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Um blog em português - e de vez em quando em tétum e em tocodede - sobre os devaneios de um professor e tradutor ilhavense a morar em Timor. Sobre temas timorenses e do Oriente em geral, e sobre outras coisas de vez em quando...
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terça-feira, fevereiro 14, 2017
Tradução literária e técnica em Timor, línguas, mercado e produtores de bens culturais
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João Paulo Esperança
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quinta-feira, maio 07, 2015
Um comentário sobre a variedade timorense da língua portuguesa
Acabo de ler um texto que falava sobre as possibilidades de desenvolvimento de uma norma própria para a variedade timorense da língua de Luís Cardoso, Jorge Amado e Saramago. Acho que, mesmo nos PALOP, a afirmação de uma norma própria não é tão pacífica como às vezes se pensa... Parece-me que Moçambique é onde foram dados mais passos nessa direção. Há recetividade em relação à incorporação de itens lexicais específicos de cada um dos países, mas muito mais reticências em relação a outros aspetos. Aqui alguns dos traços da variedade timorense do português que eu observava quando cheguei, em 2001, mantém-se. Por exemplo, construções do tipo "Escreve ainda" (transferência do "Hakerek lai") são quase omnipresentes nas várias gerações de falantes, incluindo as crianças, e parece-me que estão cá para ficar. Uma frase como "Deixa ele comer ainda" já me parece menos estável, porque pode ser simplesmente uma realização própria de interlíngua substituída por "Deixa-o comer ainda" quando o falante tiver um domínio melhor da língua. No léxico, palavras como "liurai" estão perfeitamente incorporadas na variedade local do português, mas vejo que há vocábulos do português como "néli" que foram usados - em português - por muitas gerações de timorenses, e que parecem de utilização menos comum pela mocidade; creio que a razão é que os inputs são diversos, e muitos deles vêm de falantes de outras variedades do português (não a variedade timorense). Os bordões linguísticos são uma área particularmente gira. Se prestarem atenção às cachopas e garotos timorenses a falar português vão ouvir coisas como "Foi ele sá!" ou "É este tó!"
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João Paulo Esperança
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Como dizia o Bruce Lee: "“Absorb what is useful, discard what is not". A propósito do português língua do ensino em Timor...
Num congresso em Díli, há alguns anos, em que se falou sobre o uso das línguas maternas como línguas do ensino (=línguas de instrução), um dos oradores convidados foi um maori que falou sobre o sucesso das Kōhanga Reo. Parece-me um modelo que Timor poderia analisar para ver o que pode ser útil para cá:
- os maoris perceberam que menos de 20% dos maoris falavam bem maori,
- a sua liderança definiu um projeto político em que falar bem maori era um objetivo político e identitário claro,
- criaram uma rede de pré-escolas em que crianças cuja língua materna era o inglês (filhos de pais que falavam inglês e não maori em casa) aprendiam maori e em maori.
Por cá os líderes políticos timorenses eleitos pelo povo é que têm de decidir se a língua portuguesa faz realmente parte do seu projeto político e identitário ou não...
Interação da língua portuguesa, do tétum e da fé criou nação timorense - Ex-PM Alkatiri
07 de Maio de 2015, 10:10

Foto: Pedro Sá de Bandeira/EPA
Trata-se, disse, de elementos que servem como "oxigénio" para a reafirmação da identidade timorense, "em todo o seu mosaico" socio cultural pelo que questionar qualquer desses elementos coloca em risco essa identidade.
Mari Alkatiri falava num colóquio em Díli subordinado ao tema "Uma língua - Várias identidades", inserido nos eventos da Semana da Língua Portuguesa do Parlamento Nacional.
Em resposta a perguntas da plateia, Mari Alkatiri criticou o que disse ser a má política adotada nos últimos anos no ensino da língua, com comunicações no setor público em inglês ou indonésio.
Como exemplo do que diz serem erros políticos sobre esta matéria, recorda que quando a troika chegou a Portugal foi convidado pelos então chefe de Estado, José Ramos-Horta e primeiro-ministro, Xanana Gusmão, para os acompanhar a Portugal "comprar dívida pública portuguesa".
"Tínhamos 6 mil milhões de dólares no fundo petrolífero e queriam comprar dívida pública. Isso nem dá para fazer cantar um cego. Eu disse que preferia ir lá, mas era para contratar professores portugueses", afirmou.
Alkaiti insistiu que esta política é essencial para defender a soberania timorense no contexto regional e sub-regional, e para defender o tétum que só se reforçará com o português e que, se se tentar desenvolver com o inglês ou indonésio "simplesmente desaparece".
"A política nacional tem que ser muito clara. Se não o for seremos mais um país no lago australiano ou um meio Estado na extensão da Indonésia. Essa é a realidade", afirmou.
"Fomos tão determinados a fazer a luta pela independência e estamos a perder a determinação de defender esta independência, os elementos que garantem a defesa desta independência", disse, criticando os que defendem o uso das línguas maternas que contribuem para "balcanizar" o país.
Numa intervenção em que recordou o papel da língua portuguesa em Timor-Leste, "da colonização à libertação", Alkatiri disse que o português começou como uma "língua política e sociocultural de dominação", algo que se foi diluindo ao longo dos séculos.
Um processo que ocorreu sem que o português tenha, em qualquer momento, deixado de ter interação com a sociedade timorense que o procurava sempre como aliado", especialmente nas duas ocupações, a japonesa e a indonésia.
"Os timorenses intuitivamente ou empiricamente sabiam que a melhor forma de afirmar a sua diferença era manter esse vínculo à identidade lusófona", algo que os ajudava a defender-se das presenças invasoras "mais perigosas e dominadores".
@Lusa
terça-feira, abril 21, 2015
O tétum não é um crioulo de base lexical portuguesa
Volta e meia surge um texto de algum estudante das coisas das
línguas em Timor a dizer que o tétum é um crioulo de base lexical portuguesa, o
que é tão correto como dizer que o inglês é, na verdade, um crioulo de base
lexical francesa.
Este livro (“Ordered Profusion
– Studies in Dictionaries and the English Lexicon”), por exemplo, diz que no
“Shorter Oxford English Dictionary”
28,30% das palavras têm origem no francês antigo, incluindo o anglo-francês, ou
no francês; 28,24% são de proveniência latina; e apenas 25% do vocabulário é de
origem germânica (juntando aqui também o inglês antigo, o inglês médio, o nórdico
antigo e o holandês.
