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quinta-feira, maio 02, 2013

Pequenas histórias muito simples para crianças muito pequenas



Nos últimos anos tem aparecido em Timor-Leste uma profusão de materiais básicos escritos em tétum e em várias outras línguas locais, sob a forma de cartilhas ou pequenas histórias muito simples para crianças muito pequenas. A escassez de materiais para crianças maiores deve-se provavelmente ao facto de estes serem mais difíceis de criar. Sejamos sinceros, qualquer pessoa pode tirar meia dúzia de fotografias, ou fazer alguns desenhos, e colocar-lhe umas legendas por baixo, em tétum ou noutra língua, e fica uma cartilha feita. Claro que há uma grande diferença entre uma dessas cartilhas e um manual escolar para a fase de alfabetização concebido com critérios pedagogicamente adequados. Da mesma forma têm aparecido vários livrinhos com histórias simples, normalmente algumas frases acompanhadas por desenhos, que podem ser lidos a crianças até aos 4-5 anos pelos pais ou irmãos mais velhos, e podem ser lidos pelas próprias crianças por volta dos seis anos de idade. São úteis e estão a preencher uma lacuna que existe em Timor-Leste, mas deveriam ser acompanhados de materiais mais ambiciosos para outras faixas etárias.
Um exemplo deste tipo de histórias é o livrinho *“Avoo Leto - Tau foer ba foer fatin”, em que um avô ensina ao neto a importância de não atirar lixo para o chão (o que é um hábito extremamente generalizado em Timor-Leste). Um livro de intenção pedagógica, que cumpre o que se propõe, com uns desenhos bonitos, mas que infelizmente não pode ser distribuído nas escolas devido à quantidade de erros ortográficos que tem.


sábado, abril 13, 2013

A nova literatura de Timor-Leste começa a desabrochar



Durante muitos anos a literatura (não a oratura) de Timor-Leste era essencialmente em português. Desde há alguns anos têm começado a aparecer novas obras e autores que se exprimem em tétum. Quando eu era uma criança, uma professora de português que tive – provavelmente satisfeita pelo facto de já então eu ser um leitor voraz – escreveu num caderno meu a frase “Um país faz-se com homens e com livros.”, de Monteiro Lobato (mas que eu durante anos pensei que fosse de Mário Sacramento, um democrata ilhavense durante a longa noite do fascismo em Portugal). Foi uma frase que me impressionou muito, e que considero ainda hoje um dos meus motes. Timor-Leste é para mim a minha terra adoptiva e creio que ninguém pode negar que o século XX viu nascer neste país homens e mulheres de uma grandeza excepcional, mas em grande medida ainda faltam os livros. Há alguns, com destaque para as obras do Takas (Luís Cardoso), mas sendo escritos em português, que é uma das línguas dos timorenses mas que muitos ainda não dominam, têm uma penetração reduzida na sociedade. O aparecimento recente de uma literatura tetumófona permite-nos ter esperança de que as coisas mudem e que apareça em breve uma geração que lê. E ler em tétum não é nunca um obstáculo a que se venha a ler em português. Ler em tétum na infância pode despertar nos miúdos o bichinho dos livros, e quem fica assim cativado nunca mais vai deixar de querer ler, e quando acabarem de ler os livros em tétum (qualquer leitor pode ler num espaço de tempo relativamente curto TODOS os livros em tétum que existem, infelizmente), e continuarem com ânsia de conhecimento e de emoções, vão ler noutras línguas, começando evidentemente pela portuguesa.
Irei começar a falar aqui de livros com mais frequência, de livros de Timor, livros sobre Timor, e de livros em tétum – originais ou em tradução. Hoje vou começar com uma pequena novela publicada pela ONG Timor Aid em Novembro de 2012 intitulada “Inan ne’ebé iha bosok ualu” [A mãe que disse oito mentiras] do escritor timorense de 17 anos de idade Ariel Mota Alves. A obra obteve um terceiro lugar no concurso literário em tétum organizado anualmente pela Timor Aid e pela Fundação Alola, de que também já cheguei a ser membro do júri. Trata-se de um livrinho com uma história mais ou menos linear, de pendor moralista, mas bastante eficaz na transmissão da sua mensagem. As personagens principais são Bisoi e o seu filho Atoi, e a história gira em torno dos desafios que enfrentam ao longo das respectivas vidas. Mãe e filho são extremamente pobres, mas o sacrifício abnegado da mãe vai criando oportunidades onde elas não existiam para dar uma vida melhor ao seu menino. Este por seu lado vai aceitando e beneficiando com isso, e acrescentando o seu esforço ao da sua progenitora, mas terá que enfrentar também os seus próprios dilemas.
Um livro que, não obstante o enredo pueril, devia ser amplamente lido pelas crianças e jovens timorenses, como uma chamada de atenção para os fazer pensar no que os seus pais muitas vezes fazem por eles, e também como uma homenagem às mulheres deste país. Conheci muitas timorenses com a fibra desta Bisoi ao longo de mais de uma década em Timor. A literatura não tem que tentar mudar o mundo, mas pode tentar mudar o mundo. Esta obra, de um escritor tão jovem, tenta fazer o seu quinhão.


quinta-feira, julho 22, 2010

A tradução d”O Principezinho” para tétum – andando devagarinho em direcção a uma fonte?

