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quarta-feira, janeiro 16, 2008

Algumas bocas e muitas línguas

Só falo português com o meu filho de quatro meses. Canto-lhe desde o primeiro dia a Canção de Embalar do José Afonso para o adormecer (que ele reconhece perfeitamente) e ando-lhe a ler o Romance da Raposa, de Aquilino Ribeiro. Ele gosta muito, provavelmente do som da voz acompanhado de sorrisos e contacto visual, já que as aventuras da raposa matreira, fagueira e lambisqueira ainda estão, por enquanto, para além da sua compreensão. A minha esposa, por outro lado, só fala tétum com ele. Eu e ela conversamos sempre em tétum um com o outro, mas usamos português com os meus pais que moram aqui ao lado. O nosso filho será bilingue. Aqui é uma coisa rara, em Timor é o que acontece com quase toda a gente. A minha mulher falava habitualmente tétum em casa, tocodede com parte dos tios e vizinhos em Liquiçá, e indonésio em todo o percurso escolar até ao fim da escola secundária. Quando foi para Díli para a Universidade passou a estudar em português e morou durante três anos em casa de tios de etnia chinesa, do lado materno, falantes de hakka. Ela sabe apenas algumas frases básicas nesta língua, mas temos esperança de voltar brevemente para Timor e dar oportunidade ao nosso bebé de contactar diariamente com as primas chinesas, acrescentando assim mais um idioma aos que ele dominará desde tenra idade.

Há aldeias timorenses que ficam em zonas de fronteira entre várias línguas diferentes e onde é comum toda a gente ser plurilingue. Porém, não é a mesma coisa ser multilingue em tétum, búnac e quêmac, ou em português, alemão e francês. Não há Aquilinos nem Goethes nem Zolas em línguas timorenses. Por enquanto. Isto significa que ao encetar a aprendizagem de um novo idioma com uma grande tradição literária e científica o aprendente inicia uma caminhada que o pode levar muito longe no conhecimento das realizações do espírito humano, mas quando se propõe aprender uma língua quase ágrafa o seu percurso será necessariamente diferente e serão outras as tradições que poderá ter esperança de vislumbrar. Os plurilingues timorenses falam maioritariamente idiomas que abrem portas internas dentro da sua ilha, mas que não constituem janelas para o mundo, nem sequer para a sua própria história. Daí que o português seja tão importante.

Na imaginação popular os bilingues são umas criaturas esquisitas, uma espécie de bicéfalos, com dois cérebros monolingues perfeitos independentes no mesmo corpo. Os textos clássicos falam sobre estratégias para conseguir isto, a mais famosa das quais é ter pessoas distintas a falar sistematicamente línguas diferentes para a criancinha na fase de aquisição da linguagem, como acontece com o meu filho – chama-se a isto o princípio de Grammont. Na verdade, a investigação mais recente sobre bilinguismo já se apercebeu de algo que as pessoas das comunidades bilingues sabem há muito tempo: os indivíduos bilingues não são uma fusão de dois monolingues num só, e misturam línguas, saltam de um idioma para outro no meio de uma conversa, e fazem tudo isto de acordo com regras definidas de forma bem rigorosa. Contudo, apesar de não corresponderem às expectativas irrealistas do povo, os bilingues precoces têm vantagens significativas na sua condição de co-proprietários de várias línguas: conseguem falar com mais gente e com grupos diversos; experimentam naturalmente a sensação de pertença a diferentes culturas; têm pronúncias nativas em mais do que uma língua, e, tendo à partida maiores probabilidades de ter uma soma mais abrangente de sons no conjunto dos seus sistemas fonológicos, terão maior facilidade em aprender a pronunciar correctamente novos idiomas; têm acesso à literatura ou outras realizações culturais associadas a cada uma das línguas que conhecem.

Na Europa cada vez mais se valoriza o conhecimento de muitas línguas, há quem defenda que todos os cidadãos europeus deveriam conhecer pelo menos mais duas, além da materna. Mas saber línguas também já não é o que era, hoje em dia é valorizado o conhecimento em função das necessidades. Já passou o tempo em que se esperava que todos os alunos de uma língua estrangeira aprendessem a ler os grandes escritores. Agora fala-se cada vez mais em ensino-aprendizagem centrado no aprendente e por objectivos específicos. E também há muito que deixou de haver a insistência nas supostas grandes virtudes pedagógicas da aprendizagem de línguas mortas como o latim e o grego antigo (mortas porque já não há quem as aprenda num processo normal de imersão na família na fase de aquisição da linguagem, apesar de o latim continuar a ser cultivado no Vaticano, onde até se criam neologismos).

E de vez em quando usam-se línguas vivas para falar com os mortos. Na casa dos meus sogros toda a gente sabe tocodede, mas a língua habitual quotidiana é o tétum, e é neste idioma que falam comigo. Mas quando fui levado à uma-lulik da família para ser apresentado como mane-foun aos espíritos dos antepassados, foi em tocodede que o meu sogro se lhes dirigiu. Às vezes a tradição ainda é o que era.

domingo, novembro 26, 2006

Um excelente livro sobre Timor

I don’t want them forgotten: Rosa, Osvaldo, Raoul, Maria, Martinho, Arsenio. It would be easy to say in the glib way of those who can lead uninterrupted lives in placid places that such oblivion would be a fate worse that death. No fate is worse than death.

