Um blog em português - e de vez em quando em tétum e em tocodede - sobre os devaneios de um professor e tradutor ilhavense a morar em Timor. Sobre temas timorenses e do Oriente em geral, e sobre outras coisas de vez em quando...
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quinta-feira, maio 07, 2015
Um comentário sobre a variedade timorense da língua portuguesa
Acabo de ler um texto que falava sobre as possibilidades de desenvolvimento de uma norma própria para a variedade timorense da língua de Luís Cardoso, Jorge Amado e Saramago. Acho que, mesmo nos PALOP, a afirmação de uma norma própria não é tão pacífica como às vezes se pensa... Parece-me que Moçambique é onde foram dados mais passos nessa direção. Há recetividade em relação à incorporação de itens lexicais específicos de cada um dos países, mas muito mais reticências em relação a outros aspetos. Aqui alguns dos traços da variedade timorense do português que eu observava quando cheguei, em 2001, mantém-se. Por exemplo, construções do tipo "Escreve ainda" (transferência do "Hakerek lai") são quase omnipresentes nas várias gerações de falantes, incluindo as crianças, e parece-me que estão cá para ficar. Uma frase como "Deixa ele comer ainda" já me parece menos estável, porque pode ser simplesmente uma realização própria de interlíngua substituída por "Deixa-o comer ainda" quando o falante tiver um domínio melhor da língua. No léxico, palavras como "liurai" estão perfeitamente incorporadas na variedade local do português, mas vejo que há vocábulos do português como "néli" que foram usados - em português - por muitas gerações de timorenses, e que parecem de utilização menos comum pela mocidade; creio que a razão é que os inputs são diversos, e muitos deles vêm de falantes de outras variedades do português (não a variedade timorense). Os bordões linguísticos são uma área particularmente gira. Se prestarem atenção às cachopas e garotos timorenses a falar português vão ouvir coisas como "Foi ele sá!" ou "É este tó!"
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Como dizia o Bruce Lee: "“Absorb what is useful, discard what is not". A propósito do português língua do ensino em Timor...
Num congresso em Díli, há alguns anos, em que se falou sobre o uso das línguas maternas como línguas do ensino (=línguas de instrução), um dos oradores convidados foi um maori que falou sobre o sucesso das Kōhanga Reo. Parece-me um modelo que Timor poderia analisar para ver o que pode ser útil para cá:
- os maoris perceberam que menos de 20% dos maoris falavam bem maori,
- a sua liderança definiu um projeto político em que falar bem maori era um objetivo político e identitário claro,
- criaram uma rede de pré-escolas em que crianças cuja língua materna era o inglês (filhos de pais que falavam inglês e não maori em casa) aprendiam maori e em maori.
Por cá os líderes políticos timorenses eleitos pelo povo é que têm de decidir se a língua portuguesa faz realmente parte do seu projeto político e identitário ou não...
Interação da língua portuguesa, do tétum e da fé criou nação timorense - Ex-PM Alkatiri
07 de Maio de 2015, 10:10

Foto: Pedro Sá de Bandeira/EPA
Trata-se, disse, de elementos que servem como "oxigénio" para a reafirmação da identidade timorense, "em todo o seu mosaico" socio cultural pelo que questionar qualquer desses elementos coloca em risco essa identidade.
Mari Alkatiri falava num colóquio em Díli subordinado ao tema "Uma língua - Várias identidades", inserido nos eventos da Semana da Língua Portuguesa do Parlamento Nacional.
Em resposta a perguntas da plateia, Mari Alkatiri criticou o que disse ser a má política adotada nos últimos anos no ensino da língua, com comunicações no setor público em inglês ou indonésio.
Como exemplo do que diz serem erros políticos sobre esta matéria, recorda que quando a troika chegou a Portugal foi convidado pelos então chefe de Estado, José Ramos-Horta e primeiro-ministro, Xanana Gusmão, para os acompanhar a Portugal "comprar dívida pública portuguesa".
"Tínhamos 6 mil milhões de dólares no fundo petrolífero e queriam comprar dívida pública. Isso nem dá para fazer cantar um cego. Eu disse que preferia ir lá, mas era para contratar professores portugueses", afirmou.
Alkaiti insistiu que esta política é essencial para defender a soberania timorense no contexto regional e sub-regional, e para defender o tétum que só se reforçará com o português e que, se se tentar desenvolver com o inglês ou indonésio "simplesmente desaparece".
"A política nacional tem que ser muito clara. Se não o for seremos mais um país no lago australiano ou um meio Estado na extensão da Indonésia. Essa é a realidade", afirmou.
"Fomos tão determinados a fazer a luta pela independência e estamos a perder a determinação de defender esta independência, os elementos que garantem a defesa desta independência", disse, criticando os que defendem o uso das línguas maternas que contribuem para "balcanizar" o país.
Numa intervenção em que recordou o papel da língua portuguesa em Timor-Leste, "da colonização à libertação", Alkatiri disse que o português começou como uma "língua política e sociocultural de dominação", algo que se foi diluindo ao longo dos séculos.
Um processo que ocorreu sem que o português tenha, em qualquer momento, deixado de ter interação com a sociedade timorense que o procurava sempre como aliado", especialmente nas duas ocupações, a japonesa e a indonésia.
"Os timorenses intuitivamente ou empiricamente sabiam que a melhor forma de afirmar a sua diferença era manter esse vínculo à identidade lusófona", algo que os ajudava a defender-se das presenças invasoras "mais perigosas e dominadores".
@Lusa
terça-feira, abril 21, 2015
O tétum não é um crioulo de base lexical portuguesa
Volta e meia surge um texto de algum estudante das coisas das
línguas em Timor a dizer que o tétum é um crioulo de base lexical portuguesa, o
que é tão correto como dizer que o inglês é, na verdade, um crioulo de base
lexical francesa.
Este livro (“Ordered Profusion
– Studies in Dictionaries and the English Lexicon”), por exemplo, diz que no
“Shorter Oxford English Dictionary”
28,30% das palavras têm origem no francês antigo, incluindo o anglo-francês, ou
no francês; 28,24% são de proveniência latina; e apenas 25% do vocabulário é de
origem germânica (juntando aqui também o inglês antigo, o inglês médio, o nórdico
antigo e o holandês.
