segunda-feira, setembro 17, 2007

Sobre a língua inglesa

Em Timor fala-se muito sobre a língua inglesa. Mas o que é afinal o inglês? No sítio Essentialist Explanations encontramos uma longa lista de definições sobre este e outros idiomas.
Eis algumas:
English is essentially Low German plus even lower French minus any sense of culture.
--Danny Weir
English is essentially bad Dutch with outrageously pronounced French and Latin vocabulary.
--Eugene Holman

English is essentially Norse as spoken by a gang of French thugs.
--Benct Philip Jonsson

English is essentially the devil's attempt to reverse the curse of Babel by making a world language from the most difficult language in the world.
--qaya
English is essentially the language of people who think that everybody else speaks their language. French is essentially the language of people who think that everybody else should speak theirs.
--Peter Bleackley
English is essentially a language that uses vowels no other language would accept.
--Luís Henrique

English is essentially degenerate Welsh steeped in Latin, Dutch and Franco-Scandinavian Norman.
--Mike Taylor

English is essentially German spoken in the mouth rather than the throat.
--jmallett
English is what you get from Normans trying to pick up Saxon girls.
--Bryan Maloney

Written English is essentially a variety of Old French invented by somebody who spoke only Saxon and read only Latin.
--Basilius
English is essentially French converted to 7-bit ASCII.
--Christophe Pierret [for Alain LaBonté]
English is essentially a whore.
--Lars Hendrik Mathiesen

English is essentially a French menu stuttered by a fish-and-chips dealer.
--Kala Tunu
English is essentially a West Germanic language that's trying very hard to look like a Romance one.
--Andreas Johansson

English is essentially language's equivalent to a transvestite.
--Andreas Johansson

Modern English read phonetically is essentially Middle English as no Middle Englishman would have spoken it.
--Jake X
According to generative linguists, all languages are essentially English.
--Arnt Richard Johansen

Inglish iz issenshali a langwidje dhat, wen rittun fonetkli, iz ilejibul tu netiv spikerz.
--Peter Bleackley
English is essentially all exceptions and no rules.
--Jonathan Bettencourt
English is essentially a language in which up has forty-seven dictionary definitions, but antidisestablishmentarianism is considered a "hard word."
--John M. Ford
English is essentially a tale told by an extremely clever and inventive idiot.
--John M. Ford
Australian English is essentially an Irishman bitten by a Tasmanian Devil while chasing a kangaroo.
--Fumiko Amaya
Australian English is essentially Cockney without the refinement.
--Öjevind Lång
King James English is essentially the language that many Americans think Jesus spoke. "If English was good enough for Jesus, it's good enough for me!"
--Dan Seriff
Broken English is the language of international trade.
--John Naisbitt (via Daniel E. Huston)
Sobre outras línguas:
Conversely, Indonesian is essentially Malay as spoken by Dutchmen.
--Amber Adams
Chinese is essentially just like any other language, except that there's no tense, gender, conjugation, grammar, or logic, and all the words sound the same.
--Jonathan Walton
A lista é muito mais longa, e pode ser consultada aqui.

sexta-feira, setembro 07, 2007

Novo contador

Acabei de colocar aqui um contador, para ver de onde são os visitantes...

segunda-feira, agosto 13, 2007

quinta-feira, agosto 09, 2007

Língua hakka

A short introduction to the Hakka language as spoken by the Chinese minority in East Timor

Uma lista de frases em hakka, língua materna dos chineses de Timor-Leste

segunda-feira, julho 30, 2007

Saudades


Em Díli as crianças brincam nas ruas enquanto cai a chuva quente da monção. Aqui em Portugal a chuva é fria e mais triste...




















quarta-feira, maio 09, 2007

Ou às vezes a tradição ainda é o que era...



(Bali - Foto de autor desconhecido)

Fotos abaixo: Recentemente (2003) num templo da religião hindu (maioritária em Báli) num lugar simpático chamado Ubud. Os balineses levam a cabo as suas cerimónias religiosas em templos onde por vezes há estátuas como estas. Parece haver alguma diferença em relação ao omnipresente discurso sobre o pecado na tradição judaico-cristã...

sexta-feira, maio 04, 2007

Quando for grande quero ser professor de inglês

Anúncio publicado hoje (4 de Maio 07) no jornal diário mais lido em Timor (o STL).


Ganham bem estes professores australianos (US$50000-60000 por um contrato de um ano). Alguns portugueses que costumam espernear muito com os ataques à língua portuguesa em Timor irão seguramente começar agora a criticar o comandante das FDTL, Taur Matan Ruak, por permitir esta concorrência desleal contra o idioma de Camões.
E talvez até façam “uma vaquinha”, ou subscrição pública, para aumentar o salário dos professores portugueses...

A tradição já não é o que era...



Este post é motivado por um comentário de um leitor no post anterior.


Como era a tradição balinesa...



















Como era a tradição timorense....