[Timothy Mo – The redundancy of courage. London, Paddleless Press, 2002, p. 7 (1st ed: Chatto and Windus 1991)]

Não quero que eles sejam esquecidos: Rosa, Osvaldo, Raul, Maria, Martinho, Arsénio. Seria fácil dizer da forma superficial daqueles que podem levar vidas ininterruptas em lugares plácidos que tal esquecimento seria um destino pior que a morte. Nenhum destino é pior que a morte.

[Timothy Mo – A redundância da coragem. Lisboa, Puma Editora, 1992, p. 9]


Ha’u lakohi ema haluha sira: Rosa, Osvaldo, Raul, Maria, Martinho, Arsénio. Sei fasil atu dehan, ho jeitu laseriu hanesan ema ne’ebé hala’o sira-nia moris ho kalma no dame iha fatin hakmatek, katak haluha sira hanesan ne’e sei sai destinu aat liu duké mate. La iha destinu aat liu duké mate.

[Timothy Mo – The redundancy of courage. London, Paddleless Press, 2002, p. 7 – tradusaun ba tetun husi JP Esperança ho Fernanda Correia]


A bra’is atu bligu ro’o: Rosa, Osvaldo, Raul, Maria, Martinho, Arsénio. Heki fasil odi dale, los jeitu tetseriu megees atu mane punsole ro’o-si’i mori los kalma los dame her hati tenega, ke bligu ro’o megees kede’e heki sai destinu klao desi duké mate. Tet dia destinu klao desi duké mate.

[Timothy Mo – The redundancy of courage. London, Paddleless Press, 2002, p. 7 – tradusaun la tokodede pe JP Esperança los Fernanda Correia]



There’s no such thing as a hero – only ordinary people asked extraordinary things in terrible circumstances, and delivering.

[Timothy Mo – The redundancy of courage. London, Paddleless Press, 2002, p. 448 (1st ed: Chatto and Windus 1991)]


Não há uma coisa a que se chama herói – apenas pessoas vulgares pediam coisas extraordinárias em circunstâncias terríveis – e entrega.

[Timothy Mo – A redundância da coragem. Lisboa, Puma Editora, 1992, p. 543]


Os heróis não existem – apenas pessoas vulgares a quem são pedidas coisas extraordinárias em circunstâncias terríveis, e que as fazem.

[Timothy Mo – The redundancy of courage. London, Paddleless Press, 2002, p. 448 – a tradução para português é minha]

Buat ida naran erói la eziste – iha de’it ema baibain ne’ebé tenke halo buat estraordináriu iha situasaun aat tebetebes, maibé konsege halo duni.

[Timothy Mo – The redundancy of courage. London, Paddleless Press, 2002, p. 448 – tradusaun ba tetun husi JP Esperança ho Fernanda Correia]


Lapar iso gala erói tet eziste – dia mesa atu normál mane tenke punu lapar estraordináriu her situasaun klao lobaloba, mas konsege punu riko.
[Timothy Mo – The redundancy of courage. London, Paddleless Press, 2002, p. 448 – tradusaun la tokodede pe JP Esperança los Fernanda Correia]

domingo, fevereiro 05, 2006

Peneer meselo laa Literatura kidia-laa Timór


Este texto em tocodede foi publicado no “Várzea de Letras”, edição de Dezembro de 2005.


Este é possivelmente o primeiro texto publicado em tocodede na história desta língua, que se fala em Liquiçá e Maubara, e a ortografia usada é, naturamente, ainda provisória. Num pequeno manual sobre este idioma, a publicar no futuro próximo, pensamos poder desenvolver mais a nossa reflexão sobre esta questão. A tradução que agora publicamos baseia-se no dialecto desta língua falado na vila de Liquiçá.

Iso-kede’e kal testu iso-muno mane publika los bo’ahuu tokodede pesa-muno rata agora. Atu bo’a tokodede her Likisá los Maubara, maibé her tradusaun mane kami publika tilu kami dara dialetu vila Likisá ni’i pe bo’ahuu kede’e. Ortografia mane kami uza heki provizóriu, i kami nurat ke kami heki lebo dezenvolve pita kami-ni’i reflesaun kidia-laa asuntu iso-kede’e her manuál bruma mane kami heki publika daramai.


Peneer meselo laa Literatura kidia-laa Timór

Testu pe João Paulo T. Esperança, tradusaun laa bo’a-huu tokodede pe João Paulo T. Esperança, Fernanda Alves Correia i Cesaltina Campos

Versaun orijinál los bo’ahuu-portugés publika bali sé los parte ru her
Várzea de Letras, Suplemento Literário mensal do jornal Semanário, nº 3 [4] e nº 4 [5], Junho e Julho de 2004
tradusaun laa tetun pe João Paulo T. Esperança, Clara Viegas da Silva, Icha Bossa i Irta Araújo; Publika bali sé her Várzea de Letras, Suplemento Literário mensal do jornal Semanário, nº 8, Setembro de 2004
Versaun orijinál publika mós her Portugál her:
Esperança, João Paulo T. - Um brevíssimo olhar sobre a Literatura de Timor, in: «Mealibra – Revista de Cultura», Viana do Castelo (Portugal), Centro Cultural do Alto Minho, série 3 (16), Verão 2005, p. 131-134
Versaun ru (portugés i tetun) inklui mós her koletánea:
O que é a lusofonia/ Saida maka luzofonia / J. P. Esperança et al . – Díli: Instituto Camões, 2005 . – VIII+163 p. [koletánea bilinge – portugés i tetun – los testu oeoe]

