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Um blog em português - e de vez em quando em tétum e em tocodede - sobre os devaneios de um professor e tradutor ilhavense a morar em Timor. Sobre temas timorenses e do Oriente em geral, e sobre outras coisas de vez em quando...
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terça-feira, fevereiro 14, 2017
quinta-feira, maio 07, 2015
Um comentário sobre a variedade timorense da língua portuguesa
Acabo de ler um texto que falava sobre as possibilidades de desenvolvimento de uma norma própria para a variedade timorense da língua de Luís Cardoso, Jorge Amado e Saramago. Acho que, mesmo nos PALOP, a afirmação de uma norma própria não é tão pacífica como às vezes se pensa... Parece-me que Moçambique é onde foram dados mais passos nessa direção. Há recetividade em relação à incorporação de itens lexicais específicos de cada um dos países, mas muito mais reticências em relação a outros aspetos. Aqui alguns dos traços da variedade timorense do português que eu observava quando cheguei, em 2001, mantém-se. Por exemplo, construções do tipo "Escreve ainda" (transferência do "Hakerek lai") são quase omnipresentes nas várias gerações de falantes, incluindo as crianças, e parece-me que estão cá para ficar. Uma frase como "Deixa ele comer ainda" já me parece menos estável, porque pode ser simplesmente uma realização própria de interlíngua substituída por "Deixa-o comer ainda" quando o falante tiver um domínio melhor da língua. No léxico, palavras como "liurai" estão perfeitamente incorporadas na variedade local do português, mas vejo que há vocábulos do português como "néli" que foram usados - em português - por muitas gerações de timorenses, e que parecem de utilização menos comum pela mocidade; creio que a razão é que os inputs são diversos, e muitos deles vêm de falantes de outras variedades do português (não a variedade timorense). Os bordões linguísticos são uma área particularmente gira. Se prestarem atenção às cachopas e garotos timorenses a falar português vão ouvir coisas como "Foi ele sá!" ou "É este tó!"
sábado, março 29, 2008
Je t’aime moi non plus em Timor
Luís CARDOSO – Crónica de uma travessia – A época do ai-dik-funam. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1997, pág. 89
“Recrutavam então valores dispersos pelos aquartelamentos, metropolitanos e nativos, cantadores românticos e imitadores de bandidos, que abandonadas as espingardas, armados de viola e microfone partiam numa caravana, denominada artística, parecida com aquelas do farwest representadas nos livros de sete balas. Era certamente o único momento em que se podiam ouvir canções proibidas de uma tal Zeca Afonso – Grândola, vila morena – cantadas por oficiais estudantes. Viras, corridinhos e António Mafra – eram prà aí sete e picos – por soldados dos ranchos folclóricos da província e gemidos duma mulher imitados por um cantor, bas-fond das discotecas lisboetas, na tal música francesa, Je t’aime moi non plus.”
Luís CARDOSO – The Crossing - A Story of East Timor. London, Granta Books, 2000, p. 84 (Tradução de Margaret Jull Costa)
“Recrutavam então valores dispersos pelos aquartelamentos, metropolitanos e nativos, cantadores românticos e imitadores de bandidos, que abandonadas as espingardas, armados de viola e microfone partiam numa caravana, denominada artística, parecida com aquelas do farwest representadas nos livros de sete balas. Era certamente o único momento em que se podiam ouvir canções proibidas de uma tal Zeca Afonso – Grândola, vila morena – cantadas por oficiais estudantes. Viras, corridinhos e António Mafra – eram prà aí sete e picos – por soldados dos ranchos folclóricos da província e gemidos duma mulher imitados por um cantor, bas-fond das discotecas lisboetas, na tal música francesa, Je t’aime moi non plus.”
Luís CARDOSO – The Crossing - A Story of East Timor. London, Granta Books, 2000, p. 84 (Tradução de Margaret Jull Costa)
«It recruited anyone with talent, whether Portuguese or Timorese (who were occasionally to be found scattered throughout various barracks) – romantic singers and would-be bandits who laid down their rifles and, arming themselves with a guitar and a microphone, set off in a so-called artistic troupe, rather like one of those travelling shows in a pulp western. It was certainly the only time that people would hear banned songs by the likes of Zeca Afonso (Grândola, vila morena) sung by student officers, or popular songs and dance tunes and António Mafra (…eram prà aí sete e picos) sung by soldiers from provincial folk clubs, and a woman’s orgasmic moans imitated by a male singer, a frequenter of Lisbon discotheques, in a rendition of Je t’aime moi non plus.»