A vergonha do corpo é uma tradição ocidental trazida para Timor e para Báli pelas estruturas dos poderes coloniais.
Mesmo entre os javaneses, maioritariamente muçulmanos, a disseminação do uso do jilbab é um fenómeno muito recente (pós queda do regime de Suharto), e um desvio em relação ao islamismo sincrético e moderado tradicionalmente aí praticado.

segunda-feira, abril 23, 2007

Isto é tudo uma questão de imagem

Báli vende uma imagem de paz e amor, harmonia e graciosidade que seduz milhares de turistas do mundo inteiro. Há na ilha uma cultura de bem receber que se manifesta por exemplo na limpeza e elegância simples que existe habitualmente mesmo nos warung mais modestos, e na forma como as pessoas são tolerantes com hábitos diferentes dos seus, o que permite que australianas aos montes circulem pelas ruas de Kuta em biquíni sem que ninguém lhes atire pedras.




Em Timor há ainda muito trabalho a fazer, quer na educação para a tolerância dentro das comunidades, quer ao nível do funcionamento das estruturas do Estado. O turista que se afoite a comprar um bilhete da Merpati para vir visitar “a mais jovem nação do mundo” será recebido no interior do Aeroporto Internacional Nicolau Lobato por este quarto de banho deprimente, entupido e com o autoclismo avariado. Será muito difícil manter um quarto de banho decente a funcionar?

quarta-feira, abril 18, 2007

Funcao publica

Se entrarmos num Ministerio em Timor e formos espreitar o que estao a fazer os funcionarios nos seus computadores ha fortes probabilidades de haver varios a jogar "solitaire".


Se for em Portugal ou no Brasil... a mesma coisa!



Ainda bem que em Portugal o primeiro-ministro Jose Socrates anda a por alguns destes "servidores do publico" finalmente na linha...

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Textos antigos

Editoriais do Semanário

Em 2004, durante cerca de um mês e meio assumi em Díli as funções de Director provisório do jornal de língua portuguesa Semanário. O Director fundador, António Veladas, ia ausentar-se do país em férias e propôs-me esse desafio, que aceitei. Por razões que não vêm ao caso, ele acabou por se ver impedido de reassumir a tarefa no momento que havíamos inicialmente combinado, e ficou depois no seu lugar outra pessoa. Os pequenos textos que se seguem são os editoriais que escrevi durante esse período:

Quando o António Veladas me propôs que assumisse as funções de director do Semanário, durante as férias dele, hesitei. São muitos os meus afazeres e a última coisa de que preciso é de ainda mais trabalho. Mas acabei por aceitar, por uma questão de coerência com as posições que tenho defendido. Claro que teria sido muito mais fácil declinar o convite e ficar depois sentado numa esplanada a beber umas cervejas frescas e a dizer mal do trabalho de quem faz alguma coisa, como é hábito de muita gente da nossa praça. No entanto, é muito mais interessante pôr mãos à obra e tentar fazer algo que se veja.
O António teve ainda tempo de deixar preparada a maior parte deste jornal, antes de partir, de forma que a transição se torna mais suave. O jornal da próxima semana será a prova de fogo da equipa que cá ficou a labutar. A linha editorial do jornal irá naturalmente manter-se, com algumas pequenas alterações temporárias, nomeadamente no que se refere à ausência de colaboradores habituais, por motivo de férias. Teremos vários dossiês especiais sobre temas da actualidade nacional, e daremos também destaque à cultura.
O Semanário é um jornal timorense em língua portuguesa, vocacionado essencialmente para o público timorense, no qual trabalham timorenses e malais. Não é um jornal para expatriados. Cumpre uma função de suma importância, enquanto órgão de comunicação social em português, num panorama em que a maior parte dos jornais parece dar mais importância à língua dos indonésios do que às línguas oficiais de Timor-Leste, e em que a televisão nacional transmite programas infantis em língua inglesa.
Tentaremos também marcar uma diferença pela forma de relatar os acontecimentos, evitando o sensacionalismo fácil, que só serve para assustar a população. Como aconteceu no início da semana, quando uma manifestação na capital em que estava presente cerca de meia centena de pessoas se viu transformada nas palavras de alguns órgãos de comunicação social no dia seguinte num movimento de quinhentos ex-guerrilheiros.

Semanário [jornal em língua portuguesa publicado em Díli] nº 29, 24 de Julho de 2004


Muitas nações recém-independentes após terem sido colonizadas por outras potências tiveram que se defrontar com um dilema: o que fazer com os seus combatentes da liberdade? Nalguns casos, como por exemplo em países da África lusófona, a opção foi frequentemente dar-lhes lugares no aparelho de Estado, transformando bons comandantes guerrilheiros em maus ministros, secretários de Estado e directores-gerais. Timor-Leste parece ter aprendido alguma coisa com os erros dos outros, fugindo à tentação de premiar o mérito dos antigos comandantes e combatentes das Falintil com lugares nas estruturas do Governo, a não ser que os próprios demonstrem capacidades próprias para a função. Mas isto faz surgir um outro problema: como premiar então homens que abdicaram de tudo - da vida familiar, do aconchego de um lar e de um tecto sobre as suas cabeças, de uma vida de relativa segurança com salário ao fim do mês - para se dedicarem ao ideal da independência da pátria e da liberdade para o seu povo?
A entrada para as FDTL, já não um exército guerrilheiro de libertação, mas uma tropa moderna com outro tipo de objectivos, foi condicionada a um processo de selecção que deixou de fora alguns dos ex-combatentes do tempo da ocupação. Para esses, espera-se que o novo Estado saiba encontrar formas simbólicas, mas significativas, de lhes demonstrar que não foram esquecidos e que a Pátria tem consciência do que lhes deve. Não são tantos como às vezes se diz, e há comissões que estão a reunir os dados necessários para saber realmente quem são. Homens como Xanana Gusmão, Taur Matan Ruak ou Lu Olo conhecem-nos, andaram com eles no mato.
Há quem diga que a UIR [Unidade de Intervenção Rápida da Polícia] estava ansiosa para testar os equipamentos e que usou força excessiva para afastar os manifestantes do Palácio do Governo na semana passada, tendo em conta que eram poucos e estavam desarmados. É uma opinião discutível, o gás lacrimogéneo dá muito nas vistas mas é altamente eficaz para afastar as pessoas sem ser preciso usar violência.
O que não é discutível é a gravidade das acusações feitas à PNTL de tortura de detidos na sequência da manifestação. Sendo Timor-Leste um Estado de Direito, espera-se agora que, para além dos processos disciplinares na própria instituição, os alegados torturadores sejam julgados em tribunal para averiguar da verdade das acusações. Não é admissível que a PNTL possa usar os métodos de interrogatório que eram habituais por parte das forças de segurança indonésias, na época da ocupação.