O tétum não é um crioulo de base lexical portuguesa; podemos
considerar que o tétum-praça é um crioulo cuja base lexical é o tétum-téric, o
português surge só como um superestrato posterior. A zona de Díli era originalmente
de língua mambai. É possível que muitos dos cerca de 1200 indivíduos (dos quais
15 eram brancos) que para cá vieram aquando da transferência da capital de
Lifau para aqui falassem um crioulo de base lexical portuguesa semelhante ao
crioulo de Malaca (ainda conhecido por alguns habitantes do antigo bairro de Bidau
na década de 50 do séc. XX), mas não falavam tétum (língua pouco relevante na
parte ocidental da ilha). O afluxo de gentes de vários lugares à capital provavelmente
levou a que o tétum, que na parte oriental da ilha já funcionava como língua
franca entre os vários reinos, se tornasse a língua de Díli. As línguas francas
tornam-se muitas vezes o idioma da população do centro urbano mais importante da
sua região; veja-se os casos do malaio Betawi que se tornou a língua de Batávia
(atual Jacarta), o crioulo malaio em Cupão e o crioulo guineense em Bissau. O
uso do tétum como língua segunda por uma grande quantidade de falantes de outros
idiomas, com destaque para os mambais, levou a que passasse por um processo de
simplificação, a que podemos chamar crioulização, mas continuando a ser de
origem tétum boa parte do léxico básico deste tétum-praça. Numa primeira fase
absorveu também muitos termos do malaio, língua franca do comércio entre ilhas,
depois passou por um processo de relexificação parcial com vocabulário do
português (daí que o tétum-praça atual – e não obstante algumas propostas
puristas recentes – inclua grande percentagem de léxico de origem portuguesa,
não apenas para os registos mais elevados e os domínios mais técnicos, mas
também para coisas do dia a dia como a fauna e flora locais, as saudações entre
as pessoas e os termos de parentesco). Mas continua a ser suficiente comparar
uma lista de Swadesh para o tétum-praça e para um crioulo de base lexical
portuguesa para ver as diferenças…
Outra coisa que se lê de vez em quando é que o tétum-praça se
chamaria assim por ser a língua do mercado. Devem pensar que estão da praça do
peixe de alguma vila piscatória portuguesa… A praça de armas era onde residia o
governador e a sua guarnição, era o centro urbano. O tétum-praça era portanto o
tétum da cidade (por modesta que fosse a cidade).
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João Paulo Esperança
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segunda-feira, abril 13, 2015
Línguas de ensino
Há dias participei num debate no Facebook com uns colegas da
área da linguística e ensino sobre o significado do Artigo 8.º da Lei de
Bases da Educação (“Línguas do sistema educativo”), que diz que: ”As línguas de
ensino do sistema educativo timorense são o tétum e o português.” Creio que é
óbvio para quem saiba ler português que a intenção do legislador era dizer que
as escolas do sistema de ensino timorense têm que ensinar os diversos conteúdos
(matemática, ciências, etc) nas línguas oficiais, até porque a LBE foi aprovada
em 2008 e na legislatura de 2007-2012 o Parlamento Nacional também aprovou a
Resolução nº 20/2011. Mas, como houve uma colega que defendeu uma
interpretação diferente, a de que a referência a “línguas de ensino” no artigo
8º significa que “no sistema educativo timorense o tétum e o português são disciplinas
ou componentes curriculares“, fiz uma pesquisa rápida na Internet para ver com
que significado é que a expressão “línguas de ensino” é usada pelos especialistas
no ensino de língua segunda e língua estrangeira.
Eis alguns excertos de documentos que encontrei:
Da Professora Doutora Maria José Grosso:
"Os que são oriundos de países africanos e que têm o
português como língua segunda, (acepção de língua
de ensino com estatuto oficial, ensinada nas escolas e que participa também na
socialização da criança e no seu desenvolvimento cognitivo); estudam
português por razões académicas ou profissionais (ou os que em idade escolar
estão inseridos no Sistema do Ensino em Portugal). http://mha.home.sapo.pt/imagens/t4.pdf
Ainda segundo Maria José Grosso (et al) no QuaREPE:
“Os conceitos de língua materna, língua estrangeira, língua
segunda são conceitos polissémicos que não correspondem a uma definição linear.
O conceito de Língua Materna apela ao de língua da socialização, que, por
definição, transmite à criança a mundividência de uma determinada sociedade,
cujo principal transmissor é geralmente a família. O conceito de Língua
Estrangeira facilmente se define como a língua que não faz parte dessa
socialização primária, estando subjacente uma série de princípios
metodológicos. Na tradição da didáctica
das línguas, o conceito de Língua Segunda ocorre frequentemente como a língua
que, não sendo materna, é oficial (ou tem um estatuto especial) sendo também a
língua de ensino e da socialização secundária. Há, no entanto, alguns
autores que consideram que é Língua Segunda desde que os aprendentes estejam em
imersão linguística, num contexto em contacto com os falantes nativos da língua
que aprendem. Cf. Grosso (2005: 608).”
Diz-nos Marie Quinn num texto de 2008 (Choosing Languages for
Teaching in Primary School Classrooms):
“In
relation to the Portuguese, this position has been further strengthened by the
recent educational directive from the MEC. In this, Portuguese is identified to
take precedence as the language of
education, while Tetum, seen predominantly as an oral language, will serve
as an auxiliary language together with mother tongues:
… dado que o Tétum ainda está em processo de desenvolvimento
e sendo uma língua predominantemente oral, o Português terá preferência como língua de instrução ou ensino. O
Tétum, particularmente, e as demais línguas maternas serão usadas como línguas
auxiliares pedagógicas, quando necessário, particularmente nos primeiro anos.
… given
that Tetum is still in the process of development and being a predominantly
oral language, Portuguese will have preference as a language of instruction or teaching language. Tetum, particularly,
and the other maternal languages will be used as auxiliary pedagogical
languages, when necessary, particularly in the first years.
MEC 2006“
Do Quadro Europeu Comum de Referência para as Línguas:
"No exemplo sumário que se apresenta de seguida, que
trata daquilo que pode ser pensado pelas opções ou variações de cenário, são
delineados dois tipos de organização e de decisões curriculares para um
determinado sistema escolar, de forma a incluir, como acima foi sugerido, duas
línguas modernas para além da língua de
instrução (convencionalmente, mas de forma errada, referida abaixo como língua
nativa, uma vez que todos sabem que a língua do ensino, até na Europa, não é,
frequentemente, a língua materna dos alunos): uma língua iniciada na escola
primária (língua estrangeira 1, daqui por diante LE1), outra no nível
secundário inferior (língua estrangeira 2, daqui por diante LE2) e ainda outra
(LE3) como disciplina opcional, no ensino secundário de nível mais
avançado."
De Isabel
Leiria:
“Não
se pense, contudo, que a unanimidade tem sido absoluta entre os africanos (do
mesmo modo que não tem sido entre os portugueses), não quanto à opção do
português como língua oficial, mas como primeira
e única língua de ensino e de alfabetização. (...) Experiências de ensino
bilingue têm sido ensaiadas, mas sem grande sucesso. Na Guiné-Bissau, por
exemplo, no ano lectivo de 1977/78, com o apoio de Paulo Freire, foram criados
Centros de Educação Popular Integrada (CEPI). Foi decidido utilizar "a
língua comunitária, o crioulo, como língua de ensino para melhor facilitar a
aprendizagem dos conteúdos e a inserção das crianças na escola." Os
resultados não foram muito visíveis, porque nas zonas de implantação dos CEPI
(manjaca, balanta e bijago) o crioulo não era língua veicular para estas
populações, porque se continuava a fazer sentir a influência dos ensinamentos
de Amílcar Cabral (a língua oficial é o português) e porque "a população
tem uma atitude passiva e às vezes mesmo negativa quanto à introdução do
crioulo" (Barreto 2005).”
No documento “Diversidade Linguística na Escola Portuguesa”
do ILTEC:
“Por enquanto, em Portugal, todas as aprendizagens (para
além das línguas estrangeiras) são feitas em língua portuguesa, mesmo que,
através das equivalências, os alunos originários de outros países se possam
integrar num qualquer ano do ensino básico sem dominarem, ou dominando mal, a língua de ensino que para eles é língua
segunda.”
Portanto, está demonstrado que muitos importantes
especialistas usam os termos “língua de ensino” e “língua de instrução” como
sinónimos, com o significado de língua em que funciona o sistema educativo. E,
de resto, não é apropriado para estudantes destas coisas usar malabarismos
terminológicos para tentar convencer os outros das suas opiniões; a pedagogia e
a linguística não são como na matemática, em que 2+2 são sempre 4, e basta ler
autores como Skinner, Lado, Chomsky, Bley-Vroman, Krashen, Zobl, Schwartz, White,
etc, para perceber que há distintas formas de definir os conceitos e muitas
teorias diferentes sobre como funciona a aprendizagem da língua segunda (ou
aquisição da língua segunda – nem sobre isto os especialistas se entendem).
A política linguística de um país é definida pelos
representantes democraticamente eleitos do povo desse país, não por técnicos. O
papel dos técnicos é implementar a decisão política.
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sexta-feira, abril 03, 2015
Saber ler é importante, e mais ainda quando se sabe ler numa língua em que há livros...
Quando parecia que as línguas oficiais consagradas na Constituição já não eram motivo de polémica, e que o aparelho do Estado estava mobilizado para a implementação de uma política linguística comum, o recente debate público sobre a introdução das línguas regionais como línguas de instrução no sistema educativo veio dar uma nova visibilidade a algumas vozes que rejeitam o português como língua oficial, com o argumento de que usar o português “é ser colonizado”. Um dos fóruns onde defendem essa posição é o Facebook. Um alucinado qualquer partilhou um “post” meu [https://www.facebook.com/ jpesperanca.timor/posts/ 1039876492706556] num grupo timorense do Facebook chamando-me “fascista” e “colonialista” por causa do que digo sobre a língua de alta cultura.
Respondi-lhe com links para os livros traduzidos para tétum registados no Index Translationum da UNESCO, que são 3:
http://www.unesco.org/ xtrans/bsresult.aspx?a=&stxt=& sl=...
e os traduzidos para português registados na mesma lista, que são 80602:
http://www.unesco.org/ xtrans/bsresult.aspx?a=&stxt=& sl=...
Sei que ambas as listas estão incompletas, mas já dá para ter uma ideia do que eu queria dizer. :-)
Respondi-lhe com links para os livros traduzidos para tétum registados no Index Translationum da UNESCO, que são 3:
http://www.unesco.org/
e os traduzidos para português registados na mesma lista, que são 80602:
http://www.unesco.org/
Sei que ambas as listas estão incompletas, mas já dá para ter uma ideia do que eu queria dizer. :-)
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"Pedagogos" pobres de espírito
Há um discurso preocupante em certos círculos pedagógicos que se movem por cá, o de que é “ser colonizado” poder ler como estas crianças* leem e que os alunos das escolas rurais só podem ler meia dúzia de livrinhos “sobre a realidade da sua aldeia”. Como na aldeia não há astronautas, nem comboios, nem girafas e leões, nem pinguins, nem mulheres arqueólogas ou cirurgiãs, nem tantas outras coisas, os miúdos não podem ler sobre essas coisas. Esses “pedagogos” parecem querer impedir as crianças de sonhar… Cria-se assim um fosso entre as crianças educadas em escolas que os preparam para ser futuros cidadãos do seu país e cidadãos do mundo (mesmo que morem na aldeia), e as que são preparadas para terem horizontes curtos que não vão além do seu knua…
Haver contextualização de materiais não significa fechar as janelas!
* que são os meus meninos.
Haver contextualização de materiais não significa fechar as janelas!
* que são os meus meninos.
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João Paulo Esperança
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quinta-feira, maio 02, 2013
Pequenas histórias muito simples para crianças muito pequenas
Nos últimos anos tem aparecido em Timor-Leste uma profusão
de materiais básicos escritos em tétum e em várias outras línguas locais, sob a
forma de cartilhas ou pequenas histórias muito simples para crianças muito
pequenas. A escassez de materiais para crianças maiores deve-se provavelmente
ao facto de estes serem mais difíceis de criar. Sejamos sinceros, qualquer
pessoa pode tirar meia dúzia de fotografias, ou fazer alguns desenhos, e colocar-lhe
umas legendas por baixo, em tétum ou noutra língua, e fica uma cartilha feita.
Claro que há uma grande diferença entre uma dessas cartilhas e um manual
escolar para a fase de alfabetização concebido com critérios pedagogicamente
adequados. Da mesma forma têm aparecido vários livrinhos com histórias simples,
normalmente algumas frases acompanhadas por desenhos, que podem ser lidos a
crianças até aos 4-5 anos pelos pais ou irmãos mais velhos, e podem ser lidos
pelas próprias crianças por volta dos seis anos de idade. São úteis e estão a
preencher uma lacuna que existe em Timor-Leste, mas deveriam ser acompanhados
de materiais mais ambiciosos para outras faixas etárias.
Um exemplo deste tipo de histórias é o livrinho *“Avoo Leto - Tau foer ba foer fatin”,
em que um avô ensina ao neto a importância de não atirar lixo para o
chão (o que é um hábito extremamente generalizado em Timor-Leste). Um livro de
intenção pedagógica, que cumpre o que se propõe, com uns desenhos bonitos, mas
que infelizmente não pode ser distribuído nas escolas devido à quantidade de erros ortográficos que tem.
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sábado, abril 13, 2013
A nova literatura de Timor-Leste começa a desabrochar
Durante muitos anos a literatura (não a oratura) de
Timor-Leste era essencialmente em português. Desde há alguns anos têm começado
a aparecer novas obras e autores que se exprimem em tétum. Quando eu era uma criança,
uma professora de português que tive – provavelmente satisfeita pelo facto de
já então eu ser um leitor voraz – escreveu num caderno meu a frase “Um país
faz-se com homens e com livros.”, de Monteiro Lobato (mas que eu durante anos pensei que fosse de Mário Sacramento, um
democrata ilhavense durante a longa noite do fascismo em Portugal). Foi uma
frase que me impressionou muito, e que considero ainda hoje um dos meus motes.
Timor-Leste é para mim a minha terra adoptiva e creio que ninguém pode negar
que o século XX viu nascer neste país homens e mulheres de uma grandeza
excepcional, mas em grande medida ainda faltam os livros. Há alguns, com
destaque para as obras do Takas (Luís Cardoso), mas sendo escritos em
português, que é uma das línguas dos timorenses mas que muitos ainda não
dominam, têm uma penetração reduzida na sociedade. O aparecimento recente de
uma literatura tetumófona permite-nos ter esperança de que as coisas mudem e
que apareça em breve uma geração que lê. E ler em tétum não é nunca um
obstáculo a que se venha a ler em português. Ler em tétum na infância pode
despertar nos miúdos o bichinho dos livros, e quem fica assim cativado nunca
mais vai deixar de querer ler, e quando acabarem de ler os livros em tétum
(qualquer leitor pode ler num espaço de tempo relativamente curto TODOS os
livros em tétum que existem, infelizmente), e continuarem com ânsia de
conhecimento e de emoções, vão ler noutras línguas, começando evidentemente
pela portuguesa.
Irei começar a falar aqui de livros com mais frequência, de
livros de Timor, livros sobre Timor, e de livros em tétum – originais ou em
tradução. Hoje vou começar com uma pequena novela publicada pela ONG Timor Aid
em Novembro de 2012 intitulada “Inan ne’ebé iha bosok ualu” [A mãe que disse
oito mentiras] do escritor timorense de 17 anos de idade Ariel Mota Alves. A
obra obteve um terceiro lugar no concurso literário em tétum organizado
anualmente pela Timor Aid e pela Fundação Alola, de que também já cheguei a ser
membro do júri. Trata-se de um livrinho com uma história mais ou menos linear,
de pendor moralista, mas bastante eficaz na transmissão da sua mensagem. As
personagens principais são Bisoi e o seu filho Atoi, e a história gira em torno
dos desafios que enfrentam ao longo das respectivas vidas. Mãe e filho são
extremamente pobres, mas o sacrifício abnegado da mãe vai criando oportunidades
onde elas não existiam para dar uma vida melhor ao seu menino. Este por seu
lado vai aceitando e beneficiando com isso, e acrescentando o seu esforço ao da
sua progenitora, mas terá que enfrentar também os seus próprios dilemas.
Um livro que, não obstante o enredo pueril, devia ser
amplamente lido pelas crianças e jovens timorenses, como uma chamada de atenção
para os fazer pensar no que os seus pais muitas vezes fazem por eles, e também
como uma homenagem às mulheres deste país. Conheci muitas timorenses com a
fibra desta Bisoi ao longo de mais de uma década em Timor. A literatura não tem
que tentar mudar o mundo, mas pode tentar mudar o mundo. Esta obra, de um
escritor tão jovem, tenta fazer o seu quinhão.
domingo, maio 27, 2012
Uma “cantiga tradicional timorense” vinda da Nova Zelândia
Nestes tempos de
invenções de tradições (até já vemos grupos musicais de Kore Metan – um género
musical mestiço e urbano, luso-timorense – a actuar vestidos com tais e com
belaks pendurados ao pescoço...[1]), é sempre bom recordar que as coisas nem
sempre são como se diz...
A tal “cantiga tradicional timorense” a que me
refiro no título é uma das minhas canções em tétum preferidas, e chama-se “Ha’u
hakerek surat ida”. Foi-me dito há bastante tempo, por timorenses que sabem
destas coisas, que a melodia é neozelandesa, e que a letra em tétum seria da
autoria do já falecido Sr. Momô dos Mártires. Nunca calhou eu ter tido a
oportunidade de verificar isto, mas hei-de tentar confirmar.
P.S. - [1] Para os portugueses que não entendem, isto é mais ou menos o equivalente a pôr o Alfredo Marceneiro a cantar o fado vestido de pauliteiro de Miranda...
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João Paulo Esperança
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segunda-feira, outubro 24, 2011
Em que século queremos que esteja a mentalidade dos nossos filhos?
Têm estado na moda nos últimos anos uns programas de televisão em que gente do ocidente vai morar com os nativos de um lugar exótico qualquer, ainda pouco afectado pela civilização moderna, e aí se submete à vida quotidiana da tribo, comendo raras iguarias e mixórdias intragáveis, participando em competições de sistemas de combate tradicionais, fazendo trabalho manual no duro, indo buscar água suja para beber a um buraco distante qualquer cheio de micróbios… Programas como Tribal Wives, Last Man Standing, Last Woman Standing, e Tribe.
Comprei a série completa deste último em DVDs e temos assistido aos episódios em casa.
A minha mulher acha muita graça às coisas em que o simpático apresentador britânico Bruce Parry se mete, e o tipo tem de facto talento para aquilo, quer pelo esforço que faz para imitar a vida dos anfitriões, quer pelo sentido de humor que mostra quando acaba por ser o bobo da festa pela sua evidente falta de jeito…
Mas há dias estávamos a conversar sobre um aspecto que perturba um bocado: é que cá em Timor, apesar dos engarrafamentos de trânsito em Díli e de todo o esforço para desenvolver o país, quando a questão são os cuidados de saúde e a forma de lidar com doenças, as crenças e as atitudes da maior parte das pessoas não diferem muito das daquelas tribos nos cus de Judas da África ou da Amazónia. Muitos timorenses, mesmo citadinos com cursos superiores, rejeitam quase totalmente a medicina moderna, vacinas, ou hospitais, e recorrem antes a curandeiros tradicionais e feiticeiros. A minha mulher teve recentemente um acidente de motorizada e a radiografia revelou uma fissura num osso do pé, pelo que os médicos lhe colocaram gesso para imobilizar a área. Pois a maior parte dos seus conhecidos revela a maior surpresa por ela ter posto o gesso e passam o tempo a tentar convencê-la a ir a endireitas e milagreiros vários que, segundo dizem, resolveriam o problema em dois ou três dias. Até lhe falaram num que, quando lhe aparece um paciente com uma fractura num osso, começa por partir tudo o que resta do mesmo osso, para depois fazer um milagre qualquer e “curar” o pobre desgraçado…
Como será a educação das crianças em escolas onde os próprios professores acreditam piamente nestas coisas?
A minha mulher acha muita graça às coisas em que o simpático apresentador britânico Bruce Parry se mete, e o tipo tem de facto talento para aquilo, quer pelo esforço que faz para imitar a vida dos anfitriões, quer pelo sentido de humor que mostra quando acaba por ser o bobo da festa pela sua evidente falta de jeito…
Mas há dias estávamos a conversar sobre um aspecto que perturba um bocado: é que cá em Timor, apesar dos engarrafamentos de trânsito em Díli e de todo o esforço para desenvolver o país, quando a questão são os cuidados de saúde e a forma de lidar com doenças, as crenças e as atitudes da maior parte das pessoas não diferem muito das daquelas tribos nos cus de Judas da África ou da Amazónia. Muitos timorenses, mesmo citadinos com cursos superiores, rejeitam quase totalmente a medicina moderna, vacinas, ou hospitais, e recorrem antes a curandeiros tradicionais e feiticeiros. A minha mulher teve recentemente um acidente de motorizada e a radiografia revelou uma fissura num osso do pé, pelo que os médicos lhe colocaram gesso para imobilizar a área. Pois a maior parte dos seus conhecidos revela a maior surpresa por ela ter posto o gesso e passam o tempo a tentar convencê-la a ir a endireitas e milagreiros vários que, segundo dizem, resolveriam o problema em dois ou três dias. Até lhe falaram num que, quando lhe aparece um paciente com uma fractura num osso, começa por partir tudo o que resta do mesmo osso, para depois fazer um milagre qualquer e “curar” o pobre desgraçado…Como será a educação das crianças em escolas onde os próprios professores acreditam piamente nestas coisas?
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segunda-feira, agosto 09, 2010
Que horror!!? Uma estátua de uma mulher nua?
A imprensa local deu a notícia de que uma deputada timorense anunciou que está muito preocupada com o trabalho da comissão organizadora da participação nacional na Exposição Mundial de Xangai. Isto - conta um jornal - por o pavilhão timorense ter exibido uma estátua de uma mulher timorense nua, o que a deputada considera como algo que estraga a dignidade das mulheres timorenses internacionalmente.
Curioso, fiz uma busca nas imagens do Google, pelas palavras: Shanghai World Expo Timor Leste. A única imagem que encontrei com mulheres (e homens) timorenses em pelote foi esta:
Curioso, fiz uma busca nas imagens do Google, pelas palavras: Shanghai World Expo Timor Leste. A única imagem que encontrei com mulheres (e homens) timorenses em pelote foi esta:
Muitas casas tradicionais timorenses continuam a ter portas esculpidas com homens e mulheres nus. O que também acontece em estátuas sagradas na religião tradicional.
Fiz depois uma busca no Flickr, e encontrei esta fotografia:
東帝汶館 Timor-Leste Pavilion
Talvez a tal estátua polémica seja outra, mas porque é que a nudez faria as pessoas indignas? Seriam desprovidas de dignidade as mulheres timorenses que usavam os seios nus de acordo com a tradição, até há algumas décadas?
Fiz depois uma busca no Flickr, e encontrei esta fotografia:
東帝汶館 Timor-Leste Pavilion
Talvez a tal estátua polémica seja outra, mas porque é que a nudez faria as pessoas indignas? Seriam desprovidas de dignidade as mulheres timorenses que usavam os seios nus de acordo com a tradição, até há algumas décadas?
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João Paulo Esperança
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sábado, agosto 07, 2010
Livros à vontade do freguês

A primeira vez que entrei no Blurb foi para comprar um livro do Celso Oliveira. Gostei do conceito. Há várias empresas semelhantes na Internet, mas a Blurb é das que fornece um serviço mais simples, prático e barato. Eles disponibilizam software, a pessoa prepara o livro que quer, como quer, no seu próprio computador, e depois carrega o produto final no sítio deles. O livro ficará disponível para quem o quiser comprar, e cada vez que há uma encomenda eles imprimem um exemplar (ou mais, dependendo do que o comprador quer). Cada cópia sai mais cara do que o preço por unidade de um livro impresso numa gráfica, mas é muito útil para quem pretende publicar por exemplo uma monografia sobre marcadores incoativos no macu’a ou macuva (lovaia epulo), ou uma tradução d”Os Maias” para esta língua timorense. Como o número de falantes que resta não chega a meia dúzia, será muito mais adequado imprimir algumas cópias no Blurb do que procurar uma editora que publique uma edição com grande tiragem. A Blurb exige apenas que seja comprada pelo menos uma cópia de cada livro publicado através deles. A pessoa que publica o livro pode escolher deixar o livro à venda pelo preço cobrado pela Blurb ou acrescentar uma margem de lucro para si. Eis a minha primeira experiência, para testar a qualidade do serviço, com dois textos que tinha publicado na Internet há algum tempo sobre o ensino de português em Timor:
sábado, setembro 05, 2009
Pré-requisitos peculiares no acesso ao ensino superior em Timor
Estas folhas explicam os pré-requisitos exigidos aos candidatos ao Instituto de Ciências da Saúde, uma instituição pública de ensino superior em Timor-Leste.
Incluem:
(…)
10 - Uma declaração do pai/mãe atestando que o candidato não é casado, quer para candidatos masculinos quer femininos, visada pelo padre da paróquia/chefe muçulmano/protestante (para candidatos com a escola secundária);
11 - Uma declaração da candidata atestando que concorda em não engravidar enquanto frequenta o curso de Farmácia, Enfermagem, Parteira, ou Oftalmologia no ICS;
12 – Para candidatos masculinos, tanto com a escola secundária (ciências naturais), como com a escola técnica de enfermagem e staff, uma declaração atestando que não irá engravidar nenhuma mulher, qualquer que seja, enquanto frequenta o curso de Farmácia ou Enfermagem no ICS;
13 – Uma declaração atestando que aceita ser colocado/a para trabalhar em qualquer local de Timor-Leste, de acordo com a decisão que seja tomada pelo Ministério da Saúde;
17 – Uma declaração atestando que aceita devolver o dinheiro gasto [pelo Estado?] com os seus estudos se ao concluir o curso não aceitar ser colocado no local decidido pelas autoridades competentes ou se sair do curso sem terminar os anos previstos no currículo;
18 – Todos os documentos devem ser entregues dentro de uma pasta de cor vermelha para os rapazes e de cor amarela para as raparigas;
C – Regras a seguir aquando da entrega de candidaturas ou pedido de informação:
(…)
32 – Para rapazes, vestir de maneira asseada, e usar calças compridas e sapatos; para raparigas, vestir de maneira asseada, usar sapatos, e é proibido usar mini-saia;
33 – Proibido estar em posse de armas brancas quando se faz o registo no Instituto de Ciências da Saúde de Timor-Leste ou [na delegação] no enclave de Oecússi.


Um outro aspecto peculiar do sistema de ensino timorense é que qualquer moça que engravide enquanto frequenta a escola secundária, seja em escolas privadas seja no ensino público, é imediatamente expulsa da escola.
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quinta-feira, julho 16, 2009
Após uma década de apoio à reintrodução da língua portuguesa em Timor

Após uma década de apoio à reintrodução da língua portuguesa em Timor - 3
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- 1 Dicionário de inglês-indonésio
- 1 Dicionário de indonésio-inglês
- 1 Dicionário de sueco-indonésio
- 2 Dicionários distintos de alemão-indonésio,
- 1 Dicionário de indonésio-alemão
- 1 Dicionário de alemão-indonésio e indonésio-alemão
- 1 Dicionário de italiano-indonésio
- 1 Dicionário de tétum-indonésio e indonésio-tétum (publicado pela Gramedia – que é uma livraria/editora do tipo Fnac na Indonésia - de acordo com as normas oficiais em vigor para o tétum)
- 1 Dicionário de coreano-indonésio e indonésio-coreano
- 1 Dicionário de francês-indonésio e indonésio-francês
- 1 Dicionários de francês-indonésio,
- 1 Dicionário de indonésio-espanhol
- 1 Dicionário de espanhol-indonésio
- diversos dicionários indonésios de termos técnicos de biologia, química, física, medicina, economia, sociologia, política moderna, expressões idiomáticas, etc.
Não existem no mercado dicionários de indonésio-português, nem de português-indonésio, nem dicionários de português-tétum, nem dicionários de tétum(contemporâneo e oficial)-português. Após uma década de projectos de apoio à reintrodução da língua portuguesa em Timor, é impressão minha ou falta aqui alguma coisa?
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João Paulo Esperança
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quarta-feira, dezembro 24, 2008
Resposta ao JPG
Ó homem, não se amofine, nem leia no meu texto coisas que eu não escrevi. Vamos a alguns factos para esclarecer o seu confuso e angustiado cérebro (que certamente terá um QI de 500 ou até para cima, não estou a pôr isso em causa).
1. O meu texto não é sobre o artigo de Pedro Rosa Mendes (um tipo porreiro, por sinal, além de escritor e jornalista que admiro). Certamente um malai inteligente como você poderia ter compreendido isso. Apenas citei uma frase do texto dele porque vinha a propósito para ilustrar um ponto. Reparou certamente que o exemplo que dei a seguir continua o raciocínio de Pedro Rosa Mendes expresso nessa frase, tal como o seu exemplo sobre os relógios de sol. A verdade é que não se fazem omeletes sem ovos, e o sistema de ensino timorense tem carências muito graves. Isto para além de outros factores, como por exemplo as deficiências ao nível da nutrição nas cruciais fases do desenvolvimento precoce que frequentemente deixam as crianças marcadas para toda a vida.
2. Você diz que:
Nem acho, como "malai", que espetar um ferro no coração de um animal seja um distinto sinal de civilização, de elevação cultural ou sequer de extraordinário "Q.I."
Pessoalmente não sou grande apreciador destas actividades que provocam sofrimento nos animais, embora tenha tido oportunidade ao longo da vida de participar na matança do porco em casa do meu avô aí em Portugal, segurando o animal enquanto lhe espetavam a faca. Os malais também matam animais, como certamente já terá tido ocasião de verificar. Suponho que você também não considera “um distinto sinal de civilização, de elevação cultural ou sequer de extraordinário Q.I.” espetar muitos ferros nas costas de um animal, como se faz na cultura do seu (nosso) país nas touradas, com presença e aplausos das elites culturais da nação, transmissão televisiva e muitos discursos sobre a celebração de uma tradição de séculos.
Sou eu que estou enganado ou haverá um certo tom de sobranceria nesse seu comentário? A civilização ocidental já terá ultrapassado essa fase primitiva de espetar ferros no coração dos búfalos, parece poder ler-se nas entrelinhas. Não se esqueça, por favor, em futuros comentários de comparar também o grau de civilização e de elevação cultural de um povo que alimenta o gado bovino (herbívoro) com carcaças industrialmente transformadas de animais mortos
[http://www.defra.gov.uk/animalh/bse/controls-eradication/causes.html].
3. E continua:
E quem diz matança do búfalo, diz sentido de orientação, diz destreza para a luta corpo-a-corpo ou diz memória genealógica.
Sendo professor terá certamente estudado diferentes teorias da pedagogia e da psicologia, e saberá portanto que há muito boa gente que considera os testes de QI obsoletos. Não me parece que seja preciso eu vir aqui “ensinar o Pai Nosso ao vigário”. Da mesma forma, também deveria saber que as competências da mente humana são plurais, e que é redutor querer pôr tudo no mesmo saco. Howard Gardner tem uma teoria famosa sobre isso. Se você der uma volta aí pelas feiras em Portugal vai certamente ter oportunidade de encontrar ciganos a vender roupa que são muito melhores no cálculo aritmético do que você com todo o seu QI, mesmo que possam não perceber os relógios de sol. Isso não lhes permitirá construir reactores nucleares ou descobrir a cura do cancro, mas permite-lhes fazer outras coisas necessárias ao seu trabalho.
Procurando um bocadinho só na Internet encontrei este excerto que poderá ser útil para o seu esclarecimento:
“As pessoas com altas capacidades ou com talentos excepcionais diferem dos outros indivíduos pelas potencialidades que apresentam e pelo elevado nível de execução e concretização de que são capazes nas suas áreas de interesse. Pode ser uma forma de inteligência que se apresenta bastante desenvolvida e estruturada (por exemplo: a lógica-matemática), uma alta habilidade (por exemplo: para a liderança) ou um talento artístico (por exemplo: a criação musical). Tradicionalmente chamam-se sobredotadas a estas pessoas mas o termo tende a ser substituído por "Indivíduo Portador de Alta Capacidade".” [http://www.academiadesobredotados.com/]
É-lhe assim tão difícil aceitar que grande parte dos timorenses possa ter capacidades mentais superiores às suas em certas áreas, como as da “inteligência visuo-espacial” e da “inteligência socio-interpessoal”?
1. O meu texto não é sobre o artigo de Pedro Rosa Mendes (um tipo porreiro, por sinal, além de escritor e jornalista que admiro). Certamente um malai inteligente como você poderia ter compreendido isso. Apenas citei uma frase do texto dele porque vinha a propósito para ilustrar um ponto. Reparou certamente que o exemplo que dei a seguir continua o raciocínio de Pedro Rosa Mendes expresso nessa frase, tal como o seu exemplo sobre os relógios de sol. A verdade é que não se fazem omeletes sem ovos, e o sistema de ensino timorense tem carências muito graves. Isto para além de outros factores, como por exemplo as deficiências ao nível da nutrição nas cruciais fases do desenvolvimento precoce que frequentemente deixam as crianças marcadas para toda a vida.
2. Você diz que:
Nem acho, como "malai", que espetar um ferro no coração de um animal seja um distinto sinal de civilização, de elevação cultural ou sequer de extraordinário "Q.I."
Pessoalmente não sou grande apreciador destas actividades que provocam sofrimento nos animais, embora tenha tido oportunidade ao longo da vida de participar na matança do porco em casa do meu avô aí em Portugal, segurando o animal enquanto lhe espetavam a faca. Os malais também matam animais, como certamente já terá tido ocasião de verificar. Suponho que você também não considera “um distinto sinal de civilização, de elevação cultural ou sequer de extraordinário Q.I.” espetar muitos ferros nas costas de um animal, como se faz na cultura do seu (nosso) país nas touradas, com presença e aplausos das elites culturais da nação, transmissão televisiva e muitos discursos sobre a celebração de uma tradição de séculos.
Sou eu que estou enganado ou haverá um certo tom de sobranceria nesse seu comentário? A civilização ocidental já terá ultrapassado essa fase primitiva de espetar ferros no coração dos búfalos, parece poder ler-se nas entrelinhas. Não se esqueça, por favor, em futuros comentários de comparar também o grau de civilização e de elevação cultural de um povo que alimenta o gado bovino (herbívoro) com carcaças industrialmente transformadas de animais mortos
[http://www.defra.gov.uk/animalh/bse/controls-eradication/causes.html].
3. E continua:
E quem diz matança do búfalo, diz sentido de orientação, diz destreza para a luta corpo-a-corpo ou diz memória genealógica.
Sendo professor terá certamente estudado diferentes teorias da pedagogia e da psicologia, e saberá portanto que há muito boa gente que considera os testes de QI obsoletos. Não me parece que seja preciso eu vir aqui “ensinar o Pai Nosso ao vigário”. Da mesma forma, também deveria saber que as competências da mente humana são plurais, e que é redutor querer pôr tudo no mesmo saco. Howard Gardner tem uma teoria famosa sobre isso. Se você der uma volta aí pelas feiras em Portugal vai certamente ter oportunidade de encontrar ciganos a vender roupa que são muito melhores no cálculo aritmético do que você com todo o seu QI, mesmo que possam não perceber os relógios de sol. Isso não lhes permitirá construir reactores nucleares ou descobrir a cura do cancro, mas permite-lhes fazer outras coisas necessárias ao seu trabalho.
Procurando um bocadinho só na Internet encontrei este excerto que poderá ser útil para o seu esclarecimento:
“As pessoas com altas capacidades ou com talentos excepcionais diferem dos outros indivíduos pelas potencialidades que apresentam e pelo elevado nível de execução e concretização de que são capazes nas suas áreas de interesse. Pode ser uma forma de inteligência que se apresenta bastante desenvolvida e estruturada (por exemplo: a lógica-matemática), uma alta habilidade (por exemplo: para a liderança) ou um talento artístico (por exemplo: a criação musical). Tradicionalmente chamam-se sobredotadas a estas pessoas mas o termo tende a ser substituído por "Indivíduo Portador de Alta Capacidade".” [http://www.academiadesobredotados.com/]
É-lhe assim tão difícil aceitar que grande parte dos timorenses possa ter capacidades mentais superiores às suas em certas áreas, como as da “inteligência visuo-espacial” e da “inteligência socio-interpessoal”?
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João Paulo Esperança
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domingo, dezembro 21, 2008
Os malais têm memória de passarinho
É sempre perigoso querer medir inteligências, à maneira daquela corrente da psicologia estadunidense obcecada com QIs. Lembro-me de quando andava na faculdade ter sido cobaia de colegas meus, estudantes de psicologia, que andavam a participar nos esforços dos professores deles para adaptar os testes de QI para a realidade portuguesa. O problema é que os testes desse género medem competências específicas, e um lavrador lá da minha terra pode ter um péssimo resultado neles mas ter por outro lado capacidades e conhecimentos, ligados ao seu labor de amanhar a terra para nela semear a vida, que os doutos psicólogos nem sabem que existem.
Um texto recente do jornalista/escritor Pedro Rosa Mendes que deu muito que falar mencionava a existência de uma geração de timorenses que “chegou à idade adulta e ao mercado de trabalho sem muitas vezes conhecer conceitos como a lei da gravidade, o fuso horário ou as formas geométricas”. Sorri quando li isto no artigo, recordando os seis anos em que dei aulas na universidade em Timor e as muitas vezes em que expliquei nas aulas conceitos básicos, incluindo exercícios como “Se a estátua do Cristo-Rei fica a oito quilómetros daqui, isso significa uma distância de quantos metros?” ou “Se a altura da Maria é cento e cinquenta centímetros, quantos metros mede a Maria?” (os alunos que fizeram a escola primária no tempo colonial português – mesmo os que revelavam muitas dificuldades nas matérias leccionadas nas diversas cadeiras do curso – não tinham normalmente qualquer dificuldade em responder a isto, bem ao contrário de muitos jovens). Escrevi neste blogue em diversas ocasiões textos sobre a necessidade de preparar programas e currículos pensados a partir da realidade local, e não num qualquer gabinete distante por pessoas que sonham com um público-alvo que não existe. Mas não é disso que quero falar agora. O tema de que me ocupo aqui é a existência de algumas competências que os timorenses têm na sua esmagadora maioria e que deixam atónitos os malais que por cá andam. Uma delas é um refinadíssimo sentido de orientação. Todo o timorense sabe sempre para que lado está o mar e qual é a direcção para as montanhas. Daí que o seu sistema de coordenadas geográficas de uso quotidiano seja diferente do nosso. Enquanto o meu limitado cérebro só consegue computar direcções como ir em frente e virar à esquerda ou à direita, os timorenses dão habitualmente indicações como “sa’e” e “tun” (“subir” e “descer”). Isto é complicado de processar quando vou de motorizada com a minha mulher, seguindo as instruções dela para irmos a casa de alguma amiga, e todos os caminhos possíveis no cruzamento são completamente planos!...
Um texto recente do jornalista/escritor Pedro Rosa Mendes que deu muito que falar mencionava a existência de uma geração de timorenses que “chegou à idade adulta e ao mercado de trabalho sem muitas vezes conhecer conceitos como a lei da gravidade, o fuso horário ou as formas geométricas”. Sorri quando li isto no artigo, recordando os seis anos em que dei aulas na universidade em Timor e as muitas vezes em que expliquei nas aulas conceitos básicos, incluindo exercícios como “Se a estátua do Cristo-Rei fica a oito quilómetros daqui, isso significa uma distância de quantos metros?” ou “Se a altura da Maria é cento e cinquenta centímetros, quantos metros mede a Maria?” (os alunos que fizeram a escola primária no tempo colonial português – mesmo os que revelavam muitas dificuldades nas matérias leccionadas nas diversas cadeiras do curso – não tinham normalmente qualquer dificuldade em responder a isto, bem ao contrário de muitos jovens). Escrevi neste blogue em diversas ocasiões textos sobre a necessidade de preparar programas e currículos pensados a partir da realidade local, e não num qualquer gabinete distante por pessoas que sonham com um público-alvo que não existe. Mas não é disso que quero falar agora. O tema de que me ocupo aqui é a existência de algumas competências que os timorenses têm na sua esmagadora maioria e que deixam atónitos os malais que por cá andam. Uma delas é um refinadíssimo sentido de orientação. Todo o timorense sabe sempre para que lado está o mar e qual é a direcção para as montanhas. Daí que o seu sistema de coordenadas geográficas de uso quotidiano seja diferente do nosso. Enquanto o meu limitado cérebro só consegue computar direcções como ir em frente e virar à esquerda ou à direita, os timorenses dão habitualmente indicações como “sa’e” e “tun” (“subir” e “descer”). Isto é complicado de processar quando vou de motorizada com a minha mulher, seguindo as instruções dela para irmos a casa de alguma amiga, e todos os caminhos possíveis no cruzamento são completamente planos!...
Uma outra capacidade que os timorenses em geral têm extremamente desenvolvida é a memória para genealogias complexas, e para os rostos associados a elas. Vindo do ocidente onde, cada vez mais, família significa a família nuclear com poucas caras, fico com um nó no cérebro de cada vez que tento compreender todos os laços de parentesco da família alargada que algum familiar ou amigo me tenta pacientemente explicar. Uma das primeiras coisas que duas pessoas fazem aqui quando se encontram pela primeira vez é começar a explicar áreas geográficas de origem ou de ramificação das respectivas famílias, posicionando-se assim na complicada teia de parentescos e alianças que ocupa um papel central na forma como os timorenses se vêem no mundo. Tudo coisas demasiado complexas para malais, que têm memória de passarinho.
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sexta-feira, abril 25, 2008
o timorense continua no pântano
Esta foto foi publicada há cerca de dois anos no blogue Abrupto, de Pacheco Pereira, tal como o texto que então enviei:
Metido no pântano até aos sovacos, este homem todos os dias apanha “canco” (uma planta que vive na água estagnada com a qual se faz salada) aqui em Caicóli, Díli. Depois vai vendê-lo no mercado aos molhinhos a cinco centavos (5 cêntimos de dólar) cada um. Se aparecer um comprador malai (estrangeiro) o homem poderá tentar vender o mesmo molhinho por 25 centavos (uma moeda de ¼ de dólar), o que motivará protestos indignados do malai. Mais tarde, sentado no ar condicionado do bar do Hotel Timor, enquanto bebe um chá que custa 2 dólares, o mesmo malai comentará com os colegas como os timorenses são “uns trafulhas que querem é enganar os malais”. Entretanto, o timorense continua no pântano.
Metido no pântano até aos sovacos, este homem todos os dias apanha “canco” (uma planta que vive na água estagnada com a qual se faz salada) aqui em Caicóli, Díli. Depois vai vendê-lo no mercado aos molhinhos a cinco centavos (5 cêntimos de dólar) cada um. Se aparecer um comprador malai (estrangeiro) o homem poderá tentar vender o mesmo molhinho por 25 centavos (uma moeda de ¼ de dólar), o que motivará protestos indignados do malai. Mais tarde, sentado no ar condicionado do bar do Hotel Timor, enquanto bebe um chá que custa 2 dólares, o mesmo malai comentará com os colegas como os timorenses são “uns trafulhas que querem é enganar os malais”. Entretanto, o timorense continua no pântano.
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domingo, março 16, 2008
Culturas mestiças, misticismos mestiços também
Em Timor existem diversos movimentos de natureza mais ou menos mística, como por exemplo a Sagrada Família e os Kolimau 2000, que normalmente incorporam elementos católicos com outros das tradições religiosas animistas locais. Tal fenómeno acontece também noutros lugares onde a história da ocupação colonial criou culturas nacionais que, como a de Timor-Leste, são mestiças.
No fotoblogue My Sarisari Store, um dos meus favoritos sobre as Filipinas, encontrei uma colecção muito interessante de fotografias de grupos místicos locais, incluindo Rizalistas, que transformaram o escritor e intelectual nacionalista José Rizal, fuzilado pelos espanhóis, numa figura sagrada. Uns consideram-no um santo, outros um profeta, alguns ainda uma reencarnação de Jesus Cristo. As fotografias mostram lugares onde a população diz ter havido aparições de Cristo, anting-antings (amuletos), peregrinos, curandeiros… Os timorenses reconhecerão conceitos que, tal como na sua terra, unem a raiz austronésica com o superestrato de uma língua neo-latina ibérica, como "inang miserecordia".
Nas Filipinas existe também em certos meios o costume de inserir pequenos objectos no corpo (“sona ai-moruk”, em tétum) para ficar mais forte ou invulnerável, como fazem em Timor grupos como os Sete-Sete. O malikmata de que fala o senhor no vídeo abaixo parece ser semelhante ao poder de matan-helik dos timorenses.
P.S. - Não tendo nada a ver já com misticismos, deixo aqui um link para um slideshow sobre cocos nas Filipinas. A minha mulher ao vê-lo disse imediatamente: - Mas isto parece Timor!
P.P.S. - Futu-manu (luta de galos) nas Filipinas. O galódromo de Bidau ainda não é tão sofisticado como o deles, que até tem bancada em anfiteatro, mas também é jeitoso.
E mais um P.S. - Se o vídeo de cima não funcionar tente esta versão:
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João Paulo Esperança
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sábado, março 08, 2008
Sirana – O início do cinema timorense
As cenas iniciais mostram-nos o interior de uma casa de palapa, um típico lar timorense com uma fotografia do Papa João Paulo II pendurada na parede, um oratório onde rezam os habitantes com uma vela acesa, frinchas nas paredes, cozinha e quarto-de-banho exteriores, também feitos de materiais como palapa ou chapas. Um senhora de lipa e cabaia reza as orações matinais e faz a lida da casa. Ficamos então a saber quem mais mora na casa, Sirana, a protagonista, filha da senhora, e a irmã mais velha daquela e o cunhado. Este está desempregado, é vadio e bêbado, e bate na mulher. As discussões entre o casal são constantes.
Vemos depois Sirana sair cedo a pé com a mãe para irem vender legumes da sua horta no mercado. Aí aparece uma antiga conhecida da mãe, acompanhada por uma jovem colega de Sirana, ambas bem vestidas e com visual moderno. As senhoras conversam um pouco e a que compra os vegetais diz que trabalha num kantor [escritório] e refere as muitas colegas de ambas de antigamente, que são agora deputadas no Parlamento e funcionárias de Ministérios. A cena apresenta, sem tal mencionar explicitamente, o contraste chocante entre a vida de uma que continua pobre e a forma como a outra subiu na vida e se move no mundo dos políticos, dos malais, das ONGs… As duas raparigas andam ambas a ensaiar para uma peça de teatro e combinam encontrar-se lá no CJPAV mais tarde. Sirana interpreta o papel principal, o de Rosa Muki Bonaparte.
Já em casa, aparece a visitá-las uma prima, moça moderníssima, toda gira, transportada de carro. Explica que trabalha com os malais, ganha muito dinheiro, e, inquirida, responde que para arranjar um emprego assim “tem que se saber inglês e português, saber vestir-se bem, ser bonita, e mais outras coisas… que tu [Sirana] ainda não sabes”. Veio contar-lhes que na semana seguinte será o seu “troka prenda”, noivado, e que o namorado é estrangeiro, mas muito boa pessoa, e que no próximo ano irão ambos à terra dele.
Noutra cena, as amigas de Sirana vêm chamá-la para ir com elas à praia. São exuberantes, elegantes e belas, vestem roupas justas com ombros nus e umbigos à mostra… Sirana vai com roupas que a prima lhe havia oferecido. Na praia ela está triste e acaba por desabafar com dois colegas, um rapaz e uma cachopa, contando os problemas em casa entre a irmã e o cunhado, e também que não lhe estão a correr bem os ensaios porque não sabe o suficiente sobre Rosa Muki Bonaparte. Os colegas falam-lhe do papel desta como pioneira dos direitos da mulher em Timor, no âmbito da OPMT, e que foi assassinada pelos militares indonésios no porto de Díli logo no primeiro dia da invasão, e aconselham-na a procurar nos livros e perguntar às senhoras mais velhas. Ela confessa que há mais uma coisa a preocupá-la, um amigo, Nonó, gosta dela, mas ela sente-se reticente em retribuir porque ele é rico e ela não. Eles asseguram que o Nonó é um tipo impecável que não dá importância a essas coisas.
Noutro ensaio, um senhor lá no CJPAV (uma das mais importantes instituições culturais de Díli) pergunta à nossa jovem heroína porque não pede ela à mãe informação sobre a personagem que tem que interpretar e sobre esses tempos. Ele tinha afinal estado no mato com a mãe de Sirana. Esta conta depois à filha sobre os primórdios da luta das mulheres pela sua dignidade, oprimidas que estavam pela sociedade e pela cultura tradicional, e sobre as actividades da OPMT na montanha nos primeiros anos da guerra.
Entretanto o namoro com o tal Nonó parece estar encaminhado. Sirana chega a casa e depara com a irmã que fora novamente espancada.
Temos depois uma cena com a prima, numa esplanada com o namorado. Este é “português”, apesar de o actor falar com um forte sotaque anglo-saxónico:
“- Amor, quando é que me levas para Portugal?
- Fazer o quê?
- Aprezenta ha’u ba ó-nia família [apresentar-me à tua família], of course!
- Querida, ó tenke komprende ha’u tropa ne’e. Ha’u labele lori ó ba Portugál agora. [tens que compreender que sou militar aqui. Não posso levar-te para Portugal agora]
- Mas amorzinho, ó promete atu aprezenta ha’u ba ó-nia família! [tu prometeste apresentar-me à tua família] Sabes perfeitamente que eu estou grávida!
- Eu sei amor. Ne’e la’ós ha’u mak sala. Itrua mak hakarak!... [isso não é culpa minha. Ambos quisemos… ]
- Mas amor…
- Não, não! Ita la promete buat ida ba malu. [nós não prometemos nada um ao outro]
- Ó labele halo ha’u nune’e [não podes fazer-me isso], por favor! “
E o “português” pede desculpa e põe-se a andar. Fica a moça abandonada a chorar. Depois vai a casa das primas contar-lhes lavada em lágrimas.
Este é um drama relativamente comum em Timor, o das namoradas grávidas deixadas entregues à sua sorte por namorados malais que terminam o tempo de serviço e voltam para os seus países. Mas achei curioso que – ainda por cima sendo o actor falante de inglês – tivessem optado por dar ao personagem a nacionalidade portuguesa. É certo que um soldado australiano me contou (não sei se estava a dizer a verdade ou não) que eles estão proibidos de namorar com as timorenses e que por isso, enquanto dura a comissão, têm alguns dias de licença de xis em xis semanas para irem a Báli, mas também é verdade que ele me disse isso num bar e que fiquei com a impressão que ele namorava com uma das empregadas que lá trabalhava…
A história no filme continua a desenrolar-se com a estreia da peça, que retrata a violência da invasão indonésia. As cenas da peça alternam com outros acontecimentos: o cunhado que aparece bêbado mais uma vez e que a sogra expulsa de casa, o reaparecimento deste num estado deplorável andando aos tombos até à porta que ninguém lhe abre. A peça termina com aplausos entusiásticos do público e com a subida ao palco de Mari Alkatiri (na época Primeiro Ministro) para dar beijinhos e cumprimentos aos actores e actrizes.
O filme foi feito em Díli há uns quatro ou cinco anos, e parece-me que é a obra pioneira do cinema timorense. Lembro-me de ter visto pelo menos uma produção antiga com actores da diáspora, “Flores Amargas”, ambientado no meio dos refugiados do Vale do Jamor, em Portugal, mas produto nacional mesmo, este – que eu saiba – é o primeiro. Apesar de algumas dificuldades ao nível técnico, como por exemplo a captação do som que não está muito boa, parece-me um trabalho muito bem conseguido a vários níveis. O primeiro é a sua radicação consciente na realidade local, falado em tétum, não se tratando apenas de olhares de malai sobre Timor mas sim de ambientes e histórias que fazem parte do quotidiano genuíno dos timorenses. Outro aspecto que me agradou foi, que apesar da aparente simplicidade do argumento, há a possibilidade de mais do que um nível de leitura. Resta dizer que Ivete de Oliveira foi a realizadora, e que o filme resulta do trabalho conjunto de várias instituições: Fundasaun Kultural Le-Ziaval, Sahe Institute for Liberation, Sanggar Mamura e Catholic Institute for International Relations, com apoio da Caritas Australia e Caritas New Zealand. Da banda sonora fazem parte pelo menos Os Novos 5 do Oriente e o Nelson Turquel, que também aparecem no filme.
Publicada por
João Paulo Esperança
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11:03 da manhã
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