se de um livrinho com uma história mais ou menos linear, de pendor moralista, mas bastante eficaz na transmissão da sua mensagem. As personagens principais são Bisoi e o seu filho Atoi, e a história gira em torno dos desafios que enfrentam ao longo das respectivas vidas. Mãe e filho são extremamente pobres, mas o sacrifício abnegado da mãe vai criando oportunidades onde elas não existiam para dar uma vida melhor ao seu menino. Este por seu lado vai aceitando e beneficiando com isso, e acrescentando o seu esforço ao da sua progenitora, mas terá que enfrentar também os seus próprios dilemas.
Um livro que, não obstante o enredo pueril, devia ser amplamente lido pelas crianças e jovens timorenses, como uma chamada de atenção para os fazer pensar no que os seus pais muitas vezes fazem por eles, e também como uma homenagem às mulheres deste país. Conheci muitas timorenses com a fibra desta Bisoi ao longo de mais de uma década em Timor. A literatura não tem que tentar mudar o mundo, mas pode tentar mudar o mundo. Esta obra, de um escritor tão jovem, tenta fazer o seu quinhão.


domingo, maio 27, 2012

Uma “cantiga tradicional timorense” vinda da Nova Zelândia


Nestes tempos de invenções de tradições (até já vemos grupos musicais de Kore Metan – um género musical mestiço e urbano, luso-timorense – a actuar vestidos com tais e com belaks pendurados ao pescoço...[1]), é sempre bom recordar que as coisas nem sempre são como se diz...
A tal “cantiga tradicional timorense” a que me refiro no título é uma das minhas canções em tétum preferidas, e chama-se “Ha’u hakerek surat ida”. Foi-me dito há bastante tempo, por timorenses que sabem destas coisas, que a melodia é neozelandesa, e que a letra em tétum seria da autoria do já falecido Sr. Momô dos Mártires. Nunca calhou eu ter tido a oportunidade de verificar isto, mas hei-de tentar confirmar.




P.S. - [1] Para os portugueses que não entendem, isto é mais ou menos o equivalente a pôr o Alfredo Marceneiro a cantar o fado vestido de pauliteiro de Miranda...

sábado, agosto 07, 2010

Livros à vontade do freguês


A primeira vez que entrei no Blurb foi para comprar um livro do Celso Oliveira. Gostei do conceito. Há várias empresas semelhantes na Internet, mas a Blurb é das que fornece um serviço mais simples, prático e barato. Eles disponibilizam software, a pessoa prepara o livro que quer, como quer, no seu próprio computador, e depois carrega o produto final no sítio deles. O livro ficará disponível para quem o quiser comprar, e cada vez que há uma encomenda eles imprimem um exemplar (ou mais, dependendo do que o comprador quer). Cada cópia sai mais cara do que o preço por unidade de um livro impresso numa gráfica, mas é muito útil para quem pretende publicar por exemplo uma monografia sobre marcadores incoativos no macu’a ou macuva (lovaia epulo), ou uma tradução d”Os Maias” para esta língua timorense. Como o número de falantes que resta não chega a meia dúzia, será muito mais adequado imprimir algumas cópias no Blurb do que procurar uma editora que publique uma edição com grande tiragem. A Blurb exige apenas que seja comprada pelo menos uma cópia de cada livro publicado através deles. A pessoa que publica o livro pode escolher deixar o livro à venda pelo preço cobrado pela Blurb ou acrescentar uma margem de lucro para si. Eis a minha primeira experiência, para testar a qualidade do serviço, com dois textos que tinha publicado na Internet há algum tempo sobre o ensino de português em Timor:

quinta-feira, julho 22, 2010

A tradução d”O Principezinho” para tétum – andando devagarinho em direcção a uma fonte?