Semanário [jornal em língua portuguesa publicado em Díli] nº 30, 31 de Julho de 2004


Regras no trânsito
Ontem à noite (sexta-feira, 6) fui mandado parar numa operação-stop da Polícia ao lado do Edifício ACAIT. Como circulava sem os documentos da motorizada, esta foi apreendida, e terei que pagar uma multa para a reaver. A minha motorizada é uma daquelas em “não-sei-quanta-gésima” mão, que foi sendo revendida de malai para malai ao longo dos últimos anos, e cujos documentos algum dos proprietários perdeu entretanto há muito tempo. Claro que me causa transtorno, mas encarei o percalço pelo lado positivo, isto parece significar que as regras de circulação na estrada estão a ser aplicadas e que Timor-Leste vai deixar de ser o “faroeste”, uma terra sem lei, no que se refere ao trânsito. No momento em que fui mandado parar havia já lá umas vinte motorizadas apreendidas aos seus condutores, e “ainda a noite era uma criança”. Resta mencionar, porque também deste tipo de pormenores se faz a imagem de um Estado, que os agentes da PNTL envolvidos na operação com os quais tive contacto mantiveram sempre uma postura de cortesia e profissionalismo.
Crianças mendigas
Durante séculos nos relatos de viajantes e missionários os timorenses foram descritos como um povo digno, altivo, que se recusava à mendicidade. Em 1999, os jornalistas aqui chegados para cobrir a chegada da Interfet ficaram assombrados com a total destruição da cidade. Num contexto em que faltavam quase todos os bens essenciais, os repórteres escreviam para os seus jornais e contavam nas suas rádios e televisões que os timorenses, apesar das dificuldades, não pediam esmola. Falavam com admiração sobre um povo orgulhoso. Cinco anos de presença dos “internacionais” mudaram radicalmente tudo isso, e agora basta passar em frente dos restaurantes onde os malais costumam comer para encontrar dúzias de crianças a mendigar dinheiro. Alguns dizem “Security, security”, como se meninos e meninas daquela idade pudessem proteger os carros ou motorizadas se alguém pretendesse roubá-los. O trabalho infantil é um mal, mas seguramente um mal menor do que a mendicidade infantil. Se uma criança tem que andar a vender isqueiros ou CDs para ajudar no orçamento familiar, pelo menos sempre vai aprendendo o valor do trabalho, e se tiver pais conscientes, será incentivada a aplicar-se nos estudos para poder ter uma vida melhor. As crianças de rua não assumem ainda as proporções de lugares como o Brasil ou Moçambique, mas é melhor que se faça alguma coisa ou estaremos a formar uma geração de pedintes. Se um destes pequenos mendigos conseguir que os malais que pensam estar a ser o bom samaritano lhe dêem por dia uns três dólares ganhará tanto como um funcionário público no fim do mês. Quem é que o convence depois a ir para a escola estudar para ter uma vida diferente?

Semanário [jornal em língua portuguesa publicado em Díli] nº 31, 7 de Agosto de 2004