Luís CARDOSO – Une île au loin. Paris, Éditions Métailiè, 2000, p. 84 (Tradução de Jacques Parsi)
“Ils recrutaient alors des gens de valeur, dispersés dans les casernements, métropolitains ou indigènes, chanteurs romantiques et copies de bandits qui, ayant abandonné le fusil, armés de guitare et de micro, partaient dans une caravane, appelée artistique, semblable à celle du Far West qu’on voyait dans le livre à deux sous. C’était sûrement le seul moment où l’on pouvait entendre les chansons interdites d’un certain Zeca Afonso – Grândola, vila morena – chantées par des officiers étudiants. Des viras, des corridinhos, et António Mafra – eram prà aí sete e picos, «Ils étaient à peu prés sept et quelques» - par des soldats des groupes folkloriques de la province et les gémissements d’une femme imités par un chanteur basfond des boîtes de nuit de Lisbonne, dans la fameuse chanson française Je t’aime moi non plus.”
Luís CARDOSO – Crónica de uma travessia – A época do ai-dik-funam. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1997, pág. 91-92
“O meu irmão Toni já falava bem inglês praticado em tarefas de voluntariosos e esforçado guia turístico. Formava uma dupla com Carlos Campara e ambos prometiam enquadrar-me no solícito feudo dos prazeres mundanos. Dizia um que a aprendizagem de qualquer língua partia sempre com rituais iniciáticos de actividades corporais. O outro complementava que gostava mais de falar com as camonas numa língua estrangeira como a francesa, E dizia je t’aime moi non plus, ficava por aí, com os olhos fechados. Depois concluía que o resto era latim, como quando os padres diziam a missa.”
Luís CARDOSO – The Crossing - A Story of East Timor. London, Granta Books, 2000, p. 87 (Tradução de Margaret Jull Costa)
«My brother Toni already spoke good English, acquired in his work as a headstrong, enthusiastic tour guide. He formed a duo with Carlos Campara and both promised to introduce me to the sweet domain of worldly pleasures. According to one, learning a language always began with initiation rites involving certain physical activities. The other added that he found it more enjoyable talking to women in a foreign language like French. He would say to me, ‘Je t’aime moi non plus,’ and then stop, his eyes closed. The rest, he concluded, was just Latin, like when the priests said mass.»
Luís CARDOSO – Une île au loin. Paris, Éditions Métailiè, 2000, p. 86-87 (Tradução de Jacques Parsi)
“Mon frère Toni parlait déjà bien l’anglais, qu’il pratiquait dans son travail de vaillant guide touristique volontaire. Il formait un tandem avec Carlos Campara et tous deux promettaient de m’encadrer dans le monde désirable des plaisirs du monde. L’un disait que l’apprentissage de n’importe quelle langue débutait toujours par des rituels initiatiques d’activités corporelles. L’autre ajoutait qu’il aimait mieux parler avec les nénettes australiennes dans une langue étrangère comme le français. Il disait je t’aime moi non plus et, les yeux fermés, n’allait pas plus loin. Puis il concluait que le reste était du latin comme lorsque les prêtres disaient la messe.”
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sexta-feira, março 28, 2008
Jacarandá em Lisboa
"Nas ruas de Lisboa, os jacarandás floriam como se a natureza não perdesse nunca a memória das cores. Como archotes, velavam pelo canto dos loricos, cacoaques e outros pássaros feridos, na época de ai-dik-funam."
Luís CARDOSO in "Crónica de uma travessia - A época do ai-dik-funam"
Luís CARDOSO in "Crónica de uma travessia - A época do ai-dik-funam"
Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1997
"In the streets of Lisbon, the jacaranda trees were blooming as if nature had never lost its memory for colours. Like flaming torches, they kept vigil over the songs of the lorikeets, the cacoaques and all the other wounded birds, in the season when the coral tree flowers."
