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domingo, janeiro 05, 2014

Ainda o jogo do pau - Resposta a Frederico Martins





O meu texto partilhando algumas das minhas inquietações sobre os rumos atuais do jogo do pau motivou uma resposta interessante de Frederico Martins, à qual vou tentar responder aqui:


Olá João,

Não sou um erudito do jogo do pau nem da cultura portuguesa. Tenho feito um esforço de investigação, dentro dos limites do meu conhecimento, e partilho do desejo de ver o jogo do pau a ser estudado mais profundamente por alguém mais capaz. Darei as minhas opiniões como o meu ponto de vista, que não pretende ser uma verdade absoluta, mas sim a minha interpretação actual, que face à escassez de fontes, nunca posso afirmar com grandes certezas.

Não vejas isto como uma oposição aos teus argumentos, pois concordo pelo menos com a grande parte destes, e até apresento mais alguns pontos a favor, no entanto esta é a forma como vejo estas questões do ponto de vista de um praticante de Esgrima Lusitana e amante do Jogo do Pau.


Também não sou um erudito do jogo do pau ou da cultura portuguesa e, como tu, tenho mais perguntas do que respostas... E de resto uma abordagem científica não significa apresentar-se como detentor da verdade, mas sim como alguém que tem opiniões fundamentadas, que podem ser invalidadas por novos dados.


1- “Jogo” e “pau” //Acho o problema não só na palavra jogo mas também na palavra “pau” não desgosto da expressão, de forma alguma, mas vejo na população em geral o torcer do nariz à apresentação da mesma. E foi nesse sentido que se tentou aplicar o nome de Esgrima Lusitana.

Para suportar o nome de jogo do pau, poderia acrescentar que já vi em alguns textos antigos portugueses a expressão “mestre no jogo das armas” ou “jogar às armas” o que indica que na cultura portuguesa o “jogo” significava também treino militar.

Vários outros tratados de armas Italianos pelo menos também se referem a treino militar como “jogo”, como Achille Marozzo (1484-1553), Antonio Manciolino Séc. XVI, entre outros. Por exemplo, fazendo distinção entre “gioco stretto” e “gioco largo” referindo-se a diferentes distâncias. Estes tratados falam geralmente de vários tipos de armas e não de uma espada especifica.

Nessa altura não creio que fizesse confusão a ninguém. No entanto a esgrima olímpica não se chama jogo de espada, mas sim esgrima, e hoje em dia, na população em geral, jogo já não tem nenhuma conotação marcial e como já referi anteriormente, é mal interpretado por quem não conhece, por isso o mestre Nuno Russo está a tentar aplicar o nome de Esgrima Lusitana.

Este nome, não é no entanto uma invenção totalmente moderna. Já Zacharias d’Aça em 1883 se referia ao jogo do pau como a Esgrima Nacional, assim como António Caçador (1963) sub-titula o seu livro sobre jogo do pau. Creio que já dai advêm a necessidade de demonstrar que se trata de uma esgrima ou de uma actividade marcial(de combate) e não de um jogo, como tem sido vista a expressão mais recentemente.

Eu sinceramente preferia ver o nome Jogo do pau a ser utilizado, mas percebo e suporto a utilização de Esgrima Lusitana, que faz sentido no mundo em que vivemos e é mais rapidamente compreendido pelo publico em geral. Também podes ver o nome Esgrima Lusitana, como sendo a escola do mestre Nuno Russo, que inclui o varapau e o bastão e segue um programa técnico especifico.


Para te dizer a verdade até preferia que o problema dos “lusitanos esgrimistas” fosse com a palavra “jogo” e não com a palavra “pau”. Não tenho nada contra os esforços de utilização da técnica do jogo do pau nas modalidades de esgrima histórica reconstituída levados a cabo pelo mestre Luís Preto, mas o jogo do pau têm uma veneranda tradição e história por si mesmo, independente de hipotéticas origens em esgrimas de armas de corte, e não deve envergonhar-se de ser uma arte marcial de uso do pau para combate. Neste texto podem encontrar-se alguns dados interessantes sobre essa tradição: http://www.freewebs.com/pontuada/O_jogo_do_pau_em_Portugal.pdf.
Além das referências que mencionas também esta enciclopédia  http://www.freewebs.com/pontuada/Enciclopedia_1949-imprimir.pdf  (não sei qual, tirei as fotocópias de uma que havia na biblioteca da minha escola quando era puto – mas no texto diz-se que 1949 é a “actualidade”)  define o jogo do pau como “esgrima característica portuguesa”.  Parece-me que a designação de “esgrima portuguesa” ou “esgrima nacional” foi sendo associada ao jogo do pau em diversas fontes eruditas, normalmente escritas, mas o povo e os praticantes continuaram a usar normalmente a designação tradicional de “jogo do pau”. Dizes tu que “no entanto a esgrima olímpica não se chama jogo de espada, mas sim esgrima, e hoje em dia, na população em geral, jogo já não tem nenhuma conotação marcial”. Penso que os praticantes de jogo do pau não deviam ter a atitude de uma marca de refrigerantes que se preocupa com a escolha de um nome que permita uma maior penetração no mercado, se os mestres que nos ensinaram uma arte marcial, que receberam por sua vez de outros mestres, sempre lhe chamaram jogo do pau, porque é que temos de lhe mudar agora o nome? E se o problema é marketing porque é que não lhe chamam algo como “PSJ - Portuguese Staff Jitsu” ou “MMA com um Grande Cacete” – provavelmente iam atrair imensos malucos pagantes... E já agora, para ilustrar como a “população em geral” pode estar errada a propósito de conotações marciais, eis o que John Clements diz a propósito da esgrima olímpica: “Yet some say modern sport fencing (particularly foil fencing) is so far removed from its martial origins as to barely qualify as swormanship“ (em “Renaissance Swordmanship – The Illustrated Use of Rapiers and Cut-and-Thrust Swords”, p. 14)


2- Nunca vi preconceito em relação aos nomes das pancadas. A única pessoa que vi utilizar nomes diferentes foi o Luis Preto quanto ensina estrangeiros. Mas isso advêm da ideia dele de que ao ensinar-se qualquer actividade, se deve utilizar palavras que as pessoas compreendam. Assim, em inglês faz sentido utilizar nomes ingleses para as pancadas, apesar das outras artes marciais todas fazerem o contrário. Não discordo que isso seja mais eficaz na aprendizagem, no entanto gosto bastante da ideia de utilizar os nomes em Português por uma questão de manter uma ligação cultural à arte praticada. Quanto à utilização desses nomes “arcaicos” em português, em em vez de nomes mais compreensíveis, como “Obliqua” ou “ascendente”, não creio que seja necessário, pois não custa assim tanto a um português aprender um termo da própria língua, e em todas as aulas que tive sempre foram os termos utilizados.