A sétima edição do guia de viagens Lonely Planet sobre a Indonésia, publicada em Novembro de 2003, diz num texto assinado por um ignorante qualquer chamado Nick Ray (na página 33) que o Primeiro-Ministro Mari Alkatiri escolheu o português para língua oficial e que foi uma má escolha. O senhor que escreveu tal prosa passa por cima das decisões da Assembleia Constituinte democraticamente eleita em eleições organizadas pelas Nações Unidas, ignora as posições sempre oficialmente defendidas pelo CNRT, esquece as declarações de princípio dos partidos políticos deste 1975 até à independência, não tem em conta que o povo timorense elegeu os seus representantes sabendo de antemão que oficializar a língua portuguesa fazia parte do programa dos seus partidos.
Este tipo de declarações incorrectas é corrente em muitos meios de comunicação social, especialmente no mundo anglo-saxónico. Por outro lado, na minha terra costuma dizer-se “os cães ladram, mas a caravana passa”. Não creio que a opinião do senhor Nick Ray seja para levar a sério. Preocupa-me mais a atitude que persiste em certos jovens, que se queixam continuamente de que “o português é muito difícil”. Preocupo-me não pelo facto de eles não aprenderem português – há muitos outros que aprendem e quem fica a perder é quem fica parado – mas pelo que isso mostra da sua atitude perante a vida. Os argumentos deles deixam-me perplexo. Agora há quantidades enormes de livros e dicionários modernos distribuídos por todo o lado em Timor, incomensuravelmente mais do que alguma vez houve no tempo da administração colonial portuguesa. Há professores de nacionalidade portuguesa com cursos superiores de ensino de línguas espalhados pelo território, enquanto na época colonial não havia cá universidade, muitas das professoras do Liceu eram as esposas dos militares aqui colocados, muitas crianças aprendiam a ler e a escrever nas escolas primárias da “psico-social” onde o professor era muitas vezes um militar com a quarta classe que lá ia fazendo o que podia, mas não tinha preparação adequada para a função. Dizem que não falam português em casa; no tempo dos portugueses havia poucas famílias em que a língua de casa fosse a portuguesa. O maior escritor que Timor já produziu, Luís Cardoso, escreve com mestria em português, mas só aprendeu este idioma quando entrou para a escola, como as outras crianças com quem brincava. Conheço aqui muitos timorenses com o quinto ano antigo (equivalente à escola pré-secundária), ou mesmo com a quarta classe, que falam português fluente, apesar de quase não poderem exercitá-lo durante um quarto de século. Conheci um senhor, na época motorista no escritório da Comissão Europeia em Díli, que domina a língua portuguesa e que me contou que tinha aprendido no mato com a Fretilin, nos primeiros anos da ocupação, escrevendo na terra e nas cascas das árvores. Conheço pessoas, jovens e menos jovens, que aprenderam a falar português com correcção desde 1999 até agora. É que já passaram cinco anos. Muitos dos que ficam a protestar que a língua portuguesa é difícil sabem agora o mesmo que sabiam nessa altura. Isso deixa-me confuso: o que esses moços e moças querem dizer é que têm uma capacidade intelectual menor do que a da geração dos pais e avós deles? Ou simplesmente não lhes apetece fazer pela vida, e daqui por uns anos irão fazer manifestações quando os colegas mais diligentes arranjarem emprego e eles não?

Semanário [jornal em língua portuguesa publicado em Díli] nº 32, 14 de Agosto de 2004


Há uma Igreja em Lisboa onde vi uma vez um cartaz colado à entrada que dizia “Deus chama-o mas não através de telemóvel. Por favor desligue o seu ao entrar na Igreja.” Já repararam como o telemóvel passou a ser dono e senhor da vida de muita gente? Eterno intruso, sempre a desconcentrar-nos do trabalho, a acabar com o nosso sossego, a meter-se com a nossa privacidade... Sim, claro que é muito útil, mas deve ser um servo e nunca um senhor. Hoje em dia há pessoas que nunca desligam o seu, vão para reuniões que não devem ser interrompidas de telemóvel ligado, vão para as aulas de telemóvel ligado, até para os exames... E os colegas que sofram enquanto a maldita maquineta toca em acordes agudos uma cantiga qualquer que esteja na moda. E muito poucos utilizadores parecem ter descoberto já que os aparelhos endiabrados têm um comando para os pôr no silêncio de forma a não perturbar ninguém. Depois há aqueles, talvez deva dizer principalmente aquelas, que têm coragem de ficar a namorar pelo telemóvel no lugar de trabalho enquanto o cliente espera à sua frente para ser atendido. E já tentaram manter uma conversa decente com um(a) jovem moderno(a) de aparelho na mão a jogar “Snake” sem parar ou a mandar e receber mensagens “sms” ininterruptamente? Não é coisa para dar cabo dos nervos de um cidadão pacato e pouco dado a emoções fortes?
Acho que está a chegar a altura de eu ir viver para algum lugar como Hatu Builiku. Parece que os telemóveis lá ainda não funcionam...

Semanário [jornal em língua portuguesa publicado em Díli] nº 33, 21 de Agosto de 2004



A Ministra Ana Pessoa está de parabéns por ser a única pessoa que fala regularmente em língua portuguesa na TVTL, para além de alguns discursos de Xanana Gusmão por vezes também neste idioma. Com efeito, não se compreende muito bem porque não há mais presença da língua portuguesa na televisão nacional, sendo esta uma das línguas oficiais do país, a única que está com carácter definitivo já no sistema de ensino (a língua dos indonésios só continua a ser língua veicular nas escolas como medida provisória, e os currículos do tétum ainda estão a ser desenvolvidos) e sendo o idioma em que o Parlamento produz a legislação nacional. Como os responsáveis da televisão parecem achar que falar ou escrever português é pecado, colocam também todas as legendas numa algaraviada macarrónica que pretende passar por tétum, e acaba por nem ser tétum nem português, mutilando inclusivamente com o maior despudor o nome oficial das instituições do Estado, como Ministérios ou Secretarias de Estado (cuja designação é habitualmente em língua portuguesa). Sendo a televisão nacional um serviço público talvez fosse útil se ajudasse os cidadãos a conhecerem o nome correcto das instituições nacionais, em vez de “desajudar”.
Tem sido mencionada por vezes por alguns responsáveis timorenses a possibilidade de se solicitar que a RTP internacional passe a ser reemitida aqui como um segundo canal de televisão disponível vinte e quatro horas por dia, como acontece com a RTP África nos países africanos lusófonos. Isso seria algo de bastante útil, aprender as línguas oficiais do Estado é não apenas um dever patriótico mas também um direito de cidadania, e ter programação disponível em português na televisão é uma ajuda importante para quem está a aprender a língua.
Outra medida bastante produtiva seria pedir à RTP a cedência de programas infantis de qualidade como a Rua Sésamo, para emitir na TVTL em horas adequadas para as crianças poderem ver. Actualmente vejo por vezes programas para as crianças em inglês na televisão, e não duvido que seja muito giro e útil aprender essa língua, mas não creio que seja a prioridade mais urgente para as meninas e meninos que andam a esforçar-se na escola para dominar o português.