Texto de João Paulo T. Esperança, traduzido para tocodede por João Paulo T. Esperança, Fernanda Alves Correia e Cesaltina Campos

O texto original em português foi publicado em duas partes no
Várzea de Letras, Suplemento Literário mensal do jornal Semanário, nº 3 [4] e nº 4 [5], Junho e Julho de 2004
A versão em tétum foi publicada no Várzea de Letras, Suplemento Literário mensal do jornal Semanário, nº 8, Setembro de 2004
A versão original foi também publicada em Portugal em:
Esperança, João Paulo T. - Um brevíssimo olhar sobre a Literatura de Timor, in: «Mealibra – Revista de Cultura», Viana do Castelo (Portugal), Centro Cultural do Alto Minho, série 3 (16), Verão 2005, p. 131-134
Ambas as versões (port. e tétum) foram incluídas na colectânea:
O que é a lusofonia/ Saida maka luzofonia / J. P. Esperança et al . – Díli: Instituto Camões, 2005 . – VIII+163 p. [colectânea bilingue – português e tétum – de textos vários]


Molok lapar selo, kami heki esplika pita-heta ke kami dima literatura “kidia-laa Timór” i teloos literatura “Timór ni’i”? Kede’e pita kami teloos bo’a mesa kidia-laa kerodór timorana, maibé heki inklui informasaun seri pe lapar seri-mane ke dia leti lee pe malae ro’o mane bua Timór megees asuntu literáriu. Kami heki tet estuda her-kede’e kidia-laa rekolla literatura orál los tradisionál, asuntu iso-kede’e kami heki lui laa oportunidade selo. Maski megees kede’e, kami manara dima ke rekolla tetdún nour pe ro’o-mane atu punu bali sé ke merese klasifikasaun iso-kede’e. Rekolla mane punu dara kritériu siénsia ni’i dia prinsípiu báziku dale “testu” iso sempre dia versaun nour, i versaun iso-iso heki eto rejistu mane loba i dara riko heta ke informante ro’o dale. Dara lobaloba tenke dia rejistu los ni’i bo’a-huu orijinál. Daramai ke lebo punu análize mane loba. Livru iso mane kuaze dara métodu iso-kede’e ke Textos em Teto da Literatura Oral Timorense, mane publika her 1961 pe Amu-Luli Artur Basílio de Sá (1), maski mestre-eskola Paulo Quintão los Marçal Andrade kero i punu testu sonotor los tetun-terik luhuir ro’o-ni’i. Kami mós heki dima kompilasaun (tet dia aparatu krítiku) The book of the Story Teller (2), mane sai her Austrália her 1995, i só ni’i títulu los prefásiu mesa ke kero los inglés, i istória ro’o kero nahati los tetun i tet tuli bo’a-huu los espresaun oeoe mane ibo-lama ro’o uza aipíl ro’o konta istória. Nourdesi pe “koletánea” ro’o selo pe arte verbál timorana ro’o-si’i afinál likis laa testu maizomenus literáriu mane, maski ni’i ramut her tradisaun, sai sé lapar heu iso, rekriasaun her tuku-huu selo.
Molok portugés ro’o rata mai Timór, aipíl sékulu XVI komesa, povu ro’o selo mai sé vizita kiti-ni’i tasi-ibo odi ala kai-kameli, desidesi atu-Xina, atu-malaiu los atu-Java. Pita povu ro’o Timór ni’i her tempu kono’o tet pana’a kero heki, malae ro’o-kede’e ke komesa kero apontamentu seri kidia-laa raesoro kede’e los atu rai-ubo. Maibé portugés ro’o ke komesa peni dinia her-kede’e, desidesi amu-luli katóliku ro’o, sékulu seri molok okupasaun koloniál lobaloba tama her rae iso-kede’e. Helehele tere monografia, livru-memórias, disionáriu, livru los orasaun her bo’a-huu oeoe Timór ni’i, pe kerodór megees amu-luli, militár, administradór, atu sole-rae i deportadu ro’o. Iso mane famozu desi ke A ilha Verde e Vermelha de Timor, pe Alberto Osório de Castro, mane publika primeira vés her revista Seara Nova, her hula-Juñu 1928 los hula-Juñu 1929, i depois, megees livru, pe Agência Geral das Colónias, her 1943. Heni tilutilu publika hali pe Livros Cotovia (3). Kede’e livru kidia-laa viajen, tet megees baibain, kero los proza poétika, benu los informasaun nour kidia-laa raesoro kede’e, ni’i hoho-los-rae los ni’i atu ro’o. Livru bruma pe Paulo Braga, A Ilha dos Homens Nus (4), peri kiti-ni’i atensaun pita kerodór matani Ataúru peneer (rekria?) pe u-ni’i mat idealista: sosiedade tradisionál libertária iso, tet dia esplorasaun pe atu laa atu, mane atu punu mesa “domin-livre”. Tempu kolonializmu ni’i punu tere mós fiksaun oe iso mane agora kede’e tilu kiti posi gala “literatura koloniál”, mane dara definisaun klásika pe Pires Laranjeira ke iso-mane “kero i publika, kuaze ma’omege, pe portugés ro’o mane glelu hali laa Portugál, uza pontudevista pe ezotizmu, evazionizmu, luiduu rasa ro’o selo (megees atu-meta), ne-apoiu laa ideia los prátika kolonialista, mane peneer laa mundu i laa situasaun oeoe darapé malae-buti ro’o-si mat, los personajen importante desi mós malae-buti ma’o, seri kolonu seri atu sole-rae, los, aipíl atu-meta tama her istória, narradór peneer meselo laa ro’o, matani ro’o megees lapar iso estrañu, folklóriku, hui, i tet konsidera ro’o megees atu los kultura riko, los ro’o-si psikolojia, sentimentus i gunutar” (5). Her Timór, reprezentante bloi iso pe jéneru iso-kede’e ke Caiúru, pe