segunda-feira, julho 07, 2008

Abrandamento ainda

Estive quase uma semana sem Internet e ando, ainda, cheio de coisas para fazer. Aos amigos que me mandarem e-mails a que não respondi nos últimos tempos, tenham lá um bocadinho de paciência que dentro de dias começarei a pôr a correspondência em ordem.

Burmese Days - 1934

There iss nothing I can do. Simply I must wait and hope that my prestige will carry me through. In affairs like this, where a native official’s reputation iss at stake, there iss no question of proof, of evidence. All depends upon one’s standing with the Europeans. If my standing iss good, they will not believe it of me; if bad, they will believe it. Prestige iss all.

George ORWELL – Burmese Days. London, Penguin Books, 2002, pág. 154 [1ªed. 1934]

Nos dias de hoje isto ainda seria verdade? Ou as linhas de separação traçadas pelos poderosos passam agora por outras fronteiras que não a etnia?

Caetano Veloso canta no “Haiti”:
Ou quase brancos quase pretos de tão pobres…


E o doutor Daniel da Barca, no belo romance do galego Manuel Rivas “O Lapis do Carpinteiro”, explica-nos:

«O único bo que teñen as fronteiras son os pasos clandestinos. É tremendo o que pode facer unha liña imaxinaria trazada un día no leito por un rei chocho ou debuxada na mesa por poderosos como quen xoga un poker. (…) Pero, por sorte, esta fronteira irá esvaéndose no seu propio absurdo. As fronteiras de verdade son aquelas que manteñen aos pobres apartados do pastel.» [sublinhado meu]

Manuel RIVAS – O lapis do carpinteiro, 6ªed. Vigo (Galiza), Xerais, 1998, p. 12-13

De bacalhoeiros e outros plebeus

Do conto “Charo A’Loura” (um dos meus preferidos do autor):

«Bem, pois neste filme, Capitães intrépidos, Spencer Tracy fazia de pescador na Terra Nova. (…) E aí entre Spencer Tracy, que no filme se chamava Manuel e era português. Pois bem, esse Manuel, pouco a pouco, vai fazendo o rapaz entrar na razão. Com poucas palavras fá-lo descobrir um mundo desconhecido. O verdadeiro sentido da coragem e do trabalho. Aqueles homens, rudes e sem estudos, reaparecem aos olhos do menino como heróis. Manuel era para ele uma espécie de Ulisses que pescava bacalhau (...)»

Manuel RIVAS – Alma, Maldita Alma. Lisboa, Dom Quixote, 2000, p. 59