O tétum não é um crioulo de base lexical portuguesa; podemos
considerar que o tétum-praça é um crioulo cuja base lexical é o tétum-téric, o
português surge só como um superestrato posterior. A zona de Díli era originalmente
de língua mambai. É possível que muitos dos cerca de 1200 indivíduos (dos quais
15 eram brancos) que para cá vieram aquando da transferência da capital de
Lifau para aqui falassem um crioulo de base lexical portuguesa semelhante ao
crioulo de Malaca (ainda conhecido por alguns habitantes do antigo bairro de Bidau
na década de 50 do séc. XX), mas não falavam tétum (língua pouco relevante na
parte ocidental da ilha). O afluxo de gentes de vários lugares à capital provavelmente
levou a que o tétum, que na parte oriental da ilha já funcionava como língua
franca entre os vários reinos, se tornasse a língua de Díli. As línguas francas
tornam-se muitas vezes o idioma da população do centro urbano mais importante da
sua região; veja-se os casos do malaio Betawi que se tornou a língua de Batávia
(atual Jacarta), o crioulo malaio em Cupão e o crioulo guineense em Bissau. O
uso do tétum como língua segunda por uma grande quantidade de falantes de outros
idiomas, com destaque para os mambais, levou a que passasse por um processo de
simplificação, a que podemos chamar crioulização, mas continuando a ser de
origem tétum boa parte do léxico básico deste tétum-praça. Numa primeira fase
absorveu também muitos termos do malaio, língua franca do comércio entre ilhas,
depois passou por um processo de relexificação parcial com vocabulário do
português (daí que o tétum-praça atual – e não obstante algumas propostas
puristas recentes – inclua grande percentagem de léxico de origem portuguesa,
não apenas para os registos mais elevados e os domínios mais técnicos, mas
também para coisas do dia a dia como a fauna e flora locais, as saudações entre
as pessoas e os termos de parentesco). Mas continua a ser suficiente comparar
uma lista de Swadesh para o tétum-praça e para um crioulo de base lexical
portuguesa para ver as diferenças…
Outra coisa que se lê de vez em quando é que o tétum-praça se
chamaria assim por ser a língua do mercado. Devem pensar que estão da praça do
peixe de alguma vila piscatória portuguesa… A praça de armas era onde residia o
governador e a sua guarnição, era o centro urbano. O tétum-praça era portanto o
tétum da cidade (por modesta que fosse a cidade).
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João Paulo Esperança
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segunda-feira, abril 13, 2015
Línguas de ensino
Há dias participei num debate no Facebook com uns colegas da
área da linguística e ensino sobre o significado do Artigo 8.º da Lei de
Bases da Educação (“Línguas do sistema educativo”), que diz que: ”As línguas de
ensino do sistema educativo timorense são o tétum e o português.” Creio que é
óbvio para quem saiba ler português que a intenção do legislador era dizer que
as escolas do sistema de ensino timorense têm que ensinar os diversos conteúdos
(matemática, ciências, etc) nas línguas oficiais, até porque a LBE foi aprovada
em 2008 e na legislatura de 2007-2012 o Parlamento Nacional também aprovou a
Resolução nº 20/2011. Mas, como houve uma colega que defendeu uma
interpretação diferente, a de que a referência a “línguas de ensino” no artigo
8º significa que “no sistema educativo timorense o tétum e o português são disciplinas
ou componentes curriculares“, fiz uma pesquisa rápida na Internet para ver com
que significado é que a expressão “línguas de ensino” é usada pelos especialistas
no ensino de língua segunda e língua estrangeira.
Eis alguns excertos de documentos que encontrei:
Da Professora Doutora Maria José Grosso:
"Os que são oriundos de países africanos e que têm o
português como língua segunda, (acepção de língua
de ensino com estatuto oficial, ensinada nas escolas e que participa também na
socialização da criança e no seu desenvolvimento cognitivo); estudam
português por razões académicas ou profissionais (ou os que em idade escolar
estão inseridos no Sistema do Ensino em Portugal). http://mha.home.sapo.pt/imagens/t4.pdf
Ainda segundo Maria José Grosso (et al) no QuaREPE:
“Os conceitos de língua materna, língua estrangeira, língua
segunda são conceitos polissémicos que não correspondem a uma definição linear.
O conceito de Língua Materna apela ao de língua da socialização, que, por
definição, transmite à criança a mundividência de uma determinada sociedade,
cujo principal transmissor é geralmente a família. O conceito de Língua
Estrangeira facilmente se define como a língua que não faz parte dessa
socialização primária, estando subjacente uma série de princípios
metodológicos. Na tradição da didáctica
das línguas, o conceito de Língua Segunda ocorre frequentemente como a língua
que, não sendo materna, é oficial (ou tem um estatuto especial) sendo também a
língua de ensino e da socialização secundária. Há, no entanto, alguns
autores que consideram que é Língua Segunda desde que os aprendentes estejam em
imersão linguística, num contexto em contacto com os falantes nativos da língua
que aprendem. Cf. Grosso (2005: 608).”
Diz-nos Marie Quinn num texto de 2008 (Choosing Languages for
Teaching in Primary School Classrooms):
“In
relation to the Portuguese, this position has been further strengthened by the
recent educational directive from the MEC. In this, Portuguese is identified to
take precedence as the language of
education, while Tetum, seen predominantly as an oral language, will serve
as an auxiliary language together with mother tongues:
… dado que o Tétum ainda está em processo de desenvolvimento
e sendo uma língua predominantemente oral, o Português terá preferência como língua de instrução ou ensino. O
Tétum, particularmente, e as demais línguas maternas serão usadas como línguas
auxiliares pedagógicas, quando necessário, particularmente nos primeiro anos.
… given
that Tetum is still in the process of development and being a predominantly
oral language, Portuguese will have preference as a language of instruction or teaching language. Tetum, particularly,
and the other maternal languages will be used as auxiliary pedagogical
languages, when necessary, particularly in the first years.
MEC 2006“
Do Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas:
"No exemplo sumário que se apresenta de seguida, que
trata daquilo que pode ser pensado pelas opções ou variações de cenário, são
delineados dois tipos de organização e de decisões curriculares para um
determinado sistema escolar, de forma a incluir, como acima foi sugerido, duas
línguas modernas para além da língua de
instrução (convencionalmente, mas de forma errada, referida abaixo como língua
nativa, uma vez que todos sabem que a língua do ensino, até na Europa, não é,
frequentemente, a língua materna dos alunos): uma língua iniciada na escola
primária (língua estrangeira 1, daqui por diante LE1), outra no nível
secundário inferior (língua estrangeira 2, daqui por diante LE2) e ainda outra
(LE3) como disciplina opcional, no ensino secundário de nível mais
avançado."
De Isabel
Leiria:
“Não
se pense, contudo, que a unanimidade tem sido absoluta entre os africanos (do
mesmo modo que não tem sido entre os portugueses), não quanto à opção do
português como língua oficial, mas como primeira
e única língua de ensino e de alfabetização. (...) Experiências de ensino
bilingue têm sido ensaiadas, mas sem grande sucesso. Na Guiné-Bissau, por
exemplo, no ano lectivo de 1977/78, com o apoio de Paulo Freire, foram criados
Centros de Educação Popular Integrada (CEPI). Foi decidido utilizar "a
língua comunitária, o crioulo, como língua de ensino para melhor facilitar a
aprendizagem dos conteúdos e a inserção das crianças na escola." Os
resultados não foram muito visíveis, porque nas zonas de implantação dos CEPI
(manjaca, balanta e bijago) o crioulo não era língua veicular para estas
populações, porque se continuava a fazer sentir a influência dos ensinamentos
de Amílcar Cabral (a língua oficial é o português) e porque "a população
tem uma atitude passiva e às vezes mesmo negativa quanto à introdução do
crioulo" (Barreto 2005).”
No documento “Diversidade Linguística na Escola Portuguesa”
do ILTEC:
“Por enquanto, em Portugal, todas as aprendizagens (para
além das línguas estrangeiras) são feitas em língua portuguesa, mesmo que,
através das equivalências, os alunos originários de outros países se possam
integrar num qualquer ano do ensino básico sem dominarem, ou dominando mal, a língua de ensino que para eles é língua
segunda.”