Grácio Ribeiro (6). Novela los estilu autobiográfiku, konta aventura oeoe pe joven komunista iso mane eto deportasaun mai Timór pita punu atividade polítika saka rejime faxista her Portugál, mane her-kede’e punsole istória-domin iso los u-ni’i nona gala Caiúru. Maski u matani simpatia laa atu mane eto kondenasaun laa serbisu rihu i laa revoltozu ro’o pe Manufahi, i u sente orgullu pita u tet bonu u-ni’i ausiliár ro’o, tet megees u-ni’i kamarada ro’o mane sep bonu kriadu, maibé u-ni’i situasaun bloi desi megees atu-buti punu u bligu u-ni’i ideolojia polítika, i u mós komesa punu megees atu-a’e iso mane lebo deside kidia-laa atu bruma rai-ubu ro’o-si vida. Livru iso-kede’e dokumentu sosiolójiku interesante loba, mane matani aspetu oeoe pe sosiedade her tempu kono’o, porezemplu pelheta ke u ala nona iso – mane u-ni’i tunugu baratu desi duké kuda iso mane u mós ala. Nona ro’o sai megees asuntu mane tere molumolu her literatura kero pe atu-metrópole ro’o, kal pita nona ro’o megees parte pe sosiedade her-kede’e mane ro’o segi desi, i hine-losa seri-kede’e sai megees janela laa mundu Timór ni’i laa ro’o-si “meki-mane” malae. Grácio Ribeiro heki kero pita kidia-laa deportadu ro’o-si mori her romanse iso mane u heki publika depois (7).
Tama sé laa korrente literatura pós-koloniál, los krítika huru laa kolonializmu ni punhuu kalao, kami dima Corpo colonial (8), “romanse femininu loba, mane konta daa Alitia ni’i, alferes milisianu ni’i hee mane dara u-ni’i mekei-mane mai Timór, kolónia mane kroo rata atu nour bligu bali, hati mane hunu koloniál tet rata i militár ro’o-si’i inimigu a’e ke tédiu mesa (signifika ro’o somoli pita ro’o tet dia lapar iso odi punu i ro’o-ni’i mori aer-aer ni’i tet rame). Kiti lebo dale kede’e livru iso susar par lee, mane interrompe molumolu ni istória los monólogu filozófiku manaru ka diálogu mane tet megees realidade kidia-laa kestaun ezistensiál oeoe, maibé matani mós quadru interesante iso kidia-laa tropa ro’o-si’i hee mane peni her raesoro kede’e her Ázia los Oseania ni’i talaa i mós kidia-laa kondisaun hine ni’i. Kede’e mós romanse iso kidia-laa tuli esperansa, traisaun los mori mane tet kontente i tet kompletu.”(9) U-ni’i istória bo’a kidia-laa pel-heta ke protagonista sai segi laa Manucodiata, hine-losa prostituta timorana mane Alitia ni’i mekei-mane laa molumolu los u, i livru kede’e mós matani situasaun heu iso her relasaun pe metropolitanu ro’o los hine seri her-kede’e: “Muno, malae-buti ro’o nee barlake odi ala nona ro’o. Depoizde tropa ro’o mai ro’o nee mesa osa odi suri lapeta” (Ruas, 1981:16). Livru iso mane kontráriu loba laa literatura koloniál ke Uma deusa no “inferno” de Timor, pe Francisco A. Gomes (10). Livru iso-kede’e tama laa estilu iso mane kiti lebo posi gala “literatura arrependimentu ni’i”, leti mesa odi punduu lapar ma’omege mane Portugál ni’i i dia mós personajen timorana nour (desidesi hine) revolusionáriu los atu nour ke dara ro’o, maibé anakróniku (signifika tet dara realidade loba tempu kono’o ni’i), u naa inventa i tet peneer laa situasaun istórika i sosiál lobaloba her tempu mane u-ni’i asaun sole. Hali glelu hali laa asuntu muno, kiti eto A nona do Pinto Brás (Novela Timorense) (11). Kede’e novela bruma iso mane punsole ni’i istória her too seri lemori molok administrasaun koloniál portugés ma’o, mane ni’i kerodór matani koñesimentu lobaloba kidia-laa kultura los Istória Timór ni’i, maski her istória kede’e kiti kuaze eto mesa pontudevista pe tropa ro’o kidia-laa heta ke akontese – kiti tet dun biban odi pana’a lapar iso kidia-laa Joaquina Mêtan seni-loba, pelmane ke u peneer laa mundu kede’e, u-ni’i sentimentus ka relasaun sosiál ro’o; kiti koñese mesa u-ni’i mori megees malae ni nona iso. Filipe Ferreira ke asina livru kede’e, maibé estilu kero ni’i punu kami nee-sai ipóteze dale kede’e gala-literáriu mane Istoriadór Luís Filipe F. R. Thomaz loi. Istoriadór kede’e famozu i atu-pana’a kidia-laa Istória Timór ni’i los prezensa portugés ro’o-si’i her Ázia.
Daramai kiti kitiku tama laa mundu poezia ni’i, agora pe kerodór timorana ro’o. Pe ro’o-kede’e iso mane lebo importante desi ke Fernando Sylvan. Kede’e gala literáriu pe Abílio Leopoldo Motta-Ferreira. Maski u laa peni dinia her Portugál aipíl heki anrana, u-ni’i lara nunka sai kroo pe u-ni’i rae-ina, mane sai molumolu asuntu laa u-ni’i poezia, putu los tema universál desi megees bua-sa’e domin ka hine iso-mane u hadomi. Intelektuál tunuu, durante too nour u sai Prezidente Sociedade da Língua Portuguesa ni’i. U-ni’i knaar poétiku kuaze ma’o-mege posi putu her livru A Voz Fagueira de Oan Tímor (12). U mate her aer-Natál her too 1993. Daramai dia testu bruma iso, mane Luís Cardoso (“Takas”) publika her momentu kono’o her Kaibauk – Boletim de Informação Timorense (13):
“Fernando Sylvan
ka Bo’a-huu Monok ro’o