Semanário [jornal em língua portuguesa publicado em Díli] nº 34, 28 de Agosto de 2004


Com este número chega ao fim a minha curta passagem pelo Semanário como Director. Foi um desafio interessante, mas chegou a altura de voltar à normalidade. E a normalidade para mim não é dirigir um jornal, não sou jornalista, nem tive nunca pretensões de sê-lo. Sou professor, o que talvez tenha influenciado os assuntos tratados pelo Semanário durante este mês e meio, e os textos escolhidos. É-me naturalmente mais fácil falar do que conheço... Sou professor, e estou cheio de trabalho na Universidade, o que levou a que o meu trabalho voluntário me “tenha saído do corpo”, custou-me pelo menos duas “directas” (noites sem dormir) por semana a trabalhar. Mas não tenho nada que me pôr com lamúrias porque só aceitei porque quis. Continuo de resto a manter a mesma posição de princípio: é muito importante existir um jornal de língua portuguesa em Timor-Leste. O Semanário conseguiu ao longo da sua existência uma posição de relevo na sociedade timorense. A compra de um milhar de exemplares todas as semanas pela Cooperação Portuguesa é garantia de que conseguimos fazer chegar o jornal também aos distritos, já que esses mil jornais são depois distribuídos através dos professores portugueses e dos superintendentes da educação a professores timorenses por todo o país. Mas há muito por fazer ainda, principalmente no que se refere a recursos humanos. É um trabalho monstruoso se concentrado em poucas mãos, os jornalistas não dominam o português e escrevem em tétum ou indonésio, os textos passam depois para tradutores, e finalmente voltam a ser revistos... pelo Director. Se o Director tem outras coisas para fazer tudo isto se torna mais complicado, como o leitor pode verificar neste número. Os jornalistas estão a estudar português, e terão que o dominar, talvez numa fase posterior o jornal possa recrutar mais, ou receber estagiários de cursos que funcionem em língua portuguesa na universidade, mas para agora daria jeito ter alguns voluntários que fizessem tarefas como a revisão de textos em língua portuguesa. E termino como comecei: é melhor pôr mãos à obra do que ficar sentado a dizer mal de quem faz alguma coisa, é melhor acender uma vela do que maldizer a escuridão.
P.S.Já depois de ter escrito este editorial, o António telefonou-me a dizer que tem uma costela partida e vai chegar cerca de uma semana mais tarde do que o previsto. Isso significa que o meu caríssimo leitor vai ter que me aturar aqui mais uma semana. Só mais uma.

Semanário [jornal em língua portuguesa publicado em Díli] nº 35, 4 de Setembro de 2004


Pirataria
Na Indonésia é difícil encontrar à venda filmes e CDs de música originais, em Timor-Leste é quase impossível. Quase tudo o que existe no mercado local é contrafeito, falsificado, ou seja, produtos-”piratas”. Isso é uma situação que ninguém tem interesse em mudar, se quisermos falar com franqueza, a não ser os artistas timorenses, que saem prejudicados, mas estes não constituem um grupo de pressão significativo. A realidade é que a situação actual é a única que permite que um cidadão leste-timorense (ou indonésio, já que os CDs piratas que se encontram em Timor têm aí origem) tenha poder de compra para adquirir filmes recentes ou CDs de música. Um CD áudio original que em Portugal custa para cima de quinze dólares obtém-se aqui em versão pirata por um dólar, um DVD que lá tem um preço que pode ultrapassar os trinta dólares encontra-se em Timor-Leste por menos de três dólares. Neste contexto é com muita satisfação que vemos como o mercado timorense está inundado de CDs e VCDs piratas de música dita portuguesa (deveria antes chamar-se música lusófona, porque a maior parte dela é em língua portuguesa, sim, mas oriunda de países como o Brasil, Angola, Cabo Verde...). Os empresários que se dedicam a ir fazer cópias contrafeitas à Indonésia não trabalham por projectos políticos ou sonhos ou ideais nacionalistas, eles investem na reprodução de milhares de cópias dessas músicas porque sabem que existe procura por parte dos consumidores timorenses. Isso revela como aspectos culturais e gostos musicais do mundo da lusofonia fazem parte integrante da actualidade nacional, e nunca deixaram de fazer, apesar de todos os esforços da Indonésia para suprimir esse importante traço da identidade de Timor-Leste.
Baby sitting
Em Timor quando um casal que tem filhos pequenos resolve ir jantar fora, ou dar um passeio romântico a ver a lua e as estrelas na praia, as crianças ficam com os irmãos mais velhos, ou com os avós, ou com os tios, ou com a crioula, ou com uma ama (ou nalguns casos, o marido prefere deixar a esposa em casa a tomar conta dos filhos e vai jogar às cartas com os amigos, ou para os copos, ou tentar engatar as moças que trabalham nos bares). Em países como a Austrália, EUA, e em Portugal nas grandes cidades, onde a família alargada foi substituída pela família nuclear de pai, mãe e um ou dois filhos apenas, a solução costuma ser arranjar uma jovem, habitualmente estudante, que fica umas horas a tocar conta dos meninos. Esse trabalho chama-se baby sitting. Foi isso que estive a fazer com o Semanário, mas agora chegou o momento de entregar a criança ao pai.
Agradeço a quem fez a gentileza de ir lendo o que aqui fui escrevinhando, e agora que me retiro prometo continuar a entregar uns textos de vez em quando ao Director, como contributo para este projecto que me parece de muito mérito.