Acho que isso tem a ver com a atitude de quem ensina e quem aprende, em relação ao que é ensinado. Nas escolas de MMA (artes marciais misturadas?) ensinam-se técnicas, competências motoras, formas de movimentar o corpo com objetivos ofensivos ou defensivos. Se um determinado pontapé veio da Tailândia ou um estrangulamento chegou do Brasil, depois de ter tido origem no Japão, isso pouco interessa aos envolvidos, a não ser como curiosidade. Porém na maior parte das artes marciais, sejam antigas ou reformulações mais recentes, os mestres são portadores de uma cultura que transmitem junto com as técnicas, e os alunos querem normalmente sentir algum tipo de comunhão com essa cultura. No dojo de judo temos a etiqueta japonesa e as ideias de Jigoro Kano sobre pedagogia, nos de aikido ou shorinji kempo temos um pacote cultural que inclui até muito de religião, nas rodas de capoeira do mundo inteiro gringos e malais de todas as cores e línguas cantam em português sobre o Senhor do Bonfim e Besouro Mangagá. Não sei o suficiente sobre os alunos de esgrima histórica aí pelas europas, posso acreditar que um grupo que se especialize em estudar, por exemplo, “La Verdadera Destreza” tenha algum apreço pela cultura espanhola (e pela história de Espanha da época), mas suponho que em geral os entusiastas da esgrima marcial antiga europeia não estejam interessados em aprender jogo do pau enquanto arte marcial portuguesa de combate com vara, nem lhes interesse a cultura portuguesa, e que só queiram do jogo do pau as técnicas que possam ser aplicáveis ao seu passatempo. Se este for o caso, a posição do mestre Luís Preto será semelhante à de um mestre de Muay Thai num ginásio de MMA, onde as pessoas só querem aprender os pontapés que ele traz e não teriam paciência para o “Wai khru ram muay”, por exemplo. Nesse contexto, faz todo o sentido que ele dê nomes ingleses às técnicas.


3- Se o caso a favor da ligação do jogo do pau com a esgrima de armas antigas fosse apenas os nomes dos ataques, como referidos no livro do rei D. Duarte I (1391-1438), eu veria isso como uma mera curiosidade, e não como um argumento histórico de referência. Quase como um mito.

E foi assim que vi essa ligação durante muito tempo. No entanto, para uma análise mais séria da ligação creio que é essencial a análise de dois documentos “descobertos” mais recentemente. Falo do “Memorial Da Prattica do Montante” de D. Diogo Gomes de Figueiredo (1651) e “Do Arte de Esgrima” de Domingos Luis Godinho (1599). Quem é conhecedor de jogo do pau, sabe que no norte sempre se praticou o combate contra vários adversários, ainda hoje há grupos muito tradicionais a praticarem o jogo contra dois e o jogo do meio. Está prática bem documentada em vídeo e presente também no programa técnico do mestre Nuno Russo, está também descrita no mais antigo manual de jogo do pau que conheço, “A arte do Jogo do Pau” Joaquim António Ferreira (1886).

Estes textos podem ser analisados mais profundamente para uma melhor compreensão dos mesmos, no entanto deixo aqui a primeira linha de algumas das chamadas “regras” ou situações que estes 3 autores descrevem.

"Memorial Da Prattica do Montante" Mestre de Campo Diogo Gomes de Figueyredo (1651):

-“Regra para brigar com gente por detraz e por diante”

-"Serve esta regra para brigar em hũa rua larga com gente por detras o por diante”

"Do Arte de Esgrima" - Domingo Luis Godinho (1599)
Autor portugues mas o texto está em espanhol, traduzi aqui para simplificar.

- "sercado em plasa campo o calhe”

- ”sercado en calhe mea angosta de atras e adelante”

“A arte do Jogo do Pau” Joaquim António Ferreira (1886)

-“Quando eu seguir por uma estrada e me apareça um inimigo pela frente e outro pela retaguarda”

-"Quando me encontrar cercado de inimigos devo (…)"

São apenas dois exemplos de cada autor, mas cada um tem muitos mais exemplos, sendo que a grande parte das regras que ensinam são mesmo contra vários adversários em várias situações.

Cada manual, de diferentes mestres e de séculos diferente, apresenta soluções ligeiramente diferentes, o que creio ser natural. Pode-se até dizer que isto é o comum em todas as artes marciais e que não evidencia nenhuma ligação especial ao jogo do pau. No entanto, há que reparar, dos vários autores europeus de tratados de esgrima antiga com as mais variadas armas, e de várias nacionalidades, Alemães, Italianos, Ingleses, e de vários séculos, apesar de um ou outro mencionarem ocasionalmente o combate contra vários adversários, nenhum deles trata tão profundamente do assunto, como o Figueiredo, Godinho ou Ferreira tratam nos seus manuais. E isto é quase único na tradição portuguesa. Autores como George Silver (ca. 1560s–1620s) e Giacomo di Grassi(Séc. XVI) dedicam um ou outro paragrafo a combate contra vários adversários, enquanto que dos 3 autores portugueses, cada um tem pelo menos 10 regras especificas contra vários adversários. Dos autores antigos não só com o montante mas Godinho refere o mesmo com qualquer tipo de espada. Isto, sendo que não há muitos mais manuais de esgrima de autores portugueses deste tempo, é grande parto do que conhecemos da nossa esgrima.

Para quem conhecer o jogo do pau, deixo aqui uma regra de Godinho: http://jogodopau.tumblr.com/post/43481457974/cercado-numa-praca-campo-ou-rua

Esta descrição quase que se podia pôr lado a lado, e adaptar passo a passo ao jogo do pau, ainda hoje praticado por muitos grupos de jogo do pau e presente no programa técnico de Esgrima Lusitana. como diria o Carlos do Carmo, se isto não é jogo do pau, eu sou chinês(com a devida ressalva de que com certeza, gostava que existisse um estudo mais profundo do tema, do que aquele que eu consigo fazer).