Portanto, está demonstrado que muitos importantes
especialistas usam os termos “língua de ensino” e “língua de instrução” como
sinónimos, com o significado de língua em que funciona o sistema educativo. E,
de resto, não é apropriado para estudantes destas coisas usar malabarismos
terminológicos para tentar convencer os outros das suas opiniões; a pedagogia e
a linguística não são como na matemática, em que 2+2 são sempre 4, e basta ler
autores como Skinner, Lado, Chomsky, Bley-Vroman, Krashen, Zobl, Schwartz, White,
etc, para perceber que há distintas formas de definir os conceitos e muitas
teorias diferentes sobre como funciona a aprendizagem da língua segunda (ou
aquisição da língua segunda – nem sobre isto os especialistas se entendem).
A política linguística de um país é definida pelos
representantes democraticamente eleitos do povo desse país, não por técnicos. O
papel dos técnicos é implementar a decisão política.
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sexta-feira, abril 03, 2015
Saber ler é importante, e mais ainda quando se sabe ler numa língua em que há livros...
Quando parecia que as línguas oficiais consagradas na Constituição já não eram motivo de polémica, e que o aparelho do Estado estava mobilizado para a implementação de uma política linguística comum, o recente debate público sobre a introdução das línguas regionais como línguas de instrução no sistema educativo veio dar uma nova visibilidade a algumas vozes que rejeitam o português como língua oficial, com o argumento de que usar o português “é ser colonizado”. Um dos fóruns onde defendem essa posição é o Facebook. Um alucinado qualquer partilhou um “post” meu [https://www.facebook.com/ jpesperanca.timor/posts/ 1039876492706556] num grupo timorense do Facebook chamando-me “fascista” e “colonialista” por causa do que digo sobre a língua de alta cultura.
Respondi-lhe com links para os livros traduzidos para tétum registados no Index Translationum da UNESCO, que são 3:
http://www.unesco.org/ xtrans/bsresult.aspx?a=&stxt=& sl=...
e os traduzidos para português registados na mesma lista, que são 80602:
http://www.unesco.org/ xtrans/bsresult.aspx?a=&stxt=& sl=...
Sei que ambas as listas estão incompletas, mas já dá para ter uma ideia do que eu queria dizer. :-)
Respondi-lhe com links para os livros traduzidos para tétum registados no Index Translationum da UNESCO, que são 3:
http://www.unesco.org/
e os traduzidos para português registados na mesma lista, que são 80602:
http://www.unesco.org/
Sei que ambas as listas estão incompletas, mas já dá para ter uma ideia do que eu queria dizer. :-)
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"Pedagogos" pobres de espírito
Há um discurso preocupante em certos círculos pedagógicos que se movem por cá, o de que é “ser colonizado” poder ler como estas crianças* leem e que os alunos das escolas rurais só podem ler meia dúzia de livrinhos “sobre a realidade da sua aldeia”. Como na aldeia não há astronautas, nem comboios, nem girafas e leões, nem pinguins, nem mulheres arqueólogas ou cirurgiãs, nem tantas outras coisas, os miúdos não podem ler sobre essas coisas. Esses “pedagogos” parecem querer impedir as crianças de sonhar… Cria-se assim um fosso entre as crianças educadas em escolas que os preparam para ser futuros cidadãos do seu país e cidadãos do mundo (mesmo que morem na aldeia), e as que são preparadas para terem horizontes curtos que não vão além do seu knua…
Haver contextualização de materiais não significa fechar as janelas!
* que são os meus meninos.
Haver contextualização de materiais não significa fechar as janelas!
* que são os meus meninos.
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segunda-feira, maio 21, 2012
domingo, maio 20, 2012
sábado, janeiro 01, 2011
Milagrário Pessoal

Esta noite li o "Milagrário Pessoal" de José Eduardo Agualusa. Foi durante as primeiras horas do ano, a família já adormecida, tendo como banda sonora a respiração tranquila da minha mulher e dos meus filhos, um presente a mim mesmo em tempos de muitos afazeres em que a leitura de um livro de uma ponta à outra sem parar - prazer antigo da adolescência - se tornou um luxo para ocasiões especiais.
Há livros que leio como se voltasse a casa vindo da escola na minha bicicleta à chuva num dia de Inverno ilhavense e encontrasse a família reunida, o lume aceso no borralho, e uma malga de sopas de broa em café de trote coado e bem quentinho à minha espera. Há livros que falam de coisas de que gostamos e de que apetece dizer "é cá dos nossos". Há livros em que podíamos morar, este para mim é um deles.

Há livros que leio como se voltasse a casa vindo da escola na minha bicicleta à chuva num dia de Inverno ilhavense e encontrasse a família reunida, o lume aceso no borralho, e uma malga de sopas de broa em café de trote coado e bem quentinho à minha espera. Há livros que falam de coisas de que gostamos e de que apetece dizer "é cá dos nossos". Há livros em que podíamos morar, este para mim é um deles.

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sábado, agosto 07, 2010
Livros à vontade do freguês

A primeira vez que entrei no Blurb foi para comprar um livro do Celso Oliveira. Gostei do conceito. Há várias empresas semelhantes na Internet, mas a Blurb é das que fornece um serviço mais simples, prático e barato. Eles disponibilizam software, a pessoa prepara o livro que quer, como quer, no seu próprio computador, e depois carrega o produto final no sítio deles. O livro ficará disponível para quem o quiser comprar, e cada vez que há uma encomenda eles imprimem um exemplar (ou mais, dependendo do que o comprador quer). Cada cópia sai mais cara do que o preço por unidade de um livro impresso numa gráfica, mas é muito útil para quem pretende publicar por exemplo uma monografia sobre marcadores incoativos no macu’a ou macuva (lovaia epulo), ou uma tradução d”Os Maias” para esta língua timorense. Como o número de falantes que resta não chega a meia dúzia, será muito mais adequado imprimir algumas cópias no Blurb do que procurar uma editora que publique uma edição com grande tiragem. A Blurb exige apenas que seja comprada pelo menos uma cópia de cada livro publicado através deles. A pessoa que publica o livro pode escolher deixar o livro à venda pelo preço cobrado pela Blurb ou acrescentar uma margem de lucro para si. Eis a minha primeira experiência, para testar a qualidade do serviço, com dois textos que tinha publicado na Internet há algum tempo sobre o ensino de português em Timor:
quinta-feira, julho 16, 2009
Após uma década de apoio à reintrodução da língua portuguesa em Timor

Após uma década de apoio à reintrodução da língua portuguesa em Timor - 3
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- 2 Dicionários distintos de alemão-indonésio,
- 1 Dicionário de indonésio-alemão
- 1 Dicionário de alemão-indonésio e indonésio-alemão
- 1 Dicionário de italiano-indonésio
- 1 Dicionário de tétum-indonésio e indonésio-tétum (publicado pela Gramedia – que é uma livraria/editora do tipo Fnac na Indonésia - de acordo com as normas oficiais em vigor para o tétum)
- 1 Dicionário de coreano-indonésio e indonésio-coreano
- 1 Dicionário de francês-indonésio e indonésio-francês
- 1 Dicionários de francês-indonésio,
- 1 Dicionário de indonésio-espanhol
- 1 Dicionário de espanhol-indonésio
- diversos dicionários indonésios de termos técnicos de biologia, química, física, medicina, economia, sociologia, política moderna, expressões idiomáticas, etc.