Luís CARDOSO in "The Crossing - A Story of East Timor"
London, Granta Books, 2000 (Tradução de Margaret Jull Costa)
Luís CARDOSO in "The Crossing - A Story of East Timor"
London, Granta Books, 2000 (Tradução de Margaret Jull Costa)
"Dans les rues de Lisbonne, les jacarandas étaient en fleurs comme si la nature ne perdait jamais le souvenir des couleurs. Comme des torches, ils veillaient sur le chant des oiseaux de paradis, les loricos, les cacoaques et autres oiseaux blessés, à l'époque de l'ai-dik-funam."
Luís CARDOSO in "Une île au loin"
Paris, Éditions Métailiè, 2000 (Tradução de Jacques Parsi)
Luís CARDOSO in "Une île au loin"
Paris, Éditions Métailiè, 2000 (Tradução de Jacques Parsi)

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sexta-feira, novembro 30, 2007
Non ho l'età
Luís CARDOSO, – Crónica de uma travessia – A época do ai-dik-funam. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1997, pág. 57

"Semanalmente, interrompia o estudo, vinha com um gramofone e muitos discos de música clássica e de poesia de Fernando Pessoa dita por João Villaret, entusiasmando-me a declamar poemas, imitando a sua voz grossa e quente: «O Menino da Sua Mãe». E como não podia deixar de ser, alguns fados, viras e corridinhos terminando naturalmente com algumas canções da Eurovisão. Mas era a belíssima canção Non ho l'età, cantada por uma italiana, que eu imaginava ser também bela como a Nossa Senhora, que nos partia os corações com aquela voz melodiosa. E o padre Júlio confirmava que sim: Non ho l'età!"
Luís CARDOSO – Une île au loin. Paris, Éditions Métailiè, 2000, p. 54-55 (Tradução de Jacques Parsi)

"Chaque semaine, il interrompait l'étude, venait avec un gramophone et beaucoup de disques de musique classique et de poésies de Fernando Pessoa dites par João Villaret, ce qui provoquait mon enthousiasme au point de déclamer des poèmes en imitant sa grosse voix chaude: «L'Enfant de sa mère». Et, comme il fallait s'y attendre, des fados, des viras et des corridinhos, avec naturellement pour finir quelques chansons de l'Eurovision. Mais c'était la très belle chanson Non ho l'étà, chantée par une Italienne, que j'imaginais belle comme la Vierge Marie, qui nous brisait le coeur avec sa voix mélodieuse. Et le père Júlio nous confirmait que oui: Non ho l'età!
Luís CARDOSO – The Crossing - A Story of East Timor. London, Granta Books, 2000, p. 49-50 (Tradução de Margaret Jull Costa)

«Every week, he would bring his gramophone along and interrupt our studies with records of classical music and the poetry of Fernando Pessoa read by João Villaret, inspiring me to declaim poems too, imitating his warm, full voice: O menino da sua mãe, 'His mother's little boy'. And there were the inevitable fados and traditional dance tunes, followed, naturally enough, by songs from the Eurovision song contest. But most wonderful of all was Non ho l'età sung by a young Italian woman, whom I imagined to be as beautiful as Our Lady, and who broke our hearts with her sweet voice. And Father Júlio agreed: Non ho l'età - 'I'm too young for love!'»
Luís CARDOSO – Un’isola, lontano. In viaggio a Timor Est. Milano, Feltrinelli, 2002, p. 40 (Tradução de Pietro Scòzzari)
"Una volta alla settimana interrompeva lo studio e arrivava in classe con un grammofono e molti dischi di musica classica, oltre a quelli che recavano incise le poesie di Fernando Pessoa recitate da João Villaret. Tutto ciò mi entusiasmava tanto da arrivare a declamare, io stesso, imitando la sua voce profonda e calda: “O Menino da Sua Mãe”. E poi non potevano mancare alcuni fados, viras e corridinho, per terminare, naturalmente, con qualche canzone dell’Eurovision. Ma era la bellissima canzone Non ho l'étà, cantata da un’italiena che immaginavo bella come la Madonna, che ci trafiggeva il cuore con quella voce melodiosa. E padre Giulio confermava: Non ho l'età!
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