Não conhecia estes autores portugueses, obrigado pelas referências. Entretanto encontrei a página da AGEA Editora (http://www.ageaeditora.com/), vou tentar adquirir algum do material publicado por eles.
Como eu disse no meu outro texto, acho que é possível uma ligação. Duvido é que seja uma ligação direta, como aquela em que o mestre Luís Preto acredita: “Jogo do Pau is Historical Fencing and Historical Fencing is Jogo do Pau” e <<Regarding Jogo do Pau as “Portuguese staff fencing” is not correct, since it actually is a medieval fencing skill, with either long sword or staffs, depending on the social conditioning factors that determine which weapons are at hand.>> (in “Combat in Outnumbered scenarios – The origin of historical fencing”). Eu acho que é errado declarar que “o jogo do pau não é esgrima de pau portuguesa porque é uma técnica medieval de esgrima com espadas ou paus”, o que estiver mais a jeito. Basta ir reler o texto que mencionei, ou perguntar ao mestre Nuno Russo (que foi o mestre de Luís Preto) o que lhe ensinaram os seus próprios mestres, para ver que o que o jogo do pau é. O jogo do pau é um sistema de combate tradicional (“arte marcial”) português com pau longo, contra um ou vários adversários; o jogo do pau pode ter sido influenciado na sua génese pela esgrima do montante adaptada pelos instrutores militares medievais para ensinar aos membros da plebe arrebanhados para servir como peões na infantaria dos senhores feudais uma forma mais eficaz de usarem os seus chuços. As tuas citações sobre o combate contra vários adversários, ou o facto de a vara ser normalmente agarrada numa das extremidades, podem ser argumentos que apoiam esta hipotética influência. Parece-me correta esta análise do mestre Luís Preto no seu blog:  “Defensively, it is an art in which, regardless of the weapon being handled, the parries are executed with the part of the weapon that corresponds to the edge of a bladed weapon. As can be seen in the images below, the nuckles are always directed outwards and, thus, the parry being shown is intercepting the incoming strike with the same area of the defender's weapon, regardless of it being bladed or round.” (in http://jogodopau.blogspot.pt/2013/12/jogo-do-pau-stick-or-sword-art.html). Mas parece-me que cria confusão desnecessária a colocação de fotografias do uso da bengala neste texto, uma vez que, como dizes, o “bastão português” ou “bengala portuguesa” é uma modalidade desenvolvida pelo mestre Nuno Russo. Portanto não pode ser “a medieval fencing skill, with either long sword or staffs”. Aliás, o tamanho é mais próximo do da falcata lusitana do que do montante medieval... Por outro lado, poderia ser interessante ver a execução dos sarilhos do jogo do pau com uma espada longa, como um montante.
Parece-me também que uma coisa importante a ter em conta nestas análises é que a motricidade humana não é apenas biológica, mas também culturalmente marcada. As pessoas andam, dançam, sentam-se, gesticulam... e usam sistemas complexos de combate desarmado, ou com armas tradicionais, de formas diferentes em diferentes culturas e sociedades. Há muito em comum se compararmos os deslocamentos de um japonês com uma katana ou com um jo, como há muito em comum se observarmos os movimentos de um praticante de kalaripayattu com um pau ou com uma espada, é apenas natural que haja coisas semelhantes em artes marciais desenvolvidas no extremo ocidental da Europa, em que uma pode ter influenciado a outra, e que tenham ataques de uma “wide-motion, bashing, power-oriented striking art“ como acontece no jogo do pau e acontecia na esgrima de montante.


4- Lusitana refere-se neste caso de uma forma geral ao povo português, tal como “Os Lusiadas”, não se tenta limitar a um grupo de portugueses de um local especifico, mas de forma generalizada. Tal como Luso-Americano, refere-se a um Portugal e América e não a Entre Douro e Tejo e América.


Prefiro “portuguesa” ou “lusa”, como em “equipa lusa”, por exemplo. Não gosto da designação de “lusitanos” para os portugueses por várias razões. Uma é que é uma designação errada, na época das invasões romanas os lusitanos coexistiam com outros povos nativos na Península Ibérica e a sua área incluía uma parte do que agora é Portugal mais ou menos entre o Douro e o Tejo e uma parte do que agora é a Espanha. Outra razão é que me faz lembrar idiotices do tempo da historiografia salazarista, como dias da raça e coisas assim. Carlos Consiglieri em “Os lusitanos e a historiografia” fala das “ideias ultra-românticas de historiadores que tentaram construir uma identidade nacional a partir dos Lusitanos”, mas Portugal é um país de mestiçagens várias, e a hipervalorização dos lusitanos faz-se à custa de desvalorizar as contribuições de outros povos que para cá vieram, incluindo os próprios romanos. Diz-nos também a “História de Portugal” coordenada por Rui Ramos: “Como os estudos genéticos revelaram recentemente, esta História deixou marcas na composição da população. Na Península Ibérica, os portugueses são aqueles em cujos genes mais vestígios se encontram de duas das mais importantes migrações para a Península desde o século I: os judeus sefarditas, chegados do Médio Oriente no início da era cristã, e os berberes muçulmanos, vindos do Norte de África no século VIII.” E esta miscigenação é ainda mais acentuada no sul do país. Uma terceira razão é que os espanhóis também têm invocado ao longo dos séculos o título de descendentes dos lusitanos. Mauricio Pastor Muñoz, no seu livro “Viriato” conta-nos sobre como a partir do século XVII se publicaram em Espanha livros com Viriato como protagonista. P.ex.: “Assim, A. González Bustos publica a sua comédia intitulada O Espanhol Viriato, onde enaltece a figura de Viriato.” Depois, já no séc. XX: “Pouco depois, Viriato, a quem o padre Mariana chama “libertador quase de Espanha”, passou a denominar-se “caudilho Viriato” e é comparado a Francisco Franco. Em todos os trabalhos que fazem referência a Viriato, principalmente nos manuais de História de Espanha, insiste-se na imagem de Viriato como “caudilho” de Espanha” (p. 263). E etc, etc. Mais recentemente a série de televisão espanhola “Hispania– La Leyenda” também faz equivaler as designações “lusitanos” e “espanhóis”.


5- Quase todas a técnicas de varapau europeias, Sejam italianas, francesas etc, utilizam o varapau de forma semelhante, isto é, em rotação completa, segurando numa das pontas. No entanto, práticamente só em Portugal se vê ainda a pratica de jogo do pau contra vários adversários. Não digo que seja tudo a mesma coisa, e creio que em Portugal, por alguma razão esta prática se preservou em excelente forma, mas não me surpreende existirem formas bastante similares por toda a Europa. O Garrote canário que vi e já experimentei com um mestre que nos visitou é substancialmente diferente do jogo do pau português.