«Moi, (…), si j’avais cinquante-trois minutes à dépenser, je marcherais tout doucement vers une fontaine…» - diz-nos O Principezinho. Todos temos de vez em quando a sorte de fazer viagens em que a caminhada é tão interessante como o destino. Para mim, a tradução de “Le Petit Prince” para tétum foi uma dessas viagens. Tive a ideia de traduzir este livro logo à chegada a Timor, em 2001. Parecia-me uma tragédia mais na vida dos timorenses que não houvesse livros para ler nas suas línguas, e que melhor maneira de começar a resolver esse problema do que com a bela história de Saint-Exupéry? Comecei então a tradução com a Triana Corte-Real de Oliveira, uma jovem timorense que tinha interrompido os estudos de medicina na Indonésia devido aos acontecimentos de 1999. Entretanto falei com o Rui Correia, Presidente de uma ONGD de que eu era membro há anos, a SUL-Associação de Cooperação para o Desenvolvimento, sobre a possibilidade desta ONGD publicar a tradução em tétum. A reacção dele foi de entusiasmo imediato, “O Principezinho” também tinha tocado a sua vida, como a de tantos nós, e começou imediatamente a procurar apoios. Conseguiu resposta positiva de algumas câmaras municipais em Portugal e da Fundação Mário Soares. Entretanto eu lembrei-me da possibilidade de a SUL procurar estabelecer uma parceria para uma edição conjunta com a Timor Aid, uma ONG timorense que era pioneira na publicação de livros em tétum e que já tinha sua própria rede de distribuição, e, feitos os contactos, a Timor Aid concordou. O Rui Correia contactou a Gallimard, que detém os direitos de autor, e conseguiu obter a autorização para a publicação. O processo sofreu um contratempo com a partida para Yogyakarta, para continuar os estudos para médica, da minha co-tradutora. Os trabalhos ficaram parados durante um tempo, e foram depois retomados com uma nova colega de trabalho, a Emília Almeida de Araújo, que está actualmente a terminar um bacharelato em Informática na Universidade Nacional de Timor Lorosa’e. Foi com ela que consegui terminar a tradução. Durante o labor de tradutores, quer na primeira fase quer na segunda, usámos constantemente o texto original em francês, mas sempre comparando com as soluções de tradução de três versões diferentes publicadas por editoras portuguesas, e às vezes com uma tradução em inglês também. No entanto, mesmo após concluída a tradução, contratempos diversos levaram a que o processo tenha demorado ainda algum tempo a chegar ao seu termo. Devo agradecer também os esforços e perseverança durante anos da Rosália Madeira Soares da Timor Aid. Foi uma caminhada longa, mas valeu a pena. O Liurai-Oan Ki’ik chegou finalmente a Timor-Leste e agora anda por aí. Pode ser que um dia destes o seu caminho se cruze com o do amável leitor…

quarta-feira, junho 30, 2010

O Principezinho, agora em tétum

A minha sobrinha a ler "Liurai-Oan Ki'ik", a edição em tétum d"O Principezinho" recém publicada pela SUL e Timor Aid.

quinta-feira, julho 16, 2009

Após uma década de apoio à reintrodução da língua portuguesa em Timor

Isto são as fotografias das prateleiras de livros sobre línguas numa das principais livrarias da capital timorense. Temos:
- 1 Dicionário de inglês-indonésio
- 1 Dicionário de indonésio-inglês
- 1 Dicionário de sueco-indonésio
- 2 Dicionários distintos de alemão-indonésio,
- 1 Dicionário de indonésio-alemão
- 1 Dicionário de alemão-indonésio e indonésio-alemão
- 1 Dicionário de italiano-indonésio
- 1 Dicionário de tétum-indonésio e indonésio-tétum (publicado pela Gramedia – que é uma livraria/editora do tipo Fnac na Indonésia - de acordo com as normas oficiais em vigor para o tétum)
- 1 Dicionário de coreano-indonésio e indonésio-coreano
- 1 Dicionário de francês-indonésio e indonésio-francês
- 1 Dicionários de francês-indonésio,
- 1 Dicionário de indonésio-espanhol
- 1 Dicionário de espanhol-indonésio
- diversos dicionários indonésios de termos técnicos de biologia, química, física, medicina, economia, sociologia, política moderna, expressões idiomáticas, etc.

Não existem no mercado dicionários de indonésio-português, nem de português-indonésio, nem dicionários de português-tétum, nem dicionários de tétum(contemporâneo e oficial)-português. Após uma década de projectos de apoio à reintrodução da língua portuguesa em Timor, é impressão minha ou falta aqui alguma coisa?