Lema’o
(maibé só lema’o)
manu-am ro’o
heki luta tet los lapar-hati

Kede’e poema mane u dedika laa Xanana Gusmão. Fernando Sylvan poeta iso mane sente dale u tenke nee-sai riko bo’a-huu, maibé só bo’a-huu ro’o mane presiza. Pita silénsiu tet signifika tet dia bo’a-huu ka bo’a-huu ma’o. Maibé, her aer-25 hula-Dezembru, aipíl atu ma’o-mege leti bo’a-huu oeoe odi mese’e Anana ni’i Mori, Fernando Sylvan tenega bali. I u-ni’i isi-lolo bruma huku los silénsiu rihu mane, dala iso-kede’e, rihu megees bo’a-huu ro’o ma’o-mege putu.
Peni her keha, dezde tempu u heki anrana i depoizde dékada nour mane u kroo pe u-ni’i raesoro doben, punu u riko punu-bri los bo’a-huu raesoro seri mane pnitir tasi-a’e tenega los terus ni’i. U estuda tuku-huu portugés i uza u-ni’i kero megees “ai-suak (14)” odi keke manaru rata bo’a-huu ni’i nuba odi leti heta-iso ke punu-putu tuku-huu ma’o-mege, inklui mós tuku-huu pe u-ni’i tempu u heki kamasi.
Leemori, her aer laa mori ma’o-mege, Fernando Sylvan posi u-ni’i an blasi laa limu pe tuku-huu ro’o ma’o ni’i ina: tenega ka bo’a-huu monok.”
Sylvan inklui mós her koletánea pe poeta timorana ro’o Enterrem meu coração no Ramelau (15), mane publika her Luanda pe União de Escritores Angolanos, putu los José Alexandre Gusmão, Jorge Lautén, los ro’o seri pita mane kero tet dun sonotor, i tempu punu kiti bligu ro’o-si’i gala. Kazu ru her poezia Timór ni’i mane reprezenta loba literatura mane tama laa ideolojia polítika seri ni’i lara ke Borja da Costa (inklui mós her koletánea UEA ni’i), her “toki” revolusionária, i mós Jorge Barros Duarte (16), her “kmoo” reasionária. Kami dima bali sé José Alexandre Gusmão, mane atu koñese desi los gala Xanana, agora kede’e tilutilu Prezidente Repúblika ni’i, publika her 1998 Mar Meu – Poemas e pinturas (17), mane kero aipíl u dadur. Kerodór pe Mosambike Mia Couto dale her prefásiu: I her página seri-kede’e a konfirma: darapé mane iso u-ni’i limu ke kero Timór. Livru iso Xanana Gusmão ni’i tet megees livru baibain. Darapé u-ni’i letra kiti sente dale povu iso ketemo, nasaun iso, ke bo’a. Her-kono’o tetloos poezia mesa maibé di’a mós epopeia povu iso ni’i, eroízmu mane kiti manara ala hati, utopia mane kiti manara leti sai kiti-ni’i. (18) Edisaun iso-muno kede’e publika los bo’a-huu ru, los tradusaun laa bo’a-huu inglés pe Kirsty Sword i Ana Luísa Amaral; depois tere edisaun heu iso, mós los bo’a-huu ru, los tulun pe Instituto Camões, mane Luís Costa ke tradús laa tetun. João Aparício mós gala iso mane kiti tet lebo bligu, los livru-poezia ru mane publika bali sé pe Editorial Caminho, À janela de Timor (19) i Uma casa e duas vacas. Iso pita, los pseudónimu Kay Shaly Rakmabean, publika pe Real Associação de Braga, los títulu Versos do Oprimido (20). Lema’o masakre her Santa Krús, Abé Barreto aproveita u-ni’i prezensa her Kanadá los programa troka-ro’o laa estudante universitáriu ro’o, i u tugu azilu polítiku, depois u sai kantór-intervensaun putu los ativista kanadianu Aloz MacDonald. Abé publika her Olanda her 1995 Menari Mengelilingi Planet Bumi (Dansa legur Planeta Terra), poezia loa bo’ahuu-indonézia, i her 1996, her Austrália, Come with me singing in a choir (Mai los a kanta her koru iso). Dia mós kerodór losa timorana selo pita mane nee-sai ro’o-si’i sentimentus darapé poezia, seri publika bali sé livru, seri los poema bakabiar her jornál los boletin oeoe. Kami dima atu ru: Crisódio Araújo i Celso Oliveira. Poeta iso mane, lebo u atu-Portugál, maibé u segi loba laa Timór i laa timorana ro’o, u-ni’i kero sonotor loba, ke Ruy Cinatti. Poeta, agrónomu, antropólogu, botániku, u-ni’i knaar bluar i atu nour koñese bali sé, inklui livru seri-kede’e: Não Somos Deste Mundo (1941), Poemas Escolhidos (1951), O Livro do Nómada Meu Amigo (1966), Sete Septetos (1967), Borda d’Água (1970), Uma Sequência Timorense (1970), Cravo Singular (1974), Timor – Amor (1974), O A Fazer, Faz-se (1976), Poemas (1981), Manhã Imensa (1982), i Um Cancioneiro para Timor (1996).