O quarterstaff inglês não é propriamente segurado pela ponta. Nem o maide ceathrún irlandês, a acreditar em John W. Hurley (“Shillelagh – The Irish Fighting Stick”). Tenho o “TheMartial Arts of Renaissance Europe”, de Sydney Anglo, e logo na capa vê-se uma imagem antiga de lutadores europeus a agarrarem o pau pelo meio. Nem a vara do jogo do pau açoriano, de acordo com Luís Preto: “consists exclusively of single combat, using the stick primarily at short distance by holding the stick in the middle” (“Jogo do Pau – The Ancient Art and Modern Science of Portuguese Stick Fighting”, p. 17). Mas concordo que haja uma tendência europeia para pegar no pau pela ponta e bater em rotação.

6- O bastão português é de facto uma adaptação recente, e como é praticado hoje, é um aperfeiçoamento tomado a cabo pelo mestre Nuno Russo, o qual tem todo e quase exclusivo mérito por isso. As menções de utilização de bengala tradicionalmente são realmente muito esporádicas e não creio que nunca tenha sido uma pratica corrente. No entanto creio que a adaptação da técnica do varapau a bastões de um certo peso, é excelente e extremamente eficaz, refletindo todos os conceitos e princípios do varapau, inclusive o tal combate contra vários adversários, que é para mim, a melhor aplicação de armas para defesa pessoal que alguma vez vi.


Nada a dizer. O mérito deve ser reconhecido, e a modalidade de bastão criada pelo mestre Nuno Russo parece-me muito interessante como complemento ao jogo do pau tradicional.


Alonguei-me tanto que tive que dividir isto. São questões que requerem de facto discussão e agradeço o teu post por isso. Abraço.


Já agora, sabes se há alguns livros sobre esgrima histórica em Portugal? Não as reedições dos escritos na época em que ela ainda não era “histórica”, que mencionaste, mas alguma coisa escrita nos últimos anos?
Um abraço,

domingo, dezembro 01, 2013

Algumas questões de semântica em torno do jogo do pau




Nos últimos tempos um pequeno grupo de pessoas tem-se distinguido pelo seu trabalho notável de divulgação do jogo do pau. Por isso devem ser elogiados. Mas há algumas premissas nas suas campanhas que para mim devem ser debatidas, e não tomadas como verdade absoluta.


1.
Uma é a embirração que têm com o nome da modalidade que praticam. Gostam do jogo do pau, mas não gostam do nome por que tem sido designado de geração em geração. Por isso chamam-lhe “esgrima lusitana”. Parece que o problema deles é com a palavra “jogo”, talvez tenham receio de serem confundidos com jogadores de micado ou de ai-manulin (1). O Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, publicado em 2001, tem entre as acepções da palavra “jogo”:  «manejo de uma arma. + de espada, de florete, de pau». E de resto “jogar”, ou os seus equivalentes, tem uma longa tradição em diversas artes marciais, quer do Ocidente quer do Oriente. A capoeira, antes de tornar nesta modalidade de alegria e harmonia, de paz e amor, que se espalhou por todos os cantos do mundo, foi um sistema de combate urbano usado em lutas que frequentemente acabavam em mortes, no qual se usavam também paus, catanas e navalhas (2), mas já nessa época os praticantes diziam que jogavam capoeira (3). Uma das regiões historicamente mais importantes no desenvolvimento de muitos estilos de pencak silat (4) foi a parte ocidental da ilha de Java, de cultura e língua sundanesa. Pois na região de Cianjur eles chamam, em sundanês, “maenpo” ao pencak silat, em que “maen” significa “jogar” (5). E, já agora, na Roma antiga as escolas de gladiadores, onde eram treinados alguns dos lutadores com mais destreza técnica para o combate até à morte do mundo antigo, eram chamados “ludus” (“ludi”, no plural) (6), palavra que também está na origem da palavra portuguesa “lúdico”…

2.
Li também que alguns consideram “enviesada” e “arrepiada” como palavras arcaicas. Isso faz-me lembrar as conversas que tinha com alguns lisboetas, quando estava na Faculdade, sobre os livros do Aquilino Ribeiro. A maioria só tinha lido, ou tentado ler, “O Malhadinhas”, e dizia que o escritor usava muitas palavras arcaicas. Eu por outro lado, moço de origens rurais, compreendia sem precisar de ir ao dicionário uma percentagem muito maior do léxico do autor. Voltando novamente ao Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia: “ao arrepio – em direcção oposta à normal”; “enviesado/a – que se deslocou obliquamente, na diagonal; que se moveu de esguelha, de viés”. No lugar de onde venho estes são vocábulos normais do português actual.

3.
Dizem alguns que o jogo do pau vem directamente da técnica medieval de esgrima do montante. Que essa possa ser a sua origem remota é plausível. Quem habitualmente desenvolvia sistemas tecnicamente complexos de combate eram as classes guerreiras, o que no caso português seria a nobreza dos cavaleiros. Noutros contextos culturais e históricos algo similar terá ocorrido com o arnis ou eskrima (uma arte marcial filipina, rebaptizada “kali” por alguns estadunidenses de origem filipina nos EUA), desenvolvido a partir do treino militar dado pelos padres guerreiros jesuítas espanhóis às milícias do povo nas Visaias para se defenderem das incursões dos piratas muçulmanos vindos de Mindanao (7). Mas em Portugal o povo não tinha montantes. O povo alimentava a família com o que cultivava nas terras em que vivia, mas que pertenciam aos senhores feudais ou ao clero, e os homens do povo tinham que aceitar ser incorporados na infantaria dos exércitos dos seus senhores em alturas de guerra. Na guerra medieval os peões constituíam a maior parte dos efectivos dos exércitos, mas eram pobremente armados. Usavam armas rudimentares, como chuços e alabardas de diversos tipos, que em muitos casos não diferiam provavelmente muito de um pau com choupa ou com uma foicinha na ponta. Portanto, se houver uma ligação antiga entre o jogo do pau e a técnica de armas das guerras medievais, o mais provável é que o seu antepassado não fosse a esgrima de montante propriamente dita, mas sim uma adaptação feita pelos instrutores para as armas da peonagem, uma espécie de “artes marciais para os pobres”. Eu nunca empunhei um montante real, mas suponho que tenha um peso bastante diferente do de um chuço ou um pau, o que imediatamente exige soluções técnicas distintas. No caso do pau, a adaptação da técnica teria que ir muito mais longe, já que a vara (sem choupa) é uma arma de impacto e o montante é uma arma de corte (apesar de o jogo do pau preservar como característica importante o facto de não se agarrar o pau do adversário ou o seu corpo – coisa perigosa com lâminas – ao contrário do que acontece actualmente com muitos estilos de eskrima/arnis, ou com o sistema reconstruído do “garrote” canário, e ter o cuidado de manter as mãos bem longe do alcance da arma do adversário, ao contrário de muitas das artes marciais com pau deste mundo).