Não existem no mercado dicionários de indonésio-português, nem de português-indonésio, nem dicionários de português-tétum, nem dicionários de tétum(contemporâneo e oficial)-português. Após uma década de projectos de apoio à reintrodução da língua portuguesa em Timor, é impressão minha ou falta aqui alguma coisa?
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quinta-feira, julho 02, 2009
RTP Lusofonia
Não podemos ter cá a RTP África em vez da RTP Internacional para as comunidades de emigrantes portugueses já velhinhos? Mudem-lhe o nome para RTP Lusofonia e acrescentem aos telejornais Timor e umas notícias de coisas ligadas à lusofonia passadas no Brasil (as que se passam em Portugal já aparecem). Acho que os timorenses iam gostar mais. O que é que interessa ao pessoal cá em Timor-Leste o telejornal da Madeira e dos Açores? Que espero que não sejam mostrados actualmente na RTP África! Os timorenses querem lá saber se o Alberto João Jardim inaugurou mais uma bica de água na aldeia de Alguidares de Baixo lá na ilha dele. Na altura das eleições para o Parlamento Europeu estive a apanhar uma seca a ver na RTP Internacional, transmitida no sinal da TVTL, um longo programa de análise eleitoral dos resultados... da Madeira!
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segunda-feira, julho 07, 2008
De bacalhoeiros e outros plebeus
Do conto “Charo A’Loura” (um dos meus preferidos do autor):
«Bem, pois neste filme, Capitães intrépidos, Spencer Tracy fazia de pescador na Terra Nova. (…) E aí entre Spencer Tracy, que no filme se chamava Manuel e era português. Pois bem, esse Manuel, pouco a pouco, vai fazendo o rapaz entrar na razão. Com poucas palavras fá-lo descobrir um mundo desconhecido. O verdadeiro sentido da coragem e do trabalho. Aqueles homens, rudes e sem estudos, reaparecem aos olhos do menino como heróis. Manuel era para ele uma espécie de Ulisses que pescava bacalhau (...)»
Manuel RIVAS – Alma, Maldita Alma. Lisboa, Dom Quixote, 2000, p. 59
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terça-feira, maio 20, 2008
Raízes
"«Continuaj a armar-te em carapau de corrida e lebas uma trancada qui até andas de querena, qui é p’ra escarmentares!»
Mas opois chegou o catano do belhote gafanhão e mandou-oj apertarem o bacalhau e fazerem as pazes que senão qui oj atiraba à iágua. "
Uma das poucas coisas boas neste exílio temporário na terra natal é a re-imersão nas minhas raízes dialectais…
Mas opois chegou o catano do belhote gafanhão e mandou-oj apertarem o bacalhau e fazerem as pazes que senão qui oj atiraba à iágua. "
Uma das poucas coisas boas neste exílio temporário na terra natal é a re-imersão nas minhas raízes dialectais…
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domingo, abril 06, 2008
Manhã de Domingo
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sábado, março 29, 2008
Cântico Negro
A Fátima Guterres e a Mónica Fonseca leram-me este poema (um dos meus preferidos) na festa de despedida que os alunos organizaram na faculdade lá na UNTL.

Cântico Negro
de José Régio (1901-1969)
dito por Maria Bethânia
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!
[encontrado no já extinto Blog da Sabedoria Defunta]
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João Paulo Esperança
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sexta-feira, março 14, 2008
Ministry dos affairses extrangeiros
Há uns anos atrás publiquei no jornal timorense “Semanário” um texto em que falava sobre erros habituais na comunicação social na denominação em tétum dos ministérios do Estado timorense. Dava o exemplo do “*Ministériu Educasaun Cultura Juventude no Desporto”, em que a palavra “Ministériu” está escrita em tétum, “Cultura” em português e “*Educasaun” em língua nenhuma, porque em português seria “Educação” e em tétum “Edukasaun”.
Sendo o tétum uma das línguas oficiais de Timor-Leste deveria haver uma designação oficial das instituições do Estado também nesta língua. Tomemos agora como exemplo o “Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação”. Como designá-lo em tétum? Fui procurar nos meus arquivos designações deste ministério e/ou ministro.
STL,18-06-2003,p.6 – *Ministru Negosius Estrangeirus no Kooperasaun
STL,23-10-2003,p.6 – *Ministru dos Negosios Estranjeirus no Kooperasaun e, no mesmo texto, *Ministru Negosius Estranjeirus
STL,29-10-2003,p.1 – *Ministru Negosiu Estrangeiru no Kooperasaun
Jornal Nacional Diário,03-03-2006,p.7 – *Ministru dos Negocius Estranjeirus
Jornal Nacional Diário,22-03-2006,p.2 – *Ministru Negocius Estranjeirus no Koperasaun
Timor Post,11-05-2006,p.1 – *Ministru Negocios Estrangeiros no Cooperasaun
A versão bilingue do livro de António Veladas “Timór Terra Sentida” (Publ. Europa-América, 2001) chama-lhe “Ministériu Asuntu Li’ur nian”. Creio que este livro será leitura obrigatória nos estudos académicos que vierem a existir sobre a tradução em tétum, por ter sido uma das primeiras obras integralmente traduzidas para a língua, por ter usado já a ortografia oficial do INL e por a tradução ter estado a cargo de um dos mais importantes linguistas timorenses, o Professor Benjamim Corte-Real (curiosamente não há qualquer referência ao tradutor na ficha técnica). O tradutor que trabalha nestas circunstâncias é um pioneiro, um explorador que de catana na mão vai abrindo novos caminhos na selva virgem. Em idiomas com uma antiga tradição de tradução muito foi feito pelos que vieram antes, há que repetir apenas o procedimento, mas em línguas ágrafas, ou quase, ele vê-se na posição de ter que decidir qual a forma melhor para traduzir pela primeira vez uma dada expressão ou palavra. Nenhum tradutor de inglês, francês ou indonésio precisará de pensar duas vezes ao substituir “Ministério dos Negócios Estrangeiros” por “Ministry of Foreign Affairs” (1), “Ministère des Affaires Étrangères” ou “Departemen Luar Negeri”, mas o profissional consciente que trabalha com o tétum poderá ter que parar e reflectir antes de decidir qual será a melhor tradução possível. Na ausência de um nome oficial da instituição em tétum, os jornais timorenses frequentemente inventam, como já vimos. No "Lia Foun", um projecto bilingue pioneiro que existiu em 2005, houve uma decisão da redacção (tradutores incluídos) de manter os nomes oficiais em português dos ministérios mesmo nos textos em tétum, enquanto não houvesse decisão sobre as designações oficiais neste idioma, e também como forma de educar o público (afinal o português também é língua oficial do país e não merece ser mutilado como habitualmente é nos média de Timor-Leste).