Kerodór timorana tet nour punu knaar kero romanse. Ponte Pedrinha, pseudónimu literáriu Henrique Borges ni’i, kero Andanças de um Timorense, mane publika her 1998 pe Edições Colibri (21). Poeta mosambikanu José Craveirinha kero her prefásiu: “Tristeza a’e ke hananu sonotor megees kede’e puntere testu poku iso-kede’e. Poku i umilde maibé sinseru loba. Sinseru i A’e!” (22). Epizódiu importante her estrutura daledara kede’e aipíl kazál joven Kotená los Kêti-Kia tet respeita lisa antigu atu-ataúru ro’o-si’i, dara lisa iso-kede’e noiva her buta-kaben ni’i tet putu los u-ni’i noivu maibé ena hali los u-ni’i noivu ni’i tiu. Padre Jorge Barros Duarte mós daledara kidia-laa kostume iso-kede’e: “Meselo aer ru ka telu pe faze muno, noivu ni’i ina laa hia noiva her u-ni’i ina-ama ni’i soa i odi u laa noivu ni’i soa. Her faze iso-kede’e ke noivu ni’i am’mori roi tada noiva («koko» intimamente, n.k. “getu u-ni’i kai-hetu”).” (23). Her pozisaun klau desi, kiti eto Luís Cardoso, autór timorana mane kero sonotor desi ma’o-mege, publika bali sé romanse telu, selopé kolabora her jornál i revista oeoe. Crónica de uma travessia – A época do ai-dik-funam (24) daledara u-ni’i mori riko i akompaña mós Istória lemori Timór ni’i i bo’a kidia-laa daa oeoe mane autór los u-ni’i ama sole, her kiti-ni’i rae, her rae selo i mós daa her ro’o-si’i mori riko. Lapar seri-kede’e ma’o akontese her mundu luli mane her Timór mós uku Istória, ka atu ro’o-si’i nurat kidia-laa Istória. Olhos de Coruja, Olhos de Gato Bravo (25) tama desi pita laa mundu luli iso-kede’e, i u laa leti mitu fundamentál povu Timór ni’i, megees ro’o-si’i mane bo’a kidia-laa revolta Manufahi ni’i. Her A última morte do Coronel Santiago (26) u uza punbloi téknika daledara ni’i enkuantu u konta tilu punhuu pe personajen oeoe mane inklui mós kerodór iso alter ego pe autór, mane u-ni’i lara balasi laa personajen hine prinsipál pe autór ni’i romanse mori. Majia los luli pe fiar sobrenaturál Timór ni’i glabur los ironia típika pe Luís Cardoso, mane mós dima molumolu ambiente, livru los referénsias pe intelektuál seri pe toki moderna Europa ni’i.
Hehe koi iso pita pe área livru timorana ro’o-si’i, her livru ru mane kiti heki dima her-kede’e, i kiti lebo posi gala megees “literatura-denúnsia”. Saksi Mata (27) (Atu ke eto los mat), istória-bruma nour mane akontese her tempu mane Indonézia heki kedesi kiti-ni’i rae, kero pe Seno Gumira Ajidarma, kerodór importante lobaloba her jerasaun lemori literatura Indonézia ni’i. Ajidarma publika muno istória-bruma seri-kede’e her jornál oeoe her rae kono’o, lema’o atu-a’e ro’o punu u sai pe u-ni’i serbisu her revista Jakarta Jakarta pita u nee-sai notísia kidia-laa masakre her 12 Novembru 91. Editora bruma, Bentang Budaya, ke publika edisaun iso-muno megees livru her too 1994 ni’i lara. Timor Aid heki publika livru iso-kede’e her bo’ahuu-tetun, los tradusaun pe Triana Oliveira. João Paulo Esperança mós tradús tilutilu livru kede’e laa portugés, maibé tet heki dia editora. Livru iso pita mane peri kiti-ni’i atensaun ke A redundância da coragem (28) pe Timothy Mo, mane publika orijinalmente her bo’ahuu-inglés her 1991. Autór kede’e ni’i ina atu-Inglaterra los u-ni’i ama atu-Kantaun her Xina. U konsege konta lobaloba kidia-laa sociedade Timór ni’i her tempu mori her administrasaun portugeza, depois peleheta ke durante too seri populasaun nour peni her hoho-lau i hunu her kai-lara saka invazór, i daramai kidia-laa mori laa ro’o mane rende ka bapa ro’o kaptura. Lapar seri kede’e ma’o daledara pe narradór Adoph Ng ni’i bo’ahuu mane uza molumolu tia-tukuhuu; u atu-Xina timorana, omoseksuál los mane pe mundu a’e her keha mane sente nahati megees tetloos atu rae-ubu iso her u-ni’i rae pita u-ni’i ama kusuu u laa estuda her universidade her Toronto, her Kanadá.
Literatura mane kero pe timorana ro’o baibain uza mesa bo’ahuu-portugés, seni’it mesa ke tai. Ro’o peneer ke rezisténsia, identidade los nasionalidade mós darapé bo’ahuu-portugés. Kami fiar ke jerasaun agora kede’e tilu, mane komesa bali odi go’e a pe presaun kulturál mane eto durante too nour aipíl tenke dekór mesa Pancasila los bo’ahuu-indonézia, heki punteri tet agi mós literatura heu iso tibu her bo’ahuu-tetun. Kiti heki lee i peneer...