Não chega dizer que há documentos antigos que provam que o jogo do pau tem a mesma técnica da esgrima do montante. Há que explicar de que forma é que o provam. E não será porque os cavaleiros também chamavam às técnicas “arrepiadas” e “enviesadas”… Em bojutsu também deve haver técnicas arrepiadas e enviesadas (com estas denominações em japonês, claro), mas evidentemente não se pode invocar nem a designação, nem a mera existência destes ângulos de ataque, para dizer que é essa a origem do jogo do pau. E a referência ao bojutsu faz-me recordar um vídeo a que assisti há muitos anos, mostrado pelo Mestre Nuno Russo no Ginásio Clube Português, em que ele trocava umas pauladas amigáveis com um nãoseiquantagésimo Dan de bojutsu, que se fartava de apanhar, coitado…

4.
E “lusitana” porquê? A região dos lusitanos era uma zona entre os rios Douro e o Tejo, e um pedaço da Espanha actual na mesma latitude, o que deixa de fora as regiões do Minho e Trás-os-Montes, tradicionalmente consideradas os mais importantes centros de irradiação do jogo do pau. Para além disso, ainda que provavelmente andassem também à paulada de vez em quando, não poderiam fazer jogo do pau se este vier da técnica da esgrima do montante medieval… A verdadeira “esgrima lusitana” seria provavelmente o manejo da falcata!

5.
Não sei o suficiente sobre o “jeux de baton” francês para poder ter uma opinião sobre se é igual, ou semelhante, tecnicamente ao jogo do pau português. Os estilos de juego del palo tradicionais das Canárias parecem-me ter diferenças técnicas importantes, pelo menos na forma que chegou aos nossos dias como resultado de uma prática contínua de geração em geração (não estou a incluir o “garrote”, que várias fontes dizem ser o que se chama uma prática reconstituída, como a esgrima histórica que se faz actualmente em vários países). Parecer-me-ia difícil argumentar que as técnicas do juego del palo canário sejam semelhantes às do manejo do montante de guerra.
Conheço referências ao jogo do pau nas zonas da raia galega, o que faz todo o sentido dada a porosidade da fronteira para os membros das comunidades rurais da zona e a continuidade linguística e cultural entre galegos e portugueses do Norte. Seria interessante saber se há descrições de sistemas tecnicamente semelhantes ao jogo do pau que tenham existido noutras regiões de Espanha. E, já agora, se tiverem existido, porque é que se extinguiram, ao contrário dos sistemas português continental, açoriano, e canário… Suponho que noutras zonas de Espanha há também populações rurais, conservadoras, que andavam de cajado na mão… e que tinham antepassados incorporados nos exércitos dos seus senhores na Idade Média.

6.
Nalguns textos invoca-se uma origem histórica para a modalidade de “bastão português” praticada nas escolas ligadas ao Mestre Nuno Russo. Diz-se que os varredores de feiras iam lutar de bengala para as feiras após a proibição das varas nos recintos das mesmas (?), ou que as populações urbanas andavam de bengala e teria havido uma adaptação do jogo do pau tradicional para o uso da bengala. Mais uma vez, uma destas ideias – a segunda – é plausível, mas ainda não a vi provada. A canne francesa está bem documentada historicamente (8), mas ainda não tive conhecimento de documentação, ou de uma tradição, que mostre que tenha havido um desenvolvimento semelhante em Portugal, ou uma continuidade de evolução técnica no passado entre o jogo do pau e a “bengala ou bastão português”. A História não se escreve com base em argumentação do tipo “não temos provas, mas achamos que devia ter existido e devia ter sido assim”. Dito isto, parece-me um desenvolvimento interessante esta técnica de “bastão português” que temos visto aparecer nas últimas duas décadas, que pode inclusivamente atrair pessoas pela sua mais fácil aplicação na autodefesa (hoje em dia já pouca gente anda de cajado…). Mas se é um desenvolvimento recente porque não assumi-lo e dar o devido crédito ao(s) Mestre(s) que o desenvolveu(veram)? Claro que os praticantes ficam sempre com a opção de procurar uma escola onde se faça apenas jogo do pau tradicional, com vara longa, mas quem gostar pode ir aprender este novo “bastão português” sabendo ao que vai…

Enfim, alguns pensarão que nada disto é importante, mas eu pessoalmente gostaria de ver aparecer mais investigação séria sobre o desenvolvimento do jogo do pau. Para quem se interessa por este assunto, termino recomendando a leitura regular do excelente blog de pesquisa sobre referências à arte marcial portuguesa ao longo dos tempos que se pode encontrar neste link http://jogodopau.tumblr.com/ .


(1)    Ai-manulin - jogo infantil timorense em que envolve o lançamento de um pauzinho.
(2)    A introdução da navalha como uma arma que se tornaria tradicional na capoeira deve-se aos fadistas e outros imigrantes portugueses no Brasil.
(3)    Ver, entre outros, Capoeira – The History of an Afro-Brazilian Martial Art, de Mathias Röhrig Assunção, um excelente livro sobre a história da capoeira, que deveria servir de inspiração a qualquer historiador de uma arte marcial.
(4)    Pencak silat (lê-se [pêntchak sílat]) – um nome genérico para artes marciais oriundas da Indonésia, Malásia, Brunei, Timor-Leste e partes do Sul das Filipinas.
(5)    Ver “Pencak Silat merentang waktu”, de O’ong Maryono, na pág. 196.
(6)    Ver p.ex. “The Gladiators”, de Fix Meijer, pág. 39.
(7)    Ver o interessante ensaio de Ned R. Nepangue e Celestino C. Macachor intitulado “Cebuano Eskrima – Beyond the Myth”.
(8)    Consultar, por exemplo, “Histoire de la savate, du chausson et de la boxe française (1797-1978)", de Jean-Grançois Loudcher, um livro sobre a história das artes marciais francesas metodologicamente sério na sua investigação.

quinta-feira, agosto 17, 2006

Basá ema hotu ne’ebé kaer surik, sei mate ho surik

Mt, 26, 52
Jesus disse-lhe: «Mete a tua espada na bainha, pois todos quantos se servirem da espada morrerão à espada.»
Jezús dehan ba nia: “Hatama ó-nia surik ba nia fatin, basá ema hotu ne’ebé kaer surik, sei mate ho surik.”