Semanário [jornal em língua portuguesa publicado em Díli] nº 36, 11 de Setembro de 2004

quarta-feira, janeiro 31, 2007

Qual e a arte marcial mais simpatica?

Qual e a organizacao (ou estilo) de artes marciais mais simpatica de Timor?
Aikido
Hafeto
Jogo livre
Karate
Kera Sakti
KORK-Kmanek Oan Rai Klaran
Kung Fu Master
Merpati Putih
Pajajaran
PD-Perisai Diri
PSHT-Persaudaraan Setia Hati Terate
Sete-Sete
Taekwondo
THS-THM-Tunggal Hati Seminari atau Maria
pollcode.com free polls

sábado, janeiro 27, 2007

ESTAMOS GRAVIDOS

Familia e amigos, estamos gravidos de dois meses. E estamos muito felizes.

Fotos do Natal com atraso




Cães com um olho de cada cor

Na casa dos meus sogros em Liquiçá nasceu uma ninhada de cães muito giros em que alguns têm um olho de cada cor:







quarta-feira, janeiro 17, 2007

Tradição

As autoridades locais decidiram mandar pintar passadeiras em várias ruas do centro de Díli. O problema é que se esqueceram de fazer uma campanha de educação rodoviária na televisão e nos jornais para ensinar às pessoas para que servem as ditas. Se os peões descobrirem antes dos condutores a utilidade das passadeiras vai ser uma tragédia. E parece-me que a hecatombe vai começar pelos peões estrangeiros, que - pelo menos na maioria - já sabem qual é o objectivo de uma passadeira. Já estou a imaginar as próximas primeiras páginas do STL: “Durante o dia de hoje morreram mais cinco malais enquanto estavam a atravessar a estrada por cima daquelas riscas brancas que o Governo mandou pintar”.

As regras de trânsito aqui são calmamente ignoradas pela maior parte dos timorenses. No cruzamento de Colmera quem vem do supermercado Fitun Maubara encontra um sinal de STOP. São muito poucos os condutores que aí param, sendo habitual que parem antes os que vêm na estrada de sentido único que vem dos lados do BNU. Também no cruzamento do banco australiano ANZ é normal que os condutores que chegam vindos da rua da Escola Paulo VI prossigam a sua marcha na maior das despreocupações, desrespeitando o sinal de “aproximação de estrada com prioridade” que encontram no caminho. Aí param os que vem da direcção do “galódromo”, apesar de a lei dizer que têm prioridade. Num caso e noutro os sinais são completamente ignorados e o que funciona é a tradição.

Ainda a propósito de tradição, tenho falado com vários timorenses manifestando o meu horror pelo crime hediondo de há alguns dias em Maubara, onde três mulheres da mesma família foram queimadas, assassinadas por serem consideradas bruxas (buan). A maior parte das pessoas reage como se fosse uma coisa natural: “então, mas elas eram buan”. Houve uma pessoa que me disse com toda a calma que alguns populares já tinham tentado queimá-las antes, nos tempos da UNTAET, mas a CIVPOL tinha interferido, impedindo o normal desenrolar da acção do povo. Na ocasião alguém tinha chegado a decepar uma orelha a uma das bruxas mas quando os polícias da ONU iam levá-la para o hospital viram que a orelha já tinha nascido novamente, o que teria causado grande surpresa a esses malais. Depois de várias conversas deste género, encontrei alguém que se solidarizou com o meu horror. “Não era preciso tê-las queimado”, explicou, “bastava ter-lhes pregado um prego na testa”!