[1] Sá, Artur Basílio de [ed. krítiku] – Textos em Teto da Literatura Oral Timorense, vol.1, Lisboa, Junta de Investigação do Ultramar/ Centro de Estudos Políticos e Sociais, 1961
2 Pereira, Agio [kompiladór] – Timor: The book of the Story-Teller. Cabramatta (Austrália), Timorese Australian Council, 1995
3 Castro, Alberto Osório de – A ilha verde e vermelha de Timor. Lisboa, Livros Cotovia, 1996
4 Braga, Paulo – A ilha dos homens nus. Lisboa, Editorial Cosmos, 1936
5 Laranjeira, Pires – Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa. Lisboa, Universidade Aberta, 1995, p. 26. (Tradusaun pe testu bruma kede’e laa bo’ahuu- tokodede kami ke punu).
6 Ribeiro, Grácio – Caiúru. Lisboa, Colecção «Amanhã», 1939
7 Ribeiro, Grácio – Deportados. s.l., edisaun autór ni’i (?), 1972
8 Ruas, Joana – Corpo colonial. Coimbra, Centelha, 1981
9 Esperança, J.P. – Uma leitura lilás de Corpo colonial de Joana Ruas, in: «Revista Lilás», Amadora, (29), Dez. 2000, p. 15-29
10 Gomes, Francisco A. – Uma deusa no “inferno” de Timor. Braga, Ed. autór ni’i, 1980
11 Ferreira, Filipe – A nona do Pinto Brás (Novela Timorense). Lisboa, ERL-Editora de Revistas e Livros, 1992
12 Sylvan, Fernando – A voz fagueira de Oan Tímor. Lisboa, Colibri, 1993
13 “Takas”, Luís – Fernando Sylvan ou O Silêncio das Palavras. «Kaibauk – Boletim de Informação Timorense», Linda-a-Velha, 1(7), Jan-Fev 1994, p. 14 (Tradusaun pe testu bruma kede’e laa bo’ahuu- tokodede kami ke punu).
14 Kero los tetun her testu orijinál
15 União dos Escritores Angolanos – Enterrem meu coração no Ramelau – Poesia de Timor-Leste. Luanda, 1982
16 Duarte, Jorge Barros – Jeremíada. Odivelas, Pentaedro, 1988
17 Gusmão, Xanana – Mar Meu – Poemas e Pinturas / My Sea of Timor – Poems and Paintings. Porto, Granito, 1998
Gusmão, Xanana – Mar Meu – Poemas e Pinturas / Tasi Ha’un – Dadolin no Taturik. Porto, Granito/Instituto Camões, 2003
18 Tradusaun pe testu bruma kede’e laa bo’ahuu- tokodede kami ke punu.
19 Aparício, João – À janela de Timor. Lisboa, Caminho, 1999
20 Rakmabean, Kay Shaly – Versos do Oprimido. Braga, Real Associação de Braga, 1995
21 Pedrinha, Ponte – Andanças de um timorense. Lisboa, Colibri, 1998
22 Tradusaun pe fraze seri-kede’e laa bo’ahuu- tokodede kami ke punu.
23 Duarte, Jorge Barros – Timor – Ritos e Mitos Ataúros. Lisboa, ICALP, 1984, p. 49 (Tradusaun pe testu bruma kede’e laa bo’ahuu-tokodede kami ke punu).
24 Cardoso, Luís – Crónica de uma travessia – A época do ai-dik-funam. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1997
25 Cardoso, Luís – Olhos de Coruja, Olhos de Gato Bravo. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2001
26 Cardoso, Luís – A última morte do Coronel Santiago. Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2003
27 Ajidarma, Seno Gumira – Saksi Mata, cetakan keempat. Yogyakarta, Yayasan Bentang Budaya, 2002
28 Mo, Thimothy – A redundância da coragem. Lisboa, Puma Editora, 1992