Os dias vão-se sucedendo, e a violência faz agora parte da rotina. Regularmente vem ao telejornal da RTTL o director do Hospital Nacional Guido Valadares comunicar os números da semana: n crianças mortas por doenças nos campos de refugiados, n crianças internadas, n jovens que entraram nas urgências vítimas de catanadas, n feridos por pedras, n atingidos por flechas... Nos bairros todos os dias há confrontos - pedrada principalmente - entre grupos de adolescentes de lorosa’e e de loromonu, as forças internacionais – que parecem trabalhar agora em colaboração eficiente – aparecem depressa, os grupos dispersam, alguns dos vândalos são apanhados, e, na maioria, são libertados depois de identificados por serem ainda de menor idade. Há também outra modalidade que é um bandidozeco corajoso ir esconder-se perto de uma zona residencial de onde os oriundos da mesma metade do país que ele tenham sido escorraçados, e depois, à distância, com uma fisga, ir atirando pedras sobre as casas. Isto dura às vezes muito tempo, e dá cabo dos nervos de quem vive na área.
A violência de rua vem de ambos os lados. Houve o momento em que os peticionários ou os seus amigos apedrejaram e puseram fogo a carros ao pé do Palácio do Governo e a seguir queimaram casas de gente de lorosa’e em Tassitolo. Mais tarde, especialmente aquando da “caça” aos desordeiros da manifestação dos peticionários e por alturas do ataque das FDTL ao quartel da polícia, militares das FDTL entravam por bairros de maioria de loromonu aos tiros para o ar e a ameaçar os habitantes, e havia bandos de adolescentes de leste que aproveitavam a situação para espalharem o pânico, e queimarem e espancarem. Por essas alturas também havia alguns polícias de loromonu – vários deles com antecedentes de actividade em gangs no tempo indonésio e incorporados na PNTL para ver se assim os controlavam – que andavam a atacar gente de lorosa’e. Quando as FDTL voltaram para os quartéis e a polícia se entregou ou desapareceu de circulação os bandos de delinquentes do ocidente tornaram-se preponderantes nas ruas e, com excepção de alguns bairros maioritariamente habitados por gente de lorosa’e, a maior parte das pessoas de leste espalhadas por Díli teve que deixar o seu lar e ir para campos de refugiados ou para as terras dos antepassados. Hoje o ódio e a intolerância estão espalhadas no seio das comunidades como um cancro, que tudo corrói e faz apodrecer.
A propósito disto, vou contar-vos uma história. Um autocarro vinha de Manatuto com passageiros. Ao chegar a Díli encontrou uma barreira na estrada feita por jovens de loromonu que perguntaram ameaçadoramente se traziam algum “Irak”. As pessoas entreolharam-se receosas, e por fim um velhinho trémulo respondeu «Não, filho. Não nos façam mal que aqui somos todos “milisi” ».
Contaram-me a história como verdadeira, mas não sei se o é realmente. Porém, para quem não mora em Timor e não acompanhou o crescer do ódio nestes últimos meses, isto requer algumas explicações. Os soldados peticionários que acabaram por ser expulsos das FDTL consideravam-se vítimas de discriminação e diziam que por serem do ocidente (loromonu) lhes chamavam “milícias” ou “filhos de milícias”. É pena que tal questão tenha surgido, porque as FDTL deviam ser um dos garantes mais firmes da unidade nacional e da consciência patriótica. Além de que há que respeitar a memória de toda a gente de loromonu que morreu em massacres perpetrados pelas milícias, como em Liquiçá e em Suai, por exemplo. O sangue das vítimas da ocupação correu por todo o país. Por outro lado, nos cartazes das manifestações anti-Mari Alkatiri abundavam as mensagens racistas e de intolerância religiosa, demonizando o ex-Primeiro Ministro por a sua família ser proveniente do Iémen, e fazendo corresponder um nome árabe e religião muçulmana a ligações com a Al-Qaeda, Bin Laden e terroristas do Iraque. Uma interpretação simplória dos acontecimentos que prevalece entre muito povo do ocidente (loromonu) considera que as pessoas do leste (lorosa’e) são apoiantes de Mari Alkatiri (enquanto muitos deles próprios consideram os peticionários, e Alfredo Reinaldo e Rai-Loos como heróis), daí que lhes façam estender os epítetos que usam para o ex-Primeiro Ministro. Nalguns ataques feitos em Díli por jovens vândalos de ocidente a casas de famílias de leste, ouvi pessoalmente os delinquentes gritarem coisas como “komunista”, “Irak”, “terrorista”.
É caso para perguntar: para quando uma aposta séria na educação para a tolerância em todas as instituições de Timor ligadas ao ensino?

Díli, 12 de Agosto de 2006

terça-feira, agosto 08, 2006

GNR continua o bom trabalho

Esta noite houve problemas em frente a minha casa. Apareceram imediatamente as forcas internacionais, desta vez em colaboracao, GNR, australianos e malaios. Da-me algum conforto saber que ha quem, desempenhando um trabalho arriscado, zela pela seguranca dos cidadaos. A GNR prima pelo profissionalismo, esta aqui a pedido das autoridades timorenses legitimas para ajudar a manter A LEI E A ORDEM. Nao esta aqui para ajudar nenhuma corrente politica (nem os pro nem os contra) e nao distingue entre "bandidos bons" e "bandidos maus" nem entre "bandidos do nosso lado" e "bandidos do lado deles". Ainda no Domingo telefonamos para uma amiga nossa (natural de Baucau) para saber se estava tudo bem porque havia problemas no bairro dela, e ela atendeu em panico porque tinha bandidos bestas quadradas a atacaram-lhe a casa, mas logo a seguir disse com alivio "Espera, a GNR ja esta aqui a chegar!". A tarde telefonamos-lhe outra vez e ja estava em Baucau com familiares, tinha tido que fugir mais uma vez com medo que houvesse novos ataques. A rapariga e uma estudante da UNTL, que costuma trabalhar bastante com as freiras de uma ordem religiosa no apoio social que estas levam a cabo, ou seja, uma cidada que nada tem a ver com politica, nem com armas, nem com nada que possa fazer compreender - ainda que nao justificar - que os delinquentes piromanos a escolhessem como alvo. Os cidadaos amantes da paz ficam muito contentes por saber que a GNR esta neste momento por ai pela cidade a fazer as suas patrulhas, e natural que os criminosos fiquem desassossegados.