Entretanto, enquanto pensava sobre estas questões, lembrei-me das brincadeiras que Umberto Eco faz com traduções e retroversões de textos clássicos no Babel Fish, no livro "Mouse or Rat – Translation as Negotiation" (Phoenix, 2004, p.10-18). Um dos textos que ele usa é constituído pelos sete primeiros versículos do Génesis de uma versão da Bíblia em inglês (a King James Bible), que ele depois traduz para diferentes línguas para mostrar alguns pontos sobre questões teóricas da tradução. Os resultados são, como seria de esperar, no mínimo estranhos. Então resolvi levar o Ministério dos Negócios Estrangeiros para o Babel Fish…
Traduzi primeiro “Ministério dos Negócios Estrangeiros” para inglês e obtive “*Ministry of the Foreign affairses”. Como não conhecia a palavra “*affairses” fui ao Google ver se havia quem conhecesse. 867 ocorrências, o que significa que há pelo menos este número de nabos na Internet. Uma delas é um comentário a uma notícia sobre Timor escrito por um autodenominado “Maubere” que andou a traduzir as suas opiniões para um monte de línguas, provavelmente no Babelfish também, e lá aparecem os “*affairses” rodeados de caracteres chineses (外国affairses的先生部长 葡萄牙语), o que mostra que o programa não reconhece as suas próprias criações lexicais. A seguir, pedi a tradução para português do “*Ministry of the Foreign affairses” e obtive “*Ministry dos affairses extrangeiros”. Comecei a achar que o Babel Fish tinha aprendido português nos jornais timorenses.
Lembrei-me então de ir lá com o “Ministério das Relações Exteriores” dos nossos irmãos brasileiros. Choque! O Babel Fish sabe o que é e apresentou de imediato a tradução para americano ver: “Department of state”. Fiz a retroversão e… “Departamento de estado”, que é como em português se chama o equivalente deste ministério nos EUA.
Tentei então em francês. Perfeito!
Sendo o tétum uma das línguas oficiais de Timor-Leste deveria haver uma designação oficial das instituições do Estado também nesta língua. Tomemos agora como exemplo o “Ministério dos Negócios Estrangeiros e Cooperação”. Como designá-lo em tétum? Fui procurar nos meus arquivos designações deste ministério e/ou ministro.
STL,18-06-2003,p.6 – *Ministru Negosius Estrangeirus no Kooperasaun
STL,23-10-2003,p.6 – *Ministru dos Negosios Estranjeirus no Kooperasaun e, no mesmo texto, *Ministru Negosius Estranjeirus
STL,29-10-2003,p.1 – *Ministru Negosiu Estrangeiru no Kooperasaun
Jornal Nacional Diário,03-03-2006,p.7 – *Ministru dos Negocius Estranjeirus
Jornal Nacional Diário,22-03-2006,p.2 – *Ministru Negocius Estranjeirus no Koperasaun
Timor Post,11-05-2006,p.1 – *Ministru Negocios Estrangeiros no Cooperasaun
A versão bilingue do livro de António Veladas “Timór Terra Sentida” (Publ. Europa-América, 2001) chama-lhe “Ministériu Asuntu Li’ur nian”. Creio que este livro será leitura obrigatória nos estudos académicos que vierem a existir sobre a tradução em tétum, por ter sido uma das primeiras obras integralmente traduzidas para a língua, por ter usado já a ortografia oficial do INL e por a tradução ter estado a cargo de um dos mais importantes linguistas timorenses, o Professor Benjamim Corte-Real (curiosamente não há qualquer referência ao tradutor na ficha técnica). O tradutor que trabalha nestas circunstâncias é um pioneiro, um explorador que de catana na mão vai abrindo novos caminhos na selva virgem. Em idiomas com uma antiga tradição de tradução muito foi feito pelos que vieram antes, há que repetir apenas o procedimento, mas em línguas ágrafas, ou quase, ele vê-se na posição de ter que decidir qual a forma melhor para traduzir pela primeira vez uma dada expressão ou palavra. Nenhum tradutor de inglês, francês ou indonésio precisará de pensar duas vezes ao substituir “Ministério dos Negócios Estrangeiros” por “Ministry of Foreign Affairs” (1), “Ministère des Affaires Étrangères” ou “Departemen Luar Negeri”, mas o profissional consciente que trabalha com o tétum poderá ter que parar e reflectir antes de decidir qual será a melhor tradução possível. Na ausência de um nome oficial da instituição em tétum, os jornais timorenses frequentemente inventam, como já vimos. No "Lia Foun", um projecto bilingue pioneiro que existiu em 2005, houve uma decisão da redacção (tradutores incluídos) de manter os nomes oficiais em português dos ministérios mesmo nos textos em tétum, enquanto não houvesse decisão sobre as designações oficiais neste idioma, e também como forma de educar o público (afinal o português também é língua oficial do país e não merece ser mutilado como habitualmente é nos média de Timor-Leste).
Entretanto, enquanto pensava sobre estas questões, lembrei-me das brincadeiras que Umberto Eco faz com traduções e retroversões de textos clássicos no Babel Fish, no livro "Mouse or Rat – Translation as Negotiation" (Phoenix, 2004, p.10-18). Um dos textos que ele usa é constituído pelos sete primeiros versículos do Génesis de uma versão da Bíblia em inglês (a King James Bible), que ele depois traduz para diferentes línguas para mostrar alguns pontos sobre questões teóricas da tradução. Os resultados são, como seria de esperar, no mínimo estranhos. Então resolvi levar o Ministério dos Negócios Estrangeiros para o Babel Fish…
Traduzi primeiro “Ministério dos Negócios Estrangeiros” para inglês e obtive “*Ministry of the Foreign affairses”. Como não conhecia a palavra “*affairses” fui ao Google ver se havia quem conhecesse. 867 ocorrências, o que significa que há pelo menos este número de nabos na Internet. Uma delas é um comentário a uma notícia sobre Timor escrito por um autodenominado “Maubere” que andou a traduzir as suas opiniões para um monte de línguas, provavelmente no Babelfish também, e lá aparecem os “*affairses” rodeados de caracteres chineses (外国affairses的先生部长 葡萄牙语), o que mostra que o programa não reconhece as suas próprias criações lexicais. A seguir, pedi a tradução para português do “*Ministry of the Foreign affairses” e obtive “*Ministry dos affairses extrangeiros”. Comecei a achar que o Babel Fish tinha aprendido português nos jornais timorenses.
Lembrei-me então de ir lá com o “Ministério das Relações Exteriores” dos nossos irmãos brasileiros. Choque! O Babel Fish sabe o que é e apresentou de imediato a tradução para americano ver: “Department of state”. Fiz a retroversão e… “Departamento de estado”, que é como em português se chama o equivalente deste ministério nos EUA.
Tentei então em francês. Perfeito!
“Ministério dos Negócios Estrangeiros” > “Ministère des Affaires Étrangères” > “Ministério dos Negócios Estrangeiros”
Fui lá novamente com a designação brasileira, confesso que com uma esperançazinha de que o Babel Fish francês manifestasse por eles o mesmo desprezo que o seu congénere inglês mostrou por nós. Mas não, uma pequena discrepância apenas, normal nisto de máquinas de tradução burras.