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Quando a ignorancia e a tradicao matam

EM MAUBARA
Vizinhos mataram três feiticeiras
Três mulheres foram mortas sábado em Maubara, 40 quilómetros a oeste de Díli, acusadas de feitiçaria pelos vizinhos, crime que está a ser investigado pela Polícia da ONU (UNPOL).Segundo a porta-voz da UNPOL, comissária Mónica Rodrigues, o crime está a ser averiguado por uma equipa de investigação criminal da ONU, não havendo ainda informações disponíveis sobre o móbil do crime.As autoridades policiais timorenses locais disseram que as três mulheres eram da mesma família, tinham 70, 50 e 25 anos, e que foram mortas e queimadas por populares que as acusaram de serem bruxas.A comissária Mónica Rodrigues acrescentou que também no fim-de-semana, na zona de Delta 4, no bairro de Comoro, na parte ocidental da capital timorense, um morador encontrou uma granada, tendo efectivos da GNR sido enviados para o local, confirmando tratar-se de um engenho explosivo de fragmentação, para uso militar, ainda intacto. A UNPOL está também a investigar a morte de um homem, cujo corpo apresentava várias marcas de ferimentos. O crime registou-se sábado na aldeia de Naigidal, distrito de Covalima, sudoeste de Díli.Segundo a UNPOL, na capital timorense continua a registar -se uma situação "relativamente calma, com alguns incidentes esporádicos, mas sem a intensidade das últimas semanas".
Jornal de Noticias
Terça-feira, 9 de Janeiro de 2007
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E triste o quao cruel pode ser a ignorancia! Choremos!...

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Malais

Em Timor sou um malai. Já era malai muito antes de vir para Timor, porque o convívio com a comunidade timorense tinha-me granjeado aí muitos amigos que me chamavam, naturalmente, malai, enquanto iam dizendo que eu já era meio timorense. É que se pode ser as duas coisas ao mesmo tempo. Conheço aqui um ancião português que veio para cá fazer a tropa como um moço na flor da idade e nunca mais de cá saiu, passou muito mais anos em Timor do que na terra natal, mas, como é natural, toda a gente lhe chama aqui o Malai Cruz. Tenho um amigo chamado Abílio Bessa que também veio para aqui jovem como militar e gostou tanto disto que acabou por casar com uma moça de Maubara e estabelecer-se por lá. Em 1975 foi um dos refugiados em Atambua evacuado para Portugal com a família, e foi morar no Porto. Durante muitos anos, antes de Timor se tornar moda e as pessoas fazerem cordões humanos vestidas de branco, havia pouca gente a mexer-se para que a situação mudasse, mas entre esses contava-se a CDPM, A Paz é Possível em Timor-Leste, o Prof. Barbedo de Magalhães e... a família Bessa. Quando a liberdade chegou a Timor, ele também veio para cá, tal como uma das filhas, e ambos construíram as suas casas no mesmo bairro de Díli. Questões de saúde e de família têm-no levado a dividir o tempo entre Timor e Portugal, e eu e a minha mulher acabámos por alugar a casa dele. No meu bairro toda a gente me conhece como o malai que alugou a casa do Avô Malai. “Avô” é aqui a forma de tratamento dos mais velhos, mesmo que não sejam da família. Se eu quiser perguntar o preço dos tomates no mercado a uma vendedora velhinha perguntarei “Avó, tomate ne’e folin hira?” (Avó, qual é o preço dos tomates?). A minha esposa é timorense, se tivermos filhos aqui eles serão “malae-oan”, filhos do malai.

Os malais, que são na generalidade umas criaturas muito cheias de manias estranhas, têm a obsessão do politicamente correcto (por exemplo, no mundo lá de onde vêm já não há “velhos”, agora há uns espectros trancafiados em lares e casas de repouso a que se chama “cidadãos da terceira idade”). Isso aplica-se inclusivamente a certos malais que chegam cheios de boas intenções a transbordar do peito e que se caracterizam pela atitude com que encaram os nativos “tão amorosos”: «Regozijai porque nós chegámos para vos salvar e trazemos a língua portuguesa, que é a panaceia universal que vai resolver todos os vossos problemas!» Alguns vem equipados para dar aulas sobre as obras de Gil Vicente e sobre “Os Lusíadas” e outras coisas que tais de que os timorenses precisam como de uma ida ao dentista sem anestesia. Há então uns malais que ficam muito escandalizados por serem chamados de malais, e que acham que isso é racismo e discriminação, e passam então a “ensinar” os nativos a não os chamarem assim. Os timorenses, inicialmente surpreendidos por os malais ficarem aborrecidos por serem chamados de malais, reagem com a benevolência que se deve ter com as crianças que ainda não sabem as regras de comportamento social (Sim, filho, o teu urso de peluche pode engolir o elefante do Mogli) e fazem-lhes a vontade, quando à sua frente. Alguns malais na terra deles já não chamam ciganos aos ciganos, mas mudaram-lhes o nome para “cidadãos de etnia cigana”; os timorenses acham que a língua serve para comunicar e não para complicar, por isso os chineses daqui não são chamados “cidadãos timorenses de etnia chinesa” mas sim “China-Timor” (Xina-Timór em tétum), o que permite distingui-los dos chineses recém-chegados, que não são de cá, e por isso são denominados de “China-Mandarim” ou “China” apenas. E já que falei em ciganos, lembremo-nos de que a palavra portuguesa “gajo” tem origem na língua antigamente falada por eles (o rom, ou romani, que ainda usam noutros países que não Portugal ou Espanha) e significava originalmente “alguém que não é cigano” (lembram-se do filme “Gadjo Dilo” – em tétum “malae bulak”?).

Também há uns malais burros que insistem em ouvir “malaio” em vez de “malai” (são normalmente os mesmos que pensam que o tecido tradicional “tais” tem um singular sem “s” e dizem preciosidades como “Olhe, sei lá, comprei hoje um tai divinal!”). Pelo menos actualmente, em Timor “malai” e “malaio” são duas palavras distintas com significados bem diferentes.

Mas afinal de onde vem esta palavra, “malai” na variedade de português que se fala em Timor e “malae” em tétum?

A. Mendes Corrêa no seu “Timor Português” (1944) diz que “por malai entendem os indígenas de Timor os estranhos, os Malaios de outras ilhas, os Chinas, os negros de África, os Árabes, os Portugueses metropolitanos, os Holandeses, os Europeus em geral. Eles próprios não se consideram Malaios, muito pelo contrário.»

Luís Thomaz num artigo de 1974, “Timor – Notas histórico-linguísticas”, pág. 231, defende que: “Por sua vez o nome que os malaios dão a si mesmos – melayu – tornou-se em Timor, sob a forma malae sinónimo de «estrangeiro, pessoa de fora de Timor» - recordação do tempo em que os malaios eram os únicos estrangeiros que apareciam nas costas da ilha. Osório de Castro nota que em Maluco o termo melayu é usado com o mesmo sentido.

Mas há quem considere que a etimologia da palavra “malai” em Timor não tem nada a ver com “melayu”.

No seu artigo “East Timor and the Southwest Moluccas: Language, Time and Connections” (2000), Aone van Engelenhoven e John Hajek dizem-nos (pág. 121):

«A importante distinção entre os chamados ‘donos da terra’ e ‘donos dos barcos’ nas ilhas do Sudoeste das Molucas é não apenas crítica para as estruturas sociais na região, mas também um importante indicador histórico das relações com Timor no passado. Os ornusa ou clãs ‘donos da terra’ eram os verdadeiros senhores da terra, que já viviam nas ilhas antes da chegada dos ‘donos dos barcos’. Há textos históricos que revelam que a chegada dos donos dos barcos foi despoletada pela destruição da sua ‘Ilha Mãe’. Esta destruição é tradicionalmente explicada como o castigo supremo por uma luta fratricida que era proibida. Os nomes usados nestas histórias fornecem pistas importantes sobre ligações com Timor. Qualquer coisa que inclua malai como elemento reverte para Timor – o que se vê por exemplo em Sairmalai, o nome timorense do herói letinense Slerleti. ((32 A palavra malai, apesar das aparências, não tem nada a ver com Malay (ing.) [ou malaio (port.)], uma malformação europeia de melayu.)) O resultado é que todos os heróis, e consequentemente também os clãs que deles descendem, são considerados como sendo de origem timorense. O segmento Malai (lit. ‘Timor’) em muitos apelidos de família é altamente reverenciado devido à sua referência óbvia. Os exemplos incluem os apelidos Pelmalai ‘aliado timorense’ na ilha de Nila, e Maranmalai na ilha de Léti.

Reuniões recentes entre famílias keienses e do Sudoeste das Molucas na Holanda revelaram como ambos os lados tinham em comum narrativas semelhantes sobre a destruição de uma terra ou continente no ocidente (centrado na área de Timor-Luang). As histórias dos clãs falam sobre barcos que navegavam para o oriente a partir de
Lun-Let, o nome keiense para o continente que era Luang. Os mitos letinenses contam-nos sobre pessoas que navegavam para e de Timor, e sobre o estabelecimento de povoações de ‘donos de barcos’ na costa de Malakitna-Malaliawna, o irmão mais novo (com malai ‘Timor’ bastante evidente).

As ligações entre comunidades em Timor-Leste e no Sudoeste das Molucas mantiveram-se mais directamente até tempos relativamente recentes. Alianças formais tradicionais, por exemplo, foram mantidas entre os governantes tradicionais de Kísar e Baucau até perto de meados deste século, mas acabaram por ser quebradas pelos portugueses. Também é verdade que laços de comércio tradicional foram mantidos até mais recentemente ainda, particularmente com comerciantes que falavam tétum de Leti e de Luang que se sabia visitarem Timor-Leste.
» (A tradução do inglês é minha.)

Lendas na língua de Léti que mencionam esta ligação a Timor (Malai), e a sua análise antropológica e linguística, podem ser consultadas no livro de Aone van Engelenhoven “Leti, a language of Southwest Maluku” (2004), por exemplo nas págs 328, 329, 398.

Os dados destes autores relativos à antroponímia parecem ocorrer também entre os fatalucos da Ponta Leste de Timor, conheço uma moça de lá, de uma família “ratu“ (da nobreza), cujo nome tradicional (o do knua, não o dos documentos nem o “nome de estima” de casa) é Jar Malai. Na segunda parte do “Léxico Fataluco-Português” do Padre Alfonso Nacher, publicado na revista do Instituto Nacional de Linguística (2004), na pág. 122 pode ver-se que nesta língua a palavra “malai” pode significar “estrangeiro” mas também “liurai” (rei).

Enfim, na falta de mais dados, a origem da palavra é uma questão ainda em aberto. O que é certo é que o termo não é visto pelos timorenses como pejorativo ou insultuoso, antes pelo contrário. E quando um timorense quer insultar um malai salientando essa sua condição de não-filho-da-terra, não lhe chama “malae!”, recorre antes a epítetos como “kolonialista!”, ou, de forma mais poética, pode optar por formas como “fahi-mutin” (porco branco).