domingo, agosto 06, 2006

Os cães ladram mas a caravana passa

Fui acusado num blog de ser neo-colonialista e adversário do poder popular por causa desta minha frase, aí citada: “Aqueles que não vêem uma única coisa positiva na experiência colonial deverão considerar a colonização de Timor Oriental pelos portugueses como exemplar, já que primou pela ausência e pela pouca interferência nas estruturas sociais e culturais timorenses.” No mesmo blog “acusavam-me” ainda de ser um teórico da formação de elites. Analisemos então estas “acusações”, num espírito construtivo para ajudar alguns espíritos mais confundidos a verem a luz.
Quando se debate o colonialismo aparecem frequentemente os zelotes convencidos de que são donos da verdade, fanáticos dispostos a passar por cima de todos os factos que dificultem a adequação das suas teorias e grelhas de análise. Há uns de um lado a defender o nacionalismo serôdio das potências coloniais e a sua missão civilizadora atribuída directamente por Deus e “o fardo do homem branco”, e há os que estão do outro lado e que defendem a pureza igualitária imaculada dos povos oprimidos e a sua cultura superior própria de um Éden onde não havia injustiça antes da chegada do pérfido europeu. Estes são os teóricos d”o remorso do homem branco”, como explica Pascal Bruckner.
Vejamos o que dizem sobre esta questão dois académicos prestigiados da área dos estudos timorenses, Geoffrey Stephen Hull, Ph.D, da University of Western Sydney, e Adérito José Guterres Correia, M.A., da Universidade Nacional Timor Lorosa’e e sub-director do Instituto Nacional de Linguística, num livro que ambos escreveram e que recomendo a todos os cooperantes que trabalham com seriedade em Timor ou por Timor:

“Nu'udar ita hatene, prosesu istóriku ida-ne'ebé ita bolu naran kolonializmu iha aspetu barak. Ema polítiku sira temi beibeik kona-ba aspetu aat ka negativu kolonializmu nian, n.e. nasaun ida hadau nasaun seluk, hanehan populasaun mahorik hodi susu rain ne'e nia bokur no rikusoin tomak. Maibé ema matenek sira rekoñese mós kolonializmu nia aspetu di'ak ka pozitivu oioin, liuliu troka kulturál. Kontaktu ho ema raiseluk sira fó mós ba ema rai-na'in sira leet atu aprende buat barak, la'ós de'it hadi'a sira-nia teknolojia, maibé mós leet atu haluan no haburas sira-nia matenek.
Liuhosi kolonializmu portugés iha Timór, hanesan kolonializmu olandés iha rai-Indonézia, ema mahorik sira iha Nusa-Lubun Malaiu tama ba kontaktu ho kultura rai-Europa nian no mós ho matenek internasionál. Lia-tetun no lia-malaiu simu hosi lia-portugés ka lia-olandés termu tékniku, abstratu no modernu rihun ba rihun. Tan ne'e, lia-malaiu no lia-tetun hetan sorte atubele fahe lisuk rikusoin intelektuál boot ne'ebé naklekar hosi rai-Europa ba mundu tomak.
” (página 95)

O livro chama-se “Kursu Gramátika Tetun – Ba Profesór, Tradutór, Jornalista no Estudante-Universidade Sira” e foi publicado em Díli, em 2005, pelo Instituto Nacional de Linguística (sairam duas edições, estou a citar a que tem prefácio do então Primeiro-Ministro, Dr. Mari Alkatiri).
Vou traduzir o excerto, para aqueles malais teóricos do poder popular que em Timor só falam com as elites e cujo contacto com o povo se limita a “Mana, kafé ida, mas tem que ser curto, escaldado e bem tirado!”.

“Como sabemos, o processo histórico a que chamamos colonialismo tem muitos aspectos. Os políticos mencionam muitas vezes os aspectos maus ou negativos do colonialismo, como a ocupação de uma nação por outra, e o espezinhamento dos seus habitantes para sugar todos os recursos e riquezas dessa terra. Mas as pessoas inteligentes também reconhecem aspectos bons ou positivos do colonialismo, principalmente ao nível das trocas culturais. Os contactos com gente de outras terras permitiram também às populações autóctones aprenderem muitas coisas, não apenas melhorando a sua tecnologia, mas dando-lhes também oportunidade de alargar os seus horizontes intelectuais e culturais.
Através do colonialismo português em Timor, bem como do colonialismo holandês na Indonésia, os habitantes do Arquipélago Malaio entraram em contacto com a cultura europeia e com a ciência internacional. A língua tétum e a língua malaia receberam do português e do holandês milhares de termos técnicos, abstractos e modernos. Por isso, o malaio e o tétum tiveram sorte em poderam partilhar riquezas intelectuais importantes que se espalharam da Europa para o mundo inteiro.
” [o sublinhado é meu].