“Ministério das Relações Exteriores” > “Ministère des Relations Extérieures” > “Ministério das Relações Externas”
Das duas uma, ou os franceses sabem mais de geografia e de relações internacionais do que os americanos ou então lembram-se de nós por causa das porteiras e mulheres-a-dias.
E a tradução para tétum, que é por onde tínhamos começado? Analisemos então os elementos do problema. Se optássemos, como tem feito a imprensa, por adaptar a designação portuguesa, haveria que ser coerente com a ortografia. Teríamos então “Ministériu Negósiu Estranjeiru no Kooperasaun nian” ou “Ministériu Negósiu Estranjeiru no Kooperasaun sira-nian”. Mas não fiquemos por aqui. Quais são os elementos que compõem o nome do ministério? “Cooperação” pode nalguns contextos ser traduzida por “serbisu lisuk”, mas aqui parece-me que “kooperasaun” não seria contestada por ninguém. “Estrangeiro” já é diferente, podemos falar em “tasi-balun”, “li’ur”, “rai-li’ur” (por oposição a “rai-laran”, “doméstico”, “interior”), “rain-seluk”,… O Dicionário de Tétum do INL usa o neologismo “makli’ur”, com recurso à morfologia tradicional do tétum téric, com o significado de “exterior” ou “externo”. Finalmente a palavra “negócio”, ou em tétum “negósiu”, que em Timor é usada mais no sentido económico, como sinónimo do termo indonésio “bisnis”, que ainda se ouve muito, e que pode no caso ser perfeitamente substituída por “asuntu”, como vimos acima. Daqui surgem várias designações alternativas possíveis, versões divergentes das formas portuguesas, como por exemplo:
“Ministériu Asuntu Li’ur no Kooperasaun nian”
“Ministériu Asuntu Tasi-Balun no Kooperasaun nian”
“Ministériu Asuntu Rai-Li’ur no Kooperasaun nian”
“Ministériu Asuntu Makli’ur no Kooperasaun sira-nian”
“Ministériu Negósiu Makli’ur no Kooperasaun sira-nian”
Como vê o meu caro leitor, a tarefa do tradutor é espinhosa, de partir pedra para abrir caminho, e seria de facto útil que o Estado aprovasse uma lista oficial com os nomes dos Ministérios e Secretarias de Estado em tétum. Mas não se pense que é preciso a toda a força encontrar denominações vernáculas que substituam os empréstimos lexicais do português. Numa aula em que discutíamos as opções dos puristas para o desenvolvimento do tétum, propus aos alunos que traduzissem sem usar palavras de origem portuguesa a seguinte frase, sabendo ser esta uma tarefa impossível:
“A roda do meu carro tem um furo.”
Várias vozes tentaram fazer a tradução em voz alta, evitando os termos “roda” e “karreta”. Então uma moça começou, pensando à medida que falava:
- “Ha’u-nia buat ne’e ne’ebé ema sa’e nia buat-kabuar iha kuak.”
Quando terminou toda a sala explodiu numa gargalhada, e ela, compreendendo de repente a interpretação que estavam a fazer, ficou vermelha como um tomate. O que ela disse, numa tradução livre, foi algo como: “A minha coisa para cima da qual se pode subir (montar) tem uma coisa redonda que tem um buraco”. Às vezes é melhor usar os empréstimos lexicais mesmo…
(1) Ou “Ministry of External Affairs” ou “Ministry of External Relations”.
(1) Ou “Ministry of External Affairs” ou “Ministry of External Relations”.
quinta-feira, março 06, 2008
Cursos de língua para objectivos específicos
Quando estava em Timor havia colegas malais que de vez em quando iam de férias para a Tailândia. Reapareciam magrinhos, cheios de olheiras, com um ar exausto e um sorriso de orelha a orelha. Inquiridos, abriam ainda mais o sorriso e diziam qualquer coisa sobre terem passado o tempo a ver monumentos.
Em Timor também há quem veja monumentos. Quando cheguei a Díli, em 28 de Abril de 2001, o Instituto Camões pôs-me com a colega que me acompanhava, e os que chegaram depois, a morar no Hotel Starlight, acabadinho de inaugurar. Mais tarde mudaram-nos para outro hotel, o que foi acertado porque uns tempos depois o Starlight mudou de ramo e passou a ser um bordel de prostitutas tailandesas. Uma noite estava a beber um copo num bar e acabei na conversa com o tipo que estava sentado no banco ao lado do meu, um malasiano de origem indiana que se riu quando declarei a minha nacionalidade e me perguntou porque não estava no Starlight com os meus compatriotas todos. Circulavam então por Díli entre a comunidade de expatriados anedotas sobre os magalas lusos que arranjavam namoradas entre as trabalhadoras do estabelecimento e armavam zaragata quando calhava terem licença das suas unidades no mesmo dia dois namorados da mesma moça.
Uma tarde, vinha eu de dar o meu passeiozinho de motorizada ao longo da praia até ao Cristo-Rei, deparei-me com um amigo meu, que tinha sido militar em Portugal antes de ter emigrado para a Austrália. Parei e ficámos na conversa. Ele também tinha encontrado ali na Areia Branca alguns camaradas da mesma tropa que estavam a fazer uma comissão nas Forças de Manutenção da Paz lá em Timor e juntei-me ao grupo. Cada um dos colegas dele estava acompanhado de uma rapariga tailandesa. Elas só tinham expediente à noite e portanto estavam de folga. Eram simpáticas as cachopas, e falavam pelos cotovelos num inglês meio estropiado que no início custava a perceber. Quando expliquei que era professor de português uma delas resolveu impressionar-me com os conhecimentos que tinha da língua, e desatou a dizer, numa sucessão muito rápida, uma enorme lista de termos e expressões que davam conta, no calão mais vernáculo que se possa imaginar, de todas as variantes possíveis de actos sexuais. Suponho que Camões, que tinha fama de entendido em lupanares e era um experimentado viajante dessas ásias por onde os portugueses ergueram o padrão pátrio, teria ficado orgulhoso das acções daqueles militares em prol da difusão da língua portuguesa. E ao ler as referências no Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas a cursos para desenvolvimento da competência parcial num dado idioma no que se refere a um domínio determinado e a tarefas específicas, não posso deixar de pensar que era exactamente disso que se tratava também ali.
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domingo, março 02, 2008
Um brinde aos amigos
A vida tem altos e baixos. A felicidade às vezes surge em instantes fugazes, um bater de asas de borboleta e desaparece. Mas de vez em quando damos por nós a ficar surpreendidos por vê-la durar. Eu tive dois períodos na vida em que fui intensamente e consistentemente feliz. Um desde que em Timor comecei a namorar com a Fernanda, a minha esposa, e que ainda continua, renovando-se em cada amanhecer. Outro, na época em que morava na Residência Universitária Ribeiro Santos. Foram tempos de pobreza (ainda ontem ao folhear o Diccionario Teto-Português, de 1907, de Raphael das Dores, me lembrei do que me custou – não me recordo do preço em dinheiro, mas sim que, tendo-o encontrado num alfarrabista lisboeta, andei quase duas semanas a comer só uma refeição por dia para poder comprá-lo), mas também houve muito amor, amizade, solidariedade, e descoberta das coisas importantes da vida.