sexta-feira, janeiro 06, 2006

tocodede

Díli, 6 de Janeiro de 2006

Saiu ontem – com bastante atraso – o último “Semanário”, que traz como suplemento o “Várzea de Letras” no qual aparece a tradução para tocodede do meu artigo sobre literatura de Timor. Eu e a Anoi é que traduzimos o texto, com ajuda da Cesaltina. Que eu saiba é o primeiro texto publicado em tocodede na história desta língua.
Alguns malais, normalmente portugueses, dizem que eu sou maluco por gastar tempo e energia para procurar dominar uma língua como o tocodede. Dizem eles que nem o tétum vale a pena aprender, porque não serve para nada no mundo lá fora. Alguns desses estão por aqui – supostamente para trabalhar em cooperação com os timorenses – há muitos anos.
Muitos desses malais vão sair de Timor um dia sem nunca terem tido um amigo timorense. Deve ser triste ser assim.
Muitos desses malais só falam com os timorenses que lhes limpam a casa, com as empregadas de mesa nos restaurantes, com os formandos a quem dão aulas... Por isso passam a maior parte do tempo a falar sozinhos, ou ouvem timorenses em conversas da treta que lhes dizem aquilo que eles querem ouvir, que é como os portugueses são boas pessoas e como estão ansiosos por aprender a língua portuguesa. Na verdade a opinião generalizada entre os timorenses é que os portugueses que por cá andam são uns pedantes. É com tristeza que eu constato a surpresa dos taxistas e das pessoas comuns na rua ou no mercado quando, depois de um bocado de conversa (em tétum), eu digo que venho de Portugal – como falo fluentemente tétum pensavam que eu era australiano, ou quando muito brasileiro!
A postura desses portugueses é apoiada pela existência de malais importantes sentados em gabinetes em Lisboa que tomam decisões como a de usar o “Auto da Barca do Inferno” de Gil Vicente como um texto de estudo num curso de português L2/LE, cujos aprendentes têm grande dificuldade em compreender e interpretar textos em língua portuguesa contemporânea.
E adiante... Eu cá vou andando “com a cabeça entre as orelhas”, e estou a aprender tocodede. Digamos que é mais um passo adiante, agora em direcção ao mundo das montanhas.
JP Esperança


Dili, 6 Janeiru 2006

Horisehik foin sai – tarde liu ona – “Semanário” ikus, ne'ebé inklui “Várzea de Letras” nu'udar suplementu no iha tradusaun ba tokodede husi ha'u-nia artigu kona-ba literatura kona-ba Timór. Ha'u ho Anoi maka tradús testu ne'e, ho ajuda husi Cesaltina. Tuir buat ne'ebé ha'u hatene ne'e testu dahuluk ne'ebé publika iha dalen tokodede iha Istória lian ida-ne'e nian.
Malai balu, baibain portugés sira, dehan katak ha'u bulak tanba ha'u gasta tempu ho enerjia hodi buka ko'alia moos lian ida hanesan tokodede. Sira hateten katak tetun rasik mós la di'ak atu aprende, tanba la serve ba buat ida iha mundu iha li'ur. Balu husi malai sira-ne'e hela iha-ne'e – parese katak sira-nia knaar atu serbisu lisuk ho timoroan sira – tinan barak tiha ona.
Barak husi malai sira-ne'e sei sai husi Timór loron ida no sira nunka iha belun timoroan ida. Ha'u hanoin katak ne'e buat triste bainhira ema hanesan ne'e.
Barak husi malai sira-ne'e só ko'alia ho timoroan ne'ebé hamoos sira-nia uma-laran, ho empregada-meza iha restaurante, ho alunu sira ne'ebé sira hanorin... Tanba ne'e sira pasa sira-nia tempu barakliu ko'alia mesamesak, ka rona timoroan dehan leet de'it buat ne'ebé malai sira hakarak rona, katak ema-portugés sira laran-di'ak no katak sira ansi loos atu aprende dalen portugés. Tebes maka timoroan sira barakliu hanoin katak malai portugés sira ne'ebé hela iha-ne'e halo an de'it. Ha'u sente laran-kraik bainhira ha'u haree taksista ka ema baibain iha lurón ka iha basar hakfodak loos bainhira, liutiha ami ko'alia uitoan (ho lian tetun), ha'u hateten katak ha'u mai husi Portugál – tanba ha'u ko'alia tetun moos sira hanoin katak ha'u ema-Austrália, ka pelumenus ema-Brazíl!
Buat ida ne'ebé haberan malai portugés sira-nia jeitu ne'e maka iha malai boot sira ne'ebé tuur iha gabinete iha Lizboa no foti desizaun hanesan uza “Auto da Barca do Inferno” [pesa-teatru hakerek ho lia-portugés tinan atus barak liubá nian] husi Gil Vicente nu'udar testu atu estuda iha kursu lia-portugés nu'udar lian daruak ka lian rai-li'ur nian, ne'ebé alunu sira iha kursu ne'e susar tebetebes atu komprende no interpreta testu ne'ebé uza lian portugés agora daudaun nian.
Maibé mai ita la'o ba oin... Ha'u ne'e kontinua la'o daudaun ho “ha'u-nia kakutak iha tilun sira-nia klaran”, no ha'u aprende hela tokodede. Ita bele dehan katak ne'e hakat ida tan ba oin, agora iha diresaun ba mundu foho nian.
JP Esperança