Em relação ao outro assunto, a ideia de ter algumas escolas de qualidade para formar elites não é obviamente minha, é muito antiga. Penso que a educação devia chegar a todos, mas não construo castelos no ar, porque vivo no Timor real. Ainda anteontem em Liquiçá um professor do ensino pré-secundário (7º ao 9º ano) me dizia que não tinham professores suficientes na escola dele para ensinar em português (apesar de serem essas as instruções oficiais) e que os poucos que tinha havido eram de lorosa’e e tinham fugido para as suas regiões de origem com medo de ataques. De resto, a Dona “margarida” [a tal senhora que me fez as acusações], se morar agora em Díli, ou vier a morar, vai pôr os seus filhos na Escola Portuguesa (para elites) ou continuará adepta de uma educação igual para toda a gente e de maneira coerente matriculará as suas crianças numa escola como a 28 de Novembro? E dou o exemplo da Escola 28 de Novembro por duas razões: 1) tem um nome revolucionário; 2) os seus filhos poderão talvez, com sorte, vir a ter a oportunidade de ver as massas populares em acção, e participar até nos acontecimentos, já que essa escola tem no seu palmarés ter sido o ponto de partida dos motins infanto-juvenis de 4 de Dezembro de 2002. Agora sem ironia, não há nada que distinga especialmente esta escola, e os jovens delinquentes pirómanos poderiam ter surgido de outra qualquer, como mostra a última vaga de incêndios nestes meses recentes. Timor tem uma percentagem muitíssimo grande da população constituída por crianças e jovens, que na maioria vão para a escola sem outra perspectiva que não seja vir a conseguir um “padrinho” que arranje um lugar na função pública ou então um emprego como “segurança”, eufemismo local para indivíduos contratados para dormir em frente à porta dos malais e endinheirados. Quase não há sector privado, faltam cá ainda “capitalistas”, “burgueses” e outros “inimigos das classes populares” que possam finalmente dinamizar a economia e arranjar mercado de trabalho para esta malta toda, recrutando mão-de-obra usando como critério o mérito individual do candidato. Há demasiados jovens cuja única forma de sobressair perante os seus pares é “armarem-se em galo de combate”.
Existem por outro lado muitos malais internacionalistas que ganham muito, compram nos supermercados produtos importados (até a hortaliça que comem vem da Austrália), mandam a maior do dinheiro que ganham para as suas contas bancárias nos países de origem, e são paladinos do poder popular e do anti-neo-colonialismo!
O corpo docente das escolas timorenses tem pouca formação, há grande falta de livros, a maior parte das pessoas fala ou compreende pelo menos algum português mas não o suficiente para ler nessa língua, os hábitos de leitura são de resto quase inexistentes, em qualquer idioma... O aluno médio termina a escola secundária com uma deficiente preparação de base que não lhe permite frequentar as universidades portuguesas, por exemplo. Por isso é que me parece não apenas importante, mas crucial, para o futuro do país que surjam algumas escolas de qualidade superior para a formação dos quadros que irão tomar conta do país daqui por uns anos. Neste momento há demasiadas instituições e estruturas do Estado que dependem ainda do trabalho de assessores internacionais para funcionarem, se não tivermos algumas escolas de excelência estaremos pior daqui por vinte anos.
Para as pessoas que andam à procura de cartões partidários para decidir se uma ideia é válida ou não, permito-me invocar aqui uma personalidade que certamente não irão atacar. Conheci na Guiné-Bissau quadros guineenses que deviam a sua educação e o seu sucesso como intelectuais aos esforços de Amílcar Cabral, que, há mais de três décadas, andava às vezes pelas tabancas da Guiné a procurar crianças com melhores resultados escolares para pedir aos pais delas que o deixassem mandá-las para uma escola-piloto numa base do seu movimento na Guiné-Conacri, para serem formadas e poderem servir no futuro o seu país. Alguns desses quadros eram provenientes de famílias muito humildes de camponeses ou vaqueiros (os seus irmãos continuam ainda a viver nas tabancas dos antepassados) e nunca teriam podido explorar todo o seu potencial se não tivessem tido a oportunidade de entrar numa escola de qualidade.
Não vão ser as massas de camponeses analfabetos que irão tomar conta das universidades, dos ministérios, dos bancos, das empresas, das companhias de telecomunicações, electricidade, água... Também não vão poder ser muitos dos alunos que actualmente chegam ao ensino superior em Timor. Há que deixar de ter medo das palavras, o país precisa de elites, de indivíduos bem formados – por muito que isso seja difícil de perceber para uns quantos líricos teóricos do poder das massas populares que andam por aí. No romance “Mayombe”, do escritor angolano Pepetela, há um personagem, chamado Mundo Novo, que também defende esse tipo de ideias. Diz ele:

“(...) Como se fosse possível fazer-se uma Revolução só com homens interesseiros, egoístas! Eu não sou egoísta, o marxismo-leninismo mostrou-me que o homem como indivíduo não é nada, só as massas constroem a história. Se fosse egoísta, agora estaria na Europa, como tantos outros, trabalhando e ganhando bem. Porque vim lutar? Porque sou desinteressado. Os operários e os camponeses são desinteressados, são a vanguarda do povo, vanguarda pura, que não transporta com ela o pecado original da burguesia de que os intelectuais só muito dificilmente se podem libertar. Eu libertei-me, graças ao marxismo.(...)”.

Na época os “intelectuais revolucionários desinteressados” tinham que abdicar dos empregos bem pagos na Europa, felizmente agora para os “malais desinteressados adeptos do poder das massas” existem ajudas de custo, e bar do Hotel Timor, e salários milionários na ONU ou na cooperação bilateral, e viagens a Auckland, Hong Kong, Bali, etc... Eu ganho mais do que a maior parte dos timorenses (e menos do que a grande maioria dos malais), mas não sou hipócrita. Enfim, na sequência das reflexões e debates no livro há um outro personagem, Sem Medo, que mais à frente diz:

“(...) É que, nos nossos países, tudo repousa num núcleo restrito, porque há falta de quadros, por vezes num só homem. Como contestar no interior dum grupo restrito? Porque é demagogia dizer que o proletariado tomará o poder. Quem toma o poder é um pequeno grupo de homens, na melhor das hipóteses, representando o proletariado ou querendo representá-lo. A mentira começa quando se diz que o proletariado tomou o poder. Para fazer parte da equipa dirigente, é preciso ter uma razoável formação política e cultural. O operário que a isso acede passou muitos anos ou na organização ou estudando. Deixa de ser proletário, é um intelectual. Mas nós todos temos medo de chamar as coisas pelos seus nomes e, sobretudo, esse nome de intelectual. Tu, Comissário, és um camponês? Porque o teu pai foi camponês, tu és camponês? Estudaste um pouco, leste muito, há anos que fazes um trabalho político, és um camponês? Não, és um intelectual. Negá-lo é demagogia, é populismo. (...) Mas começa-se a mentir ao povo, o qual bem vê que não controla nada o Partido nem o Estado e é o princípio da desconfiança, à qual se sucederá a desmobilização. (...) Como todos os do teu grupo, pensas que se não pode dizer a verdade ao povo, senão ele desmobiliza-se.(...)”

Sou da opinião que – enquanto o português não é dominado por muitos alunos – o romance de Pepetela “A geração da utopia” devia ser traduzido para tétum e tornado leitura obrigatória nas escolas todas do país.