Os anos foram passando, eu morava do outro lado do mundo, e perdi o contacto com os amigos dessa época. Mas de vez em quando alguma coisa aparece que me faz recordar algum colega desse tempo. O vídeo que se segue, que encontrei no YouTube, fez-me lembrar da Clara. :-)
Os anos foram passando, eu morava do outro lado do mundo, e perdi o contacto com os amigos dessa época. Mas de vez em quando alguma coisa aparece que me faz recordar algum colega desse tempo. O vídeo que se segue, que encontrei no YouTube, fez-me lembrar da Clara. :-)
Se o de cima não funcionar tente este:
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segunda-feira, dezembro 24, 2007
Texto antigo para copiar para outros blogues
Este é um texto originalmente publicado por duas amigas minhas - e ex-alunas - no jornal literário do Departamento de Língua Portuguesa da UNTL. Foi depois incluído por nós no nosso livro colectivo “O que é a lusofonia – Saida maka luzofonia”.
Lisensiatura kona-ba Lia-Portugés no Kultura Luzófona sira
Ita hotu hatene katak ita-nia nasaun iha lian ofisiál rua, tetun no portugés. Ne’e desizaun matenek husi ita-nia na’i-ulun sira, tanba hanesan ne’e timoroan sira ne’ebé seidauk hatene portugés mós bele komunika ho Estadu. Porezemplu, tia ida iha foho ne’ebé laeskola bele hakerek surat – ka husu ba ema ruma atu hakerek – uza de’it tetun no haruka ba Ministériu ida ka ba Tribunál kona-ba problema ruma ne’ebé nia hetan. Maibé ita mós hatene katak tetun sei tuir hela prosesu atu dezenvolve an, no lia-portugés maka nia belun istóriku no lia-portugés maka lian nasaun Timór Lorosa’e nian ne’ebé ita uza hodi hatene kultura aas. Ita seidauk bele lee ho tetun Mahabarata ka Odisseia ka testu sira husi Stephen Hawking ka António Damásio, Santu Agostiñu ka Karl Marx, Shakespeare ka Camões, José Saramago ka George Orwell. Ita seidauk bele uza tetun hodi koñese Literatura Boot husi mundu ne’e, ka hatene kona-ba siénsia foun oioin, no importante tebetebes ba intelektuál sira atu lee kona-ba buat hirak-ne’e hotu. Selae ita sei sai nasaun ida ke la iha matenek-na’in. No matenek-na’in sira de’it maka bele hatene porezemplu oinsá atu prodús eletrisidade, halo operasaun ba ema moras, ke’e mina-rai iha tasi-kidun, ka dezenvolve ita-nia ekonomia... Ita timoroan sei bele uza lia-portugés atu estuda kona-ba asuntu hirak-ne’e.
Tebes duni, ema barak seidauk hatene portugés moos. Tia husi foho ne’ebé ita temi tiha ona bele komprende fraze ida hanesan ne’e “Maria konta ke Domingu-Domingu, depoizde misa, avó bá merkadu halo kompras. Nia presiza kafé, repollu, pepinu, alfase, mostarda, agriaun, tomate, kouve, salsa, ervilla i senoura.” Maibé tia ida-ne’e la bele lee A última morte do Coronel Santiago, husi hakerek-na’in timoroan Luís Cardoso. Hanesan de’it tia mós bele ko’alia “bahasa pasaran” maibé nia la hatene lee Bumi Manusia, husi autór indonéziu Pramoedya Ananta Toer. Ema ne’ebé hakarak estuda atu hatene portugés moos iha oportunidade oioin. Labarik sira hotu oras-ne’e estuda ona iha eskola primária, profesór sira iha Dili no iha distritu tuir daudaun Baxarelatu atu aprende lian ida-ne’e, no foin-sa’e sira ne’ebé remata eskola sekundária no iha intensaun atu buka matenek bele mai estuda iha ami-nia Lisensiatura kona-ba Lia-Portugés no Kultura Luzófona sira.
Universidade Nacional de Timor Lorosa’e maka hala’o Lisensiatura ida-ne’e, iha Faculdade de Ciências da Educação, hahú tiha ona iha tinan akadémiku 2001/2002. Iha kursu ne’e ami estuda buat oioin interesante tebetebes: lia-portugés, literatura husi Portugál, Brazíl, rain oioin iha Áfrika no Timór Lorosa’e, kultura Timór nian no rain seluk nian, gramátika, linguístika, Istória Timór Lorosa’e nian no seluseluk tan. Ami-nia kursu mós fó atensaun maka’as ba lia-tetun, no ami tuir kadeira (ho lia-indonézia katak mata kuliah) hanesan Padronizasaun no Ortografia Tetun nian, no Gramátika Tetun nian. Bainhira ami-nia Lisensiatura hotu ami sei bele buka serbisu nu’udar profesór, durubasa, tradutór, sekretária, jornalista, ka funsionáriu iha fatin sira ne’ebé ezije ema atu hatene momoos lian ofisiál rua ita-nia nasaun nian. Ami-nia profesór barak mai husi Portugál no rain sira seluk ne’ebé mós iha lia-portugés nu’udar lian ofisiál, liuliu husi Instituto Camões. Ami mós hala’o atividade oioin hanesan jornál kona-ba literatura “Várzea de Letras”, teatru, tradusaun, nsst...
Joven timoroan, mai estuda ho ami!
Testu husi Icha Bossa ho Irta Araújo,
publika tiha iha
Várzea de Letras, Suplemento Literário mensal do jornal Semanário, nº 4 [5], Julho 2004
Lisensiatura kona-ba Lia-Portugés no Kultura Luzófona sira
Ita hotu hatene katak ita-nia nasaun iha lian ofisiál rua, tetun no portugés. Ne’e desizaun matenek husi ita-nia na’i-ulun sira, tanba hanesan ne’e timoroan sira ne’ebé seidauk hatene portugés mós bele komunika ho Estadu. Porezemplu, tia ida iha foho ne’ebé laeskola bele hakerek surat – ka husu ba ema ruma atu hakerek – uza de’it tetun no haruka ba Ministériu ida ka ba Tribunál kona-ba problema ruma ne’ebé nia hetan. Maibé ita mós hatene katak tetun sei tuir hela prosesu atu dezenvolve an, no lia-portugés maka nia belun istóriku no lia-portugés maka lian nasaun Timór Lorosa’e nian ne’ebé ita uza hodi hatene kultura aas. Ita seidauk bele lee ho tetun Mahabarata ka Odisseia ka testu sira husi Stephen Hawking ka António Damásio, Santu Agostiñu ka Karl Marx, Shakespeare ka Camões, José Saramago ka George Orwell. Ita seidauk bele uza tetun hodi koñese Literatura Boot husi mundu ne’e, ka hatene kona-ba siénsia foun oioin, no importante tebetebes ba intelektuál sira atu lee kona-ba buat hirak-ne’e hotu. Selae ita sei sai nasaun ida ke la iha matenek-na’in. No matenek-na’in sira de’it maka bele hatene porezemplu oinsá atu prodús eletrisidade, halo operasaun ba ema moras, ke’e mina-rai iha tasi-kidun, ka dezenvolve ita-nia ekonomia... Ita timoroan sei bele uza lia-portugés atu estuda kona-ba asuntu hirak-ne’e.
Tebes duni, ema barak seidauk hatene portugés moos. Tia husi foho ne’ebé ita temi tiha ona bele komprende fraze ida hanesan ne’e “Maria konta ke Domingu-Domingu, depoizde misa, avó bá merkadu halo kompras. Nia presiza kafé, repollu, pepinu, alfase, mostarda, agriaun, tomate, kouve, salsa, ervilla i senoura.” Maibé tia ida-ne’e la bele lee A última morte do Coronel Santiago, husi hakerek-na’in timoroan Luís Cardoso. Hanesan de’it tia mós bele ko’alia “bahasa pasaran” maibé nia la hatene lee Bumi Manusia, husi autór indonéziu Pramoedya Ananta Toer. Ema ne’ebé hakarak estuda atu hatene portugés moos iha oportunidade oioin. Labarik sira hotu oras-ne’e estuda ona iha eskola primária, profesór sira iha Dili no iha distritu tuir daudaun Baxarelatu atu aprende lian ida-ne’e, no foin-sa’e sira ne’ebé remata eskola sekundária no iha intensaun atu buka matenek bele mai estuda iha ami-nia Lisensiatura kona-ba Lia-Portugés no Kultura Luzófona sira.
Universidade Nacional de Timor Lorosa’e maka hala’o Lisensiatura ida-ne’e, iha Faculdade de Ciências da Educação, hahú tiha ona iha tinan akadémiku 2001/2002. Iha kursu ne’e ami estuda buat oioin interesante tebetebes: lia-portugés, literatura husi Portugál, Brazíl, rain oioin iha Áfrika no Timór Lorosa’e, kultura Timór nian no rain seluk nian, gramátika, linguístika, Istória Timór Lorosa’e nian no seluseluk tan. Ami-nia kursu mós fó atensaun maka’as ba lia-tetun, no ami tuir kadeira (ho lia-indonézia katak mata kuliah) hanesan Padronizasaun no Ortografia Tetun nian, no Gramátika Tetun nian. Bainhira ami-nia Lisensiatura hotu ami sei bele buka serbisu nu’udar profesór, durubasa, tradutór, sekretária, jornalista, ka funsionáriu iha fatin sira ne’ebé ezije ema atu hatene momoos lian ofisiál rua ita-nia nasaun nian. Ami-nia profesór barak mai husi Portugál no rain sira seluk ne’ebé mós iha lia-portugés nu’udar lian ofisiál, liuliu husi Instituto Camões. Ami mós hala’o atividade oioin hanesan jornál kona-ba literatura “Várzea de Letras”, teatru, tradusaun, nsst...
Joven timoroan, mai estuda ho ami!
Testu husi Icha Bossa ho Irta Araújo,
publika tiha iha
Várzea de Letras, Suplemento Literário mensal do jornal Semanário, nº 4 [5], Julho 2004
Licenciatura em Língua Portuguesa e Culturas Lusófonas
Todos sabemos que a nossa nação tem duas línguas oficiais, o tétum e o português. Isto foi uma decisão inteligente dos nossos líderes, porque desta forma os timorenses que ainda não sabem português também podem comunicar com o Estado. Por exemplo, uma tia não-escolarizada na montanha pode escrever uma carta – ou pedir a alguém que lha escreva – usando apenas o tétum e enviá-la para um Ministério ou para o Tribunal sobre um problema qualquer que ela tenha. Mas nós também sabemos que o tétum ainda está num processo de desenvolvimento, e que o português é que é o seu aliado histórico e a língua portuguesa é que é a língua da nação leste-timorense que usamos para ter acesso à alta cultura. Ainda não podemos ler em tétum o Mahabarata ou a Odisseia ou os textos de Stephen Hawking ou António Damásio, Santo Agostinho ou Karl Marx, Shakespeare ou Camões, José Saramago ou George Orwell. Ainda não podemos usar o tétum para conhecer a Grande Literatura mundial, ou para saber sobre as ciências modernas, e é muito importante que os intelectuais leiam sobre tudo isto. Se não seremos uma nação sem intelectuais e sem especialistas. E só estes é que podem saber por exemplo como se produz electricidade, se fazem operações cirúrgicas, se extrai petróleo do fundo do mar, ou se desenvolve a nossa economia... Nós timorenses poderemos através da língua portuguesa estudar sobre estes assuntos.
Claro que é verdade que muita gente ainda não domina o português. A tia da montanha que já mencionámos pode compreender uma frase como esta “Maria konta ke Domingu-Domingu, depoizde misa, avó bá merkadu halo kompras. Nia presiza kafé, repollu, pepinu, alfase, mostarda, agriaun, tomate, kouve, salsa, ervilla i senoura” (A Maria conta que aos Domingos, depois da missa, a avó vai ao mercado fazer compras. Ela precisa de café, repolho, pepino, alface, mostarda, agrião, tomate, couve, salsa, ervilha e cenoura). Mas esta tia não pode ler A última morte do Coronel Santiago, do escritor timorense Luís Cardoso. Da mesma forma, a tia também pode falar “bahasa pasaran” (língua malaia “do mercado”), porém não é capaz de ler Bumi Manusia, do autor indonésio Pramoedya Ananta Toer. Quem quer estudar para saber português correctamente tem muitas oportunidades. Todas as crianças actualmente o aprendem na escola primária, os professores em Díli e nos distritos seguem actualmente um Bacharelato para aprenderem este idioma, e os jovens que terminaram a escola secundária e têm intenção de aprofundar os seus conhecimentos podem vir estudar connosco na nossa Licenciatura em Língua Portuguesa e Culturas Lusófonas.
Esta Licenciatura foi criada na Universidade Nacional de Timor Lorosa’e, na Faculdade de Ciências da Educação, no ano académico de 2001/2002. Neste curso estudamos muitas coisas interessantes: língua portuguesa, literatura de Portugal, Brasil, países africanos lusófonos e Timor-Leste, cultura timorense e de outras nações da lusofonia, gramática, linguística e história de Timor-Leste, entre outras coisas. O nosso curso também dá uma grande atenção ao tétum, e temos cadeiras como Padronização e Ortografia do Tétum, e Gramática do Tétum. No final da Licenciatura poderemos procurar trabalho como professores, intérpretes, tradutores, secretárias, jornalistas, ou funcionários em locais que exijam o domínio das duas línguas oficiais da nossa nação. Muitos dos nossos professores vêm de Portugal ou de outros países lusófonos, principalmente do Instituto Camões. Levamos também a cabo diversas actividades como o jornal literário “Várzea de Letras”, teatro, traduções, etc...
Jovem timorense, vem estudar connosco!
A versão original em tétum, de Icha Bossa e Irta Araújo, foi publicada no
Várzea de Letras, Suplemento Literário mensal do jornal Semanário, nº 4 [5], Julho 2004
Publicada por
João Paulo Esperança
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11:10 da tarde
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