«Moi, (…), si j’avais cinquante-trois minutes à dépenser, je marcherais tout doucement vers une fontaine…» - diz-nos O Principezinho. Todos temos de vez em quando a sorte de fazer viagens em que a caminhada é tão interessante como o destino. Para mim, a tradução de “Le Petit Prince” para tétum foi uma dessas viagens. Tive a ideia de traduzir este livro logo à chegada a Timor, em 2001. Parecia-me uma tragédia mais na vida dos timorenses que não houvesse livros para ler nas suas línguas, e que melhor maneira de começar a resolver esse problema do que com a bela história de Saint-Exupéry? Comecei então a tradução com a Triana Corte-Real de Oliveira, uma jovem timorense que tinha interrompido os estudos de medicina na Indonésia devido aos acontecimentos de 1999. Entretanto falei com o Rui Correia, Presidente de uma ONGD de que eu era membro há anos, a SUL-Associação de Cooperação para o Desenvolvimento, sobre a possibilidade desta ONGD publicar a tradução em tétum. A reacção dele foi de entusiasmo imediato, “O Principezinho” também tinha tocado a sua vida, como a de tantos nós, e começou imediatamente a procurar apoios. Conseguiu resposta positiva de algumas câmaras municipais em Portugal e da Fundação Mário Soares. Entretanto eu lembrei-me da possibilidade de a SUL procurar estabelecer uma parceria para uma edição conjunta com a Timor Aid, uma ONG timorense que era pioneira na publicação de livros em tétum e que já tinha sua própria rede de distribuição, e, feitos os contactos, a Timor Aid concordou. O Rui Correia contactou a Gallimard, que detém os direitos de autor, e conseguiu obter a autorização para a publicação. O processo sofreu um contratempo com a partida para Yogyakarta, para continuar os estudos para médica, da minha co-tradutora. Os trabalhos ficaram parados durante um tempo, e foram depois retomados com uma nova colega de trabalho, a Emília Almeida de Araújo, que está actualmente a terminar um bacharelato em Informática na Universidade Nacional de Timor Lorosa’e. Foi com ela que consegui terminar a tradução. Durante o labor de tradutores, quer na primeira fase quer na segunda, usámos constantemente o texto original em francês, mas sempre comparando com as soluções de tradução de três versões diferentes publicadas por editoras portuguesas, e às vezes com uma tradução em inglês também. No entanto, mesmo após concluída a tradução, contratempos diversos levaram a que o processo tenha demorado ainda algum tempo a chegar ao seu termo. Devo agradecer também os esforços e perseverança durante anos da Rosália Madeira Soares da Timor Aid. Foi uma caminhada longa, mas valeu a pena. O Liurai-Oan Ki’ik chegou finalmente a Timor-Leste e agora anda por aí. Pode ser que um dia destes o seu caminho se cruze com o do amável leitor…

sexta-feira, maio 21, 2010

A língua das borboletas em tétum

Parece que já foi publicada a edição bilingue em tétum e português do conto do escritor galego Manuel Rivas "A língua das borboletas", com ilustrações de Miguelanxo Prado. A iniciativa foi da Asociación Luso-Galega de Antropoloxía Aplicada (ALGA).

Ainda não vi o livro cá em Timor, mas aguardo com expectativa a sua distribuição, porque este belíssimo conto faz parte das minhas recordações mais gratas como professor neste país. Durante anos usei a tradução portuguesa nas aulas que leccionava na Universidade Nacional de Timor Lorosa'e, e tive a oportunidade de ver como muitos alunos, cuja infância tinha decorrido durante a ocupação indonésia, se reviam nas angústias, medos e dilemas do pequeno Pardal.

Parabéns à ALGA e ao Ministério da Educação timorense, que pelos vistos vai usar o conto no sistema de ensino nacional.

quinta-feira, julho 16, 2009

Após uma década de apoio à reintrodução da língua portuguesa em Timor

Isto são as fotografias das prateleiras de livros sobre línguas numa das principais livrarias da capital timorense. Temos:
- 1 Dicionário de inglês-indonésio
- 1 Dicionário de indonésio-inglês
- 1 Dicionário de sueco-indonésio
- 2 Dicionários distintos de alemão-indonésio,
- 1 Dicionário de indonésio-alemão
- 1 Dicionário de alemão-indonésio e indonésio-alemão
- 1 Dicionário de italiano-indonésio
- 1 Dicionário de tétum-indonésio e indonésio-tétum (publicado pela Gramedia – que é uma livraria/editora do tipo Fnac na Indonésia - de acordo com as normas oficiais em vigor para o tétum)
- 1 Dicionário de coreano-indonésio e indonésio-coreano
- 1 Dicionário de francês-indonésio e indonésio-francês
- 1 Dicionários de francês-indonésio,
- 1 Dicionário de indonésio-espanhol
- 1 Dicionário de espanhol-indonésio
- diversos dicionários indonésios de termos técnicos de biologia, química, física, medicina, economia, sociologia, política moderna, expressões idiomáticas, etc.

Não existem no mercado dicionários de indonésio-português, nem de português-indonésio, nem dicionários de português-tétum, nem dicionários de tétum(contemporâneo e oficial)-português. Após uma década de projectos de apoio à reintrodução da língua portuguesa em Timor, é impressão minha ou falta aqui alguma coisa?

quinta-feira, abril 24, 2008

Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor

No dia 23 de Abril comemorou-se o Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor. A data foi escolhida pela UNESCO, mas inspira-se em tradições catalãs: