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quinta-feira, maio 07, 2015

Um comentário sobre a variedade timorense da língua portuguesa

Acabo de ler um texto que falava sobre as possibilidades de desenvolvimento de uma norma própria para a variedade timorense da língua de Luís Cardoso, Jorge Amado e Saramago. Acho que, mesmo nos PALOP, a afirmação de uma norma própria não é tão pacífica como às vezes se pensa... Parece-me que Moçambique é onde foram dados mais passos nessa direção. Há recetividade em relação à incorporação de itens lexicais específicos de cada um dos países, mas muito mais reticências em relação a outros aspetos. Aqui alguns dos traços da variedade timorense do português que eu observava quando cheguei, em 2001, mantém-se. Por exemplo, construções do tipo "Escreve ainda" (transferência do "Hakerek lai") são quase omnipresentes nas várias gerações de falantes, incluindo as crianças, e parece-me que estão cá para ficar. Uma frase como "Deixa ele comer ainda" já me parece menos estável, porque pode ser simplesmente uma realização própria de interlíngua substituída por "Deixa-o comer ainda" quando o falante tiver um domínio melhor da língua. No léxico, palavras como "liurai" estão perfeitamente incorporadas na variedade local do português, mas vejo que há vocábulos do português como "néli" que foram usados - em português - por muitas gerações de timorenses, e que parecem de utilização menos comum pela mocidade; creio que a razão é que os inputs são diversos, e muitos deles vêm de falantes de outras variedades do português (não a variedade timorense). Os bordões linguísticos são uma área particularmente gira. Se prestarem atenção às cachopas e garotos timorenses a falar português vão ouvir coisas como "Foi ele !" ou "É este !"

terça-feira, abril 21, 2015

O tétum não é um crioulo de base lexical portuguesa

Volta e meia surge um texto de algum estudante das coisas das línguas em Timor a dizer que o tétum é um crioulo de base lexical portuguesa, o que é tão correto como dizer que o inglês é, na verdade, um crioulo de base lexical francesa.



Este livro (“Ordered Profusion – Studies in Dictionaries and the English Lexicon”), por exemplo, diz que no “Shorter Oxford English Dictionary” 28,30% das palavras têm origem no francês antigo, incluindo o anglo-francês, ou no francês; 28,24% são de proveniência latina; e apenas 25% do vocabulário é de origem germânica (juntando aqui também o inglês antigo, o inglês médio, o nórdico antigo e o holandês.

O tétum não é um crioulo de base lexical portuguesa; podemos considerar que o tétum-praça é um crioulo cuja base lexical é o tétum-téric, o português surge só como um superestrato posterior. A zona de Díli era originalmente de língua mambai. É possível que muitos dos cerca de 1200 indivíduos (dos quais 15 eram brancos) que para cá vieram aquando da transferência da capital de Lifau para aqui falassem um crioulo de base lexical portuguesa semelhante ao crioulo de Malaca (ainda conhecido por alguns habitantes do antigo bairro de Bidau na década de 50 do séc. XX), mas não falavam tétum (língua pouco relevante na parte ocidental da ilha). O afluxo de gentes de vários lugares à capital provavelmente levou a que o tétum, que na parte oriental da ilha já funcionava como língua franca entre os vários reinos, se tornasse a língua de Díli. As línguas francas tornam-se muitas vezes o idioma da população do centro urbano mais importante da sua região; veja-se os casos do malaio Betawi que se tornou a língua de Batávia (atual Jacarta), o crioulo malaio em Cupão e o crioulo guineense em Bissau. O uso do tétum como língua segunda por uma grande quantidade de falantes de outros idiomas, com destaque para os mambais, levou a que passasse por um processo de simplificação, a que podemos chamar crioulização, mas continuando a ser de origem tétum boa parte do léxico básico deste tétum-praça. Numa primeira fase absorveu também muitos termos do malaio, língua franca do comércio entre ilhas, depois passou por um processo de relexificação parcial com vocabulário do português (daí que o tétum-praça atual – e não obstante algumas propostas puristas recentes – inclua grande percentagem de léxico de origem portuguesa, não apenas para os registos mais elevados e os domínios mais técnicos, mas também para coisas do dia a dia como a fauna e flora locais, as saudações entre as pessoas e os termos de parentesco). Mas continua a ser suficiente comparar uma lista de Swadesh para o tétum-praça e para um crioulo de base lexical portuguesa para ver as diferenças…


Outra coisa que se lê de vez em quando é que o tétum-praça se chamaria assim por ser a língua do mercado. Devem pensar que estão da praça do peixe de alguma vila piscatória portuguesa… A praça de armas era onde residia o governador e a sua guarnição, era o centro urbano. O tétum-praça era portanto o tétum da cidade (por modesta que fosse a cidade).

segunda-feira, abril 13, 2015

Línguas de ensino

Há dias participei num debate no Facebook com uns colegas da área da linguística e ensino sobre o significado do Artigo 8.º da Lei de Bases da Educação (“Línguas do sistema educativo”), que diz que: ”As línguas de ensino do sistema educativo timorense são o tétum e o português.” Creio que é óbvio para quem saiba ler português que a intenção do legislador era dizer que as escolas do sistema de ensino timorense têm que ensinar os diversos conteúdos (matemática, ciências, etc) nas línguas oficiais, até porque a LBE foi aprovada em 2008 e na legislatura de 2007-2012 o Parlamento Nacional também aprovou a Resolução nº 20/2011. Mas, como houve uma colega que defendeu uma interpretação diferente, a de que a referência a “línguas de ensino” no artigo 8º significa que “no sistema educativo timorense o tétum e o português são disciplinas ou componentes curriculares“, fiz uma pesquisa rápida na Internet para ver com que significado é que a expressão “línguas de ensino” é usada pelos especialistas no ensino de língua segunda e língua estrangeira.
Eis alguns excertos de documentos que encontrei:

Da Professora Doutora Maria José Grosso:
"Os que são oriundos de países africanos e que têm o português como língua segunda, (acepção de língua de ensino com estatuto oficial, ensinada nas escolas e que participa também na socialização da criança e no seu desenvolvimento cognitivo); estudam português por razões académicas ou profissionais (ou os que em idade escolar estão inseridos no Sistema do Ensino em Portugal). http://mha.home.sapo.pt/imagens/t4.pdf

Ainda segundo Maria José Grosso (et al) no QuaREPE:
“Os conceitos de língua materna, língua estrangeira, língua segunda são conceitos polissémicos que não correspondem a uma definição linear. O conceito de Língua Materna apela ao de língua da socialização, que, por definição, transmite à criança a mundividência de uma determinada sociedade, cujo principal transmissor é geralmente a família. O conceito de Língua Estrangeira facilmente se define como a língua que não faz parte dessa socialização primária, estando subjacente uma série de princípios metodológicos. Na tradição da didáctica das línguas, o conceito de Língua Segunda ocorre frequentemente como a língua que, não sendo materna, é oficial (ou tem um estatuto especial) sendo também a língua de ensino e da socialização secundária. Há, no entanto, alguns autores que consideram que é Língua Segunda desde que os aprendentes estejam em imersão linguística, num contexto em contacto com os falantes nativos da língua que aprendem. Cf. Grosso (2005: 608).”

Diz-nos Marie Quinn num texto de 2008 (Choosing Languages for Teaching in Primary School Classrooms):
In relation to the Portuguese, this position has been further strengthened by the recent educational directive from the MEC. In this, Portuguese is identified to take precedence as the language of education, while Tetum, seen predominantly as an oral language, will serve as an auxiliary language together with mother tongues:

… dado que o Tétum ainda está em processo de desenvolvimento e sendo uma língua predominantemente oral, o Português terá preferência como língua de instrução ou ensino. O Tétum, particularmente, e as demais línguas maternas serão usadas como línguas auxiliares pedagógicas, quando necessário, particularmente nos primeiro anos.

given that Tetum is still in the process of development and being a predominantly oral language, Portuguese will have preference as a language of instruction or teaching language. Tetum, particularly, and the other maternal languages will be used as auxiliary pedagogical languages, when necessary, particularly in the first years.
MEC 2006“

 Do Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas:
"No exemplo sumário que se apresenta de seguida, que trata daquilo que pode ser pensado pelas opções ou variações de cenário, são delineados dois tipos de organização e de decisões curriculares para um determinado sistema escolar, de forma a incluir, como acima foi sugerido, duas línguas modernas para além da língua de instrução (convencionalmente, mas de forma errada, referida abaixo como língua nativa, uma vez que todos sabem que a língua do ensino, até na Europa, não é, frequentemente, a língua materna dos alunos): uma língua iniciada na escola primária (língua estrangeira 1, daqui por diante LE1), outra no nível secundário inferior (língua estrangeira 2, daqui por diante LE2) e ainda outra (LE3) como disciplina opcional, no ensino secundário de nível mais avançado." 

De Isabel Leiria:
Não se pense, contudo, que a unanimidade tem sido absoluta entre os africanos (do mesmo modo que não tem sido entre os portugueses), não quanto à opção do português como língua oficial, mas como primeira e única língua de ensino e de alfabetização. (...) Experiências de ensino bilingue têm sido ensaiadas, mas sem grande sucesso. Na Guiné-Bissau, por exemplo, no ano lectivo de 1977/78, com o apoio de Paulo Freire, foram criados Centros de Educação Popular Integrada (CEPI). Foi decidido utilizar "a língua comunitária, o crioulo, como língua de ensino para melhor facilitar a aprendizagem dos conteúdos e a inserção das crianças na escola." Os resultados não foram muito visíveis, porque nas zonas de implantação dos CEPI (manjaca, balanta e bijago) o crioulo não era língua veicular para estas populações, porque se continuava a fazer sentir a influência dos ensinamentos de Amílcar Cabral (a língua oficial é o português) e porque "a população tem uma atitude passiva e às vezes mesmo negativa quanto à introdução do crioulo" (Barreto 2005).”

No documento “Diversidade Linguística na Escola Portuguesa” do ILTEC:
“Por enquanto, em Portugal, todas as aprendizagens (para além das línguas estrangeiras) são feitas em língua portuguesa, mesmo que, através das equivalências, os alunos originários de outros países se possam integrar num qualquer ano do ensino básico sem dominarem, ou dominando mal, a língua de ensino que para eles é língua segunda.”

Portanto, está demonstrado que muitos importantes especialistas usam os termos “língua de ensino” e “língua de instrução” como sinónimos, com o significado de língua em que funciona o sistema educativo. E, de resto, não é apropriado para estudantes destas coisas usar malabarismos terminológicos para tentar convencer os outros das suas opiniões; a pedagogia e a linguística não são como na matemática, em que 2+2 são sempre 4, e basta ler autores como Skinner, Lado, Chomsky, Bley-Vroman, Krashen, Zobl, Schwartz, White, etc, para perceber que há distintas formas de definir os conceitos e muitas teorias diferentes sobre como funciona a aprendizagem da língua segunda (ou aquisição da língua segunda – nem sobre isto os especialistas se entendem).

A política linguística de um país é definida pelos representantes democraticamente eleitos do povo desse país, não por técnicos. O papel dos técnicos é implementar a decisão política. 

sexta-feira, abril 03, 2015

Saber ler é importante, e mais ainda quando se sabe ler numa língua em que há livros...

Quando parecia que as línguas oficiais consagradas na Constituição já não eram motivo de polémica, e que o aparelho do Estado estava mobilizado para a implementação de uma política linguística comum, o recente debate público sobre a introdução das línguas regionais como línguas de instrução no sistema educativo veio dar uma nova visibilidade a algumas vozes que rejeitam o português como língua oficial, com o argumento de que usar o português “é ser colonizado”. Um dos fóruns onde defendem essa posição é o Facebook. Um alucinado qualquer partilhou um “post” meu [https://www.facebook.com/jpesperanca.timor/posts/1039876492706556] num grupo timorense do Facebook chamando-me “fascista” e “colonialista” por causa do que digo sobre a língua de alta cultura.
Respondi-lhe com links para os livros traduzidos para tétum registados no Index Translationum da UNESCO, que são 3:


http://www.unesco.org/xtrans/bsresult.aspx?a=&stxt=&sl=... 

e os traduzidos para português registados na mesma lista, que são 80602:


http://www.unesco.org/xtrans/bsresult.aspx?a=&stxt=&sl=... 

Sei que ambas as listas estão incompletas, mas já dá para ter uma ideia do que eu queria dizer.  :-)

sábado, março 21, 2015

Ainda a polémica das línguas maternas no sistema educativo timorense:



(1) - Deve haver poucos educadores de infância ou professores primários em Timor que não falem tétum (e suponho que seja procedimento padrão no Ministério da Educação não contratar professores que não saibam tétum).


(2) – As crianças, mesmo aquelas que não têm o tétum como uma das suas línguas maternas, tornam-se na maior parte das comunidades rapidamente bilingues assim que entram na escola, de forma natural, ao brincar e conviver no recreio com crianças provenientes de famílias com línguas maternas diversas. O tétum tornou-se língua franca de Timor de forma natural, como uma maneira prática de as comunidades se entenderem, mesmo antes de o tétum ser língua oficial e uma das línguas da escola. Qualquer fataluco ou baiqueno que venha morar para Díli vê os seus filhos (antes monolingues na língua regional) a falar tétum com os vizinhos poucos meses depois de chegarem, de forma natural, sem ser sequer preciso ensiná-los.


(3) – O tétum é em Timor-Leste a língua de unidade nacional, a língua em que toda a gente se pode entender, em que o povo (mesmo as crianças da escola primária) pode ver as notícias na televisão nacional. O português é a língua oficial que dá acesso à alta cultura, ciência, etc (não porque o tétum não pudesse ser língua de ciência, mas porque as condições sócio-económicas e demográficas não o permitem: o mercado leitor timorense é reduzido, os produtores de conhecimento e bens culturais de alta cultura em tétum são muito poucos).


(4) – Uma criança leitora é um professor de si mesmo. Desde que tenha aprendido a ler numa língua em que há livros.


(5) – Uma criança aprende mais facilmente línguas quando é pequenina.


(6) – As pré-escolas e escolas primárias timorenses podem ser facilmente lugares de imersão em tétum, já que todos os professores, e muitos dos alunos, falam esta língua. A questão depois seria planificar o ensino do português, logo desde a chegada à pré-escola, e dar aos professores que ainda não dominam este idioma as aulas planificadas que os ajudem no seu trabalho. Será que se justifica trazer as línguas regionais para a equação?

quinta-feira, maio 02, 2013

Pequenas histórias muito simples para crianças muito pequenas



Nos últimos anos tem aparecido em Timor-Leste uma profusão de materiais básicos escritos em tétum e em várias outras línguas locais, sob a forma de cartilhas ou pequenas histórias muito simples para crianças muito pequenas. A escassez de materiais para crianças maiores deve-se provavelmente ao facto de estes serem mais difíceis de criar. Sejamos sinceros, qualquer pessoa pode tirar meia dúzia de fotografias, ou fazer alguns desenhos, e colocar-lhe umas legendas por baixo, em tétum ou noutra língua, e fica uma cartilha feita. Claro que há uma grande diferença entre uma dessas cartilhas e um manual escolar para a fase de alfabetização concebido com critérios pedagogicamente adequados. Da mesma forma têm aparecido vários livrinhos com histórias simples, normalmente algumas frases acompanhadas por desenhos, que podem ser lidos a crianças até aos 4-5 anos pelos pais ou irmãos mais velhos, e podem ser lidos pelas próprias crianças por volta dos seis anos de idade. São úteis e estão a preencher uma lacuna que existe em Timor-Leste, mas deveriam ser acompanhados de materiais mais ambiciosos para outras faixas etárias.
Um exemplo deste tipo de histórias é o livrinho *“Avoo Leto - Tau foer ba foer fatin”, em que um avô ensina ao neto a importância de não atirar lixo para o chão (o que é um hábito extremamente generalizado em Timor-Leste). Um livro de intenção pedagógica, que cumpre o que se propõe, com uns desenhos bonitos, mas que infelizmente não pode ser distribuído nas escolas devido à quantidade de erros ortográficos que tem.


sábado, abril 13, 2013

A nova literatura de Timor-Leste começa a desabrochar



Durante muitos anos a literatura (não a oratura) de Timor-Leste era essencialmente em português. Desde há alguns anos têm começado a aparecer novas obras e autores que se exprimem em tétum. Quando eu era uma criança, uma professora de português que tive – provavelmente satisfeita pelo facto de já então eu ser um leitor voraz – escreveu num caderno meu a frase “Um país faz-se com homens e com livros.”, de Monteiro Lobato (mas que eu durante anos pensei que fosse de Mário Sacramento, um democrata ilhavense durante a longa noite do fascismo em Portugal). Foi uma frase que me impressionou muito, e que considero ainda hoje um dos meus motes. Timor-Leste é para mim a minha terra adoptiva e creio que ninguém pode negar que o século XX viu nascer neste país homens e mulheres de uma grandeza excepcional, mas em grande medida ainda faltam os livros. Há alguns, com destaque para as obras do Takas (Luís Cardoso), mas sendo escritos em português, que é uma das línguas dos timorenses mas que muitos ainda não dominam, têm uma penetração reduzida na sociedade. O aparecimento recente de uma literatura tetumófona permite-nos ter esperança de que as coisas mudem e que apareça em breve uma geração que lê. E ler em tétum não é nunca um obstáculo a que se venha a ler em português. Ler em tétum na infância pode despertar nos miúdos o bichinho dos livros, e quem fica assim cativado nunca mais vai deixar de querer ler, e quando acabarem de ler os livros em tétum (qualquer leitor pode ler num espaço de tempo relativamente curto TODOS os livros em tétum que existem, infelizmente), e continuarem com ânsia de conhecimento e de emoções, vão ler noutras línguas, começando evidentemente pela portuguesa.
Irei começar a falar aqui de livros com mais frequência, de livros de Timor, livros sobre Timor, e de livros em tétum – originais ou em tradução. Hoje vou começar com uma pequena novela publicada pela ONG Timor Aid em Novembro de 2012 intitulada “Inan ne’ebé iha bosok ualu” [A mãe que disse oito mentiras] do escritor timorense de 17 anos de idade Ariel Mota Alves. A obra obteve um terceiro lugar no concurso literário em tétum organizado anualmente pela Timor Aid e pela Fundação Alola, de que também já cheguei a ser membro do júri. Trata-se de um livrinho com uma história mais ou menos linear, de pendor moralista, mas bastante eficaz na transmissão da sua mensagem. As personagens principais são Bisoi e o seu filho Atoi, e a história gira em torno dos desafios que enfrentam ao longo das respectivas vidas. Mãe e filho são extremamente pobres, mas o sacrifício abnegado da mãe vai criando oportunidades onde elas não existiam para dar uma vida melhor ao seu menino. Este por seu lado vai aceitando e beneficiando com isso, e acrescentando o seu esforço ao da sua progenitora, mas terá que enfrentar também os seus próprios dilemas.
Um livro que, não obstante o enredo pueril, devia ser amplamente lido pelas crianças e jovens timorenses, como uma chamada de atenção para os fazer pensar no que os seus pais muitas vezes fazem por eles, e também como uma homenagem às mulheres deste país. Conheci muitas timorenses com a fibra desta Bisoi ao longo de mais de uma década em Timor. A literatura não tem que tentar mudar o mundo, mas pode tentar mudar o mundo. Esta obra, de um escritor tão jovem, tenta fazer o seu quinhão.


domingo, maio 27, 2012

Uma “cantiga tradicional timorense” vinda da Nova Zelândia


Nestes tempos de invenções de tradições (até já vemos grupos musicais de Kore Metan – um género musical mestiço e urbano, luso-timorense – a actuar vestidos com tais e com belaks pendurados ao pescoço...[1]), é sempre bom recordar que as coisas nem sempre são como se diz...
A tal “cantiga tradicional timorense” a que me refiro no título é uma das minhas canções em tétum preferidas, e chama-se “Ha’u hakerek surat ida”. Foi-me dito há bastante tempo, por timorenses que sabem destas coisas, que a melodia é neozelandesa, e que a letra em tétum seria da autoria do já falecido Sr. Momô dos Mártires. Nunca calhou eu ter tido a oportunidade de verificar isto, mas hei-de tentar confirmar.




P.S. - [1] Para os portugueses que não entendem, isto é mais ou menos o equivalente a pôr o Alfredo Marceneiro a cantar o fado vestido de pauliteiro de Miranda...

sábado, agosto 07, 2010

Livros à vontade do freguês


A primeira vez que entrei no Blurb foi para comprar um livro do Celso Oliveira. Gostei do conceito. Há várias empresas semelhantes na Internet, mas a Blurb é das que fornece um serviço mais simples, prático e barato. Eles disponibilizam software, a pessoa prepara o livro que quer, como quer, no seu próprio computador, e depois carrega o produto final no sítio deles. O livro ficará disponível para quem o quiser comprar, e cada vez que há uma encomenda eles imprimem um exemplar (ou mais, dependendo do que o comprador quer). Cada cópia sai mais cara do que o preço por unidade de um livro impresso numa gráfica, mas é muito útil para quem pretende publicar por exemplo uma monografia sobre marcadores incoativos no macu’a ou macuva (lovaia epulo), ou uma tradução d”Os Maias” para esta língua timorense. Como o número de falantes que resta não chega a meia dúzia, será muito mais adequado imprimir algumas cópias no Blurb do que procurar uma editora que publique uma edição com grande tiragem. A Blurb exige apenas que seja comprada pelo menos uma cópia de cada livro publicado através deles. A pessoa que publica o livro pode escolher deixar o livro à venda pelo preço cobrado pela Blurb ou acrescentar uma margem de lucro para si. Eis a minha primeira experiência, para testar a qualidade do serviço, com dois textos que tinha publicado na Internet há algum tempo sobre o ensino de português em Timor:

quinta-feira, julho 22, 2010

A tradução d”O Principezinho” para tétum – andando devagarinho em direcção a uma fonte?

«Moi, (…), si j’avais cinquante-trois minutes à dépenser, je marcherais tout doucement vers une fontaine…» - diz-nos O Principezinho. Todos temos de vez em quando a sorte de fazer viagens em que a caminhada é tão interessante como o destino. Para mim, a tradução de “Le Petit Prince” para tétum foi uma dessas viagens. Tive a ideia de traduzir este livro logo à chegada a Timor, em 2001. Parecia-me uma tragédia mais na vida dos timorenses que não houvesse livros para ler nas suas línguas, e que melhor maneira de começar a resolver esse problema do que com a bela história de Saint-Exupéry? Comecei então a tradução com a Triana Corte-Real de Oliveira, uma jovem timorense que tinha interrompido os estudos de medicina na Indonésia devido aos acontecimentos de 1999. Entretanto falei com o Rui Correia, Presidente de uma ONGD de que eu era membro há anos, a SUL-Associação de Cooperação para o Desenvolvimento, sobre a possibilidade desta ONGD publicar a tradução em tétum. A reacção dele foi de entusiasmo imediato, “O Principezinho” também tinha tocado a sua vida, como a de tantos nós, e começou imediatamente a procurar apoios. Conseguiu resposta positiva de algumas câmaras municipais em Portugal e da Fundação Mário Soares. Entretanto eu lembrei-me da possibilidade de a SUL procurar estabelecer uma parceria para uma edição conjunta com a Timor Aid, uma ONG timorense que era pioneira na publicação de livros em tétum e que já tinha sua própria rede de distribuição, e, feitos os contactos, a Timor Aid concordou. O Rui Correia contactou a Gallimard, que detém os direitos de autor, e conseguiu obter a autorização para a publicação. O processo sofreu um contratempo com a partida para Yogyakarta, para continuar os estudos para médica, da minha co-tradutora. Os trabalhos ficaram parados durante um tempo, e foram depois retomados com uma nova colega de trabalho, a Emília Almeida de Araújo, que está actualmente a terminar um bacharelato em Informática na Universidade Nacional de Timor Lorosa’e. Foi com ela que consegui terminar a tradução. Durante o labor de tradutores, quer na primeira fase quer na segunda, usámos constantemente o texto original em francês, mas sempre comparando com as soluções de tradução de três versões diferentes publicadas por editoras portuguesas, e às vezes com uma tradução em inglês também. No entanto, mesmo após concluída a tradução, contratempos diversos levaram a que o processo tenha demorado ainda algum tempo a chegar ao seu termo. Devo agradecer também os esforços e perseverança durante anos da Rosália Madeira Soares da Timor Aid. Foi uma caminhada longa, mas valeu a pena. O Liurai-Oan Ki’ik chegou finalmente a Timor-Leste e agora anda por aí. Pode ser que um dia destes o seu caminho se cruze com o do amável leitor…

quarta-feira, junho 30, 2010

O Principezinho, agora em tétum

A minha sobrinha a ler "Liurai-Oan Ki'ik", a edição em tétum d"O Principezinho" recém publicada pela SUL e Timor Aid.

quinta-feira, julho 16, 2009

Após uma década de apoio à reintrodução da língua portuguesa em Timor

Isto são as fotografias das prateleiras de livros sobre línguas numa das principais livrarias da capital timorense. Temos:
- 1 Dicionário de inglês-indonésio
- 1 Dicionário de indonésio-inglês
- 1 Dicionário de sueco-indonésio
- 2 Dicionários distintos de alemão-indonésio,
- 1 Dicionário de indonésio-alemão
- 1 Dicionário de alemão-indonésio e indonésio-alemão
- 1 Dicionário de italiano-indonésio
- 1 Dicionário de tétum-indonésio e indonésio-tétum (publicado pela Gramedia – que é uma livraria/editora do tipo Fnac na Indonésia - de acordo com as normas oficiais em vigor para o tétum)
- 1 Dicionário de coreano-indonésio e indonésio-coreano
- 1 Dicionário de francês-indonésio e indonésio-francês
- 1 Dicionários de francês-indonésio,
- 1 Dicionário de indonésio-espanhol
- 1 Dicionário de espanhol-indonésio
- diversos dicionários indonésios de termos técnicos de biologia, química, física, medicina, economia, sociologia, política moderna, expressões idiomáticas, etc.

Não existem no mercado dicionários de indonésio-português, nem de português-indonésio, nem dicionários de português-tétum, nem dicionários de tétum(contemporâneo e oficial)-português. Após uma década de projectos de apoio à reintrodução da língua portuguesa em Timor, é impressão minha ou falta aqui alguma coisa?

terça-feira, outubro 14, 2008

Hafoin é que são elas

Se o jornalista do telejornal timorense disser a frase:

Prezidente Ramos Horta halo diskursu ida hafoin hatán ba jornalista sira-nia pergunta barak.

O que é que aconteceu primeiro, o discurso ou as respostas às perguntas dos jornalistas? Os velhos falantes de tétum téric não teriam quaisquer dúvidas, ele fez primeiro o discurso. Mas muitos falantes actuais de tétum-praça diriam que o discurso foi só após a sessão de perguntas e respostas. Porquê? É que a palavra “hafoin” parece estar actualmente a passar por um processo de evolução semântica. Da mesma forma que alguns falantes tentam substituir as tradicionais saudações em tétum “bondia” e “bonoite” por “loron di’ak” e “kalan di’ak”, há uma tendência actual para procurar vocábulos autóctones, mesmo que alterando o seu significado. Assim, e de acordo com os falantes de tétum téric que consultei, “hafoin” costumava ser equivalente a “depois é que” ou “depois maka” mas actualmente é também usado com o sentido de “depois de” ou “liutiha/depoizde”.

Ou seja, e de acordo com a acepção mais antiga de “hafoin”:

Prezidente Ramos Horta halo diskursu ida hafoin hatán ba jornalista sira-nia pergunta barak.
=
Prezidente Ramos Horta halo diskursu ida depois hatán ba jornalista sira-nia pergunta barak.

Prezidente Ramos Horta halo diskursu ida liutiha hatán ba jornalista sira-nia pergunta barak.” = “Prezidente Ramos Horta halo diskursu ida depoizde hatán ba jornalista sira-nia pergunta barak.

sexta-feira, março 14, 2008

Ministry dos affairses extrangeiros

Há uns anos atrás publiquei no jornal timorense “Semanário” um texto em que falava sobre erros habituais na comunicação social na denominação em tétum dos ministérios do Estado timorense. Dava o exemplo do “*Ministériu Educasaun Cultura Juventude no Desporto”, em que a palavra “Ministériu” está escrita em tétum, “Cultura” em português e “*Educasaun” em língua nenhuma, porque em português seria “Educação” e em tétum “Edukasaun”.

Sendo o tétum uma das línguas oficiais de Timor-Leste deveria haver uma designação oficial das instituições do Estado também nesta língua. Tomemos agora como exemplo o “Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação”. Como designá-lo em tétum? Fui procurar nos meus arquivos designações deste ministério e/ou ministro.

STL,18-06-2003,p.6 – *Ministru Negosius Estrangeirus no Kooperasaun
STL,23-10-2003,p.6 – *Ministru dos Negosios Estranjeirus no Kooperasaun e, no mesmo texto, *Ministru Negosius Estranjeirus
STL,29-10-2003,p.1 – *Ministru Negosiu Estrangeiru no Kooperasaun
Jornal Nacional Diário,03-03-2006,p.7 – *Ministru dos Negocius Estranjeirus
Jornal Nacional Diário,22-03-2006,p.2 – *Ministru Negocius Estranjeirus no Koperasaun
Timor Post,11-05-2006,p.1 – *Ministru Negocios Estrangeiros no Cooperasaun

A versão bilingue do livro de António Veladas “Timór Terra Sentida” (Publ. Europa-América, 2001) chama-lhe “Ministériu Asuntu Li’ur nian”. Creio que este livro será leitura obrigatória nos estudos académicos que vierem a existir sobre a tradução em tétum, por ter sido uma das primeiras obras integralmente traduzidas para a língua, por ter usado já a ortografia oficial do INL e por a tradução ter estado a cargo de um dos mais importantes linguistas timorenses, o Professor Benjamim Corte-Real (curiosamente não há qualquer referência ao tradutor na ficha técnica). O tradutor que trabalha nestas circunstâncias é um pioneiro, um explorador que de catana na mão vai abrindo novos caminhos na selva virgem. Em idiomas com uma antiga tradição de tradução muito foi feito pelos que vieram antes, há que repetir apenas o procedimento, mas em línguas ágrafas, ou quase, ele vê-se na posição de ter que decidir qual a forma melhor para traduzir pela primeira vez uma dada expressão ou palavra. Nenhum tradutor de inglês, francês ou indonésio precisará de pensar duas vezes ao substituir “Ministério dos Negócios Estrangeiros” por “Ministry of Foreign Affairs” (1), “Ministère des Affaires Étrangères” ou “Departemen Luar Negeri”, mas o profissional consciente que trabalha com o tétum poderá ter que parar e reflectir antes de decidir qual será a melhor tradução possível. Na ausência de um nome oficial da instituição em tétum, os jornais timorenses frequentemente inventam, como já vimos. No "Lia Foun", um projecto bilingue pioneiro que existiu em 2005, houve uma decisão da redacção (tradutores incluídos) de manter os nomes oficiais em português dos ministérios mesmo nos textos em tétum, enquanto não houvesse decisão sobre as designações oficiais neste idioma, e também como forma de educar o público (afinal o português também é língua oficial do país e não merece ser mutilado como habitualmente é nos média de Timor-Leste).

Entretanto, enquanto pensava sobre estas questões, lembrei-me das brincadeiras que Umberto Eco faz com traduções e retroversões de textos clássicos no Babel Fish, no livro "Mouse or Rat – Translation as Negotiation" (Phoenix, 2004, p.10-18). Um dos textos que ele usa é constituído pelos sete primeiros versículos do Génesis de uma versão da Bíblia em inglês (a King James Bible), que ele depois traduz para diferentes línguas para mostrar alguns pontos sobre questões teóricas da tradução. Os resultados são, como seria de esperar, no mínimo estranhos. Então resolvi levar o Ministério dos Negócios Estrangeiros para o Babel Fish…

Traduzi primeiro “Ministério dos Negócios Estrangeiros” para inglês e obtive “*Ministry of the Foreign affairses”. Como não conhecia a palavra “*affairses” fui ao Google ver se havia quem conhecesse. 867 ocorrências, o que significa que há pelo menos este número de nabos na Internet. Uma delas é um comentário a uma notícia sobre Timor escrito por um autodenominado “Maubere” que andou a traduzir as suas opiniões para um monte de línguas, provavelmente no Babelfish também, e lá aparecem os “*affairses” rodeados de caracteres chineses (外国affairses的先生部长 葡萄牙语), o que mostra que o programa não reconhece as suas próprias criações lexicais. A seguir, pedi a tradução para português do “*Ministry of the Foreign affairses” e obtive “*Ministry dos affairses extrangeiros”. Comecei a achar que o Babel Fish tinha aprendido português nos jornais timorenses.

Lembrei-me então de ir lá com o “Ministério das Relações Exteriores” dos nossos irmãos brasileiros. Choque! O Babel Fish sabe o que é e apresentou de imediato a tradução para americano ver: “Department of state”. Fiz a retroversão e… “Departamento de estado”, que é como em português se chama o equivalente deste ministério nos EUA.

Tentei então em francês. Perfeito!

Ministério dos Negócios Estrangeiros>Ministère des Affaires Étrangères>Ministério dos Negócios Estrangeiros

Fui lá novamente com a designação brasileira, confesso que com uma esperançazinha de que o Babel Fish francês manifestasse por eles o mesmo desprezo que o seu congénere inglês mostrou por nós. Mas não, uma pequena discrepância apenas, normal nisto de máquinas de tradução burras.

Ministério das Relações Exteriores>Ministère des Relations Extérieures>Ministério das Relações Externas

Das duas uma, ou os franceses sabem mais de geografia e de relações internacionais do que os americanos ou então lembram-se de nós por causa das porteiras e mulheres-a-dias.

E a tradução para tétum, que é por onde tínhamos começado? Analisemos então os elementos do problema. Se optássemos, como tem feito a imprensa, por adaptar a designação portuguesa, haveria que ser coerente com a ortografia. Teríamos então “Ministériu Negósiu Estranjeiru no Kooperasaun nian” ou “Ministériu Negósiu Estranjeiru no Kooperasaun sira-nian”. Mas não fiquemos por aqui. Quais são os elementos que compõem o nome do ministério? “Cooperação” pode nalguns contextos ser traduzida por “serbisu lisuk”, mas aqui parece-me que “kooperasaun” não seria contestada por ninguém. “Estrangeiro” já é diferente, podemos falar em “tasi-balun”, “li’ur”, “rai-li’ur” (por oposição a “rai-laran”, “doméstico”, “interior”), “rain-seluk”,… O Dicionário de Tétum do INL usa o neologismo “makli’ur”, com recurso à morfologia tradicional do tétum téric, com o significado de “exterior” ou “externo”. Finalmente a palavra “negócio”, ou em tétum “negósiu”, que em Timor é usada mais no sentido económico, como sinónimo do termo indonésio “bisnis”, que ainda se ouve muito, e que pode no caso ser perfeitamente substituída por “asuntu”, como vimos acima. Daqui surgem várias designações alternativas possíveis, versões divergentes das formas portuguesas, como por exemplo:

Ministériu Asuntu Li’ur no Kooperasaun nian
Ministériu Asuntu Tasi-Balun no Kooperasaun nian
Ministériu Asuntu Rai-Li’ur no Kooperasaun nian
Ministériu Asuntu Makli’ur no Kooperasaun sira-nian
Ministériu Negósiu Makli’ur no Kooperasaun sira-nian

Como vê o meu caro leitor, a tarefa do tradutor é espinhosa, de partir pedra para abrir caminho, e seria de facto útil que o Estado aprovasse uma lista oficial com os nomes dos Ministérios e Secretarias de Estado em tétum. Mas não se pense que é preciso a toda a força encontrar denominações vernáculas que substituam os empréstimos lexicais do português. Numa aula em que discutíamos as opções dos puristas para o desenvolvimento do tétum, propus aos alunos que traduzissem sem usar palavras de origem portuguesa a seguinte frase, sabendo ser esta uma tarefa impossível:

A roda do meu carro tem um furo.

Várias vozes tentaram fazer a tradução em voz alta, evitando os termos “roda” e “karreta”. Então uma moça começou, pensando à medida que falava:
- “Ha’u-nia buat ne’e ne’ebé ema sa’e nia buat-kabuar iha kuak.
Quando terminou toda a sala explodiu numa gargalhada, e ela, compreendendo de repente a interpretação que estavam a fazer, ficou vermelha como um tomate. O que ela disse, numa tradução livre, foi algo como: “A minha coisa para cima da qual se pode subir (montar) tem uma coisa redonda que tem um buraco”. Às vezes é melhor usar os empréstimos lexicais mesmo…


(1) Ou “Ministry of External Affairs” ou “Ministry of External Relations”.

sábado, março 08, 2008

Sirana – O início do cinema timorense

As cenas iniciais mostram-nos o interior de uma casa de palapa, um típico lar timorense com uma fotografia do Papa João Paulo II pendurada na parede, um oratório onde rezam os habitantes com uma vela acesa, frinchas nas paredes, cozinha e quarto-de-banho exteriores, também feitos de materiais como palapa ou chapas. Um senhora de lipa e cabaia reza as orações matinais e faz a lida da casa. Ficamos então a saber quem mais mora na casa, Sirana, a protagonista, filha da senhora, e a irmã mais velha daquela e o cunhado. Este está desempregado, é vadio e bêbado, e bate na mulher. As discussões entre o casal são constantes.

Vemos depois Sirana sair cedo a pé com a mãe para irem vender legumes da sua horta no mercado. Aí aparece uma antiga conhecida da mãe, acompanhada por uma jovem colega de Sirana, ambas bem vestidas e com visual moderno. As senhoras conversam um pouco e a que compra os vegetais diz que trabalha num kantor [escritório] e refere as muitas colegas de ambas de antigamente, que são agora deputadas no Parlamento e funcionárias de Ministérios. A cena apresenta, sem tal mencionar explicitamente, o contraste chocante entre a vida de uma que continua pobre e a forma como a outra subiu na vida e se move no mundo dos políticos, dos malais, das ONGs… As duas raparigas andam ambas a ensaiar para uma peça de teatro e combinam encontrar-se lá no CJPAV mais tarde. Sirana interpreta o papel principal, o de Rosa Muki Bonaparte.

Já em casa, aparece a visitá-las uma prima, moça moderníssima, toda gira, transportada de carro. Explica que trabalha com os malais, ganha muito dinheiro, e, inquirida, responde que para arranjar um emprego assim “tem que se saber inglês e português, saber vestir-se bem, ser bonita, e mais outras coisas… que tu [Sirana] ainda não sabes”. Veio contar-lhes que na semana seguinte será o seu “troka prenda”, noivado, e que o namorado é estrangeiro, mas muito boa pessoa, e que no próximo ano irão ambos à terra dele.

Noutra cena, as amigas de Sirana vêm chamá-la para ir com elas à praia. São exuberantes, elegantes e belas, vestem roupas justas com ombros nus e umbigos à mostra… Sirana vai com roupas que a prima lhe havia oferecido. Na praia ela está triste e acaba por desabafar com dois colegas, um rapaz e uma cachopa, contando os problemas em casa entre a irmã e o cunhado, e também que não lhe estão a correr bem os ensaios porque não sabe o suficiente sobre Rosa Muki Bonaparte. Os colegas falam-lhe do papel desta como pioneira dos direitos da mulher em Timor, no âmbito da OPMT, e que foi assassinada pelos militares indonésios no porto de Díli logo no primeiro dia da invasão, e aconselham-na a procurar nos livros e perguntar às senhoras mais velhas. Ela confessa que há mais uma coisa a preocupá-la, um amigo, Nonó, gosta dela, mas ela sente-se reticente em retribuir porque ele é rico e ela não. Eles asseguram que o Nonó é um tipo impecável que não dá importância a essas coisas.

Noutro ensaio, um senhor lá no CJPAV (uma das mais importantes instituições culturais de Díli) pergunta à nossa jovem heroína porque não pede ela à mãe informação sobre a personagem que tem que interpretar e sobre esses tempos. Ele tinha afinal estado no mato com a mãe de Sirana. Esta conta depois à filha sobre os primórdios da luta das mulheres pela sua dignidade, oprimidas que estavam pela sociedade e pela cultura tradicional, e sobre as actividades da OPMT na montanha nos primeiros anos da guerra.

Entretanto o namoro com o tal Nonó parece estar encaminhado. Sirana chega a casa e depara com a irmã que fora novamente espancada.

Temos depois uma cena com a prima, numa esplanada com o namorado. Este é “português”, apesar de o actor falar com um forte sotaque anglo-saxónico:

“- Amor, quando é que me levas para Portugal?
- Fazer o quê?
- Aprezenta ha’u ba ó-nia família [apresentar-me à tua família], of course!
- Querida, ó tenke komprende ha’u tropa ne’e. Ha’u labele lori ó ba Portugál agora. [tens que compreender que sou militar aqui. Não posso levar-te para Portugal agora]
- Mas amorzinho, ó promete atu aprezenta ha’u ba ó-nia família! [tu prometeste apresentar-me à tua família] Sabes perfeitamente que eu estou grávida!
- Eu sei amor. Ne’e la’ós ha’u mak sala. Itrua mak hakarak!... [isso não é culpa minha. Ambos quisemos… ]
- Mas amor…
- Não, não! Ita la promete buat ida ba malu. [nós não prometemos nada um ao outro]
- Ó labele halo ha’u nune’e [não podes fazer-me isso], por favor! “

E o “português” pede desculpa e põe-se a andar. Fica a moça abandonada a chorar. Depois vai a casa das primas contar-lhes lavada em lágrimas.

Este é um drama relativamente comum em Timor, o das namoradas grávidas deixadas entregues à sua sorte por namorados malais que terminam o tempo de serviço e voltam para os seus países. Mas achei curioso que – ainda por cima sendo o actor falante de inglês – tivessem optado por dar ao personagem a nacionalidade portuguesa. É certo que um soldado australiano me contou (não sei se estava a dizer a verdade ou não) que eles estão proibidos de namorar com as timorenses e que por isso, enquanto dura a comissão, têm alguns dias de licença de xis em xis semanas para irem a Báli, mas também é verdade que ele me disse isso num bar e que fiquei com a impressão que ele namorava com uma das empregadas que lá trabalhava…

A história no filme continua a desenrolar-se com a estreia da peça, que retrata a violência da invasão indonésia. As cenas da peça alternam com outros acontecimentos: o cunhado que aparece bêbado mais uma vez e que a sogra expulsa de casa, o reaparecimento deste num estado deplorável andando aos tombos até à porta que ninguém lhe abre. A peça termina com aplausos entusiásticos do público e com a subida ao palco de Mari Alkatiri (na época Primeiro Ministro) para dar beijinhos e cumprimentos aos actores e actrizes.

O filme foi feito em Díli há uns quatro ou cinco anos, e parece-me que é a obra pioneira do cinema timorense. Lembro-me de ter visto pelo menos uma produção antiga com actores da diáspora, “Flores Amargas”, ambientado no meio dos refugiados do Vale do Jamor, em Portugal, mas produto nacional mesmo, este – que eu saiba – é o primeiro. Apesar de algumas dificuldades ao nível técnico, como por exemplo a captação do som que não está muito boa, parece-me um trabalho muito bem conseguido a vários níveis. O primeiro é a sua radicação consciente na realidade local, falado em tétum, não se tratando apenas de olhares de malai sobre Timor mas sim de ambientes e histórias que fazem parte do quotidiano genuíno dos timorenses. Outro aspecto que me agradou foi, que apesar da aparente simplicidade do argumento, há a possibilidade de mais do que um nível de leitura. Resta dizer que Ivete de Oliveira foi a realizadora, e que o filme resulta do trabalho conjunto de várias instituições: Fundasaun Kultural Le-Ziaval, Sahe Institute for Liberation, Sanggar Mamura e Catholic Institute for International Relations, com apoio da Caritas Australia e Caritas New Zealand. Da banda sonora fazem parte pelo menos Os Novos 5 do Oriente e o Nelson Turquel, que também aparecem no filme.


domingo, março 02, 2008

OS LÍRICOS

OS LÍRICOS
Sobre amos em Timor e outras construções do imaginário


Quando eu era miúdo era comum entre o meu círculo de amigos chamar a quem tivesse ideias fantasiosas, desligadas da realidade, um “lírico” ou, com mais frequência, um “p… lírico” (em que “p…” era um palavrão sinónimo de “c…”). Eu, que até era um puto bem comportado, evitava o uso do calão (o que fazia de mim uma ave rara entre a miudagem da minha terra), no entanto agora vem-me sempre essa expressão à cabeça quando leio certos textos sobre Timor que pintam uma imagem idílica muito distante da realidade dos factos. Muitos activistas ou simpatizantes da causa da autodeterminação nos anos da ocupação habituaram-se a imaginar um povo de santos mártires e heróicos guerrilheiros imaculados e sentem-se traídos nas suas expectativas quando os timorenses se revelam apenas… humanos. Recentemente encontrei num blogue sobre actualidade timorense muito frequentado trocas de acusações entre leitores que denunciavam ou defendiam a Fretilin com base em factos revelados pelo Relatório da Comissão de Acolhimento, Verdade e Reconciliação sobre violações de direitos humanos perpetradas por aquele partido durante a guerra civil e os primeiros anos da ocupação. Neste tipo de debates é frequente os participantes de ambos os lados assumirem posições radicais de defesa fanática dos seus correligionários e tentarem mostrar os opositores políticos como a encarnação do Mal absoluto. E a verdade é a primeira baixa nessas guerras de palavras. Tem-se visto isso muito na blogosfera e nos artigos de opinião que abundam sobre política timorense recente.
Porém, os textos um pouco mais antigos também sofrem muitas vezes do mesmo mal. Um exemplo que costumo citar é o artigo de Elaine Brière intitulado “East Timor: History and Society”, incluído na colectânea “East Timor: Occupation and Resistance” organizada por Torben Retbløl e publicada em 1998. A autora diz que “antes da chegada dos portugueses os timorenses estavam organizados politicamente em cerca de 46 pequenos reinos independentes, todos livres e independentes uns dos outros(1), ignorando a verdade histórica de que esses reinos se guerreavam frequentemente entre si, e que estabeleciam em muitos casos relações de vassalagem uns com os outros. Mais à frente Elaine Brière declara que em 1974 “crimes como o incesto e a violência contra crianças ou contra a esposa eram virtualmente desconhecidos(2), contribuindo para reforçar uma imagem idealizada de “bom selvagem” que só viria a conhecer o crime e a perfídia com a invasão indonésia.
No mesmo tom temos um excerto de um texto de Maria José Albarran publicado em 2004, de que me lembrei ao ler uma certa passagem numa tradução inglesa do Noli Me Tangere, e que motivou o subtítulo desta breve reflexão. O tal excerto diz respeito à palavra “Amo”, usada pelos timorenses para se dirigirem aos padres:
“Item arcaizante, figura nos dicionários etimológicos e modernos como sinónimo de senhor, dono de criação, patrão de trabalhadores, antigo senhor de escravos, forma de tratamento do soberano pelos cortesãos, mas como masculino de ama, ou seja, sem evolução autónoma de étimo latino. Isto acrescenta-lhe o sentido carinhoso de hospedeiro, educador, pedagogo, já que a ama era tanto a criada que amamenta, como a dona de casa, a governante, sempre uma educadora. Julgo ter sido nesta última especialização semântica que o termo se difundiu, valorizando a vertente pedagoga do clero em Timor.” (3)
Ora, se nas conversas em tétum os timorenses usam habitualmente “amu”, nos textos aparece com mais frequência o composto “amu-lulik” ou a sua forma abreviada “amlulik” (em que “lulik” significa “sagrado”), e “amu-lulik” é sinónimo de “na’i-lulik”. “Na’i” é a forma de tratamento usada para um liurai (rei) ou um dato (nobre), e foi também adoptada para os fiéis se dirigirem a Deus, traduzindo a palavra portuguesa “Senhor”. Diz-nos o Disionáriu Nasionál ba Tetun Ofisiál, monumental obra lexicográfica de referência para a língua tétum com 872 páginas, publicada pelo Instituto Nacional de Linguística em 2005:
amu
substantivu 1. Ema ida ne’ebé ema seluk nia patraun ka xefe. SIN. na’in, patraun
2. Títulu haraik-an ne’ebé ita fó ba patraun, xefe ka amlulik.

amlulik mós amu-lulik
substantivu Mane ida ne’ebé hala’o kultu relijiozu no hanorin kona-ba Maromak. SIN. na’i-lulik, padre

na’i mós na’i-mane
substantivu 1. Mane ida ne’ebé iha fatin aas iha sosiedade, hanesan liurai, dato, emboot ka patraun.
2. Ema-mane ida ne’ebé ita respeita tanba matenek, barani ka oin-na’in. SIN. señór, usi. ‘Na’i Maromak’ ne’e títulu ne’ebé ita ema baibain fó ba Maromak.

na’i-lulik
substantivu Mane ida ne’ebé hala’o kultu relijiozu no hanorin kona-ba Maromak. SIN. amlulik, padre
(4)
Ainda sobre a entrada da palavra portuguesa “amo” para línguas de Timor, encontramos na Revista Missões, publicada em Lisboa pelos Jesuítas, Ano XIII, número de Maio/Junho de 1960, um texto intitulado “Deus em Timor”, no qual podemos ler uma lista de termos para designar Deus em diversos idiomas timorenses que inclui “Amo Deus” em galole, midique e uaima’a. O autor do texto comenta: “Para evitar confusões, introduziram então termos ocidentais, mais ou menos infelizes, como esse do Amo Deus. Mas a língua não teria sequer possibilidades de traduzir o antiquado «amo», patrão ou Senhor? Ou de... o suprimir até?”. Em tétum não houve necessidade de usar neste contexto empréstimos lexicais uma vez que já existia uma palavra para uma entidade de natureza divina “Maromak” que passou a ser usada para o Deus dos católicos, às vezes associada a “Na’i”:
Glória ba Maromak leten aas bá. (5)

Pás iha raiklaran
ba ema sira be Na’i hadomi.
Na’i Maromak,
Liurai Lalehan nian.
Aman Maromak bele halo hotu-hotu
ami hahi’i Ita-Boot
(…)”

Não passa pela cabeça de ninguém negar a importância da vertente pedagoga da Igreja em Timor, mas parece-me fantasioso querer demonstrar que a palavra “amo” não tivesse entrado para as línguas locais com o seu significado de “figura de autoridade”.
Já tenho dito e escrito em diversos locais que a Igreja Católica foi talvez a mais importante instituição na criação e amadurecimento da cultura moderna timorense e de uma identidade nacional diferenciada. Esse papel não cessou ainda.
Benedict Anderson, o celebrado autor de Imagined Communities: Reflections on the Origins of Nationalism e um velho amigo de Timor, publicou em 1993 um texto, baseado numa conferência do ano anterior, de que a revista galega Çopyright publicaria depois em 1999 uma tradução sob o título “Imaginar Timor Leste”. Aí o autor dizia:
A minha percepção é de que em 1974-75 o verdadeiro nacionalismo timorense tinha ainda uma ténue base de apoio; talvez apenas uma pequena percentagem da população pudesse então imaginar realmente o futuro Estado-Nação de Timor Leste. Desde 1975 a situação mudou dramaticamente. (…) Um dos principais projectos do estado de Suharto foi o de "desenvolver" a Indonésia. Isto envolve necessariamente um certo tipo de definição do que significa ser um verdadeiro indonésio. Parte dessa definição decorreu dos massacres anti-comunistas de 1965-66, que foram em parte entendidos como uma luta contra o ateísmo. Em consequência, hoje todo o indonésio tem de seguir uma religião do Livro. Neste ponto, o estado indonésio acaba enredado numa estranha ratoeira. Em 1975 a maioria dos timorenses era ainda animista. Fazer deles "indonésios" significou "erguê-los" do animismo a uma religião decente, o que, dadas as realidades existentes, significou Catolicismo. Ao mesmo tempo, o Estado estava perfeitamente consciente dos perigos da implantação do catolicismo, sobretudo devido ao facto de Roma insistir em tratar directamente com Timor Leste, ultrapassando a conformista hierarquia católica indonésia. Assim, o regime indonésio a um tempo desejou e receou o alargamento da influência do catolicismo. Nos últimos dezassete anos, a população católica do território mais que duplicou de tamanho. Em Timor Leste todos sabem que se se é membro da Igreja católica, beneficia-se de protecção de acordo com a própria lógica do estado; ao mesmo tempo desenvolveu-se um catolicismo popular como expressão de um sofrimento comum, tal como sucedeu na Irlanda do século XIX. Este elemento comum católico num certo sentido substituíu aquele tipo de nacionalismo de que falei noutros lugares, o qual deriva da articulação entre imprensa e capitalismo. Além do mais, a decisão da hierarquia católica em Timor Leste de usar Tetum, e não indonésio, como a língua da Igreja, teve efeitos profundamente nacionalizadores. Transformou o Tetum, de uma língua local ou língua franca em certas partes de Timor Leste, na língua da religião e da identidade de Timor Leste.” [o sublinhado é meu]
Mas, sem deixar de reconhecer o importante papel desempenhado pela Igreja em Timor, não podemos criar uma imagem idealizada e distante da realidade na qual o clero apareça transfigurado em meiga ama-de-leite que exerce o seu labor pedagógico na mais mansa das atitudes. Os timorenses contam muitas histórias sobre venerandos padres famosos por distribuírem chapadas no meio das missas, e nas escolas da Igreja também se continuam a usar ainda hoje (como nas do Estado) castigos corporais. Ao longo da história a Igreja esteve muitas vezes na posição de autoridade mesmo no mundo secular, e a evangelização de Timor não foi isenta de querelas. No livro “Timor Loro Sae - 500 Anos”, o historiador Geoffrey C. Gunn conta-nos sobre disputas no séc. XVII entre os dominicanos já instalados e os jesuítas que pretendiam instalar-se e cita documentos desta última ordem que “sugerem uma actuação criminosa por parte dos dominicanos invejosos, que, tendo vivido ali durante 100 anos, «se recusam a aprender a língua nativa para grande detrimento da salvação do povo. Não impedem os pregadores muçulmanos de islamizar os gentios, mas gostariam de expulsar os outros missionários. Ocupam-se activamente a construir barcos para o seu comércio e a obter lucros, deixando as almas ao abandono».” (pág. 83)
A palavra “amo” como forma de tratamento dos sacerdotes não é de resto exclusiva de Timor. Também existe nas Filipinas, que tal como Timor são uma sociedade católica conservadora culturalmente mestiça ibero-asiática. Vejamos então um trecho de “Noli Me Tangere”, grande romance de José Rizal, nacionalista filipino do séc. XIX fuzilado pelas autoridades coloniais espanholas, no original em espanhol e em traduções para inglês e para tagalog:

«Entretanto el entusiasmo del predicador subía por grados. Hablaba de los antiguos tiempos en que todo filipino, al encontrar un sacerdote, se descubría, doblaba una rodilla en tierra, y le besaba la mano. “¡Pero ahora – añadía- sólo os quitáis el salakot o el sombrero de castorcillo, que colocáis medio ladeado sobre vuestra cabeza para no desarreglar el peinado!. Os contestáis con decir: ¡buenos días, among!9 [Nota 9: Del español 'amo,' señor, usado en tagalog como adjetivo y por lo tanto con la desinencia 'ng.' La frase completa sería 'ámong pare' o 'ámong cura.'], y hay orgullosos estudiantillos de poco latín, que por haber estudiado en Manila o en Europa se creen con derecho de estrecharnos la mano en lugar de besarla... ¡Ah!, el día del juicio pronto viene, el mundo se acaba, muchos santos lo han profetizado, ¡va a llover fuego, piedra y ceniza para castigar vuestra soberbia!”.
Y exhortaba al pueblo a que no imitase a esos salvajes, sino que los huyese y aborreciese, porque estaban excomulgados.
- ¡Oíd lo que dicen los santos concilios! - decía-. Cuando un indio encontrare en la calle a un cura, doblará la cabeza y ofrecerá el cuello para que el among se apoye en él; si el cura y el indio van a caballo ambos, entonces el indio se parará, se sacará el salakot o sombrero reverentemente; en fin, si el indio va a caballo y el cura a pie, el indio bajará del caballo y no volverá a montar hasta que el cura le diga ¡sulung!,10 o esté ya muy lejos. Esto dicen los santos concilios y el que no obedezca estará excomulgado”. » (6)

«In the meantime the preacher’s enthusiasm was growing by leaps and bounds. He referred to the old times when every Filipino on meeting a priest, uncovered himself, bent one knee to the ground and kissed the hand of the religious. “But today,” he added, “he removes only his sakalot or his felt hat, which is tilted one way so as not to disarrange the hair! You are content with saying: Good morning among, master; and there are arrogant estudiantillos who know little Latin who, because of having studied in Manila or in Europe, believe it their right to shake our hand instead of kissing it. Ah! the world is coming to an end; many saints have prophesied it. It is going to rain fire and brimstone to punish your pride!”
And he exhorted the people not to imitate those savages; to flee from them, abhor them, because they are excommunicated. “Pay attention to what the holy councils proclaim,” he said. “When an Indio meets a priest on the street, he must bend his head and offer his neck for the among to lean on. If the priest and the Indio are both on horseback, then the Indio should stop, reverently remove his sakalot or hat; and finally, when the Indio is on horseback and the priest on foot, the Indio should get down from his horse and not mount it again until the priest tells him sulong! begone! Or is already far away. That is what the holy councils say and he who does not obey will be excommunicated.” » (7)

«Samantala nama’y lalong nag-uulol ang sigabo ng kalooban ng nagsesermon. Tinutukoy ang matatandang kapanahunan, noong pag nakasalubong ng isang pari ang sinumang Pilipino ay nag-aalis ng sumbrero, iniluluhod sa lupa ang isang paa at humahalik ng kamay. “Datapwa’t ngayon,” ang dugtong niya, “ay nag-aalis na lamang kayo ng salakot o ng sumbrerong kastorilyo, na inilalagay ninyong pakiling sa ulo, upang huwag magusot ang buhok! Nasisiyahan na kayo sa pagsasabi ng: magandang araw po among! At may mga mapalalong estudiantillos de poco latin, na sa dahilang nakapag-aral sa Maynila o sa Europa ay nag-aakalang nararapat nang kami’y kanilang kamayan at huwag halikan ng kamay…”“Ah…ang araw ng paghuhukom ay nalalapit na, ang mundo’y natatapos na; maraming banal ang humula ng gayon, uulan ng apoy, bato at abo upang parusahan ang inyong kapalaluan!”
At pinangaralan ang bayan upang huwag gumaya sa mga salbaheng iyon, kundi bagkus pa ngang sila’y layuan at kamuhian sapagka’t silay mga excomulgado.“Pakinggan ninyo ang sinasabi ng mga santong concilio!” anya, “kapag natagpuan ng isang Indio sa lansangan ang isang kura ay iyuyuko ang ulo at ihahain ang leeg upang ang among ay makapangalalay; kung ang kura at ang Indio ay kapwa nangangabayo, ang Indio ay titigil, magalang na mag-aalis ng salakot o sumbrero; sa kahuli-hulihan, kung ang Indio ay nangangabayo at ang kura ay naglalakad, ang Indio ay lulunsad sa kabayo at hindi sasakay na muli hanggang hindi siya pinagsasabihan ng: sulong ng kura, o kaya’y malayung-malayo na ito. Ito ang sinasabi ng mga banal na konsilyo at ang hindi sumunod ay eskomulgado.” » (8)


(1) - “Before the arrival of the Portuguese the Timorese were politically organized into some 46 small independent kingdoms, all free and independent of one another.
(2)Crimes such as incest and child and wife abuse were virtually unknown.”
(3) O artigo chama-se “Aprendizagem do Léxico Português e Empréstimos – Timor, restante Sudeste Asiático e Japão” e foi publicado em 2004 na revista do Instituto Nacional de Linguística “Estudos de Línguas e Culturas de Timor-Leste”.
(4) amu
substantivu 1. Pessoa que é patrão ou chefe de outrem. SIN. na’in, patraun
2. Título de respeito que se usa para o patrão, o chefe ou um sacerdote.

amlulik também amu-lulik
substantivu Homem que preside ao culto religioso e que ensina sobre Deus. SIN. na’i-lulik, padre

na’i também na’i-mane
substantivu 1. Homem com uma posição alta na sociedade, como um liurai, um nobre, um governante ou um patrão.
2. Homem respeitado pela sua inteligência, coragem ou hospitalidade. SIN. señór, usi. ‘Na’i Maromak’ ne’e títulu ne’ebé ita ema baibain fó ba Maromak.

na’i-lulik
substantivu Homem que preside ao culto religioso e que ensina sobre Deus. SIN. amlulik, padre

[As traduções são minhas]


(5) Gloria in Excelsis Deo
“Glória a Deus nas alturas,
e paz na terra
aos homens por Ele amados.
Senhor Deus, Rei dos céus,
Deus Pai todo-poderoso:
nós Vos louvamos
(…)”
(6) Da versão em linha http://de.geocities.com/hispanofilipino/Noli/nolitocframe.html acedido em 14 Fev 2007
(7) In “Noli Me Tangere – a novel”, from José Rizal, translated by Soledad Lacson-Locsin, page 211, 212, in Chapter 32 - “The Sermon” [© 1996 Bookmark, © 1997 School of Hawaiian, Asian & Pacific Studies]
(8) Noli Me Tangere ni Jose Rizal, by Teresita P. Capili-Sayo and Cresenciano C. Marquez, Jr., page 161-162, Kabanata 32 – Ang Sermon [© 2000 Phoenix Publishing House, Inc. Quezon Avenue, Quezon City, Philippines] – Agradeço à Jan o envio desta versão em tagalog do texto.